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A Nova Hollywood e os Filmes de Terror

O artigo analisa a consolidação do gênero de terror a partir das propostas desse movimento do cinema hollywoodiano em paralelo com uma análise filmica de "Tubarão" e "O Iluminado"

 

  • Introdução

O primeiro filme de terror da história do cinema é um curta de 2 minutos feito por Méliès, em 1896, chamado “A Mansão do Diabo (Le Manoir du diable)”. Anos depois, em 1910, J. Searle Dawley e Thomas Edison produziram “Frankenstein”, uma adaptação de 13 minutos do curta de Mary Shelley. Enfim, em 1920, é exibido o primeiro longa-metragem de terror: “O Gabinete do Dr Caligari”, escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer e dirigido por Robert Wiene. O Expressionismo Alemão foi, portanto, berço do terror e fundamental para a criação do gênero. Os ambientes escuros, os temas mórbidos e a estética gótica são características que aparecem até nos filmes mais recentes, em graus variantes de intensidade. 

Desde 1920 o terror se desenvolveu muito como gênero e passou a ter seus próprios moldes técnicos e estéticos. Aos poucos distanciou-se de sua forma original e passou a incorporar histórias das mais diversas, desde “Hora do Espanto” (1985) e “Halloween” (1978) até “A Morte te Dá Parabéns” (2017) e “Midsommar” (2019). O terror parece se mesclar com o suspense e o mistério, sem fronteiras definidas, e ainda ser capaz de incorporar características de gêneros diversos, como aventura ou comédia. Atualmente, a melhor definição do gênero foi escrita por Snyder, que torna-o mais abrangente, mas ao mesmo tempo esclarece as regras ocultas em todos os filmes do tipo.

As regras, para mim, são simples. A “casa” deve ser um espaço confinado: uma cidade de praia, uma espaçonave, uma Disneylândia futurista com dinossauros, uma unidade familiar. Deve-se cometer um pecado - geralmente ganância (monetária ou carnal) - incitando a criação de um monstro sobrenatural que vem como um anjo vingador matar aqueles que cometeram o pecado e poupar os que percebem o que esse pecado é. O resto é “correr e se esconder”. [Snyder, Blake. Save the Cat! The Last Book on Screenwriting You’ll Ever Need, 2005]

No contexto da Nova Hollywood, os filmes do gênero Monster in the House - nome cunhado por Snyder - fazem sucesso por diversos motivos, mas especialmente na época pós-contracultura, momento permeado pela desilusão. Os filmes alinharam-se com os espectadores nos finais trágicos e histórias violentas, impulsionando seu sucesso.  

  • Desenvolvimento

 Spielberg e “Tubarão”

Steven Spielberg estreou profissionalmente em 1968, aos 22 anos, com o curta-metragem "Amblin" , que lhe rendeu alguns prêmios de festivais importantes. Logo depois Spielberg foi contratado pela Universal e dirigiu seu primeiro longa,  Encurralado (1972), direcionado à televisão. Mais tarde, disse que “Encurralado" foi um dos motivos que o impulsionou a dirigir “Tubarão”, pela semelhança que identificou entre as duas histórias. Em seu próximo filme, “Louca Escapada” (1974), o diretor trabalha pela primeira vez com o compositor John Williams, que teve participação fundamental no filme que lançaria a carreira do cineasta.  Seu primeiro longa de sucesso, “Tubarão” (1975), consolidou sua carreira e lançou no mercado um novo modelo de filme, com alto custo de produção, grande investimento em marketing e efeitos especiais, e lucro milionário - os blockbusters. Spielberg também esteve envolvido na produção de diversos outros filmes do gênero Monster in the House, como “Poltergeist” (1982), “Aracnofobia” (1990), “Cabo do Medo” (1991), “Jurassic Park” (1993), “Super 8” (2011), entre outros. 

