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Liga da justiça – Que tal um pouco de cor na DC?

A editora DC Comics sempre foi conhecida por ser a casa dos heróis grandiosos, os que representam em si a figura da justiça e do otimismo, especialmente nas figuras do Superman e da Mulher-Maravilha.

Sua trajetória foi traçada de acordo com o contexto que a indústria dos quadrinhos seguia, desde a controversa decisão de censura através do selo “Comic code autority” nos anos 50 e 60, até surgir uma nova geração de autores que tornaram os quadrinhos mais respeitados como arte e como veículo de comunicação, com os clássicos emblemáticos Watchmen de Alan Moore de 1985 e O cavaleiro das trevas de Frank Miller de 1986.

Na atualidade, as editoras começaram a manter o foco no cinema, gerando assim a nova febre de franquias em Hollywood, que são os filmes de supre-heróis. Quem está na frente do sucesso é a Marvel, tornando-se um dos estúdios mais bem-sucedidos desse gênero, com um total de lucro de 5 bilhões de dólares só nos Estados Unidos. A Warner, proprietária da DC Comics, deseja fazer o mesmo sucesso da concorrente, criando o seu próprio universo cinematográfico com seus próprios personagens.

 Como resposta, foram lançados para dar início a esse universo os filmes Batman vs Superman – A origem da justiça e Esquadrão Suicida, ambos lançados em 2016, e que apesar de terem recebido críticas negativas, foram muito bem de bilheteria, mas nada que se equiparasse ao sucesso das produções da Marvel. A partir das repercussões negativas dos filmes anteriores, é possível perceber que os produtores da Warner sentiam uma necessidade de mudança de rumo na representação dos seus heróis: se antes, em Batman vs Superman, os personagens eram encarados de maneira séria, sombria e complexa, agora nota-se que a Warner/DC se mostra concentrada em realizar filmes de heróis apoiando-se no carisma e numa espiritualidade otimista e guiados por enredos simples e agradáveis. Foi dessa forma que surgiu o filme de sucesso Mulher Maravilha, lançada em junho desse ano.

 Agora o universo retorna com o novo filme Liga da Justiça, buscando estabelecer essa visão para com os seus personagens mais icônicos. É deixado de lado a sensação de peso dramático que o espectador sente ao assistir os personagens em cena, e entra o simplório, porém bom, sentimento de se entreter com os heróis em ação. O filme apoia-se no enredo tradicional de reunião de heróis, em que o vilão cósmico Lobo de Estepe (Ciarán Hinds) está invadindo a Terra em busca das “Caixas Maternas”, que lhe darão o poder para conquistar o planeta. Em resposta a isso, Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck), junto com Diana Prince/ Mulher-Maravilha (Gal Gadot), decidem criar um grupo para proteger a terra, composto de super seres escondidos que são Arthur Curry/Aquaman (Jason Mamoa), Barry Allen/Flash (Erza Miller) e Victor Stone/Ciborgue (Ray Fisher).

Essa decisão de apostar no mais simplório faz com que o filme possua acertos e erros ao mesmo tempo. Os erros advém mais das decisões do diretor Zack Snyder, vindo das adaptações 300 (2007) e Watchmen (2009) e até mesmo de Batman vs Superman, impressão que é deixada logo no início do filme com a construção de um grande cenário e abordagens de temas que o diretor busca desenvolver na trama. Isso fica claro nas cenas que mostram o mundo desiludido e sem esperanças ao som Everybody knows de Leonard Cohen. Porém, essas intenções são deixadas de lado quando começa a introdução dos heróis e a formação da equipe, o que deixa algumas inconsistências no roteiro e na edição, tornando um pouco confusas as rápidas decisões dos personagens. Fica sugerido que o foco mesmo está no encontro dos personagens para enfrentar a ameaça, a qual não é desenvolvida de forma convincente, fragilizando a própria ameaça global que é encontrado em qualquer filme de super-herói mais tradicional.

            Já a formação da equipe se mostra como um grande acerto no filme. A partir do momento que a Liga começa a se formar, a sintonia dos personagens torna-se forte e carismática, graças aos atores. De um lado, temos atores já confortáveis em seus papéis, como Gal Gadot e Ben Afleck, junto com os novos heróis, sendo que cada um consegue ter o seu momento, especialmente Erza Miller interpretando o Flash, que se torna um bom alívio cômico no filme, sempre divertido. O Ciborgue de Ray Fisher até possui seus conflitos interessantes, porém não tão aprofundados quanto poderiam ser, apesar de suas cenas em ação serem muito boas. O Aquaman também possui cenas marcantes e sua personalidade é uma boa inovação, já que esse herói sempre foi apontado como algo ridículo pelo público geral. É possível notar boas ideias que serão exploradas em seu filme solo com previsão para estrear ano que vem.

 A partir do momento em que o grupo está reunido, o sentimento é prazeroso e carregado de espiritualidade, mais otimista e voltado para a diversão, tanto quando os heróis estão lutando quanto quando interagem uns com os outros. Isso se deve também aos acertos do roteiro liderado por Joss Whedon, mais conhecido por comandar o grande sucesso da Marvel Os Vingadores (2012), que assumiu as refilmagens e a pós-produção, pois Zack Synder pediu afastamento por conta de uma tragédia familiar. A intenção dele era deixar o filme mais leve e mais descompromissado, o que não é tão perceptível, pois o filme continua com a mesma assinatura da direção de Zack Snyder, sobretudo pelo cuidado com a fotografia e com a direção de arte, muito bonitas e caprichadas.

Por fim, o maior acerto está no retorno do Superman, interpretado por Henry Cavil, sem soar como spoiler, o grande herói retorna de maneira monumental. A impressão que se tem é que ele não é mais o Superman depressivo e amargurado com a humanidade visto em O Homem de Aço (2013). Ele volta representando toda a potência simbólica que o personagem sempre carregou desde sua criação. E, ao se juntar ao grupo no grande clímax, o sentimento de otimismo se mostra cada vez mais evidente, deixando uma boa sensação do que é se divertir lendo quadrinhos.

            Liga da Justiça consegue evocar uma boa dose de diversão descompromissada, com a construção de uma boa visão da representação dos heróis da DC, mas que ainda precisa rever as suas intenções para contar uma história coesa. O que se deixa entender ao final desse filme, é que as intenções desse universo são honestas e boas, levando a crer que o sucesso de Mulher-Maravilha, e o sucesso que este novo filme pode atingir, será capaz de gerar novas ambições que podem ser seguras, mas ao mesmo tempo grandiosas, assim como os seus heróis.

 

Ettore R. Migliorança é estudante de Cinema, com ênfase em roteiro e análise de filme, e já produziu dois curtas universitários.