{"id":428,"date":"2024-08-15T16:45:44","date_gmt":"2024-08-15T19:45:44","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=428"},"modified":"2025-06-10T04:37:32","modified_gmt":"2025-06-10T07:37:32","slug":"entrevista-com-jorge-bodanzky-12a-mostra-ecofalante-de-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mnemocine.com.br\/?p=428","title":{"rendered":"Entrevista com Jorge Bodanzky &#8211; 12\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Na ocasi\u00e3o da 12\u00aa Mostra Ecofalante, onde Jorge Bodanzky exibiu seu document\u00e1rio Amaz\u00f4nia, a Nova Minamata? (2022) e ministrou um workshop sobre cinema, a Mnemocine entrevista o importante cineasta brasileiro para refletir sobre seu passado, presente e futuro.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2580-1-768x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-431\" style=\"width:476px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2580-1-768x1024.png 768w, http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2580-1-225x300.png 225w, http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2580-1-1152x1536.png 1152w, http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2580-1-1536x2048.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Fotografia tirada com o celular durante workshop realizado por Bodanzky na Mostra Ecofalante &#8211; Cr\u00e9ditos: Luca Scupino<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Luca Scupino<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos 80 anos, Jorge Bodanzky acumula uma s\u00e9rie de t\u00edtulos. Conhecido at\u00e9 hoje pela dire\u00e7\u00e3o de <em>Iracema: uma transa amaz\u00f4nica<\/em> (1974), ao lado de Orlando Senna &#8211; filme que revolucionou o document\u00e1rio brasileiro ao tratar de maneira cr\u00edtica do projeto militar na regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia &#8211; Bodanzky tamb\u00e9m \u00e9 fot\u00f3grafo e autor de mais de 30 projetos audiovisuais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi estudante em Bras\u00edlia no auge da repress\u00e3o e frequentemente viaja com sua c\u00e2mera em busca do Brasil, al\u00e9m de ser pai da cineasta La\u00eds Bodanzky. Recentemente, assinou uma miniss\u00e9rie para a HBO, <em>Transamaz\u00f4nica: uma estrada para o passado<\/em> (2019), e lan\u00e7ou o longa de document\u00e1rio <em>Amaz\u00f4nia, a Nova Minamata?<\/em> (2022), que denuncia os efeitos socioambientais do garimpo ilegal de merc\u00fario, pr\u00f3ximo a aldeias ind\u00edgenas. No entanto, essa descri\u00e7\u00e3o apenas come\u00e7a a dar conta da personalidade de Bodanzky, movido por uma curiosidade e energia incans\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A 12\u00aa Mostra Ecofalante em 2023, al\u00e9m de contar com a exibi\u00e7\u00e3o de seu novo filme, tamb\u00e9m proporcionou um <em>workshop <\/em>sobre document\u00e1rio com o cineasta, durante um fim de semana. Nele, Bodanzky retorna a um velho papel que ocupou quando foi professor de cinema de 1969 a 1988, na USP, Unicamp, UnB e FAAP. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre a apresenta\u00e7\u00e3o de trechos de seus filmes &#8211; alguns dos quais in\u00e9ditos, como rolos em Super 8 realizados nos anos 1960 em Bras\u00edlia e recentemente restaurados pelo Instituto Moreira Salles -, conversas sobre projetos de alunos e discuss\u00f5es sobre o processo do document\u00e1rio, revelou-se algu\u00e9m que permanece profundamente conectado com o mundo ao seu redor. Preocupado com o volume do \u00e1udio, a temperatura do ambiente, o tamanho da televis\u00e3o e se a experi\u00eancia em aula estava rendendo, com Bodanzky sempre h\u00e1 uma importante troca, caracter\u00edstica tanto em seus filmes quanto nas conversas com o diretor.