Tubarão começa com uma cena de subtexto sexual que logo se transforma na morte de uma jovem ao mar, mais tarde atribuída a  um ataque de tubarão. Quando Brody - recém-chegado na ilha e novo chefe de polícia - decide fechar as praias, é pressionado pelo prefeito para abafar o caso, já que o feriado de quatro de Julho se aproximava e a cidade dependia da renda gerada pelos turistas. A atividade na cidade segue normalmente até que, em um dia movimentado na praia, o tubarão ataca e mata dois banhistas, entre eles uma criança que brincava na água. A população não tarda a entrar em pânico - parte pela segurança de suas famílias, parte pela estabilidade de seus negócios. Ansioso para pôr fim ao caso, Brody convoca um biólogo marinho e convence o prefeito a contratar o caçador de tubarões local. O trio segue para alto-mar, onde se passa o resto do filme. Descobrem, já isolados do mundo, que o tubarão é muito mais forte e mais esperto do que anteciparam. Depois que a fera quebrou a gaiola de mergulho de Hooper, o biólogo, e devorou Quint, o caçador - junto com metade do barco - derrotá-lo parece quase impossível. No último segundo, com a pequena embarcação submersa quase por completo, Brody consegue atirar num cilindro de oxigênio que o tubarão carregava na boca, explodindo o animal em pedaços. Hooper e Brody, aliviados, se agarram a dois barris e nadam de volta à costa. 

O filme de 1975 encaixa-se muito bem na definição de Monster in the House, por Snyder, apresentando todos os elementos essenciais do gênero. O pecado que invoca o monstro é a ganância. Originalmente, o desejo sexual da primeira menina que foi atacada. Ao longo do filme, transforma-se na ganância do prefeito e dos comerciantes quando insistem em colocar seus negócios acima das vidas da comunidade. Aliás, o cenário em que esse pecado se estabelece - um perigo mortal que ameaça a população mas é diminuído em razão da economia - tornou-se extremamente relevante no contemporâneo. O monstro é óbviamente o tubarão. Um tubarão-branco tem, em média, seis metros de comprimento e pesa duas toneladas. O astro do filme, entretanto, estende-se por 7,6 metros e pesa, segundo Quint, pelo menos três toneladas. A casa é a ilha, especificamente o oceano, depois que o trio parte em busca do tubarão. Durante a caça, não é possível ver nenhum pedaço de terra próxima, prendendo os personagens com o monstro em um lugar sem saída. Assim que o tubarão é morto, porém, Brody e Hooper nadam em direção à costa, que não parece tão distante. Spielberg deliberadamente evitou mostrar a ilha antes desse momento para criar a sensação de isolamento dos personagens e encurralá-los com o monstro. O diretor conta:

Era muito importante que não importa para qual direção minhas câmeras apontassem eu não queria ver terra. Meu medo era, o minuto que a audiência visse terra eles diriam ‘olha, isso aqui está ficando intenso, vire o barco e vá em direção àquela terra que fica aparecendo no seu filme’. Eu queria que a audiência se sentisse isolada, como se não pudessem correr de volta à costa porque não tinha costa pra onde voltar [YouTube. (2012, Abril 21). Top searches no Youtube: Junho 2020 [arquivo de vídeo]. Encontrado em: https://www.youtube.com/watch?v=GyTyjUVLjjw]

Uma das maiores qualidades do filme “Tubarão” é a forma como o suspense é criado. Apesar de dar nome ao longa, o tubarão só aparece depois de uma hora de filme. Encorajado pela montadora Verna Fields e pelo mau funcionamento do tubarão mecânico feito para as filmagens, Spielberg encontrou diversas alternativas efetivas para indicar a presença do monstro sem que ele precisasse aparecer em tela. Planos gravados do ponto de vista do tubarão e a música composta por John Williams estão sempre presentes nos ataques do filme, mas a substituição do peixe por objetos (como os barris flutuantes ou o pier que persegue um pescador) também é um artifício desenvolvido pelo diretor. Esses três recursos são os principais responsáveis pela criação do suspense ao longo do filme e geram muito mais tensão na audiência do que os jumpscares, característicos do gênero. Isso porque mostrar o monstro por indicações sutis ao invés de escancará-lo na tela permite que os espectadores completem as lacunas com a imaginação, inserindo, inconscientemente, seus próprios medos e traumas. Assim, o monstro torna-se muito mais pessoal e, portanto, mais aterrorizante. 

