{"id":420,"date":"2024-08-15T16:39:32","date_gmt":"2024-08-15T19:39:32","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=420"},"modified":"2024-08-15T16:39:34","modified_gmt":"2024-08-15T19:39:34","slug":"a-invencao-do-outro-2022-bruno-jorge-12a-mostra-ecofalante-de-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mnemocine.com.br\/?p=420","title":{"rendered":"A Inven\u00e7\u00e3o do Outro (2022, Bruno Jorge) \u2013 12\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Grande vencedor da Mostra Ecofalante, em \u201cA Inven\u00e7\u00e3o do Outro\u201d o cineasta Bruno Jorge acompanha uma miss\u00e3o de alto risco da Funai, liderada por Bruno Pereira, indigenista assassinado h\u00e1 um ano. O processo engendra uma discuss\u00e3o potente sobre a alteridade no cinema etnogr\u00e1fico.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"436\" src=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ECO_01_Capa-1-1024x436.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-426\" srcset=\"http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ECO_01_Capa-1-1024x436.jpg 1024w, http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ECO_01_Capa-1-300x128.jpg 300w, http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ECO_01_Capa-1-768x327.jpg 768w, http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ECO_01_Capa-1-1536x654.jpg 1536w, http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ECO_01_Capa-1-2048x871.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Luca Scupino<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mais de um s\u00e9culo de hist\u00f3ria do cinema, e at\u00e9 muito recentemente, o nativo sempre foi o maior representante do Outro ao olhar do documentarista. Aquele que est\u00e1 fora do sistema de representa\u00e7\u00e3o pela mimese, o desconhecido a quem o cineasta-antrop\u00f3logo dever\u00e1 dar a ver, encontrar formas de <em>imaginar<\/em>: Lacan ensinou que todo exerc\u00edcio de cria\u00e7\u00e3o de alteridade \u00e9 movido por uma falta-a-ser, por um processo de autorreconhecimento projetivo. Pois, j\u00e1 dizia Rimbaud: \u201co eu \u00e9 um outro\u201d. E o Outro existe \u00e0 imagem do Eu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De cl\u00e1ssicos como <em>Nanook, o esquim\u00f3<\/em> (1922, Robert Flaherty), <em>O grande sil\u00eancio branco<\/em> (1924, Herbert Ponting) e <em>Tabu<\/em> (1931, F.W. Murnau), o filme etnogr\u00e1fico foi o dom\u00ednio encontrado no cinema para estabelecer essa ponte de olhares; por vezes caindo no exotismo, na cria\u00e7\u00e3o de uma dist\u00e2ncia intranspon\u00edvel que elimina a possibilidade do cinema como forma de media\u00e7\u00e3o (cultural, mas tamb\u00e9m est\u00e9tica), quando encara um povo como totalmente externo ao seu olhar. Pois, na medida em que o filme cria o mito de que ir\u00e1 retratar um outro que n\u00e3o performa &#8211; muitas vezes, por este ter claro que sua imagem n\u00e3o \u00e9 ele mesmo, que a mimese n\u00e3o pode roubar sua ess\u00eancia, se voltar contra si -, corre-se o risco de n\u00e3o reconhecer que h\u00e1 um Eu (cineasta) mediando esta troca, estabelecendo o cinema como linguagem comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A Inven\u00e7\u00e3o do Outro<\/em>, grande vencedor do Festival de Bras\u00edlia em 2022, j\u00e1 traz no seu t\u00edtulo o cerne da quest\u00e3o. No filme, o cineasta Bruno Jorge \u00e9 convidado pelo indigenista Bruno Pereira para retratar um processo de reintegra\u00e7\u00e3o realizado no Vale do Javari pela FUNAI (Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos Ind\u00edgenas), em 2019, entre grupos separados de uma mesma aldeia ind\u00edgena, os Korubo \u2013 um deles \u201cintegrado\u201d, e o outro que nunca teve contato pessoas de fora da comunidade. Jorge realizou e montou o filme sozinho, e contou com a colabora\u00e7\u00e3o de Bruno Palazzo para a trilha sonora e mixagem de som, presen\u00e7a marcante na obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A morte \u00e9 um elemento que espreita o filme. Tanto pelo alto risco da opera\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m pelo fato de que Bruno Pereira foi assassinado tr\u00eas anos depois das filmagens, ao lado do jornalista Dom Philipps, em uma