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seus profundos olhos azuis n\u00e3o deixam enganar que a mais importante qualidade em um cineasta est\u00e1 no seu olhar, e a roupa de antrop\u00f3logo deixa claro que Bodanzky est\u00e1 pronto para partir \u00e0 batalha em qualquer momento (com sua c\u00e2mera de celular, na qual filmou todas as suas obras dos \u00faltimos cinco anos). J\u00e1 dizia em sua biografia, publicada pela cole\u00e7\u00e3o Aplauso e escrita por Carlos Alberto Mattos: &#8220;a satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 plena quando eu consigo juntar viagem e cinema. Quanto mais longe, inc\u00f4modo e prec\u00e1rio, melhor&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <strong>Mnemocine <\/strong>teve a oportunidade de entrevist\u00e1-lo em sua casa, na manh\u00e3 do dia 27 de junho de 2023, sobre t\u00f3picos que v\u00e3o de sua carreira como fot\u00f3grafo aos m\u00e9todos contempor\u00e2neos de filmagem e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o de document\u00e1rio no Brasil. Uma transcri\u00e7\u00e3o completa da entrevista, que durou 40 minutos, ser\u00e1 futuramente publicada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Luca Scupino (Mnemocine)<\/strong>: Depois dos encontros e desencontros, fico muito feliz de poder realizar essa conversa. E eu queria voltar um pouco para a semana da Ecofalante. Al\u00e9m do <em>workshop <\/em>e das sess\u00f5es do seu novo filme <em>Amaz\u00f4nia, a nova Minamata?<\/em> (2022), na mesma semana tamb\u00e9m aconteceu uma exibi\u00e7\u00e3o comemorativa do <em>Iracema &#8211; uma Transa Amaz\u00f4nica<\/em> (1974) no Cine Bijou, ao lado de um curta-metragem da Jana\u00edna Wagner, <em>Curupira e a M\u00e1quina do Destino<\/em> (2021). E uma personagem do curta \u00e9 a fantasma de Iracema. Me parece que sempre que se discute sua obra, acabamos voltando para o filme de 74. Voc\u00ea se sente assombrado pelo fantasma da Iracema?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jorge Bodanzky<\/strong>: J\u00e1 sentia antes, n\u00e9? O filme tem 50 anos. Ent\u00e3o ele j\u00e1 passou por tudo, tudo que voc\u00ea possa imaginar. A minha rela\u00e7\u00e3o com o Iracema teve altos e baixos, em todos os sentidos. Esses \u00faltimos anos foram mais tranquilos. Antes, me incomodava um pouco a discuss\u00e3o ficar s\u00f3 no <em>Iracema<\/em>, porque eu tenho outros trabalhos. Mas depois, tudo bem: se \u00e9 para ser <em>Iracema<\/em>, que seja e vamos em frente, n\u00e9? E tamb\u00e9m tem um lado gostoso, porque a gente fez um trabalho muito pequeno, modesto, para um programa da televis\u00e3o alem\u00e3 que numa situa\u00e7\u00e3o normal morreria ali, seria exibido e pronto. Tipo um Globo Rep\u00f3rter, passou e acabou. E a\u00ed, aconteceram tantas coisas que ele se tornou um filme de cinema, o que n\u00e3o estava previsto. Tanto \u00e9 que ele foi rodado em 16 mil\u00edmetros, que na \u00e9poca era o padr\u00e3o da televis\u00e3o alem\u00e3. E para poder ir para o cinema, para o Festival de Cannes, onde ele foi convidado, tinha que ampliar para 35 mil\u00edmetros. Agora, nesse momento, por conta dos 50 anos, a gente vai fazer o restauro do filme. Na realidade, ele n\u00e3o precisa de um restauro. Ele j\u00e1 est\u00e1 com uma c\u00f3pia boa, mas a gente vai refazer isso a partir do original em 16mm. E hoje voc\u00ea tem mais condi\u00e7\u00f5es de trabalhar o som, n\u00e9? A partir do som original &#8211; que foi localizado tanto o original quanto a banda de som no magn\u00e9tico que se usava na \u00e9poca. Ent\u00e3o a gente vai ter um filme praticamente novo, a partir desse restauro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Ainda sobre o <em>Iracema<\/em>: eu lembro de voc\u00ea falando que a \u00faltima cena do filme, quando o caminh\u00e3o est\u00e1 partindo, mostrava de fato caminh\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o indo embora, e toda a rea\u00e7\u00e3o ali era para o fato de que realmente ele n\u00e3o ia voltar, na realidade \u201cfora do filme\u201d, vamos dizer assim&#8230; E muito do que est\u00e1 no filme diz respeito a uma confus\u00e3o entre o processo de produ\u00e7\u00e3o e essa situa\u00e7\u00e3o ficcionalizada. Eu queria entender como \u00e9 o seu processo para trabalhar isso, no set, com a equipe, para eles se prepararem para lidar com esse acaso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: \u00c9 uma equipe, em primeiro lugar, pequena. Porque quanto menos pessoas, menos interfer\u00eancia existe no ambiente, mais natural ele fica, as pessoas n\u00e3o se constrangem. E era uma equipe que tamb\u00e9m n\u00e3o tinha apenas uma especialidade. Por exemplo, o t\u00e9cnico de som n\u00e3o era s\u00f3 o t\u00e9cnico de som, ele tinha que estar atento a tudo que acontece, n\u00e3o s\u00f3 preocupado com o microfone dele. Porque se ele n\u00e3o acompanhasse a situa\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o ia conseguir acompanhar a minha movimenta\u00e7\u00e3o de c\u00e2mera. Que era uma movimenta\u00e7\u00e3o totalmente improvisada, de acordo com aquilo que passava na sua frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Voc\u00ea sempre opera a c\u00e2mera?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: \u00c9, eu fa\u00e7o a c\u00e2mera. Sempre fiz a c\u00e2mera dos meus filmes. Quase todos, alguns n\u00e3o. Mas eu gosto de fazer a c\u00e2mera e eu dirijo com a c\u00e2mera. Eu n\u00e3o ponho um ator em fun\u00e7\u00e3o da c\u00e2mera: a c\u00e2mera que vai em fun\u00e7\u00e3o do ator, assim como o som. Ent\u00e3o a equipe, sabendo disso, ficava extremamente atenta para onde a c\u00e2mera estava apontando, o que estava acontecendo. Voc\u00ea tem que filmar com dois olhos abertos, n\u00e9? Um no olhar da c\u00e2mera e o outro no que est\u00e1 em torno.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Tem uma frase, acho que \u00e9 do Godard, que diz que toda toda boa fic\u00e7\u00e3o precisa de um bom document\u00e1rio no seu interior, e todo bom document\u00e1rio tende \u00e0 fic\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: At\u00e9 um tempo atr\u00e1s se fazia essa divis\u00e3o entre fic\u00e7\u00e3o e document\u00e1rio&#8230; Hoje, isso acabou. Os festivais eram muito especializados: tinha festival de document\u00e1rio, festival de fic\u00e7\u00e3o\u2026 E o <em>Iracema<\/em>, \u00e9 engra\u00e7ado, porque ele passava em um ou no outro e ningu\u00e9m questionava, nunca ningu\u00e9m pois isso em quest\u00e3o. E, recentemente, se abandonou isso. Ent\u00e3o, isso passou a ser corriqueiro, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Quais s\u00e3o suas influ\u00eancias? Voc\u00ea pensa nelas quando est\u00e1 fazendo um novo filme?