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Primeiras tentativas de sonorização no cinema brasileiro (os cinematógrafos falantes - 1902 – 1908)

O tema deste trabalho é a passagem por terras brasileiras do chamado cinematógrafo falante, ou seja, a tentativa de sincronização mecânica entre projetor e fonógrafo, entendida como a primeira experiência sistemática de sincronização entre imagens e sons cinematográficos a ser exibida no país.

 

1. CHEGADA DO CINEMATÓGRAFO, CHEGADA DO FONÓGRAFO

O tema deste trabalho é a passagem por terras brasileiras do chamado cinematógrafo falante, ou seja, a tentativa de sincronização mecânica entre projetor e fonógrafo, entendida como a primeira experiência sistemática de sincronização entre imagens e sons cinematográficos a ser exibida no país. As vindas dos cinematógrafos falantes compreendem o período entre 1902 e 1908. A primeira delas, isolada e breve, ocorre em 1902; entre 1904 e 1906, um período de maior sucesso e duração; e por fim, entre 1907 e 1908, quando um surto de falantes foi interrompido pelo advento de outra forma de sincronização, os chamados filmes cantantes.

A análise dessas trajetórias visa ressaltar que a passagem dos aparelhos se deu por praticamente toda a extensão do território nacional. Consideramos este um ponto importante, a fim de se evitar o erro metodológico costumeiro de restringir-se a análise de um fenômeno nacional à sua análise nos principais centros econômicos. E, mais do que isso, veremos que tais equipamentos chegaram pelo norte do país, tendo as exibições em cidades como Belém e São Luís precedência sobre o sul e a Capital Federal.

Quando a bibliografia existente sobre o cinema brasileiro enfoca os primórdios, há sempre espaço para os comentários sobre a variedade de aparelhos que aportou em terras brasileiras entre os últimos anos do século XIX e os primeiros do século XX. Alex Viany, no seminal Introdução ao cinema brasileiro, de 1959, citava a famosa provável primeira sessão no Rio de Janeiro, do omniógrafo na Rua do Ouvidor, em 8 de julho de 1896. Detectava a chegada, no ano posterior, dos cinematógrafos Edison e Lumière e do animatógrafo. Paulo Emílio, no Panorama do cinema brasileiro, de 1970, comentava, de forma análoga, a curiosidade da série de nomes que batizavam os primeiros projetores a funcionar em território nacional. Além do já citado animatógrafo, o biographo (1) , o vitascópio e os mais obscuros vidamotographo e o cineographo. (GOMES, 1986, p.39)

Vicente de Paula Araújo, em sua detalhada pesquisa contida em A bela época do cinema brasileiro, detalha a passagem desses aparelhos pelo Rio de Janeiro. Lá estão reproduzidas as notícias do Jornal do Comércio de 9 de julho de 1896 sobre a sessão do omniógrafo (ARAÚJO, 1976, p. 75-76), da Gazeta de Notícias de 28 de março de 1897 sobre o cinematógrafo de Edison, e sobre o animatógrafo, na mesma Gazeta de Notícias, em 4 de abril de 1897, citado como outra patente de Edison, trazido ao Rio de Janeiro por Victor de Maio, um dos mais atuantes ambulantes responsáveis pela divulgação dos primeiros projetores nestas terras. A essa lista, Vicente de Paula Araújo faz ainda um acréscimo: a passagem, anterior aos dois últimos, do Kinematógrafo Portuguez, trazido pelo Sr. Amélio da Paz dos Reis, que deu exibições no Teatro Lucinda de 14 a 20 de janeiro de 1897, com um programa que continha “vistas de Portugal e episódios da vida portuguesa”. (ARAÚJO, op. cit. 78-80)

O que interessa a este trabalho é que esta catalogação dos primeiros projetores, quando se estende até o ano de 1902, vai encontrar, no Rio de Janeiro, as primeiras tentativas de sincronização mecânica entre imagens e sons, ou seja, entre projetores e fonógrafos. Sendo esse nosso tema principal, nos deteremos sobre ele em seguida. Por enquanto, nos basta fazer um breve levantamento da chegada do fonógrafo. Para compreender como logo o público carioca estaria assistindo à exibição conjunta de projetores e fonógrafos, sincronizando-se pela primeira vez nas telas sons e imagens, é preciso estar a par do sucesso que fonógrafos e gramofones já faziam no Rio de Janeiro. Este rápido levantamento nos é essencial, pois a comercialização dos fonógrafos no Brasil está vinculada à comercialização do quinetoscópio de Edison, no país desde 1894, anterior à sempre citada vinda dos primeiros projetores coletivos, a partir de 1896. A chegada tanto de um quanto de outro se conjuga na presença de Frederico Figner.

Máximo Barro já descrevera brevemente, em A primeira sessão de cinema em São Paulo, a chegada deste tcheco que vinha dos Estados Unidos, e que percorrera o Brasil primeiro com os fonógrafos, e três anos mais tarde, com os quinetoscópios. O trabalho publicado a pouco por Humberto Franceschi sobre a Casa Edison, empresa de Figner que viria a ser a pioneira em gravações fonográficas na América Latina, trata da vinda do tcheco ao país em detalhes.

Figner, que vivia no Estados Unidos desde 1882, naturalizado cidadão norte-americano desde 1891 (mais tarde, se naturalizaria brasileiro), tivera seu primeiro contato com o fonógrafo em 1889, em San Antonio, Texas. Já imbuído da idéia de descer aos países latinos para comercializa-lo, Figner teria recebido, segundo Franceschi, “de um judeu vendedor de vernizes” o conselho que selaria sua trajetória: “vá ao Brasil que você fica rico”.