A cena do segundo ataque do tubarão reúne esses três elementos. Além do tubarão e sua vítima, há três personagens importantes para a construção do suspense: uma mulher boiando, um cachorro brincando de buscar um graveto no mar e Brody. Brody é responsável por determinar o foco da cena, ignorando todos que tentam tirar sua atenção do mar. Quando o chefe de polícia vê algo se aproximando da mulher boiando, fica visivelmente tenso, mas relaxa quando percebe que é apenas outro banhista - assim, a mulher serve como uma pista falsa, indicando que não há perigo nas águas. Então, o dono de Pippet aparece chamando o cachorro enquanto o graveto com o qual brincavam está boiando no mar - a primeira indicação da presença do tubarão. Por fim, as pernas das crianças brincando na água aparecem pelo ponto de vista do monstro, junto com a música-tema crescente, culminando no ataque - e morte - do menino na bóia amarela. Dessa forma, sem mostrar o tubarão nenhuma vez, o filme é capaz de gerar tensão em seus espectadores. Essa técnica do “menos é mais” aparece também em outros filmes de Spielberg, como “Jurassic Park” (1993) e “Super 8” (2011).

Apesar de evitá-los, o longa não fugiu completamente dos jumpscares. O primeiro aparece no formato clássico, fazendo uso da música de fundo para construir tensão e aumentando o som drasticamente no momento do susto. O segundo, porém, se aproveita da conexão feita entre a música-tema do filme e o monstro. Depois de uma hora de filme, a audiência já sabe o que esperar quando ouve a música de dois acordes. É justo na ausência dela, em meio a uma piada do roteiro, que o tubarão pula da água e se revela pela primeira vez, contando com o despreparo dos espectadores para assustá-los. 

Outra característica sutil mas importante para o impacto visual do filme é o uso da cor vermelha na direção de arte. Ela foi subtraída tanto dos cenários quanto dos figurinos, sendo reservada para o sangue dos ataques, atrelando-a completamente ao tubarão. Há apenas dois momentos em que o vermelho aparece fora desse padrão: quando Brody joga restos de peixes na água para atrair o monstro e quando ele, sua esposa e Hooper tomam vinho tinto em sua casa, consequentemente transformando o vinho em uma metáfora. 

"Tubarão" arrecadou pouco mais de 21 milhões de dólares nos primeiros dez dias de exibição. Logo tornou-se o primeiro filme a arrecadar mais de 100 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. No Brasil, foi o segundo filme mais assistido, depois de "Titanic" . Em Janeiro de 1976, ganhou a posição de filme que mais arrecadou no mundo, com 132 milhões de dólares - e manteve seu título até a estréia de "Star Wars" , dois anos depois. O filme consolidou um novo padrão de marketing de lançamento e pôs fim a um período de recessão de Hollywood, iniciando uma era de filmes altamente lucrativos cujas premissas são simples e vendáveis: os blockbusters. O sucesso do filme foi tanto que sua estrutura tornou-se modelo para outros do gênero, como “Predadores Assassinos” (2019), “Megatubarão” (2018), “Águas Rasas” (2016), “Perigo em Alto Mar” (2010), “Do Fundo do Mar” (1999) e “Piranha” (1978). 