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: N\u00e3o, n\u00e3o penso mais n\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o pensava no in\u00edcio. \u00c9 uma influ\u00eancia da minha gera\u00e7\u00e3o, da minha forma\u00e7\u00e3o. Quando eu tinha 16, 17 anos e comecei a me interessar por cinema havia a Sociedade Amigos da Cinemateca, com uma programa\u00e7\u00e3o excelente, filmes do mundo todo. E, naquele momento, havia um semin\u00e1rio de cinema document\u00e1rio. Estavam l\u00e1 Roberto Santos, Jean-Claude Bernadet, Paulo Em\u00edlio Salles Gomes&#8230; Grandes figuras do cinema brasileiro estavam presentes nesse semin\u00e1rio. E a\u00ed trouxeram uma novidade na \u00e9poca, que \u00e9 um document\u00e1rio chamado <em>Aruanda<\/em> (1959), do Linduarte Noronha, talvez o primeiro filme brasileiro com uma linguagem neorrealista, que abriu o Cinema Novo. E esse filme me impressionou muito, filme em 16mm, muito simples. \u00c9 uma hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o, mas os personagens improvisaram porque n\u00e3o eram atores. E eu olhei aquilo e falei: poxa vida, isso \u00e9 um cinema que eu posso fazer, e que eu gostaria de fazer, porque os outros filmes eram muito complicados para quem estava de fora, &#8220;nossa, eu nunca vou chegar l\u00e1&#8221;, entende? Agora, esse n\u00e3o, esse \u00e9 um filme que, se me derem uma c\u00e2mera, eu fa\u00e7o um filme assim. Ent\u00e3o isso me abriu os olhos. E fora que, na \u00e9poca, era muito presente a Nouvelle Vague, o Neorrealismo Italiano&#8230; Foi a minha forma\u00e7\u00e3o. Mas particularmente me influenciaram os filmes do Jean Rouch, que eu conheci tamb\u00e9m na nas proje\u00e7\u00f5es da Cinemateca. A\u00ed eu me identifiquei totalmente. E o Jean Rouch teve a felicidade, sendo antrop\u00f3logo &#8211; ele n\u00e3o era cineasta, mas se tornou &#8211; de trabalhar em um no momento quando surgiu uma tecnologia que permitiu fazer o som direto. Que se tornou o que se chamou <em>Cinema Verit\u00e9<\/em>, n\u00e9? Um cinema com equipamento mais leve e equipamento que n\u00e3o fazia ru\u00eddo. Porque as c\u00e2meras eram ruidosas. Ent\u00e3o, nem que tivesse, voc\u00ea n\u00e3o podia gravar o som com o barulho da c\u00e2mera. E veio Nagra, um gravador que trabalhava com sincronismo na c\u00e2mera, um gravador port\u00e1til hoje pesado, mas na \u00e9poca era de uma qualidade excelente. E que tinha essa particularidade fundamental de ser sincronizado com a c\u00e2mera. Ele funcionava com a liga\u00e7\u00e3o de um cabo. <em>Iracema <\/em>foi todo feito ainda com o cabo que ligava a c\u00e2mera ao som. Imagine eu me mexendo e o cara do som preso, n\u00e9? Porque tinha o cabo e, ao mesmo tempo, ele tinha que estar livre para se posicionar da melhor forma. Mas olha, funciona. A gente tinha isso e estava feliz da vida, porque funcionava muito bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Voltando um pouco para o Jean Rouch, eu lembro de voc\u00ea falando dele bastante no <em>workshop<\/em>. E assistindo ao seu novo filme, <em>Amaz\u00f4nia, a nova Minamata?<\/em> (2022), eu percebo que, diferente de alguns filmes seus &#8211; a gente pode pensar no <em>Iracema<\/em>, por exemplo -, ele se afasta desse cunho etnogr\u00e1fico mais tradicional, porque tem uma preocupa\u00e7\u00e3o mais imediata, de den\u00fancia, de exposi\u00e7\u00e3o daquela situa\u00e7\u00e3o. E, nesse sentido, eu tenho a impress\u00e3o de que ele se aproxima de um outro c\u00e2none do document\u00e1rio, que \u00e9 <em>Nanook, um esquim\u00f3<\/em> (1922, Robert Flaherty), o modo cl\u00e1ssico de document\u00e1rio. Voc\u00ea acha que a gente sempre volta ao in\u00edcio, quando estamos falando de cinema?