Cabe informar que Figner não estava meramente adquirindo os fonógrafos, e sim, de acordo com a política de Edison, o direito de exibição nos territórios a serem explorados. Assim, ficaria responsável pela sua distribuição aonde quer que com eles chegassem. Chega a Belém do Pará, tendo saído de San Francisco em agosto de 1891. Vai, na seqüência, para Manaus, e depois inicia o caminho para o sul. Exibe o fonógrafo em Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife e Salvador, chegando ao Rio de Janeiro em 21 de abril de 1892. (FRANCHESCI, 2003, p.17-18)

Franceschi lembra, e disso encontramos indícios nas pesquisas de outros autores, que Figner não foi o pioneiro da introdução do fonógrafo no país. Inegável é que sua difusão e o sucesso de suas vendas se deve ao tcheco. Exibições do aparelho, porém, antes de sua chegada, há algumas.

No ano seguinte ao da patente tirada por Edison, e quatro meses após a sua primeira exibição pública, o fonógrafo debutava no Rio de Janeiro, em uma das Conferências da Glória, exibições periódicas de novidades, assistidas com freqüência pelo imperador D. Pedro II, no Largo do Machado. A conferência em questão se deu em julho de 1878. O exibidor, F. Rodde, faria outras demonstrações públicas do mesmo aparelho dias depois, a 26 do mesmo mês, na sua loja na Rua do Ouvidor. (FRANCESCHI, op. cit. P.19-20)

Nos anos seguintes, seguiriam havendo exibições esporádicas, antes da entrada de Figner na praça, mais de dez anos após aquela primeira vinda. Vicente de Paula Araújo comenta que em 1880, dois anos depois de ter tido o primeiro contato com o aparelho, D. Pedro II era presenteado com um fonógrafo pelo romancista francês Gustave Aimard. (ARAÚJO, 1976, p. 47)

Figner exibiria o fonógrafo por alguns meses, em 1892, em loja na Rua do Ouvidor, 167. No mesmo ano, partiria para divulgação em São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto, Piracicaba, e rumando para o sul, teria parado em Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, saindo, na seqüência, do país, tendo estado em Montevideo e Buenos Aires. Estaria de volta ao Rio de Janeiro no ano seguinte, mas dentro de pouco tempo partia para a Europa.

Nos EUA, em março de 1894, trava contato com a nova invenção de Edison, o quinetoscópio, na Exposição de Chicago. Em um manuscrito de Figner está a descrição desse projetor individual que se trata da primeira patente referente à execução de imagens em movimento tirada por Edison. Franceschi e Barro transcrevem, em seus respectivos livros citados, esta descrição, que define o quinetoscópio como:

um armário de 1m 20 de altura, por dentro do qual, sobre roldanas, se movia uma fita igual as do cinema de hoje, com os mesmos quatro furos, e por cima do armário, numa ponta, havia um buraco com um vidro de aumento por onde se espiava. Entre a fita e a luz que estava por baixo, girava uma roda de folha de uns 25cm de diâmetro que tinha uma abertura de uns 4mm e produzia o efeito de movimento, iluminando o quadrado da fita. Cada fotografia correspondia a uma volta da roda, eram 16 fotografias por segundo. As fitas eram de 50 pés de comprimento e as cenas eram pequenas. Lutas de boxe, brigas de galos, danças, etc. (apud FRANCESCHI, op.cit. p.24)

Figner compra, segundo sua própria narração, “seis kinetoscópios e uns fonógrafos. Aluguei metade da loja, 116, hoje 164 da Rua do Ouvidor, e os preparei para serem expostos ao público”.Isto se deu em dezembro de 1894. Em 25 de abril de 1895, segundo Barro, Figner estava com os quinetoscópios em São Paulo. Repetia a mesma trajetória para o sul que fizera com os fonógrafos, até Buenos Aires. Em 1896, estava de volta ao Rio de Janeiro, no mesmo endereço, onde exibia, além de quinetoscópios e fonógrafos, um aparelho de raios-X, adquirido em Buenos Aires. Ainda em 1896, é o responsável, no Rio, por um espetáculo de sucesso inusitado: a Inana, comentada por Vicente de Paula Araújo. A imagem da mulher suspensa no ar que surpreendia o público se tratava, na descrição de Franceschi, de uma engenhosa trucagem: a mulher em questão ficava deitada dentro de uma caixa. Uma luz a suas costas, transpassada por um vidro a sua frente, para fazer a função de lente, projetava sua imagem em um pano suspenso, perpendicular à caixa. (FRANCESCHI, op.cit. p.26 e ARAÚJO, op.cit. p.69-60) Anos mais tarde, em 1901, estreava uma revista no Teatro Recreio intitulada Inana, que ainda comentava o sucesso do espetáculo de ilusionismo. É importante citar essa revista, pois aqui aparece pela primeira vez um personagem que será central quando estivermos tratando dos anos de 1908 a 1911, e, mais precisamente, dos filmes cantantes: a música da revista foi composta pelo maestro Costa Júnior.

Sobre seus quinetoscópios no Rio de Janeiro, em 1894, Figner advoga para si, segundo seus manuscritos, a idéia da junção que é tema principal deste trabalho, ou seja, a união de imagens e sons num mesmo aparelho. Diz Figner, citado por Franceschi:

como havia fitas como as de boxe, em que se viam pessoas gesticulando, e brigas de galos, que também tinham espectadores que moviam os lábios, engendrei de colocar ao lado do motor, dentro do armário, um fonógrafo com cilindros preparados para as diversas fitas com falação e gritaria adequadas ou música para as danças, e assim transformei o kinetoscópio em kinetophone. Era o cinema falado com o qual ainda não se sonhara. (apud FRANCESCHI, op. cit. p. 24)

Aqui, é preciso desconsiderar, no mínimo, a suposição de que não se sonhara com o cinema falado. É sabido que a junção de sons e imagens sempre fora um desejo de Edison, como já expusemos em trabalho anterior (2), e que está amplamente documentada por Laurent Manonni em A grande arte da luz e da sombra. Basta citar o depoimento de Edison reproduzido tanto por Manonni quanto por seu assistente e biógrafo Dickinson em History of the kinetograph, kinetoscope e kineto-phonograph, documento de 1895: (3)

