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O Drama dos Refugiados no Novo Filme de Karim

Aeroporto Central, novo filme de Karim Aïnouz, conquistou o prêmio da Anistia Internacional

Da esquerda para a direita: Karim Aïnouz (diretor do filme), Ibrahim Al-Hussain e Qutaiba Nafea (os personagens do documentário)

O coração do argelino-brasileiro Karim Aïnouz balança entre sua formação em arquitetura e sua função como cineasta.

Dedicado aos filmes, de vez em quando dá um jeito de unir as duas coisas como fez num dos episódios do documentário coletivo Catedrais da Cultura. No capítulo que ele dirigiu sobre o Beaubourg – o Centro Georges Pompidou, em Paris, prédio que virou emblema cultural – o diretor rastreia a alma dos ícones da arquitetura que o construíram. Catedrais da Cultura integrou a seleção do Festival de Berlim em 2014, ano em que ele também concorreu ao Urso de Ouro com Praia do Futuro.

Aïnouz está de volta à Berlinale nesta edição 2018, desta vez com Aeroporto Central, co-produção entre Alemanha, França e Brasil e o primeiro do diretor totalmente falado em língua estrangeira.

A história se passa no antigo Aeroporto de Tempelhof, na capital alemã, uma das construções mais emblemáticas do regime nazista, que há dez anos foi desativada para voos. O local abriga atualmente cerca de três mil pessoas à espera de asilo na Alemanha, oriundas da recente onda migratória vinda do Oriente Médio.

O filme segue Qutaiba Nafea, um paramédico iraquiano e um dos moradores do aeroporto, o jovem sírio Ibrahim Al-Hussein, de 19 anos. O garoto morou no local durante um ano, até saber se seria beneficiado com a permissão de residência no país ou se seria deportado.

Em entrevista ao Mnemocine, Karim falou sobre a motivação para fazer o filme, projeto que já acalentava há algum tempo e que acabou por conquistar o Prêmio da Anistia Internacional

“Meu desejo com este filme sempre foi muito claro. Sou argelino-brasileiro, e durante meus anos de adolescência vivi na França. Foi a primeira vez que saí do Brasil. E foi impressionante. O que começou como um sonho foi aos poucos se transformando não em um pesadelo, mas em algo complicado. Por conta do meu nome, Karim, um nome árabe por excelência, a discriminação que vivi na França me fez ver o mundo com outros olhos, a partir de outro lugar. Aguentei dois anos ali e decidi ir embora. Para um adolescente não foi simples”, contou o diretor resumindo o cerne do filme.

 “O filme é um retrato do aeroporto que foi inicialmente imaginado por Hitler e que depois da guerra continuou de pé e foi de crucial importância para a cidade, seja como porta de entrada de mantimentos no pós-guerra como aeroporto comercial, seja como campo de abrigo de refugiados da Alemanha Oriental na década de 40 e, que, depois que foi fechado em 2008, virou um parque público para habitantes da cidade. E finalmente, em 2015, abrigou refugiados provenientes de conflitos no Oriente Médio. Então, neste sentido o filme é também um retrato de Berlim, uma cidade cheia de camadas, contradições e porvires”, definiu.

Karim lembrou que, além desse aspecto mais pessoal, o contexto histórico atual também teve um grande peso.

“Nos últimos anos, a representação do jovem árabe, principalmente o homem, tem sido atrelado ao terrorismo, ao perigo, ao estrangeiro. Isso me incomoda profundamente. É de uma injustiça gigante. E, além disso, com a onda de pessoas fugindo de zonas de conflito ou de zonas economicamente desfavorecidas do plano, e chegando à Europa, esta impressão do estrangeiro tem se tornado cada vez mais grave, cada vez mais preconceituosa. E os que vêm para a Europa e que aqui conseguem chegar com vida são representados na grande mídia mais como números do que como seres humanos. Isso tem me causado uma grande indignação. É como se no contexto neoliberal onde estamos mergulhados, solidariedade fosse algo que não é possível. O medo irracional do outro parece ter chegado a limites inacreditáveis”, ressaltou o cineasta detalhando a contribuição que espera de Aeroporto Central para mudar esse quadro adverso.

 “Meu desejo foi duplo. De um lado tecer o retrato íntimo de dois refugiados do Oriente Médio, um jovem sírio de 19 anos e um paramédico iraquiano que vieram para Alemanha para escapar dos horrores da guerra e aqui construírem uma nova vida. Minha vontade era dar rosto aos números, pois frequentemente os que para aqui tem escapado são representados como números, como multidões, mais do que seres humanos em procura de um abrigo. Se o filme suscitar empatia por esses personagens ele cumprirá sua função”.

Aeroporto Central já tem distribuição na Alemanha e, como diz Aïnouz, a seleção para a Berlinale representa muito na carreira do filme e seu alcance ao maior número de espectadores mundo afora.

“É muito importante para o filme ter sido selecionado para Berlinale e na Panorama, uma mostra que tem a tradição de exibir títulos que dialogam com questões urgentes do seu tempo. É uma vitrine muito especial para um filme que a priori tinha sido feito exclusivamente para a televisão. Neste sentido, ele terá uma vida, além da televisão, também nas salas de cinema e nos festivais”, concluiu Aïnouz, de 52 anos, que com seu novo filme confirma o que já se esperava do seu enorme talento desde sua estreia em longa-metragem em 2002 com o ótimo Madame Satã.

 

Myrna Silvera Brandão é jornalista, pesquisadora e crítica de cinema; é presidente do CPCB (Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro)