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A ANTROPOFAGIA EM BACURAU

Por Leo Passeti

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles atualizam a proposta antropofágica em amplo diálogo com o cinema de gênero norte-americano

                                                                                        "Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que                                                                                                       estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti." -                                                                                                                                                                Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade

O escuro da tela dá lugar a um emaranhado de estrelas enquanto os créditos iniciais de Bacurau são exibidos. Do silêncio surge a música psicodélica de Gal Costa e lentamente a câmera nos mostra o planeta Terra, é possível ver um satélite pairando sobre a inconfundível costa brasileira até que a câmera mergulha em direção ao nordeste de nosso país. O plano de abertura nos prende em sua grandiosidade e movimento hipnótico: é hora do Brasil ser visto através do deslumbramento e espetáculo.

A abertura do filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles sintetiza uma proposta estética herdada diretamente do movimento modernista brasileiro: a Antropofagia. O termo, cunhado por Oswald de Andrade na primeira edição da Revista Antropófaga, remonta a antigas tradições de alguns grupos indígenas de alimentar-se da carne de guerreiros inimigos derrotados para assimilar suas forças, e foi empregado como uma forma de lutar contra a dominação da cultura estrangeira sobre o Brasil: comê-la. Fundir, de certo modo, as influências internacionais e incorporá-las à nossa produção cultural, sem imitá-la, como maneira de formação de uma identidade nacional através da valorização da cultura popular. Mas o que tornaria Bacurau um filme Antropófago, afinal?

Deixe-me explicar. Surpreendentemente, para muitos, Bacurau é um filme de ação, com leves toques de terror, e seus autores não escondem sua inspiração em filmes americanos: nos faroestes de Sam Peckinpah e em filmes de John Carpenter, como Assalto à 13ª DP. Suas influências são notáveis em Bacurau para aqueles familiarizados às obras. Porém, não há uma tentativa de apenas copiar seus trejeitos em um filme de língua portuguesa (que inclusive possui uma quantidade considerável de diálogo em inglês), de fazer um filme americano no Brasil, isso seria apenas mais um sinal de dominação, mas sim traduzi-los em uma estética tipicamente brasileira, atendendo as exigências de seu contexto politico-social. No início do filme o Brasil que vemos podia ser mostrado apenas através de pesados efeitos especiais, em uma grandeza típica de grandes produções hollywoodianas, mas é essencial e inegavelmente o Brasil, e assim seus autores forçam o olhar do espectador de maneira a olhar para o Brasil da mesma maneira com que vê o estrangeiro. Assim, o filme busca aproximar o espectador do povo, e retratar este como o herói.

Entretanto, só é possível graças a sua intimidade com a cultura popular, um fator frequentemente esquecido pelos realizadores, consequentemente levando-os ao fracasso, crucial para a formação da identidade tipicamente brasileira. Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles realizam uma escolha certeira ao descentralizar o protagonismo do longa, o povo é ao mesmo tempo protagonista e objeto, colocado em situação de extrema desvantagem, é apenas natural que o espectador torça pela sua vitória. Aí está o verdadeiro triunfo da obra: recuperar a identificação do brasileiro consigo mesmo. Ora, a catarse, o momento que arranca aplausos e suspiros emocionados do espectador, vem justamente quando o povo brasileiro arma-se com as armas da própria história para enfrentar o Dragão da Maldade, e derrota o inimigo no seu próprio jogo. Come-o. Antropofagia.

Após assistir Bacurau há a sensação de um frescor raramente visto. Poucas tentativas de incorporar o gênero no cinema brasileiro se provaram tão bem-sucedidas. Talvez a maior concretização das ideias antropófogas no cinema, o espectador torce vêementemente para seu povo e pela derrota do invasor, e o filme não esconde a intenção de criar uma nova imagem do brasileiro, em especial do nordestino, que luta e resiste, a cidade de Bacurau surge quase como o sertão de Guimarães Rosa, pulsante, vivo e infinito. Ao transformar o Nordeste em palco para um verdadeiro faroeste brasileiro Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles procuram redescobrir e reinventar as imagens do Brasil e seu povo, ainda que retratando seu mal-estar, em uma espécie de manifesto anti-imperialista. Só o tempo nos dirá se serão bem-sucedidos, mas Bacurau pavimenta o caminho para algo quase inédito em nosso cinema.