No ano de 1887, me ocorreu a idéia de que era possível desenvolver um instrumento que fizesse para o olho o que o fonógrafo faz para o ouvido, e que isso se daria pela combinação dos dois. Ambos, movimento e som, poderiam ser gravados e reproduzidos simultaneamente (apud DICKINSON, 1895)

Segundo Dickinson, o quinetoscópio deveria ser, desde o início, o quinetofonógrafo, ou seja, deveria projetar, como explica Edison, não só imagens, mas também sons. Como parte do investimento contra as dificuldades encontradas para concretizar a sincronização, há registros, em 1891, ano da patente do quinetoscópio, da união do fonógrafo ao projetor. Trata-se de uma carta, datada de 28 de maio de 1891, do jornalista Léo Backelant para o periódico belga Hélios, publicada em 1º de julho do mesmo ano, que chega a nós reproduzida por Manonni. O repórter dá voz a Edison:

Com este novo aparelho, diz ele, será possível sentar na poltrona, em casa, na sala de estar, e ver projetada numa tela toda uma companhia de ópera, com os artistas interpretando, gesticulando, falando e cantando.

Para conseguir este resultado, Edison coloca diante do palco bem iluminado, durante todo o tempo da representação, seu quinetógrafo conjugado a um fonógrafo. A orquestra toca, a cortina se ergue, e a ópera começa. As duas máquinas trabalham simultaneamente: enquanto o fonógrafo registra o som, o quinetógrafo toma uma série de fotografias instantâneas a uma velocidade de 46 imagens por segundo (...) Tendo assim obtido uma longa tira com uma infinidade de imagens fotográficas, podem-se imprimir imagens positivas numa outra fita, e bastará fazer correr essas imagens diante de um aparelho de projeção, tendo-se o cuidado de manter a mesma velocidade (...) Junte-se a isso o mecanismo que faz acionar o fonógrafo e ter-se-á a descrição completa do aparelho.
(apud MANONNI, op.cit. 385)

O próprio nome utilizado por Figner, kinetophone, é o nome da patente de Edison, tirada quando aparentemente é dada como solucionada a união entre os dois aparelhos. Em maio de 1895, o quinetofone, junção do quinetoscópio e do fonógrafo, é exibido em Paris, e em Bruxelas em agosto. Manonni mais uma vez fornece o registro:

O quinetoscópio hoje está ultrapassado. Edison inventou o quinetofone. Não apenas podemos ver a dança da serpentina, mas ouvir a música que a acompanha. Vemos a dança do ventre e ouvimos essa lânguida melopéia que implacavelmente nos persegue na Exposition d’Anvers. Vemos Napoleão desfilar perante trinta ou mais pessoas, todas agitando-se e debatendo-se ao som de marchas retumbantes e canções patrióticas. O quinetofone Edison (...) obteve grande sucesso como novidade. E verdadeiramente a variedade de espetáculos que vimos e ouvimos e a perfeição artística com que tudo isso é apresentado são calculadas para despertar o espanto, a admiração, o deslumbramento. (in: Hélios Illustré, n.128, 15 de agosto de 1895, p.127 apud MANONNI, op. cit. P. 395-396)

Assim, o que se pode dizer, é que mesmo Figner desconhecendo essa parte da história, não se pode dar crédito ao pioneirismo de sua idéia.

Quanto aos fonógrafos, é grande seu sucesso no Rio de Janeiro, nos últimos anos do século XIX e na passagem para o século XX. Tanto Franceschi como Araújo citam indícios das exibições públicas. O cliente depositava uma moeda e tinha direito a ouvir uma gravação. Figner permaneceria na Rua do Ouvidor com os fonógrafos até 1897, de lá se mudando para a Rua Uruguaiana, 24. Deste período Vicente de Paula Araújo recolhe, da Gazeta de Notícias, dois textos sobre o seu sucesso (ARAÚJO, op.cit. p.48-50). Seu irmão, Gustavo Figner, cuidava dos negócios em São Paulo. Em 1899, a loja paulista encontrava-se na Rua São Bento, 50. Em Salões, circos e cinemas de São Paulo, Vicente de Paula Araújo transcreve notícia sobre a “audição de fonógrafos e gramofones, com depósito de fonogramas nacionais e estrangeiros: bandas, orquestras, discursos, monólogos e modinhas” (ARAÚJO, 1981, p. 260).

Em 1900, Figner fundaria a Casa Edison, localizada na Rua do Ouvidor, 107, e responsável, em 1902, pela primeira gravação fonográfica em território brasileiro, o maxixe Isto é bom, com o cançonetista Bahiano. No mesmo ano, a Casa Edison já exibia seu catálogo com 228 títulos. Vale lembrar que, assim como ocorrera com os aparelhos, a técnica de gravação também não tardará a chegar ao Brasil. Poucos meses antes, em agosto de 1901, Caruso e Sarah Bernhardt eram as estrelas dos primeiros registros na Europa. (FRANCESCHI, op. cit. p. 43)

Evidentemente, outros negociantes e firmas surgiam na esteira do sucesso dos fonógrafos, como, por exemplo, no Rio de Janeiro, a Casa Bogary, situada na Rua do Ouvidor, 69. Em São Paulo, aparecia, em 2 de fevereiro de 1897, um espetáculo que, segundo seu anúncio, trazia o fonógrafo combinado pela primeira vez com a projeção de filmes. Era o vitascópio de Edison. Dizia o informe, no Comércio de São Paulo daquela data, reproduzido por Araújo:

