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41ª Mostra - O Ecrã Espelhado em A Telenovela Errante, de Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento

A Telenovela Errante (2017), até pouco tempo, era um projeto inacabado e desconhecido do diretor chileno Raúl Ruiz. Sua mulher e também cineasta, Valeria Sarmiento, resolveu juntar o material filmado pelo diretor em 1990. 

O filme consiste na justaposição de esquetes divididos em sete dias, sendo que cada dia corresponde ao material filmado por Ruiz ao longo de um dia. Os esquetes são ligados temática e esteticamente, mas, com uma exceção, não complementam-se narrativamente. A linguagem empregada por Ruiz faz sátira às telenovelas que surgiam no Chile no início da década 1990, como reflexo do processo de redemocratização pelo qual o país passava.

Dessa forma, Ruiz utiliza-se da linguagem tipicamente dramática, exagerada e piegas das telenovelas, para comentar o Chile da redemocratização. Mas, para isso, o diretor recorre a um humor surreal que se intensifica a cada esquete. O uso do surreal parece comentar o quão confuso e insólito é ser chileno, sobretudo num momento de transição, em que o passado é obscuro e o futuro é incerto. Muitas das observações de Ruiz vão no sentido de examinar o que significa ser de esquerda, sobretudo depois da ditadura e diante das estratégias tão confusas e infrutíferas levadas a cabo pela esquerda de seu país (e, na verdade, de toda a América Latina).

Há uma situação exemplar desse tipo de observação sobre a esquerda, que é particularmente divertida: há um casal de adultos, tipicamente burgueses, vivendo um romance proibido (ela é casada com o irmão dele). A situação se desenrola com o sentimentalismo e as atuações forçadas próprios das telenovelas. Esse tom geral, no entanto, vai sendo pontualmente interrompido por perguntas e revelações non-sense, como é o caso quando, uma vez que o homem revela preferir a perna esquerda à perna direita da mulher, ela se vê impelida a perguntar “Você é comunista?”, ao que ele responde “Socialista.”. A partir disso, a mulher procura saber o que ele acha do divórcio, já que ela quer se separar de seu marido e casar-se com seu interlocutor. O homem, enquanto chileno e socialista, diz que essa é uma questão complicada, pois muitos dos membros do Partido Socialista Chileno também são católicos. Esse tipo de situação é muito particular da esquerda latino-americana, marcada por uma aliança forte e ativa com a Igreja Católica.

Outra situação exemplar é a do esquete que se inicia no carro de dois policiais, canastras e americanóides, que discutem ativamente sobre os diferentes sotaques do espanhol com que falam alguns países da América Latina. De repente, os policiais são mortos por uma dupla de guerrilheiros que buscam ler um “testamento”, isto é, um programa ideológico. Essa dupla de guerrilheiros é morta por outra dupla de guerrilheiros, e assim ocorre uma quantidade razoável de vezes, sendo que cada dupla busca instaurar seu programa ideológico. Aqui Ruiz comenta a desunião da esquerda latino-americana e questiona a eficácia das estratégias da guerrilha.

Há um último esquete que vale ser brevemente citado, para que não se anule sua força, que é aquele em que um homem une amor, morte e trabalho intelectual sem nenhum tipo de remorso. Trata-se de um comentário pontual, mas certeiro, sobre o modo como as ditaduras do Cone Sul (e sabe-se que a chilena foi particularmente cruel nesse tocante) lidavam com a morte de seus opositores.

Apesar de, como se disse, o filme não ligar os esquetes narrativamente, ele os situa num mesmo universo, que seria o universo paralelo das telenovelas, o que justifica muito do surrealismo presente no filme. Por vezes as personagens comentam, referindo-se ao público: “Eles estão nos vendo”. Esse tipo de fala metalinguística é mais do que um jogo com o meio retratado no filme (a televisão), e com o próprio cinema. Quando as personagens enunciam esse tipo de comentário, na verdade eles estão chamando atenção para o espelho que constituem. Eles são espelho dos chilenos, embora, como já foi sublinhado, também compartilhem muitas características com os latino-americanos em geral. A ironia está no fato de que, todas as vezes em que as personagens alertam para o fato de estarem sendo observadas, é por conta de envergonharem-se de suas condutas, mas se eles são espelhos, o público deveria envergonhar-se de si também.

O dramalhão, o excesso, o exagero, o surrealismo, nada mais são do que a revelação e a exacerbação dos gostos e defeitos do público. Não é que as personagens estejam simplesmente sendo observadas por nós, mas sim que estejamos sendo convidados a olhar para nós mesmos, para nossas feridas abertas, para nossa violência constitutiva, para nossa falta de fraternidade e, ainda assim, como bons latino-americanos, rir de modo irônico de nossa desgraça. Até porque não aprece haver outra opção.

 

João Victor Nobrega  é estudante de cinema, ex-colaborador da revista online O Grito! e diretor e roteirista de três filmes universitários