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A Bateria como Sonorização do Conflito Psíquico em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

A trilha musical de Birdman (2014), de Alejandro Iñarritu, utiliza a percussão de Antonio Sanchez para externalizar a mente conturbada do protagonista.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de 2014, é dirigido por Alejandro González Iñarritu e apresenta o final da trajetória de ascensão e declínio vivida pelo ator Riggan Thomson (Michael Keaton). No passado, Riggan interpretou um papel que lhe garantiu muito sucesso, o papel do herói Birdman. Entretanto, a partir do momento em que o ator se recusou a estrelar o quarto episódio da franquia do herói, sua carreira entrou em decadência. O filme nos apresenta o protagonista já em seu momento decadente, enquanto ele busca dar a volta por cima através de uma adaptação, que ele mesmo dirige e estrela, do texto What We Talk When We Talk About Love, de Raymond Carver. Enquanto o ator prepara e ensaia sua nova peça para estrear na Broadway, ele busca lidar com as pretensões de seu agente Jake (Zach Galifianakis), melhorar a relação com sua ex-esposa Sylvia (Amy Ryan), reaproximar-se de sua filha Sam (Emma Stone) – recém-saída de uma clínica de reabilitação -, e gerenciar o ego dos demais atores, sobretudo do bem-sucedido Mike Shiner (Edward Norton).

Birdman é uma comédia de humor negro que recorre o tempo todo à metalinguagem, afinal é um produto da indústria do entretenimento refletindo sobre a própria indústria do entretenimento. Boa parte das personagens é interpretada por atores que realizaram papeis de destaque em filmes de super-herói, para citar alguns: Keaton é célebre por ter estrelado dois filmes da versão de Tim Burton para o Batman; Emma Stone interpretou Gwen Stacey na última versão cinematográfica de Homem-Aranha; e Edward Norton não só encarnou uma das últimas versões de Hulk, como carrega a fama de ser um ator egocêntrico e de difícil lida. Tudo no filme, portanto, possui o caráter de uma autoparódia amarga. É sobretudo daí que se origina o tom de humor negro que Birdman apresenta.

O filme é também um mergulho na mente conturbada de Riggan. O ator frustrado vive experiências esquizoides. Por vezes, o ator alucina possuir capacidades telecinéticas e, principalmente, ouve a voz, e até mesmo vê a figura, de seu Birdman interior. O herói surge para Riggan como uma assombração. Para refletir sonoramente a mente caótica do protagonista, o diretor Iñarritu convidou o baterista de jazz António Sanchez. Sanchez conheceu Iñarritu quando era baterista da banda The Pat Metheny Trio, admirada pelo diretor desde que o próprio era radialista na Cidade do México.

Inicialmente, Sanchez diz ter procurado um método de composição mais “tradicional”, enviando a Iñarritu temas musicais que se ligavam a cada personagem separadamente. Iñarritu, no entanto, rejeitou todo o material, o diretor queria que Sanchez seguisse pelo caminho de sua especialidade: a improvisação. A trilha musical deveria soar “perdida, orgânica, bastante visceral e tipicamente jazzista”. Em outras palavras, a bateria de Sanchez deveria ser a tradução sonora dos embates mentais de Riggan. Mas não só dos embates mentais, a bateria de Sanchez também deveria traduzir toda a expressão do corpo decadente, fora de forma, e ainda assim vigoroso, do ex-Birdman. A sequência em que vemos Riggan caminhando pelos bastidores do teatro, quando surge, num canto, um baterista desempenhando a trilha musical que ouvíamos desde o começo, demarca bem essa intenção corporal da trilha. Cada gesto e passo da personagem de Keaton são acompanhados pela bateria. O corpo, afinal, é um reflexo da mente.

O relato de Sanchez sobre o modo de composição que ele adotou a partir do momento em que o material inicial foi rejeitado, revela que, de fato, o corpo de Riggan está na origem de tudo. Antes mesmo que as cenas tivessem sido filmadas, o baterista encontrou Iñarritu para discutir e executar a trilha. Nessas discussões, eles passaram a utilizar o seguinte método: o diretor fechava os olhos, imaginava e descrevia as cenas para Sanchez. A partir desse estímulo, o jazzista fazia improvisações enquanto Iñarritu imaginava novamente a cena. Conforme o diretor dava indicações gestuais previamente combinadas, Sanchez alterava sua improvisação ou buscava determinados efeitos na bateria. Estes gestos podiam significar que Riggan havia fechado uma porta, ou entrado em uma nova sala, etc. Tais improvisações eram gravadas e enviadas aos ensaios dramáticos e técnicos. Conforme a devolutiva que atores e técnicos davam a seu trabalho, Sanchez mantinha ou mudava seus improvisos.