SALÃO DA PAULICÉA
EDISON’S PROFESSIONAL EXHIBITION
PROFESSOR KIJ & JOSEPH

A ÚLTIMA MARAVILHA

O VITASCOPE
Fotografia viva
Combinação como moderno MICROFONÓGRAFO, de grande buzina, para ouvir-se sem necessidade de tubinhos auditivos.
No Salão de Concertos da
PAULICÉIA
Rua quinze de novembro
Função permanente das 8 às 10 da noite.
Os intervalos serão preenchidos pela excelente orquestra da Paulicéia.
Esta maravilha científica, última criação do genial Edison, apresenta em tamanho natural a reprodução fiel das cenas vivas da vida quotidiana dos povos e da natureza.
O novo fonógrafo que acompanha esta exibição é um moderno aperfeiçoamento especial para este salão, que permite ouvir clara e distintamente, SEM NECESSIDADE DOS TUBINHOS AUDITIVOS.
Magnífico e variado repertório de canto, bandas e orquestras, excêntricos, etc, etc, em seis línguas diferentes.
(apud ARAÚJO, 1981, p.15-16)

É um indício da chegada ao Brasil das tentativas de projeção de sons e imagens unidos que, como vimos, Edison exibia desde 1895. Neste momento, Edison estava às voltas, como se vê no texto, com as primeiras tentativas de solução de um problema fundamental para o sucesso dos fonógrafos para as salas de cinema: a amplificação do som. Encontram-se notícias correspondentes em outras partes do país. Em Alagoas, por exemplo, sabe-se de exibições, em 1897, do motoscópio acompanhado de fonógrafo(4) . Antes, em dezembro de 1895, a cidade já havia visto o quinetoscópio, que como sabemos, desde de 1894 rodava o país pelas mãos de Figner. (5)

Voltando ao anúncio de São Paulo, o Professor Kij, que trazia consigo o vitascópio seguiria na cidade pelos próximos anos como comerciante de fonógrafos, visto que a experiência das projeções sonoras parecem ter sido, neste primeiro momento, um acontecimento esporádico. Kij era representante de Edison, como Figner. É mencionado ainda, no mesmo período, entre 1897 e 1898, o nome de Carlo Barra, que recebe da imprensa a alcunha de “o homem dos fonógrafos”.

Assim, independente dessas primeiras tentativas isoladas e, ao que tudo indica, frustradas, de projeções sonoras, o sucesso concomitante dos fonógrafos e dos cinematógrafos preparava seus públicos para o “aperfeiçoamento” do último, que viria em breve. Estava por surgir uma junção mais bem sucedida das máquinas de reproduzir imagens e sons, e que seria conhecida de forma genérica como o cinematógrafo falante.


2. OS CINEMATÓGRAFOS FALANTES

2.1. Primeira vinda

O termo “cinematógrafo falante” é encontrado em documentos da época se referindo genericamente a diversas patentes que procuram concretizar, a partir de 1902, a união das imagens e dos sons, mediante exibição sincronizada, por meio de cabos, de um projetor e de um gramofone. Em 1902, há o registro de uma rápida passagem de tais aparelhos pelo Brasil. Vicente de Paula Araújo encontrou em O comércio de São Paulo, de 14 de março daquele ano, a seguinte notícia: “De Paris, escreve-nos o Sr. Vitor de Maio anunciando o seu breve regresso a esta capital, onde exibirá o Phono-cynematographo, a última novidade de Edison, isto é, reprodução de cenas animadas combinadas a um grande phonographo automático”. (ARAÚJO, 1981, p.76) E, de fato, cerca de um mês e meio depois, Vitor De Maio apresentava a novidade no Salão Paris em São Paulo, na Rua São Bento, 77, batizada de Cinephone, ou cinematógrafo falante, devidamente anunciada no Comércio de São Paulo de 3 de maio de 1902. Há notícia de outra exibição no dia 18 do mesmo mês, sem ficar claro se nesse ínterim houve outras sessões. Dentro do programa composto por seis curta-metragens, o programa de 18 de março cita como falante apenas um deles, a peça Geneviève de Brabant.

Poucos dias depois, surgia em São Paulo aparelho similar, trazido pelas mãos do ilusionista italiano Cesare Watry, e exibido no Teatro Sant’anna. O mesmo jornal, em 7 de junho de 1902, anuncia: “Pela primeira vez em São Paulo, o verdadeiro e aperfeiçoado Cinophon-falante, a maior surpresa do século” (apud ARAÚJO, 1981, p.83). Araújo comenta o relativo fracasso do aparelho, que teria realizado apenas duas projeções. O filmete com som era uma ária da Carmen, de Bizet.

Em 31 de julho, o mesmo Watry encontra-se no Rio de Janeiro, exibindo o mesmo aparelho com a mesma programação, e com a mesma recepção calorosa da imprensa, desta vez por conta da Gazeta de Notícias: “Pela primeira vez nesta capital a grande novidade do dia: o Cinematógrafo falante exibirá trechos de diferentes óperas, entre outras, a Carmen de Bizet.” (apud ARAÙJO, 1976, p.145)

Araújo estranha, também com relação aos espetáculos cariocas, que apesar do calor da novidade o cinema falante de Watry tenha dado apenas três apresentações. Analisando-se em conjunto as três exibições no Rio de Janeiro e as duas paulistas, constata-se um real fracasso, tenha sido por desinteresse do público ou por funcionamento precário do aparelho, o que é mais provável. Nunca é demais lembrar que as tentativas de sincronização entre imagem e som, que perpassam todo o período de trinta anos posteriormente conhecido como mudo, constituem uma longa trajetória de ações mal-sucedidas, de aparentes sucessos, sempre efêmeros, até que, apenas no fim da década de 1920, o problema viesse a ser solucionado de uma vez por todas.

2.2. Segunda vinda

Uma segunda passagem dos cinematógrafos falantes pelo país é registrada entre 1904 e 1905. Vicente de Paula Araújo encontrou notícias de exibições no Rio de Janeiro e em São Paulo. Porém, procurando por registros correspondentes em outras partes do Brasil, encontramos o francês Edouard Hervet, o mesmo que estaria nas cidades citadas, chegando antes no norte do país, com o Cinematógrafo Lumiére Aperfeiçoado, vulgo cinematógrafo falante.