 

 Kubrick e “O Iluminado”

Stanley Kubrick (1928 – 1999) foi um dos mais influentes diretores da história do cinema norte-americano. Sua filmografia, que se insere no período da Nova Hollywood, é constituída por grandes clássicos de diferentes gêneros e temáticas, como “2001: Uma Odisseia No Espaço” (1968), “Laranja Mecânica” (1971), “Nascido Para Matar” (1987) e “O Iluminado” (1980). Kubrick é um cineasta autoral, que exerce uma ponte entre um cinema mais industrial e adaptado aos moldes do novo sistema construído em Hollywood a partir do final dos anos 1960, e entre uma produção de filmes autorais e que trazem às telas críticas sociais, características fundamentais do cinema moderno.

Neste sentido, Kubrick revisa gêneros clássicos e os adapta ao formato moderno, exercendo um recorte autoral e poético sobre as narrativas e produzindo complexas tramas críticas. Em “O Iluminado”, o diretor adapta a obra literária de Stephen King para o cinema, utilizando-se do gênero de terror como pano de fundo para exercer uma crítica a toda a sociedade norte-americana do final do século XX, analisando as consequências da própria história do país.

O filme aborda a história de uma família de classe média branca padrão norte-americana que passaria os cinco meses de inverno cuidando do hotel Overlook, no Colorado, o qual deveria permanecer fechado durante esse período por conta das tempestades de neve que o isolam do resto do mundo. 

O pai, Jack Torrance, interpretado por Jack Nicholson, é introduzido desde os primeiros momentos do filme como um ex-alcoólatra agressivo que parece agir de maneira bastante autoritária com sua esposa, Wendy Torrance, interpretada por Shelley Duvall e com seu filho, Danny Torrance, interpretado por Danny Lloyd. Assim, tendo Jack Nicholson no papel de co-protagonista é nítido que Kubrick, apesar de suas tendências autorais, também estava inserido no sistema da Nova Hollywood, já que Nicholson era um dos principais atores desse novo star system.

Nos primeiros planos do filme Kubrick já nos antecipa o destino trágico das personagens. A primeira cena inicia-se com o carro de Jack subindo a montanha em direção ao Overlook para sua entrevista de emprego. Acompanhado de uma trilha sonora fúnebre, o plano aéreo e bastante aberto torna o carro um pequeno ponto no meio da imensa e isolada montanha. O carro parece estar rumo à morte, a um cenário tão sombrio quanto a trilha sonora que o acompanha. 

Outro aspecto interessante deste primeiro momento do filme é o fato de que somos introduzidos ao Overlook antes mesmo de conhecer as personagens. Ao analisar a narrativa e as críticas propostas por Kubrick, torna-se evidente que o hotel é o protagonista e que os três membros da família são personagens superficiais que servem aos estereótipos norte-americanos sobre os quais o diretor tece as críticas.

Em relação à construção dos personagens, aquele que possui um desenvolvimento mais profundo e que escapa aos meros estereótipos seria Danny, o personagem “iluminado” que dá o título à obra. Danny possui um tipo de mediunidade que lhe permite ver e interagir com os espíritos, ter visões sobre o futuro, as quais são geralmente apresentadas por seu amigo imaginário Tony, além de se comunicar com outras pessoas que possuem esse mesmo tipo de “individualidade”, o que lhe permite entrar em contato com o cozinheiro do hotel, Dick Hallorann, e pedir socorro. Danny é, portanto, uma representação da nova geração, que seria capaz de enxergar os problemas da história do país e romper com os ciclos de violência opressora enraizados na sociedade.

Para tal construção crítica a direção de arte de “O Iluminado” assume um papel central. O hotel, como é explicado pelo gerente no filme, fora construído sobre um cemitério indígena e durante as obras a relação com os habitantes nativos teria sido conflituosa. Entende-se, aqui, que os índios foram expulsos de seu território para que a construção do Overlook fosse possível. Assim, de maneira bastante irônica, toda a decoração do hotel é inspirada na cultura indígena. As tapeçarias nas paredes, mapas e quadros, louças com estampas indígenas e até mesmo a estrutura do hotel, que se assemelha a uma grande cabana de madeira no meio da montanha.