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: Sempre, sim. O <em>Nanook <\/em>\u00e9 incr\u00edvel, porque na realidade ele nem \u00e9 um document\u00e1rio, tudo aquilo foi montado. A hist\u00f3ria do <em>Nanook <\/em>\u00e9 muito curiosa, vale a pena conhecer em detalhes. Porque o Flaherty fez o filme, depois perdeu e teve que refazer. Ent\u00e3o, ele reincenou o filme que ele tinha feito. No entanto, ele inaugura o document\u00e1rio, a palavra \u201cdocument\u00e1rio\u201d surgiu a partir do <em>Nanook<\/em>. Ent\u00e3o, se voc\u00ea recorre \u00e0 hist\u00f3ria do cinema, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o come\u00e7ar a partir do <em>Nanook<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Ainda sobre o <em>Amaz\u00f4nia: a nova Minamata?<\/em>, tenho a impress\u00e3o de que ele est\u00e1 mais preocupado em mostrar aquela realidade, necessariamente, do que a criar belas composi\u00e7\u00f5es, belas imagens. Mas acho que as duas coisas aparecem juntas, e me chama aten\u00e7\u00e3o que, no final dos depoimentos, sempre tem um retrato da pessoa entrevistada, mostrando que importa ali, na verdade, s\u00e3o as pessoas. E eu queria perguntar se voc\u00ea pensa que esse retrato vem da sua heran\u00e7a de fot\u00f3grafo. Ou melhor, como sua heran\u00e7a de fot\u00f3grafo impactou o seu cinema?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: Claro que impacta, n\u00e9? Porque eu fui durante muitos anos fot\u00f3grafo, e continuo sendo, at\u00e9 hoje. E trabalhei muitos anos como c\u00e2mera, tanto no cinema de fic\u00e7\u00e3o, mas principalmente document\u00e1rios para as TVs estrangeiras. E ent\u00e3o isso me deu uma cancha muito grande. Meu cinema \u00e9 o meu olhar da c\u00e2mera, eu fa\u00e7o cinema atrav\u00e9s da minha c\u00e2mera. E, no caso do <em>Minamata<\/em> \u00e9 um pouco mais complexo, porque eu fiz a segunda c\u00e2mera com meu celular. Os produtores n\u00e3o gostaram, desconfiaram (risos). &#8220;Vamos contratar um c\u00e2mera, voc\u00ea faz a tua brincadeira com o celular, mas o filme a gente vai fazer com um c\u00e2mera, n\u00e9?&#8221;. E na hora surgiu essa ideia do retrato, mas eu sempre disse pra equipe toda: \u201cvoc\u00ea s\u00f3 termina quando eu disser\u201d. Quer dizer, quando acaba uma entrevista, a gente espera, porque o entrevistado sempre come\u00e7a a falar naturalmente depois. As melhores coisas v\u00eam quando voc\u00ea acabou de filmar. Se voc\u00ea desligou a c\u00e2mera e o gravador, voc\u00ea perde isso, entende? Ent\u00e3o, voc\u00ea diz &#8220;muito bem, acabou&#8221; e fica todo mundo parado esperando o que vai acontecer. E foi assim que surgiu. A\u00ed eu disse pro [Paulo Gambale] Mak\u00e1: &#8220;n\u00e3o desliga a c\u00e2mera de jeito nenhum. Fica l\u00e1 com a c\u00e2mera nele, entende?&#8221; E o cara do som tamb\u00e9m. E foi assim que surgiu isso, sem nenhuma teoria por tr\u00e1s. Mais no sentido de deixar ele falar uma coisa al\u00e9m da pergunta, n\u00e9? Ent\u00e3o na realidade voc\u00ea n\u00e3o precisa nem perguntar, bastou a express\u00e3o dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Faz cinco anos que quase todos os seus filmes s\u00e3o filmados no celular. Queria que voc\u00ea enfatizasse o que isso muda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 abordagem do document\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: Tem uma coisa important\u00edssima que acontece com o celular, porque quando a gente filma as pessoas e principalmente as comunidades ribeirinhas e ind\u00edgenas, sempre fica com a sensa\u00e7\u00e3o que, como voc\u00ea est\u00e1 com um aparelho, que voc\u00ea tem um controle da imagem e eles n\u00e3o sabem o que que vai acontecer. Voc\u00ea est\u00e1 filmando, leva aquela aquela caixa preta e some com isso. E na medida em que voc\u00ea chega com o