O pesquisador Marcos Fábio Melo Matos descobriu, entre os jornais A Pacotilha e o Diário do Maranhão, o registro da temporada do francês em São Luís. Vindo de Belém do Pará, Hervet estreava seu cinematógrafo falante no Theatro São Luís, no dia 30 de abril de 1904, um sábado. (6) As exibições constavam de uma conjugação do Cinematógrafo Lumière com um Zoofone, concorrente da marca Gramophone. A Pacotilha de 02 de maio, segunda-feira, critica o espetáculo, comentando que “a parte falada é um tanto quanto desarmônica” e que “poderia ser melhor, o que não significa que seja má” (apud MATOS, 2002, p. 100).

No fim de semana seguinte, dias 07 e 08 de maio, Hervet volta a realizar suas exibições. Na segunda-feira, A Pacotilha esclarece para os leitores que os defeitos durante as projeções se deviam a uma falha no motor, impossível de ser reparada em São Luís. Há ainda notícia de uma sessão em 13 de maio, uma sexta-feira. Em seguida, Hervet se dirige ao sul do país. Seria encontrado no Rio de Janeiro, seis meses depois, em novembro. (MATOS, op. cit. p. 101-102) É provável que, repetindo o trajeto de ambulantes anteriores, como Figner, tenha parado em outras cidades rumo ao sul, demonstrando o aparelho. Máximo Barro cita uma exibição de Hervet em Salvador, mas não precisa a data. (BARRO, 2000, p. 119)

Aqui se coloca uma questão pertinente: em oposição à centralização no Rio de Janeiro e em São Paulo do fenômeno das primeiras exibições com sincronização mecânica entre sons e imagens, é importante notar que a rota de Hervet, bem como a de Figner, vem do norte, aporta em Belém do Pará e percorre um caminho que mapeia o norte e o nordeste antes de chegar ao sudeste, à capital do país. Nos casos em que há um recorte nacional, existe sempre o perigo de circunscrever a história do cinema, assim como qualquer manifestação cultural, àquele que foi historicamente construído como o centro, seja cultural ou econômico, do país. No caso, é importante o esforço de abrir o mapa até encontrar o fenômeno que é o nosso objeto de estudo espalhado pelos outros estados, e ainda, neste caso específico, não só encontra-lo no norte, mas reconhecer esse norte como seu ponto de partida.

Vicente de Paula Araújo encontra Hervet e seu Cinematógrafo Lumière Aperfeiçoado no teatro Lírico, no Rio de Janeiro, em 26 de novembro de 1904, como informado pela Gazeta de Notícias. A sessão, como as da primeira vinda, compunha-se de vários curta-metragens, dentre eles um falante. Sucesso entre os curtas mudos fez o Cake Walk infernal, de Meliès, que também havia sido exibido nas sessões maranhenses. O falante era uma versão filmada da canção Bonsoir Madame la lune, cantada pelo Sr. Mercadier. A Gazeta de Notícias exalta o sucesso da união do fonógrafo com o cinematógrafo e, em crítica elogiosa, descreve o momento em que se ouvia a voz do cantor:

O assombro. Surge o célebre Mercadier, esse aclamado Mercadier que cumprimenta, puxa o punho na paisagem lunar e começa, uma voz límpida e sonora:

Bonsoir, madame la lune,
Bonsoir
C’est votre ami pierrot
Que vient vous voir
Bonsoir, madame la lune,
Bonsoir

Um nosso amigo exclama diante da oração: “se um tabaréu vê isto, acaba maluco”. O público, porém, está mesmo maluco, pedindo bis. (Gazeta de Notícias, 27 de novembro de 1904, apud ARAÚJO, 1976, p.163)

O cinematógrafo falante de Hervet ficaria no Teatro Lírico até 20 de dezembro. Além de Bonsoir Madame la lune, exibiria, dentre seus curtas, os falantes Selon la saison e La femme est um jouet, ambos cantados pelo mesmo Mercadier e Conversação telefônica, com o Sr. Galipaux.

No ano seguinte, em 25 de fevereiro, um sábado, o mesmo espetáculo estava no Teatro Apolo. O falante daquela sessão era, ainda, Bonsoir Madame la lune (Gazeta de Notícias, 25 de fevereiro de 1905, apud ARAÚJO, 1976, p.169). Em 1º de março, Hervet estréia em São Paulo, no Teatro Sant’anna, o mesmo aparelho e os mesmos filmes. No decorrer daquele mês, o Comércio de São Paulo tece comentários elogiosos às exibições (ARAÚJO, 1981, p. 113-114). De qualquer forma, tendo havido êxito ou não, a temporada paulista não dura mais que o mês de março.

Com Hervet, como nas poucas sessões de 1902, de Vitor di Maio e Cesare Watry, detecta-se um padrão do que foram essas primeiras projeções com imagens e sons sincronizados. Era um filme de um rolo, ou seja, o tempo de execução da canção, inserido em uma sessão composta de vários curta-metragens. O falante seria a atração principal do programa, muitas vezes encerrando a sessão.

Hervet estará de volta ao Rio de Janeiro no fim do mesmo ano. Antes, Máximo Barro encontra-o em Curitiba, com a notícia de uma sessão ocorrida a 06 de julho (BARRO, 2000, p. 119). Em 09 de outubro, estará no Rio de Janeiro, no Teatro São Pedro. Selon la saison, já exibido no início do ano, ainda é a atração falante. Cabe lembrar que a falta de variedade dos programas se justifica pela necessidade da importação desses filmetes europeus. Enquanto não houvesse condições de empreender nova viagem à Europa e comprar outro lote de atrações o empresário em trânsito pelo Brasil não tinha opção, a não ser conseguir o máximo de lucro possível com o catálogo que tinha à mão.