opera\u00e7\u00e3o similar que se encontrou no cruzamento entre garimpo ilegal e uma rede de tr\u00e1fico de drogas, crime h\u00e1 um ano sem solu\u00e7\u00e3o. E tudo no filme aponta para um risco iminente, da sua estrutura de suspense ao desenho de som que ressalta a vida da floresta, reiterando o mergulho no desconhecido. Sabemos, tamb\u00e9m, como cada processo de descobrimento do outro funciona como uma micro-experi\u00eancia de morte, por lidar diretamente com o que h\u00e1 de ausente, de vazio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme \u00e9 herdeiro do document\u00e1rio observacional, aquele que n\u00e3o anuncia diegeticamente a presen\u00e7a do cineasta e busca por uma certa indistin\u00e7\u00e3o entre o filmado e n\u00e3o-filmado. Em raros momentos os retratados se dirigem \u00e0 c\u00e2mera, sendo o mais marcante deles no primeiro reencontro entre a tribo, quando os membros isolados olham para o equipamento e questionam o que \u00e9 aquele objeto que desconhecem. Ao que os \u00edndios ao lado da Funai respondem ser apenas um instrumento de registro e que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio se preocupar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 curioso um filme de t\u00edtulo \u201cA Inven\u00e7\u00e3o do Outro\u201d ser realizado no modo de \u201ccinema direto\u201d, o tipo de document\u00e1rio que menos busca evidenciar a a\u00e7\u00e3o de quem o realiza, e que mais atende, supostamente, \u00e0 ilus\u00e3o de ser uma \u201cjanela para o mundo\u201d, fora de delibera\u00e7\u00f5es da linguagem. Poder\u00edamos at\u00e9 pensar que, na dicotomia Eu-Outro, o lugar de identifica\u00e7\u00e3o aqui estaria no personagem Bruno Pereira, a quem o espectador se coloca no lugar. Em um pa\u00eds onde o sangue ind\u00edgena escorre em todos, \u00e9 ainda mais complexo pensar nessa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, considerar que o cineasta Bruno Jorge se esconde atr\u00e1s do aparelho \u00e9 uma presun\u00e7\u00e3o incorreta. Pelo contr\u00e1rio, ao mesmo passo em que h\u00e1 uma regra (n\u00e3o dita) de n\u00e3o-interven\u00e7\u00e3o no comportamento de quem \u00e9 retratado, tamb\u00e9m existe uma inten\u00e7\u00e3o clara de transformar tudo em est\u00e9tico. Todas as imagens aqui s\u00e3o regidas por uma composi\u00e7\u00e3o rigorosa, mesmo na mais austera das situa\u00e7\u00f5es. Tudo parece feito para a tela de cinema, em uma propor\u00e7\u00e3o de tela bastante horizontal, grandiosa. Que, deve-se notar, tamb\u00e9m evita o exotismo, a cria\u00e7\u00e3o de um mito sobre a regi\u00e3o, a generaliza\u00e7\u00e3o daquela aldeia particular como \u201co ind\u00edgena\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo no in\u00edcio, h\u00e1 uma cena em que dois Korubo, no barco da Funai, fazem uma brincadeira em que balan\u00e7am seus bra\u00e7os. O movimento, em contraste com um fundo preto, se transforma em uma abstra\u00e7\u00e3o cin\u00e9tica, que d\u00e1 lugar ao t\u00edtulo. O filme tamb\u00e9m tem uma rela\u00e7\u00e3o forte com a modula\u00e7\u00e3o do tempo: as quase duas horas e meia apontam para uma dilata\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia temporal a um ritmo pr\u00f3ximo dos Korubo, e h\u00e1 tamb\u00e9m o recurso ao <em>slow-motion<\/em> como maneira de dar um outro olhar aos movimentos, uma pausa para observar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cria-se uma dial\u00e9tica interessante: ao mesmo tempo em que o filme foge de qualquer tipo de comportamento que poderia ser interpretado como \u201cfalso\u201d, trazido \u00e0 tona pela presen\u00e7a da c\u00e2mera, ele tamb\u00e9m est\u00e1 muito preocupado com a representa\u00e7\u00e3o, em compor de uma dist\u00e2ncia bela e correta. H\u00e1 momentos, inclusive, que os pr\u00f3prios Korubo encenam situa\u00e7\u00f5es que viveram a partir de dan\u00e7as, jogos de autorrepresenta\u00e7\u00e3o. O exerc\u00edcio de inven\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e o imagin\u00e1rio est\u00e3o ali, e o papel do cineasta est\u00e1 em captar isso de maneira justa. A n\u00e3o-interven\u00e7\u00e3o, paradoxalmente, transforma o campo em uma fic\u00e7\u00e3o em que cada um, alheio \u00e0 presen\u00e7a ou n\u00e3o-presen\u00e7a da c\u00e2mera, se