200 anos de Franz Schubert
por Filipe Salles, Julho de 1997

Este ano que está indo embora foi palco de comemorações importantíssimas no cenário musical do velho mundo, mas cujos ecos, felizmente, sentimos. Trata-se de uma dupla comemoração, que, se não foi tão popular quanto os 300 anos de Bach e os 200 da morte de Mozart, foi igualmente importante como reavaliação e resgate da obra de dois grandes mestres que dispensam maiores apresentações: Franz Schubert (1797-1828) e Johannes Brahms (1833-1897). Sobre o primeiro comemora-se 200 anos de seu nascimento, e o último, 100 anos de sua morte. Mas falar de dois personagens tão extraordinários ao mesmo tempo, ainda que traçando um paralelo entre as duas obras, seria tão exaustivo quanto inútil. Começaremos por Schubert, o mais velho.

Franz Peter Schubert nasceu em Viena, em 31 de Janeiro de 1797 e morreu na mesma cidade, a 19 de novembro de 1828. Na época de seu nascimento, Viena vivia uma efervescência cultural intensa, só comparável à virada do século, marcada pela ascenção da burguesia na pós-revolução francesa que prosperou no campo das artes como poucas cidades antes ou depois dela. Foi palco da vanguarda intelectual e espiritual, onde filosofia, música, literatura e artes plásticas, além da pesquisa científica de várias procedências pareciam fazer parte da mesma coisa. Neste ambiente, o pai de Schubert, professor primário, deu a seus filhos a devida educação artística, colocando o jovem Schubert no coral da igreja. Seu talento musical não foi do agrado de seu pai, que o queria como assistente de mestre-escola, e Franz só começou a compor aos 12 anos. Somente em 1818, quando Schubert contava 21 anos, é que abandonou seu posto na escola começou a se dedicar exclusivamente à música. Levando em conta que só lhe restariam mais 10 anos de vida, sua produção foi das mais intensas e variadas: 10 sinfonias, das quais 7 são completas, duas incompletas (a Sétima e a Oitava, a famosa "Inacabada") e uma última (a Décima) em esboço para piano, tendo sido completada a orquestração somente neste século; 5 óperas, pouco conhecidas, infelizmente; 4 operetas; 7 missas; 15 quartetos de cordas; 21 sonatas para piano; e um número tão elevado de canções, que o conceituado dicionário Oxford de Música não hesita em mencionar "It is impossible to list all Schubert´s songs." Mas elas devem ser por volta de 600. Suas últimas obras são as mais inspiradas, de um compositor jovem porém maduro, que, por causa da sífilis, morreria em breve. São elas, a última Sonata para piano, em Si bemol, D.960, a Sinfonia em Dó Maior, dita "A Grande", D.944, o Quinteto de Cordas em Dó Maior D.956, a Fantasia em Fá menor D.940 e o ciclo de Canções Winterreise, D.911.

Existe um consenso geral sobre o fato de os 5 maiores músicos que já passaram pela Terra serem, respectivamente, Bach, Mozart, Beethoven, Schubert e Wagner. É perfeitamente explicável, à primeira vista, a veneração por 4 deles: Bach, o pai da música no ocidente, responsável pelo que chamamos "sistema temperado", por usar todos os dedos nos instrumentos de teclado e por levar uma das mais complexas formas musicais, a fuga, a dimensões sobre-humanas de reflexão. Mozart, uma espécie de entidade inexplicável, que fez de sua curta existência entre nós uma das mais intensas e prolíficas que se tem notícia na história. Tudo o que pôs o dedo passava, inevitável e magicamente, do simples ordinário ao divino extraordinário. Beethoven, o Prometeu da música, roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos homens, abrindo as portas da era do autor, o Romantismo. Wagner, figura singular, odiado e venerado, controverso criador do drama musical, que ressuscita o ideal da tragédia grega em digressões sinfônicas que ultrapassam os limites mortais de aceitabilidade.


