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Pelo sim, pelo não, estamos todos condenados !

"Algumas atravessam o lago voando na superfície, tão rasteiras no seu vôo que o pés vão roçando as águas, deixando atrás de si um leve sulco que logo desaparece. Mas outras fazem a travessia no fundo do lago: submergem completamente para só ressurgirem na outra margem. Então soltam gritos, as asas pesadas de lodo, arrastando ainda nos pés restos de plantas aquáticas. Eu olhava para as marrecas que escolhiam o fundo."
Lygia Fagundes Telles – A Disciplina do Amor

 

 

Quando assistimos a um filme como esse podemos ficar um tanto perplexos e nos perguntamos se a psicanálise se teoriza a partir dele ou se ele se filma a partir da psicanálise. Mas este não é o cerne da questão. É apenas uma pergunta da qual eu não sei a resposta.

Aqui se trata de tentar lançar um olhar, um tipo especial de olhar sobre a obra de Marco Bellochio, sobre esta obra em particular que foi chamada em português de "O Processo do Desejo", mas que em italiano se chama "La Condanna", que significa "A Condenação", coisa que já nos coloca de cara com a afirmação colocada no título desta palestra.

O filme, a meu ver, põe em foco a questão do desejo, que é clássica no âmbito da psicanálise.
Aproveito o momento para transformar a afirmativa em pergunta: será que, quando se trata do desejo, estamos mesmo condenados?

Quero adverti-los ainda de que o que aqui se faz é um exercício de interpretação, através do qual se pretende realçar a questão do desejo nas personagens masculinas da trama, usando as femininas como o pano de fundo do qual as primeiras se destacam.

Gostaria, então, de começar pondo em relevo a posição, ou melhor, a oposição entre o Arquiteto e o Advogado. O primeiro, o Arquiteto, parece senhor de si, conhece o seu desejo e reconhece o desejo do outro. Ocupa o seu lugar com talento, segurança e tranqüilidade. Coloca-se perante o júri com transparência. Sustenta seus argumentos com lógica, com poesia e sem mentira. É homem que assim se apresenta diante das mulheres e por isso mesmo as seduz e as obriga a revelar o que delas lhes era lícito esconder.

O advogado, por sua vez, é escravo de valores, digamos, sociais, e quando reconhece em si um desejo não se sente capaz de alcançá-lo. Tenta submeter o outro à sua vontade ou a ele se submete, impotente. Está pouco à vontade onde quer que esteja e não realiza sua função com eficiência em nenhum lugar. Isto pode ser dito porque, mesmo tendo conseguido a condenação do réu, o fez de modo pouco convincente. E diante das mulheres.. Que fiasco!

Desses homens, enquanto representantes do humano, podemos pensar em alguém que assumiu sem ambigüidades o seu lugar e em alguém que diante do outro se enche de dúvidas sobre o seu papel. Penso que sejam respectivamente os representantes daquilo que em Psicanálise se chama "sujeito do próprio desejo" e "sujeito do inconsciente".

E o que significa falarmos de "sujeito do próprio desejo" e de "sujeito do inconsciente"?
Outro dia, em outro ciclo de palestras aqui mesmo em Piracicaba, falávamos que o humano se constitui enquanto sujeito a partir de um outro que o deseja, deseja algo dele ou lhe deseja algo, isto quer dizer que é a partir do desejo do outro que nos construímos como humanos.

Sujeitados que fomos a outro desejo, sujeitados ao desejo inconsciente do outro é que nos tornamos sujeitos. Sujeitos de um desejo que não podemos saber qual é, sujeitos de um desejo que desconhecemos, sujeitos, portanto, do inconsciente.

O de que se trata em psicanálise, não é de investigar esse desejo que nos constitui, e que é do outro, e que nunca viremos a saber, mas sim, de qual é o desejo que aquele sujeito tem para si, qual é o desejo próprio do sujeito que se analisa.

O que se faz em Psicanálise é dirigir o caminho para que o "sujeito do inconsciente" possa aceder ao lugar de "sujeito do próprio desejo". Para tanto é preciso que o paciente acredite que o analista sabe algo que ele não sabe sobre si mesmo. É necessário também que o analista jamais esteja no lugar em que o paciente o coloca.

