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“DI-GLAUBER”, O DOCUMENTÁRIO COMO UM DOCUMENTO

Como Glauber Rocha transforma um registro documental em documento histórico e modernista

Texto por: Bia Amorim

 

Glauber Rocha, em seu documentário de 1977, “Di-Glauber”, produz, em homenagem ao pintor, uma obra de arte modernista que se converte em documento ao mesclar imagens do velório de Di Cavalcanti com uma linguagem estritamente modernista e que dialoga com a proposta artística do próprio pintor. O filme, entretanto, não foi bem recebido pela família do artista, sendo banida sua exibição em território nacional em 1979 até 2004, quando o curta foi colocado na internet com o subtítulo: “Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua quimera, somente a ingratidão essa pantera, foi sua companhia inseparável”.

Estes versos pertencem ao poema “Versos Íntimos” de Augusto dos Anjos, os quais indicam uma abordagem pessimista das relações interpessoais, o fim da esperança, a indiferença para com os sonhos alheios destruídos e a ingratidão, sendo esta última, uma provável motivação para a escolha destes versos como descritivos do filme, já que Glauber produz o documentário em homenagem a Di Cavalcanti, mas a família o rejeita por considerar as imagens desrespeitosas, o que justifica a fala “filmagem causa espanto e irrita filha e amigos” no início do documentário.

Outro aspecto interessante à análise nos versos de Augusto dos Anjos, seria o termo “quimera”, o qual pode ser relacionado, nesse caso, à própria arte moderna e, mais especificamente, às telas de Di Cavalcanti. Estas, características de uma arte de vanguarda que recebe influência de pintores como Picasso, Cézanne e Braque, assumem aspectos de quimera (criatura mítica), ou seja, um todo composto por partes heterogêneas e diversas.

Assim, esta formalidade modernista mostra-se presente nas escolhas formais do documentário, as quais estabelecem um diálogo entre a arte de Di Cavalcanti com a de Glauber. As imagens são realizadas com a câmera na mão e parecem buscar compor, através dos fragmentos ali registrados, uma obra de arte que sintetize a produção artística do pintor. Um aspecto fundamental para esta composição seria o som, um resultado entre uma narração que remete à linguagem do rádio, com músicas de Jorge Bem Jor e Paulinho da Viola.

O rádio é um dos elementos mais característicos do século XX, tendo sido um dos mais importantes veículos de comunicação deste período. Ao utilizar-se da linguagem do rádio, aproveitando-se do efeito da mudança de estação, mas abordando sempre assuntos relacionados à vida e à morte de Di Cavalcanti e em alguns momentos, à própria produção do filme, o documentário engrandece o pintor, já que todas as estações de rádio da época pareciam estar falando sobre o artista. Além disso, esta linguagem torna o filme mais “brasileiro” ao aproveitar uma narração de rádio que muitas vezes se aproxima das locuções de jogos de futebol.

Segundo o historiador francês, Jaques Le Goff, há uma revolução na produção de documentos na segunda metade do século XX, na qual o historiador abandona o papel ingênuo de busca pela verdade e passa a atuar ativamente de maneira crítica na produção desses documentos, que se tornam também, monumentos. Aqui, o documento reflete um inconsciente social ou uma crítica consciente do historiador, sendo o resultado de uma montagem, de uma produção inevitavelmente ideológica que busca moldar a imagem do que se documenta para uma sociedade futura.

Glauber, portanto, assume esse papel de historiador crítico ao escolher uma determinada linguagem e um determinado recorte para abordar a vida e a morte de Di Cavalcanti. O cineasta não pode ser neutro pois a câmera necessariamente deixa algo de fora, o registro e a montagem são intencionais e ideológicos, produzindo uma certa imagem do artista que será vinculada a sua memória, já que o documentário abandona seu papel estritamente documental para se tornar, na linguagem de Le Goff, um documento / monumento.