Um interessante contraste com essa decoração é o figurino do gerente do hotel que entrevista Jack no início do filme. O homem branco e loiro usa uma camisa branca com listras vermelhas e um terno azul marinho como se estivesse envolto pela bandeira dos EUA, e, de maneira alegórica, ele certamente está. Ele é a representação do homem branco imperialista que triunfou sobre os nativos norte-americanos, se apropriando e se apossando de tudo que lhe foi possível.

O figurino de Wendy também é um elemento fundamental na construção de sua representação. A personagem aparece sempre com os cabelos pretos presos em duas tranças e todas as roupas que ela usa trazem algum elemento da cultura indígena, seja um xale, um vestido ou uma camisa com estampas nativas, além do próprio estilo e caimento do figurino, que, em conjunto com seu cabelo, constroem a imagem da mulher indígena. 

Outro aspecto interessante do figurino de Wendy é que, apesar dos elementos indígenas, na maioria das cenas as roupas compõem a paleta de cores da bandeira norte-americana, de modo que Wendy seria, assim, a representação da verdadeira mulher estadunidense, aquela que cuida da casa e da família enquanto o marido se isola em um cômodo realizando um trabalho superficial e se negando a participar das tarefas das casa.

Jack, portanto, representa o pai de família tradicional, aquele que só se dedica ao seu próprio trabalho, é negligente com a mulher e o filho e tem problemas com álcool, que o torna agressivo. Como ele próprio afirma na cena do bar em uma referência histórica, ele carrega o “fardo do homem branco”. Jack é fruto de uma cultura patriarcal que permeia a história norte-americana e ao passar dias em um ambiente construído através da opressão, os fantasmas da história estadunidense convertem-se no demônio que conduz a família a um final trágico. Não é possível definir com certeza a causa da loucura de Jack, ele parece estar sendo influenciado por fantasmas do passado, mas, ao mesmo tempo, a agressividade que ele externa não parece ser algo sobrenatural, mas algo que já estava presente em si o tempo todo.

Assim, Kubrick constrói um monstro ambíguo, a fonte do terror é simultaneamente sobrenatural e humana, funcionando como uma alegoria para as consequências da história norte-americana. Neste sentido, é possível analisar a forma como o diretor reinventa o gênero clássico do terror ao trazer esse monstro que se revela na figura do pai, do marido, daquela pessoa na qual a família confiava, mas contra a qual terão que lutar para sobreviver. Danny e Wendy não estão sendo ameaçados por um vampiro, um zumbi, um monstro selvagem e nem por um demônio, mas pela cultura machista, patriarcal e opressora enraizada na sociedade norte-americana.

A violência e a sexualidade, temáticas centrais dos filmes da Nova Hollywood, também são exploradas por Kubrick para a construção dessa “maquete social”. A violência se apresenta com maior evidência na própria narrativa e no personagem de Jack, mas ela fica nítida principalmente nas cenas finais, em que o personagem persegue sua família com um machado e ele parece sadicamente se divertir com toda a situação. Esse aspecto sádico de Jack já nos havia sido introduzido no início do filme quando ele fala sobre os exploradores que tiveram de recorrer ao canibalismo para sobreviverem e ele parece extrair um tipo de prazer do assunto. Esta cena traz também a presença da violência como algo natural na sociedade norte-americana, já que Danny afirma ter aprendido sobre o canibalismo na televisão.

A cena do elevador transbordando sangue, que se repete várias vezes ao longo do filme, também funciona como uma alegoria para a abordagem da violência. Esta cena, em paralelo com o que os personagens e o hotel representam, traz a violência sanguinária de maneira histórica, ou seja, todos os momentos históricos vividos por aquele hotel e por aquele terreno foram marcados pela violência, e na atualidade em que se passa o filme todo aquele sangue de diversas épocas transborda do elevador para os corredores do hotel.

