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41a Mostra - O Tempo da Espera em Zama, de Lucrecia Martel

Zama (2017), de Lucrecia Martel, é uma coprodução entre Argentina, Brasil, Espanha, França, EUA e Portugal, e surge um longo tempo desde o último filme da diretora (A Mulher Sem Cabeça, de 2008), o que é bastante, digamos, cármico, se levarmos em conta que a trama do filme gira, basicamente, em torno de uma espera.

O filme é a primeira adaptação realizada por Lucrecia e se baseia no livro homônimo do escritor argentino Antonio Di Benedetto. O título das obras faz referência ao protagonista, Don Diego de Zama (interpretado por Daniel Giménez Cacho), um representante da Coroa espanhola que aguarda sua transferência para uma área mais cosmopolita da colônia. Seu pedido de transferência, no entanto, é constantemente adiado pelas autoridades locais, de modo que ele se vê obrigado a se submeter a situações progressivamente humilhantes caso queira ter seu desejo realizado.

Zama, como é corrente na obra de Lucrecia, busca investir, sobretudo, na criação de uma atmosfera particular e inerente ao filme (e aqui mais uma vez o som é central nessa construção), o que, nesse caso, significa, muito embora se evoque signos identificáveis do período colonial, que a obra não se prende ao rigor histórico para recorrer antes a abstrações imagéticas. Interessa a diretora muito mais investigar a atmosfera e o tempo da espera, da corrosão e da decomposição inevitável dos corpos, do que fornecer um relato preciso do período colonial.

Nesse sentido, as agruras da espera alcançam materialidade no próprio corpo de Zama, primeiro com a doença, depois com a velhice, e finalmente com a mutilação. Até mesmo a precariedade do povoado em que Zama vive (e do qual ele busca fugir), contrastada com os hábitos estéticos e sociais da coroa, parece traduzir essa decomposição que decorre da espera, é como se o continente sul-americano engolisse o colono, engolisse Zama e todas as suas pretensões.

Essa força do continente, aliás, se manifesta através de um misticismo indígena que cerca e oprime Zama por todos os lados em diversos momentos, assim como as doenças próprias do hemisfério sul começam a corroer o corpo do colono, devido a sua baixa imunidade às armadilhas que se apresentam abaixo da linha do equador. Abandonado por uma administração indiferente e burocrática, Don Diego de Zama perde, pouco a pouco, com a lentidão da tortura, sua identidade.

A casa que o protagonista vai habitar no auge de sua crise prenuncia e traduz o estado físico mental em que ele adentrará. Trata-se de uma habitação em ruínas, pouco convidativa e, novamente, habitada por um misticismo que lhe é hostil e pouco compreensível. A imagem da ruína, que tanto seduz a contemporaneidade, é o espelho de Zama, mas também pode ser um espelho nosso. A condição de apreensão em incerteza quanto ao futuro em que o protagonista se encontra é bastante semelhante à de nosso tempo, e se nosso tempo de fato for, como creem muitos críticos da cultura e do comportamento, um tempo de decadência, então nada mais próprio para sintetizar a contemporaneidade do que a imagem da ruína, da decomposição. Novamente é possível perceber como o filme recorre a abstrações: muito embora Zama seja um viajante colonizador, do século XVIII, ele faz, em grande medida, eco à deriva contemporânea, àqueles que vagam sem rumo e destituídos de objetivos, e enfim, à ausência de sentido global de que sofremos.

Esta, é claro, é uma das camadas do filme (embora seja uma leitura sugerida pela própria diretora). Lucrecia busca comentar um tempo esvaziado de sentido, cujo único objetivo restante é esperar a morte. Assim, a passagem do tempo, e a aproximação da morte, manifestam-se única e exclusivamente pela alteração do espaço, isto é, pela transformação do edifício (ou do corpo) em ruína.

Quando finalmente Zama desiste de sua espera particular, de sua luta inelutável, ele se embrenha na mata, junto a um grupo de homens cuja missão é capturar Vicuña Puerto (Matheus Nachtergaele), um bandido ao qual se reporta tudo de ruim que acontecia na vila em que o protagonista vivia e que, até então, segundo os rumores, cria-se ter sido executado pelo governador local. Entretanto, uma última vez, Zama se vê confrontado com uma grande impossibilidade, que é a violência atroz e cínica de Vicuña Puerto.

Desta forma, a diretora faz não só um comentário sobre o presente, como também um comentário sobre o passado, sobre a formação da América Latina (e em especial da América do Sul). Zama, numa leitura mais global, busca averiguar os elementos fundantes do continente que retrata (o misticismo, a violência, a ineficácia administrativa, etc.), um continente relegado à espera por um futuro luminoso que, no entanto, parece ter sido sabotado mesmo antes de poder germinar.

 

João Victor Nobrega é estudante de cinema, ex-colaborador da revista online O Grito! e diretor e roteirista de três filmes universitários