Franz Schubert aos 16 anos de idade
Mas, e Schubert? Por que seu nome consta desta invejável lista, sendo ele o avesso de todas estas características? Não foi um protestante devoto e isolado do mundo com Bach, nem um anjo devasso como Mozart. Não tinha o temperamento vulcânico de Beethoven e muito menos a determinação e a coragem de Wagner. Era tímido, media 1,65m., usava pequenos e ridículos óculos ovais e, dizem, era péssimo pianista - ainda que improvisador genial.
O fenômeno Schubert pode estar caracterizado por ser uma versão mais sutil de todos os colegas citados. Uma conhecida biografia do mestre traz uma inegável relação de talentos que justificam, pelo menos a título de curiosidade, o fascínio por Schubert.

Diz ela: "Alguns compositores nasceram para a música. Schubert era a música", ou "Diziam que dormia de óculos a fim de não perder tempo a procurá-los caso tivesse uma idéia à noite". Uma das mais impressionantes: "à tarde, ia visitar um amigo doente. Saía de lá no começo da noite com uma abertura a quatro mãos em fá.", e, quando reunia-se com seus amigos nos bares vienenses para beber e discutir poesia, de vez em quando, após a leitura de um poema, Schubert exclamava: "`Que bela melodia me veio à cabeça! Se ao menos tivesse papel e lápis !´ Logo um de seus amigos rabiscou uma pauta num guardanapo e deu a Schubert, que começou a escrever, tão rápido quanto sua pena podia percorrer o papel", e musicou um dos poemas que depois fariam parte do ciclo Erlkönig, ou Rei dos Elfos. Assim, podemos ter uma idéia mais clara da grandeza incomum que poderia ter sido seu talento. Quando deparamos com sua obra, entretanto, percebemos que, na verdade, este talento é muito maior. Incomensurável, mais explicitamente.

Schubert tinha a religiosidade comparável à de Bach, embora não fosse devoto e praticante ortodoxo, mas sua Ave Maria é das mais inspiradas melodias já criadas. Tinha a mesma espontaneidade de criação que Mozart, característica, aliás, que só estes dois na história da música compartilharam em tão elevado grau de sofisticação, pois eram capazes de escrever música com a naturalidade da inspiração e com a genialidade da razão. Viveu intensamente a agitação cultural que Viena proporcionou por este período, tendo contato com a produção poética, literária e musical de todo o resto da Europa.

Seu grande mestre foi Beethoven, personagem que Schubert admirava intensamente, tanto em caráter como em produção musical. Seu respeito e admiração pelo mestre de Bonn foram tamanhos que, um ano após o cortejo fúnebre de 20.000 pessoas (entre elas Schubert, humildemente) que levou o corpo de Beethoven ao cemitério, morreria o próprio Schubert, prematuramente aos 31 anos de idade e quase 1.000 obras catalogadas, sendo ele enterrado ao lado da sepultura de Beethoven.


Schubert é aqui retratado por Gustav Klimt em uma de suas famosas 'Schubertíadas', reuniões vienenses em que Schubert animava a festa improvisando ao piano horas seguidas.
Sempre houve, na história da arte, uma relação de forças antagônicas que, ao invés de se anularem, se completam; agem sobre um mesmo tempo, e muitas vezes em função da mesma estética, num determinado tipo de produção. Este antagonismo, para a arte, não é nem um pouco prejudicial, pelo contrário, é uma bênção, pois dele nasce a evolução do artista. Na música, vários exemplos podem ser citados, e quase todos eles são compartilhados pelos próprios elementos envolvidos amigavelmente. Bach e Haendel, Chopin e Liszt, Schumann e Mendelssohn, Wagner e Brahms, Debussy e Ravel, Mahler e Richard Strauss, Stravinsky e Bártók são alguns exemplos. Mas o que tratamos aqui é de provavelmente o maior de todos os exemplos, onde temos literalmente duas forças totalmente antagônicas que na verdade lutam pelo mesmo ideal, onde a resultante é a coroação da humanidade pela arte, seu bem supremo de expressão.

