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41a Mostra - O Otimismo Paralizante em Human Flow, de Ai Weiwei

Human Flow – Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir (2017), de Ai Weiwei, é um projeto de dimensões épicas sobre a crise dos refugiados no mundo.

Para realizar o projeto, Ai Weiwei e sua equipe percorreram 23 países e 40 campos de refugiados localizados na África, no Sudeste Asiático, no Oriente Médio, na Europa e na América.

Apesar da pretensão totalizante do projeto, ele não busca esgotar o assunto, até porque o assunto em questão apresenta muitas dimensões e aspectos. Deste modo, o diretor, cuja família sofreu com o exílio imposto pelo governo chinês, atém-se, sobretudo, ao drama humano que há por detrás dessa crise que é política, social e econômica. Assim, para dar dimensões desse drama, o filme faz uso de estatísticas e dos escritos de pensadores e poetas de diversas nações.

Ai Weiwei, entretanto, parece escorregar, em mais de um momento, quanto ao tom empregado pela obra. A questão não é tanto que ele estetize uma situação de clara desumanização de indivíduos, primeiro porque incorrer em qualquer tipo de estetização (ainda que a qualifiquemos de ‘anti-estética’)  é um tanto inevitável quando mediamos o mundo por imagens; segundo, porque o diretor consegue, na maior parte do tempo, escapar do possível mau gosto por meio de uma poética sutil, ainda que politizada. Ai Weiwei incorre, mais perigosamente, numa espécie de egolatria.

Em mais de uma cena o diretor surge como agente de uma ação de benevolência cujo impacto final é nulo na vida dos envolvidos na crise, ou executando atos simbólicos igualmente ineficazes, quando não filmando, muito significativamente, a si mesmo empunhando um cartaz no qual se lê uma hashtag em apoio aos refugiados. Há também cenas em que o diretor faz gracejos com os refugiados ou retrata-se, através do celular, ao lado deles. Presumivelmente este deveria ser um comentário espontâneo e leve sobre o papel que as novas tecnologias desempenham na vida dos refugiados, mas o resultado obtido é o de uma egolatria injustificada. Valeria, nesse caso, observar os refugiados, ainda que despretensiosamente, relacionando-se com essas tecnologias.

O caso não é que seja um problema em si Ai Weiwei colocar-se como sujeito na obra, esta é uma tendência muito comum no documentário contemporâneo, e muitas vezes é realizada de maneira até mais intensa do que faz o diretor de Human Flow. A questão é que Ai Weiwei não retrata a si mesmo como sujeito imerso na realidade que apresenta, isto é, como quem investiga de fato a situação, na verdade ele sempre surge em situações que enaltecem sua figura, de modo estranhamente autopromocional.

É verdade, no entanto, que, fora esses momentos autopromocionais, o filme consegue ser bastante respeitoso quanto ao drama dos refugiados, e dificilmente recai, embora ameace fazê-lo, num sentimentalismo piegas: as histórias emocionam por suas forças intrínsecas, pela rudeza dos relatos e não por dramatizações sensacionalistas.

Muito embora consiga se manter coeso, apesar dos deslizes, quanto ao tom de sua abordagem, o filme sofre de um problema mais estrutural. O caleidoscópio, o panorama criado por Ai Weiwei soa um tanto sem foco. Isto é, para além do recorte do drama humano, não há uma tese que costure o filme. É certo que as histórias apresentadas se fazem relevantes, é certo que a questão precisa ser levada a toda parte e discutida, mas apenas expô-la não deve ser suficiente. O filme e, ao que parece, seu autor, estão desprovidos de uma tese central, ou mesmo de uma abordagem inventiva a respeito de seu assunto.

De alguma forma, é como se a pretensão totalizante de Ai Weiwei desprovesse o filme de um olhar, de uma mirada particular que não a repetição do óbvio: a crise dos refugiados desumaniza os indivíduos e deve ser solucionada. Se houvesse solução assim fácil, Ai Weiwei sequer teria razões para filmar seu documentário. Talvez alguém possa dizer que, de fato, é preciso atestar o óbvio quando há um refluxo de xenofobia e conservadorismo.

Pois talvez seja necessário atestar o óbvio e fazer uma afirmação veemente e oposta à dos xenófobos, e não apenas afirmar que somos todos parte de uma grande família humana, quando tudo demonstra que essa família humana foi dividida violentamente. Esse tipo de otimismo que ignora os fatos paralisa tanto quanto o pessimismo mais profundo e irracional, e é precisamente desse tipo de otimismo que Human Flow sofre.

 

João Victor Nobrega é estudante de cinema, ex-colaborador da revista online O Grito!, e diretor e roteirista de três filmes universitários.