No dia 4 de novembro daquele ano de 1905, o Teatro Lírico anunciava um concorrente de Hervet: o Cinematógrafo Falante Pathé, da Empresa Candburg. A Gazeta de Notícias do dia seguinte informa sobre a sessão, descrevendo um sucesso relativo de público, que teria saído satisfeito, embora houvesse preenchido apenas cerca de um terço da lotação da casa (apud ARAÚJO, 1976, p. 175). Segundo o jornal, aquele aparelho permaneceu no Lírico até 15 de novembro. Os filmes falantes da empresa atendiam pelos títulos: Berceuse, La fiacre, ambos cantados pela Mlle. Yvette Guilbert, A mosca, Cansam as virgens, estes cantados pelo Mr. Galipaux, além dos velhos conhecidos do público Selon la saison e La femme est um jouet.

Há registro do mesmo espetáculo da Empresa Candburg em São Paulo, no ano seguinte, a 09 de maio de 1906, no mesmo Teatro Sant’anna que recepcionara Hervet. A notícia é do Comércio de São Paulo, e está transcrita por Araújo. Fato importante é que o texto faz propaganda do sucesso anterior em outras cidades, citando não só o Rio de Janeiro, mas também Santos e Buenos Aires, no Teatro Polytheama. (ARAÚJO, 1981, p. 128). Esta informação é relevante por delinear partes do caminho percorrido nos seis meses de intervalo entre as exibições cariocas e aquela chegada em terras paulistas. Máximo Barro traz ainda a notícia de uma exibição da empresa em Campinas. (BARRO, op. cit. p. 119)

Confirmando a hospitalidade do Teatro Sant’anna para com os cinematógrafos falantes, outra empresa, a Star Company, ocupa aquela sala, ao fim do mesmo ano de 1906, estreando a 3 de novembro. O Comércio de São Paulo do dia seguinte elogia a qualidade da exibição, nítida e sem trepidações, e noticia o sucesso de público. O Cinematógrafo Falante Aperfeiçoado da Star Company permaneceria no Sant’anna até 2 de dezembro, um mês, portanto. Barro encontra, sobre este aparelho, indícios de uma exibição em Curitiba, três dias depois da despedida de São Paulo. (BARRO, op. cit. P. 119)

Este segundo ciclo dos cinematógrafos falantes, se podemos fecha-lo assim, dura desde abril de 1904, com a chegada de Hervet ao Maranhão, até a última notícia de sua exibição, no fim de 1905, no Rio de Janeiro, mais os espetáculos dados aqui e ali pelas empresas Candburg e Star Company, que chegam ao fim de 1906, e descreve um êxito expressivo, em contraposição às sessões esporádicas de 1902. Apenas no Rio de Janeiro, por exemplo, trata-se de um período que, claro, sem ter sido de exibições contínuas, diárias, compreende cerca de um ano e meio de projeções em que sons e imagens estiveram sincronizados mecanicamente. São exibições que perpassaram o território nacional, pelo menos, segundo os indícios levantados, de Manaus a Curitiba, de norte a sul.

Mas Hervet, fora de cena desde dezembro de 1905, ainda voltaria, com o mesmo negócio.


2.3. Volta de Hervet, e um surto de falantes

Em 16 de março de 1907, Hervet está de volta a São Luís do Maranhão, trazendo mais uma vez, um cinematógrafo. A Pacotilha anuncia a estréia do aparelho dois dias depois, na edição de 18 de março. Os exemplares do dia 22 do mesmo mês informam que uma das fitas era uma Paixão de Cristo falante, exibida por ocasião da Semana Santa (programa costumeiro, diga-se de passagem, por anos a fio, do qual encontra-se registro em várias cidades), tendo sido motivo de grande êxito. O jornal anuncia a despedida de Hervet na edição de 17 de abril de 1907, não esquecendo de elogiar a derradeira sessão. (apud MATOS, 2002, p. 102-104)

Edouard Hervet estava de partida, como na primeira vinda, para o sul. E, exatamente como daquela vez, seria encontrado, seis meses mais tarde, na capital federal. Vale ressaltar, antes deste deixar o Maranhão, que o estado participa (ou, se poderia dizer, antecipa) o surto de falantes que chega ao país entre 1907 e 1908. Ainda em 1907, entre os dias 14 e 16 de agosto, surge em São Luís o Cinematógrafo Gaumount, que, assim como o aparelho de Hervet, seria encontrado mais adiante no sul. Foram, segundo os registros da Pacotilha, três sessões, e o jornal não lhes poupa críticas. Em determinado momento, comentando o sincronismo, ou a falta dele, a matéria diz que “a audição de uma scena da Cavalleria Rusticana foi boa, apesar das falhas notadas, a princípio, na combinação dos aparelhos”. Mais à frente, sem meias palavras, a conclusão é de que foi “um verdadeiro desastre o Cinematógrafo Gaumont”. (apud MATOS, op. cit. p. 115)

Informação relevante sobre a partida da Companhia Norte-americana, este o nome da empresa que dentre outras atrações exibia o Cinematógrafo Gaumont, diz que naquele 19 de maio de 1907, a empresa e o cinematógrafo partiam para o Ceará. De fato, o aparelho da Gaumont será encontrado no Rio de Janeiro apenas no ano seguinte, o que pressupõe várias paradas no caminho para o sul, assim como se pode supor o mesmo a respeito de Hervet. O fato de não detalharmos aqui exibições em outros estados, não significa que tenham sido improváveis. Significa tão somente que esta pesquisa não teve acesso a documentação tão detalhada referente a eles como teve com relação ao Maranhão.

Há ainda, em São Luís a notícia de um outro cinematógrafo falante, vindo de Belém, chamado apenas assim, sem identificação de firma ou de patente, que manteve sessões no início de 1908, entre os dias 08 e 12 de fevereiro. Em março do mesmo ano, chega da Europa o Cinematógrafo Falante da Empresa Fontenelle. (7) A Pacotilha anuncia o espetáculo, explicando detalhadamente o funcionamento do aparelho:

Um apparelho, o electrophono, produz a ilusão de uma grande orquestra, reproduzindo a voz humana com todas as tonalidades e inflexões. Funcciona pela electricidade e o ampliador de sons é baseado na inflamação de gazes hydro-carburados.