celular, muda radicalmente a tua posi\u00e7\u00e3o, porque como eles tamb\u00e9m usam celular, ent\u00e3o fica uma rela\u00e7\u00e3o de igual para igual. Eu n\u00e3o tenho um poder m\u00e1gico, de tirar uma coisa dessa pessoa e levar embora, porque como ela tamb\u00e9m tem esse mesmo poder com a m\u00e1quina, ent\u00e3o ela n\u00e3o se sente constrangida. Jamais quando voc\u00ea est\u00e1 filmando com o celular o cara vai dizer: &#8220;n\u00e3o filma&#8221;, porque ele tamb\u00e9m est\u00e1 com celular dele na m\u00e3o. Ent\u00e3o, ele acha natural. Voc\u00ea est\u00e1 conversando e diz &#8220;d\u00e1 licen\u00e7a, eu vou tirar meu celular&#8221;. &#8220;Tudo bem&#8221;, entende? Nunca me aconteceu de algu\u00e9m dizer &#8220;n\u00e3o, n\u00e3o quero&#8221;. Com a c\u00e2mera n\u00e3o, tem que pedir autorizar, ele fica desconfiado. &#8220;O que que voc\u00ea vai ganhar com isso? O que que eu vou ganhar com isso?&#8221;, entende? Mas isso vale para qualquer pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Seu \u00faltimo filme, o <em>Amaz\u00f4nia, a nova Minamata?<\/em> foi feito durante o governo Bolsonaro, em uma situa\u00e7\u00e3o que guarda similaridades com aquela que o seu filme anterior <em>Utopia Distopia<\/em> descreve sobre Bras\u00edlia nos anos 1960. Agora, as coisas parecem ter mudado um pouco, com o Minist\u00e9rio dos Povos Origin\u00e1rios, mas eu lembro que no pr\u00f3prio dia da exibi\u00e7\u00e3o do <em>Iracema<\/em> foi votado o Marco Temporal, n\u00e9? E o horizonte parece meio incerto. Como voc\u00ea enxerga o futuro do cinema e da situa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: \u00c9 complexo, mas eu n\u00e3o sou otimista n\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 para ser. Porque essa quest\u00e3o ind\u00edgena \u00e9 desde que Cabral chegou aqui, ent\u00e3o a posi\u00e7\u00e3o do branco em rela\u00e7\u00e3o ao ind\u00edgena n\u00e3o mudou em nada. O ind\u00edgena \u00e9 visto como empecilho ou para ser escravizado ou para ser explorado, as terras para serem exploradas&#8230; Se ele n\u00e3o ajuda, ele s\u00f3 atrapalha, tem que ser eliminado. E isso continua at\u00e9 hoje.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: E o cinema, qual o papel dele?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: Eu acho que \u00e9 muito importante o papel do audiovisual, n\u00e3o s\u00f3 do cinema. Mas tamb\u00e9m da utiliza\u00e7\u00e3o do celular, publicar os seus v\u00eddeos, fazer audiovisual a partir da sua pr\u00f3pria cultura e n\u00e3o a partir do olhar de fora, que \u00e9 o que est\u00e1 acontecendo agora. Acho que com a chegada do celular, e tamb\u00e9m j\u00e1 h\u00e1 muitos anos tem um projeto muito interessante, que eu acho que \u00e9 fundamental para cria\u00e7\u00e3o de cinema ind\u00edgena, que foi o V\u00eddeo nas Aldeias, do Vincent Carelli, ent\u00e3o ele treinou, ainda na \u00e9poca com VHS, os ind\u00edgenas a filmarem, fazerem seus pr\u00f3prios filmes. Ent\u00e3o, se formou uma gera\u00e7\u00e3o de diretores de cinema ind\u00edgenas, s\u00e3o poucos, mas muito bons e muito cientes da necessidade de fazerem seus pr\u00f3prios filmes. Isso explodiu agora nesses \u00faltimos dois anos. Ent\u00e3o, hoje n\u00e3o existe mais um festival no Brasil e no mundo que n\u00e3o coloque filme ind\u00edgena na programa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo, \u00e9 o novo. O que \u00e9 curioso tamb\u00e9m no cinema ind\u00edgena \u00e9 que se voc\u00ea olhar nos letreiros, n\u00e3o tem financiamento de nada, geralmente s\u00e3o coletivos. N\u00e3o tem filme patrocinado por lei disso, lei