A temática da sexualidade aparece com menos centralidade na narrativa, mas está presente na cena em que Jack vai investigar o quarto 237 e se depara com uma bela mulher nua. Apesar de ser uma situação muito estranha na qual Jack deveria se assustar, sua primeira reação é sorrir de maneira maliciosa e em seguida beijá-la. Aqui, fica claro como Jack traz o lado mais selvagem e instintivo do homem, ele é movido pela violência, pelo egoísmo e pelo desejo sexual.

Por fim, um último aspecto de “O Iluminado” que é importante de se analisar em paralelo com as propostas da Nova Hollywood é o próprio ritmo do filme dado pelas escolhas de direção de Kubrick. O filme é repleto de inserts que são usados principalmente com as visões de Danny, de modo que o espectador é levado para dentro da mente do garoto. Estes contribuem também para o aumento da tensão e de um ritmo mais agressivo ao filme. 

Para criar esse ritmo que esteja de acordo com o que se espera de um filme de terror, Kubrick explora mais os movimentos de câmera do que os cortes. Em filmes de terror mais clássicos há uma grande exploração dos cortes como produtores de sustos e tensão, mas aqui, Kubrick o faz com os movimentos de câmera, em uma proposta que parece se alinhar mais a estética do cinema moderno introduzida por Orson Welles em “Cidadão Kane” quarenta anos antes. Aqui, o exemplo mais clássico seria a cena icônica em que Danny anda de triciclo pelos corredores do hotel até que encontra com os fantasmas das irmãs gêmeas. A cada curva que Danny faz em seu triciclo e que a câmera o acompanha em um plano sequência, o espectador se prepara para o que pode aparecer.

Muitos desses aspectos estéticos modernos que Kubrick introduz em 1980 para o terror, acabam constituindo um novo momento para o gênero, de modo que “O Iluminado” se torna uma grande referência clássica para o terror e para se estudar os recursos formais da produção desse gênero cinematográfico.

 

 “Terror em Amityville” e uma Análise de Gênero

O roteirista americano, Blake Snyder, publicou em 2005 o livro “Save The Cat! The Last Book on Screenwriting You’ll Ever Need”, no qual, entre diversos outros assuntos, ele faz um estudo sobre os gêneros cinematográficos e propõe uma classificação própria. Dentre as classificações apresentadas, Snyder cria o gênero “monster in the house”, do qual fazem parte a maioria dos filmes que classificamos como “terror” e “suspense”. Segundo o autor, o pré-requisito fundamental para que um filme se encaixe nesse gênero é possuir um tipo de monstro que atormenta as protagonistas e um ambiente do qual, por algum motivo, aquelas pessoas não conseguem sair e escapar do monstro.

Assim, é possível encaixar nesse mesmo grupo filmes dos mais diversos, como “Jurassic Park” (1993, Steven Spielberg), “Alien: O Oitavo Passageiro” (1979, Ridley Scott), “O Exorcista” (1973, William Friedkin) e os filmes aqui analisados, “Tubarão” (1975, Steven Spielberg) e “O Iluminado” (1980, Stanley Kubrick).

Snyder afirma, também, que para que o filme do gênero “monster in the house” funcione é necessário que alguém tenha cometido algum tipo de pecado que invoque o mal. Assim, trazendo esse requisito para “O Iluminado” seria possível pensar no pecado por dois ângulos distintos. O primeiro diz respeito ao pecado da sociedade norte-americana como um todo e, portanto, o monstro que Jack Nicholson encarna seria uma consequência histórica de pecados. O segundo, entretanto, seria a perspectiva do próprio Jack, que considera que Wendy e Danny haviam saído da linha e que era seu dever lhes corrigir, no caso, matando-os.

O gênero “monster in the house” por se tratar de um dos gêneros de história mais primitivos, segundo o autor, ele nunca se esgota, entretanto é fundamental que ele seja constantemente reinventado para funcionar, como o fazem muito bem Spielberg e Kubrick, que trazem propostas para o gênero que ainda hoje nos parecem inovadoras e são exploradas no terror contemporâneo.

