Diferentemente
da literatura ou da pintura, onde o suporte já está
pronto logo que o autor termina a obra para a apreciação
pública, a música precisa, assim como o teatro, de uma
fase intermediária, que transforma o papel escrito - no caso
a partitura - em ação estética. No teatro, existe
a facilidade de ser feito num código que a maioria domina,
a língua, ainda que as traduções muitas vezes
não sejam boas. Mas manifestado, pode ser inteligível
a qualquer um. Já a música não partilha deste
privilégio, uma vez que pouquíssimos conhecem realmente
a linguagem musical escrita, e ela só pode, via de regra, ser
apreciada em seu estado actante, em outras palavras, manifestado fisicamente
através da produção sonora. |
Além
de grande compositor, Gustav Mahler (1860-1911) também foi
aclamado como um dos maiores maestros da história de música
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Portanto,
o leitor deve desconfiar que existe uma ponte entre a partitura - o que
está escrito - e o que soa. Se todo o mundo soubesse ler música,
talvez esse abismo não existisse, já que também não
é necessário que se veja uma peça de teatro montada
para saber como ela é - basta que se leia (Entretanto, talvez nem
isso baste, como já afirmava o grande regente Herbert von Karajan:
"...ninguém pode dizer que conhece uma partitura, por mais
que a tenha na cabeça, antes de tê-la experimentado na orquestra").
Considerando então que esse abismo efetivamente existe até
para os maiores músicos, nós, simples mortais, não
temos outra saída senão ouvirmos uma obra segundo a interpretação
de um fulano, e daí a importância deste fulano na representação
desta obra. O crítico francês Bernard Gavoty certa vez disse,
muito propriamente sobre isso: "O maior compositor do mundo, se não
tiver um intérprete adequado, é como um homem impedido de
falar por uma mordaça."
Portanto, o intérprete tem um papel absolutamente fundamental no
plano de expressão da obra, pois a ele cabe "traduzir"
um emaranhado de signos musicais escritos em sons audíveis e coerentes
(considerando a competência prévia do compositor, obviamente).
Como existem diferentes tipos de intérpretes, falarei sobre eles
com mais detalhes na próxima parte, sobre o plano de formação
timbrística.
O maestro
Para que
um grande contingente instrumental siga rigorosamente o tempo rítmico,
a dinâmica e o andamento indicado na partitura, é necessário
um chefe que mantenha a ordem da orquestra, pois do contrário seria
fácil cada músico perder a marcação do tempo
em relação aos outros. Entra, então, a figura do
maestro como gerenciador deste sistema.
A
figura do maestro, tal como conhecemos hoje, nasceu justamente da
necessidade de especializar um músico para providenciar o equilíbrio
da massa orquestral que o romantismo desencadeou. Antes, nos períodos
renascentista, clássico e barroco, não existia propriamente
a figura do maestro. Como os conjuntos instrumentais eram pequenos,
o equilíbrio se fazia por concordância de todos e era
raro a perda do tempo. Em obras mais consistentes timbristicamente
falando, como as sinfonias clássicas, existia um sujeito que
ficava à frente do cravo, promovendo um sutil acompanhamento
e ditando o tempo correto para todos os músicos. |
o maestro
inglês John Eliot Gardiner
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Nas óperas,
que eram mais complexas porque acrescentavam um contingente vocal, a marcação
do tempo era feita pelo Kapellmeister (mestre-capela), pelo Konzertmeister
(violinista principal) ou ainda pelo cravista que fazia o acompanhamento.
O mestre-capela, quando regia música vocal ou instrumental de pequeno
porte, utilizava-se de um bastão no auxílio da marcação
do tempo, mas não como uma batuta, cujos movimentos são
feitos no ar. Ele marcava batendo o bastão no chão produzindo
uma marcação sonora dos tempos fortes de cada compasso.
Tal prática deve ter caído em desuso quando o compositor
italiano Jean-Baptiste Lully (1632-1687) - que adotou a escrita
de seu nome em francês por trabalhar na corte de Luís XIV
- feriu-se numa dessas batidas vindo a morrer logo em seguida de gangrena.