Beethoven e Schubert constituem a mais fascinante relação dicotômica entre duas forças que se entrelaçam numa harmonia perfeita; homem e artista são quase um só pelo que se completam um do outro na música e na vida.

Enquanto Beethoven era misantropo, admirado à distância, e cuja fama ultrapassou as fronteiras ultramarinas, Schubert estava sempre rodeado de muitos amigos, alegres pequeno-burgueses que admiravam a arte e reuniam-se para discuti-la, sendo sua fama restrita à estes grupos de boêmios vienenses. Sempre disposto, improvisava ao piano durante horas seguidas em festas e comemorações em que não houvessem músicos para animá-la. Schubert foi um gênio comedido e restrito ao seu mundo, enquanto Beethoven, isolado deste e dos demais mundos por sua surdez, fez-se cidadão conhecido a admirado em todos os lugares onde foi sua música executada.
Este é o aspecto pessoal de ambas as forças. No que diz respeito às forças criativas, ou seja, na arte de ambos, o fenômeno foi inverso. A música de Beethoven é titânica, poderosíssima, napoleônica, capaz de mobilizar céus e terras em sua monumental beleza, que parece arrancar dos ouvintes um grito de êxtase dionisíaco frente à natureza. "A apoteose da dança", como diria Wagner da Sétima Sinfonia, mas que pode ser aplicado à toda obra de Beethoven, que fez com seu discurso musical o universo inteiro dançar. Assim, a força telúrica da música de Beethoven parece puxar-nos para fora de nós mesmos.

E aí, entra, maravilhosamente, Schubert, que promove o mais sensacional equilíbrio da mimese da natureza na arte: Sua música é oposta à de Beethoven, pois seu discurso é naturalmente etéreo, e faz o caminho inverso: Parece puxar para dentro de nós mesmos. Intimista e sutil, sua música contém a centelha divina da espontaneidade de Mozart, a religiosidade de Bach, a exploração da magnitude da voz humana, com que Wagner tanto aprendeu, e o discurso beethoviano às avessas, que não poderia constituir maior homenagem ao seu mestre, pois Schubert afirma Beethoven completando-o, como só os gênios poderiam fazê-lo. A citação do tema da Ode à Alegria na Nona sinfonia ("A grande") de Schubert é seu maior exemplo,

Além da 'Sinfonia Inacabada' Schubert deixou um grande número de partituras incompletas, talvez por sua morte precoce. Este é o manuscrito do inacabado Quarteto em Lá menor.

pois naquela que é considerada por muitos a maior sinfonia já escrita, o autor tem a modéstia de informar a fonte de seu estudo. Ambas as forças, traduzidas nas obras de Beethoven e Schubert, são igualmente profundas e de incomparáveis densidades reflexivas, mas enquanto Beethoven promove a reflexão de dentro para fora, Schubert a faz de fora para dentro.

O fato de Beethoven ter se tornado mais conhecido que Schubert não é culpa de nenhum deles, é simplesmente pela música de Beethoven ser um pouco mais pirotécnica, e atrair com mais facilidade as atenções. Mas superficialmente. Beethoven revela-se inesgotável se bem estudado. Mas com Schubert é o oposto. No início, por ser tão sutil e intimista, parece distante, e difícil, mas, ao estudá-lo, revela-se tão marcante em suas melodias como Beethoven em suas harmonias.
Schubert é uma bênção dos céus. Sua obra é vastíssima, equilibrada com um profundo senso de forma arquitetônica na disposição das idéias musicais, aliada à espontaneidade melódica só comparável à de Mozart e o toque do trágico romântico completando-se ao júbilo clássico.
A vontade é recomendar que se ouça tudo, mas é impossível: levaria uma vida para apreciar sua produção. Mas tudo pode ser recomendado, as canções, a música de câmara, a abertura e o balé Rosamunde...mas quem quiser começar com as sinfonias, é uma boa pedida para se familiarizar com o estilo, tão pessoal, e tão universal.

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