Entretanto, nem todos os filmes de terror têm sido capazes de trazer algo novo para essa mesma estrutura, de modo que nota-se atualmente um momento de transição, em que aspectos formais do terror que vinham funcionando desde a Nova Hollywood se veem esgotados e provocam o riso muito mais do que o medo. O filme “Terror em Amityville” (1979) dirigido por Stuart Rosenberg e que já foi refilmado diversas vezes em diferentes décadas e por diferentes diretores, traz exemplos muito claros de uma estrutura de filme de terror que surgiu no período da Nova Hollywood, fez muito sucesso, mas que atualmente está exaurida e não parece mais funcionar como antes.

No filme em questão, um casal jovem com três filhos e um cachorro se muda para uma casa onde há algum tempo havia ocorrido uma tragédia, um pai que enlouqueceu, matou a família toda e em seguida se matou. Após alguns dias vivendo na casa, a filha mais nova diz ter um amigo imaginário, o qual descobre-se ser uma das crianças assassinadas pelo pai louco. O pai passa a apresentar um comportamento evasivo e agressivo. Preocupada com coisas estranhas acontecendo na casa, a mãe chama um padre para benzer o terreno, mas ele se assusta com coisas sobrenaturais que vê e foge. O cachorro é o primeiro a sentir que havia algo de estranho na casa e, mais no final do filme, descobre-se que o problema vinha do porão, onde havia uma espécie de portal para o inferno.

Todos esses elementos da narrativa citados constituem uma série de clichês que, em 1979, provocavam suspense e tensão, mas que, devido ao sucesso comercial do modelo, eles foram demasiadamente utilizados, de modo que atualmente um filme com a premissa: “família padrão se muda para uma casa no interior onde ocorrera um assassinato”, não desperta mais interesse e é absolutamente previsível. Assim, esta breve análise da estrutura do “Terror em Amityville” em contraste com as demandas do público atual dos filmes de terror comprova a teoria de Snyder de que o gênero “monster in the house” deve ser constantemente reinventado para sobreviver.

Se comparamos a premissa narrativa de “O Iluminado” e de “Terror em Amityville”, ambos parecem ser muito parecidos: um pai que enlouquece e quer matar sua esposa e filhos. Mas a diferença principal entre ambos (em questão de narrativa) se dá na causa da loucura do pai. George, o pai de “Terror em Amityville”, que no início do filme é apresentado como um homem carinhoso, está evidentemente sendo possuído por algo sobrenatural que habita aquela casa e que já fizera o mesmo com a família anterior. Por outro lado, Jack desde o primeiro momento do filme nos parece monstruoso e Kubrick faz um filme que deixa mais questões no ar do que as responde. Sua loucura, como já dito, é ambígua, não há um porão no hotel Overlook que a justifique, como há na casa de Amityville.

 

  • Conclusão

Os filmes de terror da Nova Hollywood trazem características típicas da época, como montagem acelerada, premissa simples, jumpscares, entre outros. Dessa forma, diferenciam-se de suas origens no Expressionismo Alemão. Mesmo assim, ambos compartilham o fundo temático e, em algum nível, estético, muitas vezes trazendo a tona assuntos violentos, trágicos e mórbidos, que podem ou não estar disfarçados pelos clichês dos filmes. Muitas vezes desconsiderados em análises mais profundas, o sucesso de filmes de terror é extremamente dependente de sua relação com o contemporâneo e sua capacidade de refletir os medos da audiência. Mantém, portanto, sua relevância cinematográfica e podem servir como espelho da sociedade em que foram produzidos. 

Apesar da impopularidade do gênero entre críticos, os filmes de terror tem tanto potencial quanto os de qualquer outro gênero. Tanto "Tubarão" quanto "O Iluminado" foram responsáveis por reinventar não apenas o gênero Terror, mas toda a indústria de Hollywood. Consolidam-se, por isso, como filmes indispensáveis para a história do cinema.