aquilo, nada. \u00c9 uma coisa totalmente autoral e coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Como cineasta que sempre tratou das quest\u00f5es ind\u00edgenas-ambientais, voc\u00ea sente que seu lugar mudou em rela\u00e7\u00e3o ao que era antes, com esses novos cineastas surgindo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: N\u00e3o, de jeito nenhum. A gente convive muito bem com eles. Ao contr\u00e1rio, eles convidam os meus filmes. Mesmo na Mostra de Cinema Ind\u00edgena em Bras\u00edlia, no ano passado, passaram meu filme, e eu disse &#8220;mas n\u00e3o \u00e9 um filme feito por \u00edndio&#8221;, eles responderam que &#8220;n\u00e3o, mas a quest\u00e3o \u00e9 nossa, o problema que ele trata \u00e9 um problema que nos interessa&#8221;. Ent\u00e3o eu fico muito contente com isso, de saber que o que esse filme, o <em>Minamata<\/em>,<em> <\/em>est\u00e1 com uma demanda muito grande nas comunidades ind\u00edgenas. Tanto \u00e9 que estamos trabalhando em uma vers\u00e3o dublada em munduruku, em caiap\u00f3 e ianomami. Para poder levar para as aldeias, onde eles n\u00e3o falam portugu\u00eas e n\u00e3o l\u00eaem, ent\u00e3o tem que ser dublado na l\u00edngua deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Eu queria agora falar um pouco sobre a quest\u00e3o da exibi\u00e7\u00e3o no cinema document\u00e1rio. A gente aprende que o <em>Iracema <\/em>ficou v\u00e1rios anos sem ter uma exibi\u00e7\u00e3o comercial, ele foi mostrado apenas em cineclubes onde obteve bastante p\u00fablico, fez bastante sucesso ali. Mas hoje, mesmo muitos dos filmes que estavam na Ecofalante, que venceram pr\u00eamios, encontram uma barreira entre a produ\u00e7\u00e3o e a exibi\u00e7\u00e3o. O Brasil n\u00e3o tem p\u00fablico para document\u00e1rio ou \u00e9 o document\u00e1rio que n\u00e3o chega ao p\u00fablico brasileiro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: P\u00fablico tem e muito, n\u00e9? \u00c9 que havia nos anos 1970-80 esse movimento cineclubista. Porque os filmes eram projetados em 16mm e n\u00e3o eram t\u00e3o sujeitos \u00e0 censura quanto o cinema comercial, e havia uma mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito grande em torno desse cineclubismo. Ele n\u00e3o era s\u00f3 um ambiente para se conhecer filmes, mas era um ambiente de resist\u00eancia. Isso naturalmente mudou. N\u00e3o faz tanto sentido hoje em dia onde voc\u00ea pode ver filmes de outras formas. Na \u00e9poca era a \u00fanica maneira de conhecer um filme projetando, n\u00e3o tinha outra alternativa. A televis\u00e3o brasileira sempre foi, e at\u00e9 hoje \u00e9 refrat\u00e1ria do document\u00e1rio. Diferente de outros pa\u00edses (Inglaterra, Fran\u00e7a, Alemanha, principalmente), onde o local de exibi\u00e7\u00e3o para o document\u00e1rio \u00e9 a TV, n\u00e9? Os document\u00e1rios s\u00e3o coproduzidos, feitos inicialmente para a TV. E no Brasil, at\u00e9 hoje n\u00e3o existe essa cultura da televis\u00e3o, eles aceitam uma reportagem, mas raramente aceitam um document\u00e1rio. Agora, a Globo News e o Canal Brasil est\u00e3o co-produzindo document\u00e1rios porque sentiram que tem p\u00fablico, que tem interesse. Mas ainda \u00e9 muito restrito. Eu acho que as m\u00eddias, os <em>streamings <\/em>e os canais de TV ainda s\u00e3o muito fechados para o document\u00e1rio. Mas \u00e9 um caminho que tem que se abrir. Eu acho que dos filmes que impactam, que falam da atualidade, eles acabam circulando. Agora, \u00e9 dif\u00edcil para qualquer filme, n\u00e9? Seja de fic\u00e7\u00e3o ou seja document\u00e1rio. \u00c9 dif\u00edcil chegar ao esquema