É isso que está em jogo no segundo tempo do filme, quando o Advogado começa a se questionar sobre si e quando, por fim, atribui ao outro um lugar de suposto saber e procura o Arquiteto para que lhe dê as referências que ele, Advogado, precisa para aceder ao próprio desejo. Pedido ao qual o Arquiteto gentilmente recusa.

Da oposição entre as personagens masculinas, quero passar então à identidade – e dizer isto é, no mínimo, uma heresia! – que há entre as personagens femininas. Elas são o móvel, a causa da questão. Funcionam como o contraponto para que aqueles homens se revelem. Por isso mesmo, é importante entender o que elas põem em cena.

As três mulheres da trama têm de semelhante entre si o desejo de ocupar o desejo do outro. Isto quase equivale a dizer que Sandra, Mônica e aquela a quem vou chamar de "a Cigana" se parecem porque são mulheres: elas se oferecem enquanto objetos a serem desejados, desejam ser desejadas, e assim afirmam o seu desejo.

A Cigana seduz sem dizer palavra. Mônica, das mulheres, a mais implicada com o seu próprio desejo, põe em xeque o amor de seu marido, o Advogado, acusando-o de não a desejar. E Sandra dramatiza, exagera, deturpa os fatos ocorridos naquela noite no Museu, de modo a não admitir o seu desejo.

Existe uma tendência – e que não é apenas do senso comum – a identificar, a confundir a mulher, o feminino e a histeria. Isso está lá no filme também. Serve, no entanto, para chamar a nossa atenção para uma coisa que não deveria ser novidade para ninguém: a mulher mente.

Mesmo assim, os advogados insistem em lhes pedir que jurem perante a Bíblia.. Talvez devêssemos lhes dizer como Caetano Veloso: "como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?"

Mas por que a mulher mente? E a respeito do que mente a mulher? Mente porque se pergunta a respeito do que é o desejo do homem, para que ela o seja. Mente porque que sentir-se desejada e para isso tece no homem a ilusão de saber o que nela ele deseja. Mas isso ela não sabe.

Mente como se negasse para si que é carente e, portanto, desejante também. Gostaria ela de fazer crer que apenas é desejada. É apenas dele a falta. Mente enfim, porque o homem lhe pede para que ela seja o que ele deseja; porque ele lhe pede que alimente nela a ilusão de só ser por ele, a ilusão de que só ele é desejante.

O Advogado é crédulo, é ingênuo e por isso ele não entende nada. Ele acredita que Sandra quer a condenação do Arquiteto. Ele acredita quando Mônica lhe diz que não a siga. Acredita ainda que a Cigana está mesmo fugindo dos companheiros, quando apenas brinca com eles.

Mas, ocupa esse lugar de credulidade e de ingenuidade porque não pode assumir o seu próprio desejo. Por isso violenta. Porque ele acredita na Verdade, é que tem tantas dúvidas. Por isso esta condenado a pagar o preço de sua normalidade.

Há sempre um preço a pagar por aqueles que não podem reconhecer ou assumir o seu próprio desejo. Este preço da normalidade que em Psicanálise se chama neurose.

O Arquiteto não acredita. E porque não acredita, põe em dúvida a farsa de Sandra que se mexe mais do que sente. E porque duvida, acaba obrigando-a a se mostrar, quer dizer, acaba por saber do gozo dela. E porque sabe, está condenado.

Também nesse caso há um preço a pagar. Também se paga o preço de ser sujeito do próprio desejo. "La Condanna"

Então, se estamos sempre condenados, há sempre uma pena a ser cumprida, uma dívida a ser paga. Mas, do que se trata nesta condenação? Qual o crime? Que dívida é essa?

Vejamos: quando o bebê humanos é dado à luz, recebe um nome que o diferencia de todos os outros. Essa marca diferencial seguirá com ele durante sua vida e mesmo além dela. Mas isso ele não recebe de graça. Junto com o nome, recebe também toda a carga dos desejos parentais. Quer dizer que aí – no nome – estão embutidas muitas coisas.

