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A Ghost Story: um registro poético da morte na visão do espiritismo

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David Lowery transforma uma premissa clichê dos filmes de terror em um filme dramático e denso acerca da morte e da memória a partir de uma perspectiva inovadora

Texto por: Bia Amorim

 

Lançado em 2017, o longa-metragem dirigido por David Lowery aborda a história de um homem, C, interpretado por Casey Affleck, que morre em um acidente de trânsito em frente à casa em que morava com sua esposa, M, interpretada por Rooney Mara. Entretanto, C, após sua morte, se mantém apegado ao território da casa e a um papel que sua esposa havia deixado no batente de uma das portas e se vê incapaz de deixar o mundo material e partir para o plano espiritual.

Histórias similares, em que um local é assombrado por um espírito incapaz de dali se desligar, são frequentemente exploradas nos filmes de terror ou suspense como Os Outros (2001), Invocação do Mal 2 (2016), Revelações (2003), entre outros. Entretanto, diferentemente dos filmes citados, David Lowery realiza um recorte poético do tema da morte na perspectiva do espírito que não busca provocar o medo, mas trazer, através da forma, a melancolia de um espírito que passa séculos apegado ao mundo material.

De acordo com a doutrina espírita kardecista, a qual, além de ser uma religião cristã é também uma doutrina filosófica e mediúnica, entende que para que o espírito, ao desencarnar, seja capaz de ir ao plano espiritual, no qual ele permanecerá por um breve período antes de reencarnar, ele deve estar desapegado de qualquer valor material, caso contrário ficará preso ao mundo terreno. O espírito pode se manter nesta situação estagnada de angústia por décadas ou até mesmo séculos, como ocorre com o personagem do filme, interrompendo seu processo de evolução espiritual, o qual se dá através das diversas reencarnações pelas quais um espírito deve passar.

Ao longo do filme fica evidente que o espírito de C não estava apegado somente ao misterioso papel que M deixara na porta, mas ao terreno como um todo. Após permanecer no mesmo lugar por séculos até chegar a uma cidade futurista com uma estética cyberpunk, C se desloca no tempo e visita uma de suas vidas passadas, na qual descobre-se que ele, junto com sua família, havia sido morto por índios no local onde futuramente seria construída a casa que ele habita em sua vida com M. Neste ponto, é nítido que o espírito de C possui uma relação afetiva com aquele local que transcende uma única encarnação, explicando, também, o motivo pelo qual o personagem de Casey Affleck se recusar a se mudar daquela casa por gostar das memórias que havia construído ali.

Para essa construção poética do tema que dialoga com as filosofias da doutrina espírita a direção de David Lowery assume o papel central. A primeira parte do filme, que registra a morte e o luto, é marcada por longos planos silenciosos em um tipo de quebra de expectativa, já que em diversos momentos o filme parece caminhar para uma cena de susto ou tensão, mas não é o que acontece. O uso de planos abertos, de longa duração (o mais longo possui quase 5 minutos) e muito bem compostos predominam em todo o longa, mas é nesta primeira parte que eles cumprem o papel de quebrar expectativas e colocar em pauta a melancolia como um sentimento comum entre os dois personagens principais.

 Quebras de expectativa causadas pelos padrões de gênero e temática são exploradas ao longo de todo o filme, a própria cena do acidente fatal provoca uma dissonância entre som e imagem, entre assunto e abordagem. Cenas de morte em um acidente de carro costumam receber um ritmo intenso, com diversos cortes e uma ambientação que contribua para a criação de um cenário trágico. A cena da morte aqui, entretanto, é registrada de maneira leve e naturalista, os carros destruídos com o corpo ensanguentado de C ao volante são introduzidos com uma panorâmica sutil ao som de pássaros cantando no amanhecer.

Assim, com esta escolha formal do diretor, a morte é representada não como um fim trágico, mas como um acontecimento natural e necessário para o ciclo da vida de modo a dialogar, novamente, com as crenças do espiritismo, em que a morte é apenas um momento de mudança, de transição para o espírito, fundamental para sua evolução.