É ligado por um fio eléctrico ao cinematógrapho e por um telephono, de modo a assegurar a derramage simultânea dos apparelhos e um dínamo differencial permite o avanço ou o recuo do cinematographo para a boa combinação da scena.

Serão exibidas danças características dos diversos países e canções pelos artistas mais célebres acompanhados pelo Electrophono. O efeito produzido sobre as pessoas ouvindo estas phono-scenas é prodigioso. O cinematographo é o melhor que tem vindo ao Brasil, e o único admitido a funcionar nos grandes theatros de Paris.
(A Pacotilha de 26 de março de 1908 apud MATOS, op. cit. p.121-122)

O Cinematógrafo Fontenelle estreou em uma noite de sábado, 07 de março de 1908 e manteve sessões regulares até o dia 22 do mesmo mês. Um segundo período de exibições ocorreu de 5 a 10 de maio. Digno de nota foi o sucesso, como no ano anterior, da Paixão de Cristo falante, exibida, como de praxe, na Semana Santa. Matos sublinha que o Cinematógrafo Fontenelle foi o que permaneceu por mais tempo na cidade, dentre o conjunto de aparelhos de apresentações efêmeras, sempre de partida para outras capitais. (MATOS, op. cit. p. 124)

Voltando a Edouard Hervet, já no Rio de Janeiro, sua reestréia na cidade está documentada por Araújo, que reproduz a matéria da Gazeta de Notícias de 28 de agosto de 1907. As apresentações ocorreram no mesmo Teatro Lírico da vinda anterior. A notícia explica a conhecida combinação de fonógrafo e projetor, e detalha o programa, composto de 17 curta-metragens, divididos em três blocos. É mantido o padrão dos anos anteriores: apenas um curta é falante, apresentado como atração principal da sessão. Desta vez, trata-se da canção La juive, Rachel quand du seigneur, cantada por Gauthier, artista da Ópera de Paris. Cabe ressaltar que no intervalo entre os blocos uma orquestra, regida por Luigi Donati, entretinha o público. (ARAÚJO, 1976, p.201-205)

O mesmo espetáculo provia, portanto, acompanhamento sonoro mecânico, pelo fonógrafo em sincronia com o projetor, e música ao vivo, pela orquestra, ressaltando, ao que tudo indica, que esta não acompanhava os filmes, sendo executada apenas nos intervalos entre eles. Hervet manteria seu espetáculo no Lírico até 07 de novembro, tendo permanecido em cartaz, portanto, por mais de um mês. Os falantes faziam sucesso.

Em 24 de novembro, outro empresário, iniciando seus negócios com o cinema, exibe sua primeira fita falante. É William Auler, que, no seu Grande Cinematógrafo Rio Branco, anuncia árias de óperas famosas cantadas pelos mais célebres artistas europeus. Uma ária de Tamagno é a primeira fita a ser exibida. Estava entrando em cena aquele que seria, a partir do ano seguinte, o maior produtor e exibidor dos filmes cantantes no Rio de Janeiro, dos quais falaremos bastante, em breve. William é o nome adotado por Cristóvão Guilherme Auler, nascido em Petrópolis em 1865. Segundo Hernani Heffner, após voltar dos Estados Unidos, onde passa a juventude, Auler se aproxima do meio cinematográfico fornecendo cadeiras para as salas. Em 1907, como dissemos, funda o seu cinema. Mais tarde, reformado, o Rio Branco teria mais de 700 lugares, e abrigaria os grandes sucessos dos cantantes até 1911, quando fecharia as portas. (in: RAMOS, MIRANDA, 2000, p. 35) (8)

Há ainda notícia de um cinematógrafo falante no Rio de Janeiro antes do fim de 1907. Em 7 de dezembro, o Teatro São Pedro anuncia o aparelho pertencente à Empresa Starcy, citado de forma enigmática como “o único do gênero na América do Sul” (ARAÚJO, 1976, p. 220). Em 1908, a cidade continua a receber os falantes. O Cinema Palace, de Labanca e Leal, na Rua do Ouvidor, 149-B, apresenta pela primeira vez, a 27 de janeiro, o Chronophone Gaumont. A Gazeta de Notícias, de 28 de abril de 1908, informa que o mesmo aparelho continuava em cartaz, naquela data, no mesmo cinema, e destaca “ a extraordinária precisão do sincronismo, garantindo assim a perfeição e certeza do cinematógrafo falante” (apud ARAÚJO, op. cit. p. 244). Caso as exibições tenham sido contínuas, supor-se-ia três meses de sucesso do falante no cinema de Labanca e Leal.

No segundo semestre, outros aparatos similares surgem no Rio de Janeiro. O Teatro Lírico, que exibira, no ano anterior, o aparelho de Hervet, anunciava em setembro o Sincronoscópio Lírico, cinematógrafo acompanhado de um zonophone. Há o registro de que a fita falante desta ocasião era uma ária da ópera Amica, de Mascagni. (ARAÚJO, op. cit. p. 266)

Em 23 de outubro, o Cinema Pathé anunciava o seu falante, o Synchrophone Pathé, de cujo programa constavam “projeções animadas, falantes, perfeitas! Trechos de óperas, cançonetas, duetos, diálogos, etc. Combinação perfeita do som e da fita.”(Gazeta de Notícias de 14 de novembro de 1908, apud ARAÚJO, op. cit. p.272). Há notícia de um Synchrophone Pathé em São Paulo, anunciado como o único aparelho falante da empresa francesa na América do Sul, exibido no Propriedor-Theatre a 20 de outubro. (ARAÚJO, 1981, p. 162) É provável que se trate do mesmo aparelho, que teria assim seguido para São Paulo logo após a exibição carioca. O último falante no Rio de Janeiro, em 1908, citado pelos jornais é o Cinematógrafo Falante Gaumont, do qual já tivéramos notícia em São Luís. Estreou no Cinema Colosso, em 3 de novembro.