transforma em personagem no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dado importante: durante muito tempo vemos apenas homens no filme. As mulheres, inclusive ind\u00edgenas, s\u00f3 ir\u00e3o aparecer mais ao final. H\u00e1, at\u00e9, uma enfermeira da FUNAI que \u00e9 apresentada ao espectador na mesma cena em que os Korubos a conhecem pela primeira vez. Temos ent\u00e3o um outro Outro inventado pela montagem \u2013 esta que \u00e9, no fundo, a cria\u00e7\u00e3o de uma unidade a partir dos fragmentos (e n\u00e3o \u00e9 isso que o processo de reconhecimento faz?). O filme revela-se, ent\u00e3o, sobre a integra\u00e7\u00e3o dessas dist\u00e2ncias: branco e ind\u00edgena, ind\u00edgena e ind\u00edgena, homem e mulher, <em>sapiens<\/em> e animal (h\u00e1 de se lembrar do macaquinho nos ombros do menino Korubo, no final do filme). E, claro, c\u00e2mera e mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mirando por um processo de media\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, em alguns momentos essa rela\u00e7\u00e3o se tensiona. A cena mais linda do filme \u00e9 a do reencontro entre a tribo: minutos e minutos de irm\u00e3os e parentes se abra\u00e7ando, entoando um canto, se desdiferenciando pelo toque. E eles se perguntam, em um momento que rende risadas da plateia, por qu\u00ea os brancos da Funai, observando de p\u00e9, n\u00e3o sentam e choram junto. Outras cenas brutais detalham a morte de chimpanz\u00e9s e tartarugas para alimenta\u00e7\u00e3o, e a tend\u00eancia do espectador \u00e9 sempre virar os olhos para essa viol\u00eancia. O filme \u00e9 um convite para estar na floresta, sentir profundamente o choque de culturas, se integrar na sua diferen\u00e7a. Mas ser\u00e1 que ele consegue ir at\u00e9 o fim, ou o outro sempre ser\u00e1 um outro, uma falta? Poder\u00e1 o \u201cEu, um Negro\u201d, de Jean Rouch, se traduzir no \u201cEu, um \u00cdndio\u201d, de Bruno Jorge?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme n\u00e3o traz conclus\u00f5es f\u00e1ceis, optando por uma certa opacidade no final. A \u00faltima cena mostra um helic\u00f3ptero vermelho chegando \u00e0 floresta, objeto t\u00e3o incomum \u00e0s duas horas anteriores que chega a gerar um estranhamento, seguido por v\u00e1rios planos-detalhe em c\u00e2mera lenta. Eis que, tendo passado pela opera\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria e pelas estruturas simb\u00f3licas da antropologia, nos deparamos com o Real, uma for\u00e7a que rompe com a capacidade perceptiva constru\u00edda at\u00e9 ent\u00e3o. <em>A Inven\u00e7\u00e3o do Outro<\/em> certamente desafia o espectador, conceitualmente, dando continuidade \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es que s\u00e3o pr\u00f3prias ao deslocamento subjetivo e cultural no qual se comp\u00f5e. Mas, ao t\u00e9rmino de sua proje\u00e7\u00e3o, certamente algo aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luca Scupino \u00e9 formado em Cinema pela FAAP, onde realizou quatro curtas-metragens. Atualmente pesquisa no campo da est\u00e9tica e hist\u00f3ria do cinema, e escreve para diferentes meios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cobertura da 12\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema faz parte do programa Jovens Cr\u00edticos que busca desenvolver e dar espa\u00e7o para novos talentos do pensamento cinematogr\u00e1fico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agradecemos \u00e0 Atti Comunica\u00e7\u00e3o e Ideias e Francisco Cesar Filho por todo o apoio na cobertura do evento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Equipe Jovens Cr\u00edticos Mnemocine:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordena\u00e7\u00e3o e Idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00e3o: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o: Luca Scupino<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o Adjunta e Organiza\u00e7\u00e3o: Rayane Lima<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grande vencedor da Mostra Ecofalante, em \u201cA Inven\u00e7\u00e3o do Outro\u201d o cineasta Bruno Jorge acompanha uma miss\u00e3o de alto risco da Funai, liderada por Bruno Pereira, indigenista assassinado h\u00e1 um ano. 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