A direção naturalista que dialoga com formas do cinema contemporâneo contrasta com o elemento mais emblemático da mise-em-scène: o lençol sobre C que o caracteriza como um espírito. Fantasmas são representados como um ser flutuante de lençol branco com dois furos nos olhos em todo o mundo, é um clichê que se estende desde a infância, nas festinhas de halloween, até o imaginário popular de diversas pessoas e grupos sociais. O uso desta representação imagética é, no filme, irônica, da qual o diretor se vale para derrubar, a partir do espiritismo, outro estereótipo que predomina no tema da morte. A ironia se revela tanto no contraste entre uma imagem fantasiosa de um fantasma e as imagens naturalistas, como no efeito igualmente cômico e mórbido que o lençol com dois furos provoca. É importante pontuar que o lençol funciona também como um efeito dramático e narrativo, que permite uma fácil identificação com outros personagens espíritos e um momento simbólico no momento em que o espírito se desliga do mundo material e o lençol cai vazio no chão.

Outro recurso estético que contribui para uma abordagem poética da morte é a escolha da janela 1.33:1, a qual, segundo o próprio diretor, se assemelha a uma caixa, trazendo a ideia de que o personagem passa a eternidade preso em uma caixa e enfatizando a sensação de claustrofobia, imobilidade e melancolia. Em uma análise complementar é possível observar que a janela escolhida concede ao filme um aspecto mais íntimo ao utilizar uma estética que se aproxima dos vídeos caseiros do final do século passado.

O som do filme também desempenha um importante papel nesta construção e, neste sentido, o silêncio é o ruído mais explorado. Os diálogos são restritos e a maior parte do filme é silenciosa, ou acompanha uma trilha que se assemelha a uma marcha fúnebre, de modo que o sentimento de luto permeia todo o filme. Os momentos de silêncio, juntamente com a trilha, tornam o filme mais denso e dialogam com a melancolia do personagem.

Analisando a construção poética do filme em diálogo com o espiritismo é fundamental pontuar os momentos em que C interage com as outras pessoas que passam a habitar a casa em que ele vivia. Na cena em que ocorre uma festa com diversos jovens na casa um dos homens fala sobre teorias da física quântica que funcionam como um tipo de análise acerca da vida e da morte que é desenvolvida nas cenas posteriores, que se passam no futuro até o ponto em que o personagem se joga de um prédio e viaja no tempo. A partir das teorias do homem da festa seria possível também considerar a possibilidade de que naquela cidade cyberpunk do futuro a humanidade atingiu o fim de sua existência e o momento que C parece visitar no passado seria uma nova linha do tempo da humanidade, expandindo em milhares de anos o tempo em que ele se manteve preso ao mundo terreno.

A cena em que C deve lidar com uma família latina que passa a habitar a casa também é importante de ser analisada, já que ela é fundamental para a discussão de quebra de estereótipos de gênero e espiritismo. Quando C se revolta e derruba as louças na cozinha para fazer a família ir embora entramos em contato com o backstage de um filme de terror. Filmes de terror frequentemente transformam o espírito em um monstro, entretanto A Ghost Story traz uma nova perspectiva ao abordar os motivos para um espírito se revoltar com situações do mundo carnal, não vemos C como um monstro, mas como um homem que precisa de ajuda para se libertar de seu passado e seguir em frente. Esta visão humanizada do espírito é justamente o que busca trazer a doutrina espírita kardecista, auxiliando espíritos perdidos e revoltados a compreenderem as mudanças e encontrarem seu caminho.

Finalmente, é evidente que ao combinar escolhas estéticas com uma direção inovadora o filme torna-se um registro poético da morte que se dá a partir de uma perspectiva inovadora e se sustenta nas raízes da doutrina espírita kardecista, ampliando a história do personagem C para uma discussão filosófica que compreende toda a humanidade.