Durante o período clássico, os mestres-capela ou compositores
da corte marcavam o tempo apenas com o braço, mas há quem
diga que essa prática era muito cansativa. Já os cravistas
usavam as mãos e os violinistas, muitas vezes o arco do próprio
violino. O cravo contínuo também caiu em desuso, já
que com o aumento do número de instrumentistas era praticamente
impossível ouvi-lo, e a incumbência da marcação
dos compassos recaiu sobre o violinista principal, o spalla, e
que ainda hoje pode substituir o maestro no caso de sua ausência
acidental e a impossibilidade de contatar o maestro-assistente. Sendo
nitidamente desconfortável marcar os tempos com um arco de violino,
e muito pouco prático a despeito da visibilidade (considerando
as condições de iluminação e tecnologia ótica
daquele tempo), era preciso desenvolver um sistema mais eficiente de marcação
de tempo. Reger só com os braços era cansativo, mas a melhor
opção, e assim logo alguém tratou de inventar uma
pequena varetinha de madeira chamada batuta, que servia como extensão
do braço. Sem precisar fazer movimentos tão grandes, a batuta
permitia a visualização fácil do tempo e, sendo pequena
e leve, foram resolvidos os problemas da regência instrumental.
Consta que Carl Maria von Weber (1786-1826) foi o primeiro a utilizar
uma batuta, e logo em seguida alguns maestros de renome também
começaram a experimentá-la. Sua popularidade foi crescendo
quando estes outros maestros aprovavam seu uso. Um destes sujeitos a incentivar
a utilização da batuta foi o maestro e compositor alemão
Louis Spohr (1784-1859), que entusiasmou-se tanto com as possibilidades
expressivas dos movimentos desta varetinha que defendeu ardorosamente
sua prática, vindo mesmo a aperfeiçoar sua técnicas.
De fato, o maestro com ela tinha uma liberdade de movimentos tão
grande quanto as mãos vazias, e ainda facilitava a visão
dos tempos corretos para os músicos da orquestra, já que
não havia mais uma marcação sonora deste tempo. A
partir dele, praticamente todos os maestros adotaram a batuta.
A era clássica terminou justamente neste entroncamento de tendências,
e a romântica desenvolveu a arte da regência até patamares
nunca antes imaginados - assim como as extravagâncias orquestrais
do romantismo. Anteriormente, além dos cargos oficiais representados
pelos mestres capela e solistas principais, apenas os próprios
compositores se aventuravam na complexa empreitada de conduzir uma orquestra.
A partir do romantismo, o maestro passou a ser um músico independente,
um especialista num determinado tipo de função musical,
justamente a de líder estético e burocrático de uma
orquestra, não só pela aumento progressivo de seu tamanho
- o que demandou uma especialização imediata - mas também
pela subjetividade crescente com que as novas obras musicais eram compostas.
No
século XX, com o advento dos sistemas de gravações,
este estado musical foi levado a conseqüências ainda mais
profundas, e em alguns casos até desmedidas. |
o maestro
argentino (naturalizado israelense) Daniel Barenboim, gravando com
a Filarmônica de Berlim
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Para
a música erudita, nosso século foi a era do intérprete,
em oposição ao século XIX que foi a era do autor.
Muita música erudita se fez neste século, mas nada comparado
à quantidade de gravações e de maestros-vedetes
que se promoveram como excelentes intérpretes dos antigos mestres,
sendo que raros eram os que se aventuravam a compor na mesma medida.
Só para se ter uma idéia, entre os grandes maestros
do século passado, citam-se Mendelssohn, Wagner, Berlioz, Mahler
e Richard Strauss. Houveram também os primeiros que se dedicaram
apenas à regência, como Hans von Bülow, Arthur Nikish,
Hans Richter e Hermann Levi, mas o números de apenas-maestros
neste século foi potencialmente maior. |
Bons exemplos
são Wilhelm Furtwängler, Arturo Toscanini, Otto Klemperer,
Bruno Walter, Leopold Stokowski (que preferia não usar batuta),
Sergiu Celibidache, Charles Munch, Pierre Monteux, Ernest Ansermet, Karl
Böhm, Herbert von Karajan, Georg Solti, Leonard Bernstein (também
ótimo compositor), e, mais recentemente, Lorin Maazel, Carlo Maria
Giulini, Colin Davis, Claudio Abbado, Seiji Ozawa, Bernard Haitink, Simon
Rattle e vários outros, cuja lista acrescentaria umas três
páginas a este livro.

uma das grandes revelações da regência
moderna, o maestro inglês sir Simon Rattle
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O
próprio Berlioz, ao dar as diretrizes de como o maestro deveria
se preparar intelectual e tecnicamente para cumprir bem sua função,
coloca tamanha responsabilidade sobre os ombros do regente que essa
função passou realmente a ser tratada com muito maior
afinco. Se hoje não temos mais grandes compositores eruditos,
temos pelo menos as mais variadas leituras dos antigos. |
A função
do maestro é basicamente marcar o ritmo certo e equilibrar as dinâmicas
indicadas, mas seu potencial expressivo é o que dá a uma
determinada interpretação uma certa singularidade em relação
à outra, podendo muitas vezes o ouvinte preferir ouvir uma obra
com este ou aquele maestro, e não com outro.
copyright©2002
Filipe Salles
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