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O Processo do Fracasso

Variações de Um Tema em Os Dias com Ele

Por Lucas Navarro

Os Dias com Ele (2013), de Maria Clara Escobar, propõe o embate entre as possíveis representações do trauma.

Refletindo em torno dos motivos que o levaram a escrever o conto “A Busca de Averróis”, Jorge Luis Borges declarou que sua intenção era “narrar o processo do fracasso”, de tratar poeticamente a vida de um homem que “estabelece para si um objetivo que não é proibido para os outros, mas só para ele”. A história do filósofo muçulmano que toma para si a tarefa de traduzir a Poética de Aristóteles, mas “por estar encerrado no âmbito do islã nunca pôde saber o significado das palavras tragédia e comédia” (de modo que nunca se quer suspeitou o que seria teatro) está, meio que por antecipação, condenada ao fracasso.

Construído por conversas, entrevistas e testemunhos com o ensaísta e dramaturgo Carlos Henrique Escobar, um ex-membro da luta armada brasileira e há mais de uma década exilado em Portugal, a diretora Maria Clara, filha de Escobar, pretende, tal como o Averróis de Borges, apreender um mundo dentro do qual ela reage como uma estrangeira. Toda tentativa de aproximação se mostra insuficiente, porque, não importa por qual recurso, apresenta-se destacada da experiência comum, de uma experiência que sustente uma relação. A diferença na semelhança entre essas duas obras está nas distâncias do abismo que tratam, que não significa, aqui, uma perda de densidade, podendo estar no corredor que divide dois quartos e continuar tão obscuro quanto dois continentes separados por um oceano. Aqui, paradoxalmente, o estranho pertence ao familiar; o Outro, mesmo sendo “outro íntimo”, que atende pelo nome de Pai e dorme no quarto ao lado, não deixa de ser um “outro”, um estrangeiro ao “eu” da cineasta.

Há uma certa tendência no registro documental contemporâneo em recusar os conflitos aos quais não se conhece (porque externos e distantes) e voltar-se para aquilo que se supõe conhecer (porque próximo e privado). O cineasta passa a encontrar conflitos dentro de suas próprias famílias, construindo métodos de agenciamento dos afetos que transbordem as molduras dos álbuns e ultrapassem os limites do quintal. Se, por um lado, os filmes se fecham em um investimento desmedido na economia de afetos a que não temos acesso, por outro lado, permite colocar em questão esses mesmos afetos dentro do regime que estão submetidos. Com efeito, Os Dias com Ele (2013) propõe a síntese dessa dialética ao por em cena uma figura indeterminada, capaz de concentrar num só corpo uma cicatriz política e uma cicatriz da memória: à pergunta, “você não acha que há uma dificuldade de acesso à História da ditadura?”, contrapõe-se ao “que você lembra da história da minha infância?”: pai e pátria conjugam o silêncio. Resta abandonar a palavra como continente da verdade. Sem a palavra, por outro lado, o que resta? O vento.

À estrutura equipada da entrevista entrepõe-se, no primeiro plano de Os Dias com Ele, a presença de uma ausência, manifestação inapreensível que atravessa o plano com a mesma graça que atravessa a história do cinema – no mínimo desde Le Repas de Bébé (1895), dos irmãos Lumiére, em que aquelas folhas da árvore ao fundo secretam um encontro marcado com suas irmãs, ao fundo desse primeiro plano. Essa presença insignificante e, no entanto, essencial da realidade sensível não se restringe ao espaço, mas estende-se no próprio curso da entrevista através da luz, da aurora ao ocaso da palavra.

Se, outrora, a forma narrativa fazia justiça às contingências que descrevia, agora, ela a trai. Como mostrar uma subjetividade pós-traumática quando ela parece recusar o próprio estatuto de imagem? A abordagem se mostra cada vez mais inabordável. A coragem de Maria Clara Escobar está muito além de mostrar os momentos pré e pós-fílmicos, trata-se de incorporar o processo do fracasso na própria forma. Essa sintaxe do fracasso recusa, todavia, a entropia de um filme como Moscou (maravilhosamente entrópico, diga-se), de Eduardo Coutinho, para se fixar noutra práxis: a desproprietização.

Da autoria, que se vê disputada no interior da obra – seja por uma reivindicação histórica do pai (“eu mereço esse filme mais do que você”, “eu arrisquei tudo”) em contar a versão dos vencidos ou por um projeto ensaístico da filha que nivela subjetividade e objetividade – ao não-lugar da subjetividade – dois momentos: a) a leitura do pai, que descreve uma cena de tortura em sua peça quando, de súbito, como num gole de estado contra a subjetividade, filha toma a palavra e continua a leitura (a quem pertence, nesse momento, a experiência?); b) a sequência ontológica da cadeira vazia em que se negocia a mise-en-scène da verdade (sem perceber que ela acontece na ordem da evidência: está lá, quer se perceba ou não) em um jogo de papéis que colocam em xeque o enunciador, “desenunciado” de sua própria enunciação.

Em qualquer relação, o outro sempre ameaça a propriedade constitutiva do Eu. Talvez também possamos dizer que filmar o outro é ao mesmo tempo mostrar um olhar pessoal sobre esse outro, assim como se costuma dizer que toda crítica é uma autobiografia. Carlos Henrique Escobar continuará inacessível por detrás da porta, de vidro, porém opaca, sob uma luz fúnebre e vitoriana. Beleza terrível e irreconciliada. Mas buscar em vão o que outros não têm dificuldade alguma para entender é uma experiência que muitos já conhecem. E se não o conhecem, passam a conhecer depois de Os Dias com Ele.