Assim, observa-se, entre 1907 e 1908, um surto de cinematógrafos falantes que tornou contumaz a reprodução mecânica do som por meio de fonógrafos nos cinemas, prática que se impunha desde 1904. Porém, aquele ano de 1908 seria marcante por compreender uma nova e inusitada forma de sincronismo, “uma outra dimensão na relação entre imagem e som”, nas palavras de Lécio Augusto Ramos (in: RAMOS, MIRANDA, 2000, p.241), conhecida como os filmes cantantes, mas isso é assunto para outra ocasião.


* Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense

Bibliografia:


ARAÚJO, Vicente de Paula. A bela época do cinema brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 1976.
_________ . Salões, circos e cinemas de São Paulo. São Paulo: Perspectiva, 1981.
BARRO, Máximo. A primeira sessão de cinema em São Paulo. São Paulo: Tanz do Brasil, 1996.
_________ . Na trilha dos ambulantes. São Paulo: Maturidade, 2000.
Bernardet, Jean-Claude. Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Annablume, 1995.
GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de janeiro: Paz e Terra. 1980.
MATOS, Marcos Fábio Melo. E o cinema invadiu a Atenas: a história do cinema ambulante em São Luís 1898 – 1909. São Luís: FUNC, 2002.
MOURA, Roberto. A bela época (primórdios). In: RAMOS, Fernão. História do Cinema Brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1987.
NORONHA, Jurandyr. No tempo da manivela. Rio de janeiro: Embrafilme, EBAL, 1984.
RAMOS, Fernão, MIRANDA, Luís Felipe. Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: SENAC, 2000.
SILVEIRA, Walter. A história do cinema vista da província. Salvador: Fundação Cultural Do Estado da Bahia, 1978.
TINHORÃO, José Ramos. Música Popular: teatro e cinema. Petrópolis: Vozes, 1972.
VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de janeiro: MEC/Instituto Nacional do Livro, 1957.
__________. Notas sobre o som e a música no cinema brasileiro. In: Cultura. Brasília: Embrafilme, 1977.


Notas:

1. O biographo foi desenvolvido por W. L. K. Dickinson e Herman Casler em 1895, ambos ex-empregados de Edison, Dickinson tendo sido seu braço direito quando das pesquisas para o pioneiro quinetoscópio. Naquele momento, concorrendo com seu ex-patrão, Dickinson é reportado por Laurent Manonni como tendo suplantado com seu aparelho o sucesso do vitascópio de Edison, citado acima em seguida. O biographo teve, segundo o francês, sua estréia em Pittsburgh, a 14 de maio de 1896. (MANONNI, 2003, p. 421-422) Já o vitascópio, como se sabe, foi o primeiro projetor para exibição coletiva de Edison, já que a patente anterior, o quinetoscópio, que será comentado mais à frente, era um aparelho destinado à fruição individual.
2. Costa, Fernando Morais da - Som no cinema, silêncio nos filmes – o inexplorado e o inaudito. Dissertação de Mestrado.Programa de Pós-graduação em Comunicação Universidade Federal Fluminense, mimeo, 2003
3. Re-editado pelo MoMA de Nova Iorque em fac-símile, em 2000.
4. O motoscópio, tendo exibições registradas em outras partes do Brasil, é provavelmente o mutoscope, com nome vertido para o português. Patente dos mesmos Casler e Dickinson do biógrafo, e como dissemos, ex-empregados de Edison, trata-se de um aparelho, à maneira do quinetoscópio, para uso individual, e era movido à manivela, posta em ação pelo próprio espectador. (MANONNI, op. cit, p.421) A notícia das projeções acompanhadas de som procede, a princípio, pois é sabido que Dickinson herdara de Edison a preocupação com a incorporação do som.
5. Não é demais lembrar que a peregrinação de Figner não constitui fato isolado nesses primeiros passos do cinema no Brasil. Máximo Barro, em Na trilha dos ambulantes (São Paulo: Maturidade, 2000), descreve as trajetórias de vários negociantes que viajaram pelo país apresentando a novidade das projeções de cidade em cidade. Alguns nomes se sobressaem, como o do português Germano Alves, que entre 1897 e 1898 apresenta o cinematógrafo em Niterói, Juiz de Fora, Ouro Preto, São João Del Rey, Porto Alegre; o italiano Vitor di Maio, em Petrópolis antes da passagem por São Paulo que comentaremos na seqüência; Cunha Salles, que se estabeleceria no Rio de Janeiro; Nicolay Faure, com exibições registradas em Curitiba, Petrópolis, São Carlos, Pindamonhangaba; H. Kaurt, que passou também pelo interior de São Paulo, por Florianópolis, Maceió, São Luís; e, entre outros nomes, Edouard Hervet, francês que merecerá neste trabalho especial destaque, por sua relação com as primeiras tentativas de sonorização.
6. Máximo Barro encontrou indícios de uma sessão de Hervet, em 30 de março de 1904, em Manaus (BARRO, 2000, p. 119). Tendo Hervet estado em São Luís exatamente um mês depois, desenha-se um percurso factível que, dentro desse intervalo de tempo, parte de Manaus, passa por Belém e se encontra, ao fim, no Maranhão.
7. Segundo Selda Vale da Costa, a Empresa Fontenelle, fundada em 1907, ano anterior ao evento que estamos comentando, viria a ser a maior proprietária de salas de cinema em Manaus, constituindo uma supremacia inquestionável até os anos 30. Pode-se supor que a grande novidade da empresa em 1908, o cinematógrafo falante, tenha se apresentado, portanto, também na capital do Amazonas. (in: RAMOS, MIRANDA, 2000, p. 21)
8. Não escapa à farta documentação de Vicente de Paula Araújo uma notícia, do início de 1905, sobre o sucesso de Auler na indústria de móveis, com a sua premiada Fábrica Modelo em exposição na Rua do Ouvidor, 116. (ARAÚJO, 1976, p.172)



Data de publicação: 26/01/2006