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“Tcharafna”: A criação da memória a partir do contraste

 

Gui Mohallem, em “Tcharafna”, constrói uma relação subjetiva e intimista com as memórias da família de seu pai, o qual deixou o Líbano há mais de 60 anos para viver no Brasil.

 

 

Em sua busca por compreender tais memórias e o próprio sentimento da emigração, o artista cria uma narrativa de contrastes, que amplia o campo semântico da obra de modo a escapar da abordagem restrita à sua família.

Há, desde o primeiro momento, uma trajetória das cores que acompanha o desenvolvimento da narrativa e a construção conceitual da memória. A memória da emigração é construida como uma memória de morte, o que fica traduzido na paleta de cores utilizada. Com as fotografias iniciais, Mohallem orienta o olhar do espectador a buscar o vermelho e no momento em que as fotografias vermelho-vivo (porém sem foco) de sua família dão lugar à fotografia do bowl de amoras, nosso olhar voa para o ponto das amoras que concetra maior intensidade de vemelho, enquanto que no resto da imagem as cores mortas começam a surgir.

Nas imagens que seguem, a morte e o vazio se tornam cada vez mais presentes. O vermelho dá lugar a uma paleta seca e sem vida. Neste momento, o artista parece recorrer ao Efeito Kuleshov para enfatizar os contrastes de sua narrativa.

Ao posicionar um plano aberto de um campo desértico em seguida de um plano sufocante e sem profundidade de uma porta, tanto a porta se torna mais fechada quanto o campo se torna mais aberto. Do mesmo modo que, ao vermos o bowl de amoras vazio após tê-lo visto cheio, o vazio nos parece mais vazio. Assim, ao produzir esses contrastes, Mohallen evidencia a intensidade dos sentimentos libaneses em relação à temática abordada.

Por fim, a ampliação do campo semântico já mencionada se dá pela simbologia e pela ambiguidade contida nas imagens. Posso olhar para a imagem da mão manchada e lembrar-me do tempo em que comia amoras no sítio dos meus avós, mas posso também pensar em todas as dificuldades que o povo libanes já enfrentou e pensar em uma mão manchada de sangue, marcada pela luta, ou ainda, associá-la diretamente à morte, à morte que nos versos do poema de sua família confunde-se com a emigração.