Ora, a criança já nasce imersa em determinada condição socioeconômica, em dada família, em um ponto qualquer do planeta com uma língua específica.

Seu nome deverá traduzir além de todas essas coisas mais gerais, aquelas de âmbito menor, mas portadoras de forças igualmente determinantes que representam as expectativas que as pessoas daquela família ou do seu entorno lhe impõem....Se vai ser, escultor, psicanalista, ou padeiro, por exemplo; se vai falar inglês, tocar violino, jogar tênis ou cavalgar.

Além desses e com maior força ainda, os desejos que inconscientemente essas mesmas pessoas têm para aquela que nasce: ser o homem da vida da mãe, a princesa do pai, o que vai vingar um destrato ou a que vai provar uma virtude...Aqui podem ser listadas coisas inimagináveis para quem é leigo em matéria de Inconsciente.

Tudo isso sai o filhotinho humano carregando consigo pela vida afora. Somados os eventos da sua própria vida, vai se transformando aquela criança em sujeito.

Mas, transformar-se em pessoa, tornar-se sujeito, nada mais é do que arcar com uma dívida, justamente aquela de receber através do nome, a carga cultural e desiderativa na qual ele se ancora. Dívida essa, que por ser simbólica, jamais será quitada. Ainda que o sujeito nunca deixe de pagar por ela.

E paga, em sua neurose, com seus sintomas..paga com o próprio corpo o histérico; com a dúvida, o obsessivo; e com a evitação, o fóbico. Também paga, ao se analisar, com os significantes – "o dinheiro na cura analítica é um significante"(Rodrigues, p. 170) – que põe em circulação no campo transferencial.

Mas isso não quer dizer que aquele que conclui sua análise deixe de pagar. Apenas a moeda é outra. Faz-se um câmbio e o sujeito passa a pagar com o prazer, com a renúncia ao gozo absoluto que, apesar de ser impossível, é a razão do sofrimento do neurótico.

Também quando uma análise se conclui não quer dizer que aquele sujeito nunca mais sinta a necessidade de ser escutado por um psicanalista. A vida continua mesmo depois de uma análise...E pode voltar o sujeito a pagar com sintomas e, para evitar isso, voltar par o (ou um outro) divã.

Assim é que há os dois tipos de sujeitos de que falamos há pouco: o sujeito do inconsciente, que paga sintomaticamente por desejos que carrega consigo sem os reconhecer; e o sujeito do próprio desejo, que paga significativamente o reconhecimento de si mesmo.

Estamos, sim, condenados! Pagar de um modo ou de outro, contudo, é apenas uma questão de escolha.

Como as marrecas que vão ao fundo..


Referências Bibliográficas:


AULAGNIER-SPAIRANI, Piera. "Observações sobre a feminidade e suas transformações". In: CLAVREUL, Jean et al. O desejo e a perversão. Campinas: Papirus,1990.
COSTA, Ana Maria Rodrigues da. "Do pagamento". In:RAPPAPORT, Clara Regina; HASSAN, Sara Helena e MOLLOY, Carmen Savorani. Psicanálise: introdução à práxis Freud e Lacan. São Paulo: EPU, 1992.
ZYGOURIS, Radmila. Ah! As Belas lições! São Paulo: Escuta, 1995.

1.Texto originalmente publicado em O Desejo em cena, cinema e pensamento "psi".- São Paulo : Companhia Ilimitada, 1998. O livro é resultado de um ciclo de palestras realizado em 1997 pela Associação Livre Instituto de Cultura e Psicanálise.

2.É psicanalista, psicólogo formado pela PUC/SP e Letras pela UFPa. Trabalhou como Acompanhante Terapêutico e participou da organização do livro "A Rua Como Espaço Clínico: Acompanhamento Terapêutico", (Escuta, 1991). Atualmente é psicólogo contratado do Ambulatório de Saúde Mental da Lapa, orienta Grupos de Estudo em Psicanálise e exerce atividade em consultório particular em São Paulo e Piracicaba