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A Bela Época

Esta primeira época explicitamente se configura como um movimento completo, com seus inícios, dúvidas, fortalecimento, ápice e queda. Apesar de sua aparente dissociação do resto da história do cinema brasileiro, é, entretanto, uma antecipação irregular de sua força e identidade, assim como de seus impasses, de sua percepção e avaliação. Um exercício óbvio para quem não pode mais ter medo de ver a própria face. Roberto Moura (MOURA, 87, 13)

Os anos compreendidos entre 1908-1911 marcam o período conhecido como “A Bela época do cinema brasileiro”, momento em que o cinema floresceu no Brasil para depois mergulhar num longo ocaso provocado pela invasão dos filmes estrangeiros, sobretudo pelas produções americanas, que já começavam a “engatinhar” rumo ao monopólio cinematográfico mundial.

Para compreendermos a “Bela época”, devemos ter em vista o panorama político e social que envolvia o Rio de Janeiro, capital da então novíssima república e o berço do cinema nacional
“Na virada do século, com quase um milhão de habitantes, o Rio de Janeiro era o centro vital do país. Principal sede industrial, comercial e bancária, principal centro produtor e consumidor de cultura, a cidade era a melhor expressão e a vanguarda do momento de transição por que passava a sociedade brasileira”. Este pequeno trecho extraído do livro Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro (Cf. MOURA, 87,13), de Roberto Moura, nos ajuda a entender o processo de mudanças que estava ocorrendo na capital federal. A cidade transbordava de migrantes nacionais e europeus, surge uma classe proletária formada basicamente por operários estrangeiros no setor industrial. Negros e nordestinos trabalham nas obras públicas e na construção civil, setores revigorados pela explosão demográfica.

Com a República o funcionalismo público se expande, criando empregos para técnicos instruídos. Essa diversidade de origens e culturas cria uma demanda de entretenimentos alternativos. As elites importam as companhias de canto lírico, mas a maior parte da população não podia pagar ingressos caros e o mercado se abria para uma diversidade de músicos, dançarinos e circos. Em 1903, com Pereira Passos na prefeitura e o governo progressista de Rodrigues Alves, o Rio de Janeiro passa por transformações que aceleram o ritmo de modernização urbana - os trabalhos profiláticos desenvolvidos por Osvaldo Cruz e os projetos urbanísticos, que fariam surgir uma “nova cidade” - , o que criaria um campo fértil para que as novidades técnicas e industriais florescessem.

Segundo Antonio Moreno, “Ao analisarmos o período 1896 - 1906, observaremos a existência de poucas salas fixas de exibição e um cinema ambulante de pouca significação no Rio de Janeiro e em São Paulo. A agravante principal dessa situação era o fato de o Brasil ainda não dispor de eletricidade suficiente para a manutenção do consumo exigido. Em março de 1907, no Rio, quando a energia elétrica passa a ser gerada pela usina do Ribeirão de Lajes, proliferam as salas de exibição: apenas entre agosto e setembro de 1907 são inauguradas dezoito novas salas” (MORENO, 94, 43), neste estado de coisas, o cinema encontrou um clima propício para se desenvolver e chegar a incrível marca de 200 filmes anuais – naquela época as “vistas” eram consideradas filmes, quando o dono da sala de exibição era também o produtor do filme (BAUNWORCEL, 98, 6).

Apesar dessa boa produção em termos quantitativos, Antonio Moreno, adverte que: “A produção realizada entre 1908 - 1911, chamada “época áurea” do cinema brasileiro, é fruto de um artesanato vigoroso, sendo, no entanto, manifestação tardia, entre nós, de um fenômeno que em outros países já se transformara em indústria” (moreno, 94, 44).

O harmonioso esquema “produtor-exibidor” - o dono do cinema era também o produtor do filme - alavancou a produção carioca e as produções nacionais dominavam o mercado em franca expansão. Com o barateamento dos ingressos o cinema se afirma como espetáculo e negócio bastante promissor até 1911, quando entra em cena a Companhia Cinematográfica Brasileira. Esta companhia, gerenciada por Francisco Serrador (dono de uma cadeia de cinemas e produtor) e a “associação de industriais e banqueiros diretamente ligados ao capital estrangeiro” (MORENO, 94, 45), defendia os interesses dos grandes produtores europeus e norte-americanos e com o apoio de Serrador não teve grandes dificuldades para aliciar o mercado brasileiro em função do filme estrangeiro.

Com o desenvolvimento tecnológico e os vultosos investimentos exigidos pela indústria cinematográfica estruturada na Europa e nos Estados Unidos, o promissor mercado brasileiro despertava interesses bem rentáveis para empresários, distribuidores e jornalistas locais, que se beneficiavam com o generoso esquema de divulgação, com matérias pagas, anúncios veiculados na imprensa e o surgimento de publicações específicas. Este esquema de divulgação, amplamente utilizado pelo cinema norte-americano, iria gerar o star-system, popularizando os nomes de estrelas que arrastam multidões aos cinemas e garantem o êxito de um filme.

A desarticulação do esquema “produção-exibição” e o nível de qualidade técnica superior dos filmes estrangeiros, amparados por laboratórios, câmeras e investimentos incomparáveis ao produto nacional, desestabilizou o cinema brasileiro que havia conseguido um surpreendente crescimento entre os anos de 1908-1911. A produção nacional caiu para seis filmes em 1912, o que causou desemprego entre técnicos e artistas. Alguns realizadores, como Antonio Leal e os Irmãos Botelho, voltaram-se para o campo dos documentários e produzindo esporadicamente filmes de ficção com recursos próprios, sem saber onde iriam exibi-los. O público habituado com os filmes nacionais, logo acostuma-se com o substituto estrangeiro. Afinal, também era costume o deslumbramento com o produto importado dos centros europeu e norte-americano. O que não mudou muito ainda hoje.

Bibliografia

BAUNWORCEL, Ana. Mortes e Renascimentos. Caderno B. Jornal do Brasil, Rio de janeiro, 21 jun. 1998.

MORENO. Antonio. Cinema Brasileiro: História e Relações com o Estado. Niterói: EDUFF, Goiânia: CEGRAF/UFG, 1994.

MOURA, Roberto. A Bela Época (Primórdios-1912). In: RAMOS, Fernão (Org.). História do Cinema Brasileiro. 2. ed. São Paulo: Art Editora Ltda., 1987.
MOURA, Roberto. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de janeiro, Funarte, 1983.

* Sandro Santana é mestrando do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da FACOM/UFBA.


Data de publicação: 12/09/2005