Como tudo no filme é metalinguagem, a trilha musical também não escapa também não escapa dessa sina. Iñarritu brinca constantemente com a origem da trilha. Na sequência já citada, em que um baterista surge nos corredores do teatro, Iñarritu perverte a sensação padrão do público, que é levado, durante a maior parte do filme, a crer que a bateria é um reflexo integral do corpo e da mente do protagonista. Em outro momento também se pode ver um grupo percussivo tocando na rua, enquanto o protagonista corre apenas de cueca após ficar para fora do teatro em que ocorre sua própria peça. Ao localizar o instrumento em cena, o efeito psicologizante da trilha se quebra. Essa brincadeira metalinguística, no entanto, não é gratuita, assim como a escolha da bateria enquanto instrumento único da trilha sonora também não o é. Através desses elementos, Iñarritu e Sanchez buscam apontar para a decadência da indústria do entretenimento (a qual, não obstante, ambos pertencem), que rima com a decadência de Riggan.

Ouça a trilha completa de Birdman aqui.

A bateria, enquanto instrumento percussivo, é usualmente ligada a características já citadas aqui, tais como a organicidade, a visceralidade e, principalmente, uma espécie de primitivismo selvagem que evoca a sensação de caos. Há na bateria, portanto, certo elemento depreciativo. O próprio Sanchez comenta que a maior parte das pessoas, e muitos bateristas, veem a bateria como um instrumento “monocromático”, isto é, limitado e pobre em recursos sonoros. Na trilha de Birdman, o baterista tenta desfazer essas noções, tocando com as mãos, com diferentes baquetas, usando a madeira, captando os pratos de maneiras pouco convencionais, etc. Os novos sons alcançados por Sanchez, porém, vão no sentido de alcançar sonoridades mais cruas e secas  e, portanto, possivelmente incômodos. O compositor expande o universo sonoro da bateria rumo a suas características primordiais, provando que o primitivo pode carregar sofisticação.

 É preciso observar o seguinte: o filme se passa na Broadway, lugar consagrado, na indústria do entretenimento, pelos musicais que, em suas montagens originárias, traziam como trilha um tipo específico de jazz. Esse jazz típico dos musicais era caracterizado por arranjos ricos e sonoramente agradáveis, recheado de metais e orquestrações. Quando Inãrritu convoca apenas bateria voraz e selvagem de Sanchez, é como se, de alguma forma, ele quisesse despir o jazz civilizado, orquestrado e melodioso dos musicais da Broadway, e deixasse apenas seu caráter tribal e originário soar. Essa é uma forma de perverter o jazz de musical. Assim como a figura anti-heroica de Riggan é uma espécie de perversão do herói Birdman.

Tudo em Birdman é perversão e paródia do universo do entretenimento. Portanto, quando Iñarritu resolve localizar a bateria selvagem de Sanchez na cena, ele está mais do que realizando um truque de metalinguagem, ele está antes confrontando duas faces de um mesmo universo. O filme de Inãrritu é carregado de imagens psicológicas e o tempo todo, para usarmos o vocabulário propício, é como se o subconsciente avançasse sobre o consciente, ou como se nossas sombras avançassem sobre o self. Assim, o anti-herói avança sobre o herói, as intrigas de bastidor avançam sobre aapresentação da peça, e a selvageria tribal avança sobre a Broadway. Portanto, os corredores dos bastidores da peça, pelos quais Riggan caminha, e no qual um baterista tritura sua bateria com as baquetas, são, na verdade, o labirinto instável da mente do protagonista.

É como se tudo o que rejeitássemos na vida fosse capaz de voltar com mais força, do mesmo modo que Riggan volta aos palcos, ao fim do filme, após ter sido renegado pela indústria do entretenimento durante anos. Afinal, o protagonista, apesar de sua decadência, de sua rudeza e de sua falta de modos, permanece vigoroso, visceral, e sofisticado, exatamente como a bateria de António Sanchez.

Fontes:

https://www.vanityfair.com/hollywood/2014/11/birdman-score-antonio-sanchez

http://www.underscores.fr/rencontres/interviews-vo/2015/12/interview-with-antonio-sanchez/

 

João Victor Nobrega  é formado em Cinema, ex-colaborador da revista online O Grito! e diretor e roteirista de três filmes universitários