O DIA MARCADO RETORNA ÀS TELAS

por Myrna Silveira Brandão

Por que um filme brasileiro é realizado, exibido uma única vez num festival e 30 anos depois continua inédito no circuito e desconhecido do grande público? Certamente haverá muitas respostas - problemas de distribuição, dificuldades de marketing, recursos financeiros escassos - respostas que explicam, mas obviamente não justificam. Entre tantos outros, esse é o caso do filme O Dia Marcado , terceiro longa metragem do diretor carioca Iberê Cavalcanti. Realizado em 1970, o filme tinha sido exibido uma única vez no Festival de Brasília de 1971, numa homenagem a Glauce Rocha , que não chegou a vê-lo. Esse é o penúltimo trabalho da grande atriz mato-grossense no cinema. Simon Khoury interpreta o papel principal e é também responsável pelo argumento da história. No elenco estão ainda Nanni Weber, Geza Alexander, Hugo Brocke e o próprio Iberê . A fotografia é de Jorge Bodanski , que viria mais tarde a ser também diretor. A trilha musical é de autoria de Luizinho Eça e interpretada pelo antológico Tamba Trio, do qual o pianista Eça fazia parte. Rodado na cidade histórica de Goiás - à época chamada de Goiás Velho - e em Brasília, é um filme policial, filmado em preto e branco. A trama conta a história de uma agente da polícia - a personagem de Glauce Rocha - que se disfarça de enfermeira num hospital onde um dos ladrões (vivido por Khoury) de doze estatuetas antigas de uma igreja de Goiás estava internado, após ter sido baleado na tentativa do roubo. Pouco a pouco, o relacionamento dos dois vai tomando um rumo que leva ao final inesperado. O filme retrata aspectos da cultura local como a famosa Procissão do Fogaréu , que ainda acontece naquela cidade todos os anos.
O Dia Marcado voltou às telas no último dia 04 de julho numa exibição no Centro Cultural da Light, no Rio de Janeiro. O evento faz parte de uma parceria do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) com a Light , objetivando exibir filmes inéditos ou pouco conhecidos do público. Ao final da exibição, alguns depoimentos enfatizaram a importância da exibição, como o de Iberê Cavalcanti , que falou sobre a necessidade do que ele chamou de "filmes invisíveis" se tornarem finalmente reais para o grande público. Simon Khoury, por sua vez, lembrou a emoção de ter realizado esse trabalho com Glauce e do quanto ela era generosa com seus colegas atores, nunca procurando dominar a cena e ofuscar aqueles com quem contracenava , embora já fosse famosa na época . Para a Light e o CPCB ficou a gratificação de saber e mais uma vez testemunhar o fato - óbvio, mas nem por isso menos importante - de que um filme só passa a existir quando é mostrado para o espectador.