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Apresentação: História no Cinema / História do Cinema

De há muito o cinema deixou de ser uma ocupação exclusiva de entendidos da área. Ao contrário, nos últimos 10 anos, como aponta a historiadora francesa Michele Lagny, passou a interessar especialistas que, a partir de metodologia apropriada, terminaram por promover uma série de revisões de conceitos e mudanças historiográficas na análise do cinema e sua história.

 

Tendência semelhante parece ocorrer hoje no Brasil, quando historiadores e especialistas em comunicações passam a se debruçar sobre a produção cinematográfica visando analisar, não apenas a visão da história que se constrói nos filmes, ou como lugar de expressão do imaginário ou de testemunhos diversos, tendência contemplada nos anos 70 pelas contribuições de Marc Ferro, Pierre Sorlin e Robert Rosenstone. Mais recentemente, através da História Cultural, não é apenas na análise dos conteúdos fílmicos, mas também nas práticas exteriores como os hábitos e rituais de frequentação, a produção das imagens, ou o circuito da exibição e os estudos de gênero que vem mobilizando estudiosos.

Assim, da História no Cinema, historiadores e especialistas cruzam as fronteiras e passam também a escrever a história do cinema, enquanto pesquisadores de cinema se aproximam mais de métodos e procedimentos da História.

É no entroncamento entre essas duas formas de abordar o cinema que propusemos o Simpósio Temático HISTÓRIA E CINEMA/HISTÓRIA NO CINEMA no XXIII Simpósio Nacional da ANPUH – (Associação Nacional de Historiadores) realizado em Londrina em julho de 2005. Os textos aqui selecionados, agrupados por temas, representam parte significativa das apresentações ali realizadas.

Sob a temática História e Historiografia do Cinema Brasileiro, Luciana Corrêa de Araújo em sua análise sobre O Cinema Silencioso Pernambucano e suas Histórias estabelece a genealogia da construção da idéia do “Ciclo do Recife”. Chamando a atenção para os textos instituintes, observa como documentos são tomados como a fonte única cujas versões se reproduzem, mantendo sua visão parcial que traz as balizas, datações e características fundadas por apenas um dos protagonistas do período.

Alexandre Figueiroa Ferreira em A Crítica do Cinema Novo Nas Revistas Francesas mostra como as revistas francesas constroem o Cinema Novo. Tomando o Cahiers du Cinema e a Positif, de tendências políticas e estéticas distintas e antagônicas, mostra como o que dizem sobre o movimento brasileiro é antes a projeção de suas próprias convicções, de tal forma que as visões que constroem sobre o Cinema Novo respondem, antes de tudo, às suas próprias aspirações.

Em meu texto Cinema Brasileiro, História e Historiografia procurei analisar o que ocorreu nos Estudos Históricos e nos Estudos de Cinema de forma a permitir as mudanças e confluências que vêm ocorrendo entre as duas disciplinas, o que tem conduzido a novos estudos, novas abordagens e mudanças metodológicas, em especial, na historiografia do cinema brasileiro.

Fernando Morais em Primeiras Tentativas De Sonorização No Cinema Brasileiro (Os Cinematógrafos Falantes – 1902 – 1908) com riqueza de detalhes desmonta idéias pré-fixadas sobre a centralidade do aparecimento do cinema no Brasil a partir do Rio de Janeiro e São Paulo. Mostra também como a idéia de um “cinema falado” é anterior à própria aparição do cinema.

Taís Campello em Cinearte, O Cinema Brasileiro Em Revista (1926-1942) estuda o ideário artístico e ideológico da revista carioca destacando sua preocupação e o vínculo que estabelece entre o cinema brasileiro e a construção da modernidade no Brasil.

No bloco temático Cinema brasileiro, história, crítica e modernidade Joelle Rouchou analisa em Cinelândia: As Colunas De Cinema Da "Cruzeiro" (1928-29), como a revista O Cruzeiro identifica o cinema como uma máquina de produção e reprodução da modernidade.

Cinema brasileiro, História, Educação e Carnavalização fala dos usos do cinema na educação e na propaganda. Carolina Cavalcanti Bezerra estabelece as suas bases de análise de O Descobrimento Do Brasil (1937): Uma Leitura Histórica do Primeiro Filme Educativo produzido pelo Governo Vargas. Cristina Souza da Rosa, com O Cinema Educativo através do pensamento de Mussolini e Vargas, apresenta filmes educativos produzidos durante o período fascista pelo Instituto Luce e ensaia algumas comparações com os exemplos brasileiros do INCE. Contemporâneos, mas trabalhando em sentido oposto Suzana Cristina de Souza Ferreira apresenta os filmusicais cariocas dos anos 1940 e o seu sentido transgressivo diante de uma sociedade autoritária em Um Ritmo Encontrado.

Finalmente em Cinema, Linguagens e Leituras Luciano Henrique Ferreira da Silva e Gilson Leandro Queluz falam das Relações de Hibridação entre linguagens dos quadrinhos e o cinema na obra cinematográfica de José Mojica Marins. Trata-se de observar as múltiplas relações entre os quadrinhos e a obra de Mojica Marins e por sua vez, a influência desse trabalho sobre o Cinema Marginal.

 

* Sheila Schvarzman é historiadora do Condephaat. Professora convidada do Departamento de Multimeios da UNICAMP realizou pós-doutorado sobre a obra de Octávio Gabus Mendes. É autora de Humberto Mauro e as Imagens do Brasil, São Paulo, Edunesp, 2004.


Data de publicação: 26/01/2006