comercial. Ent\u00e3o \u00e9 uma ilus\u00e3o voc\u00ea fazer um filme autoral e achar que vai colocar no circuito comercial, isso n\u00e3o existe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Ainda sobre as quest\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, lembro que no <em>workshop <\/em>voc\u00ea criticou bastante a l\u00f3gica dos editais para document\u00e1rio. Queria saber se voc\u00ea pode desenvolver essa ideia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: O cinema ind\u00edgena \u00e9 um bom exemplo disso. Ele n\u00e3o foi criado em fun\u00e7\u00e3o dos editais. Eu acho que os editais, pouco a pouco, foram viciando os cineastas a dependerem demais do formato. Eles passaram a ser uma coisa t\u00e3o poderosa que os produtores de cinema desenvolvem um projeto para caber dentro do esquema do edital, e n\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 o edital que serve ao filme, mas o filme \u00e9 que serve ao edital. Isso \u00e9 um processo burocr\u00e1tico, complexo. Onde tem dinheiro p\u00fablico, tem burocracia e n\u00e3o tem jeito. Mas eu acho que a classe ainda n\u00e3o acordou para fazer uma luta e alterar a pr\u00f3pria estrutura do edital. Eu acho que os editais deviam ser da seguinte maneira: deviam encarar o projeto primeiro, e n\u00e3o quantos pontos tem a empresa, quantos pontos tem o diretor&#8230; N\u00e3o tem nada a ver um processo burocr\u00e1tico t\u00e3o amarrado para produzir uma forma que tem que ser livre. Tanto faz document\u00e1rio, fic\u00e7\u00e3o\u2026 O Iracema foi feito assim. N\u00e3o \u00e9 bem um edital, mas era um programa de televis\u00e3o que patrocinava filmes experimentais. E tinha total liberdade. Eles viram a ideia e n\u00e3o tinha nem roteiro. Eu levei um Super 8 e esse Super 8 convenceu o produtor da televis\u00e3o. Ele disse assim: &#8220;essas imagens para mim s\u00e3o suficientes. Se o filme tem essas imagens, vamos fazer&#8221;. Tinha um valor x para aquele programa, nos entregaram aquilo na \u00edntegra. Caiu na conta do banco, usamos e quando eu voltei e fiz o primeiro corte n\u00f3s mostramos, eles olharam. E t\u00e1 bom, tudo bem. A presta\u00e7\u00e3o de contas \u00e9 o filme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Hoje em dia, parece que quando se vai fazer um filme tudo entra em pauta, menos o cinema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: \u00c9, porque parte do princ\u00edpio que as pessoas v\u00e3o fazer outro uso do dinheiro, mas isso \u00e9 uma bobagem. Qual \u00e9 o cineasta que n\u00e3o vai aplicar o dinheiro no seu pr\u00f3prio filme? Pode ter um ou outro malandro que vai querer comprar um apartamento ou um carro com esse dinheiro. Mas e da\u00ed? Se ele fez isso, azar \u00e9 o dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Mudando um pouco de assunto, voc\u00ea foi professor de cinema na USP, na Unicamp, na UnB e na FAAP. Voc\u00ea \u00e9 de acordo com aquela frase que \u00e9 dita em um de seus filmes sobre o Darcy Ribeiro, de que o conhecimento n\u00e3o pode ser privatizado, ele tem que ser repassado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: Essa frase \u00e9 de um colega meu. O Darcy falou o contr\u00e1rio, o que atrapalha a universidade s\u00e3o os alunos (risos). Eu acho que voc\u00ea tem que distribuir teu conhecimento, \u00e9 uma quest\u00e3o de responsabilidade social, n\u00e9? Ent\u00e3o, se voc\u00ea adquirir um conhecimento, e voc\u00ea tiver a oportunidade de passar &#8211; ali\u00e1s, o dever de passar esse conhecimento -, tem que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Falamos do Darcy Ribeiro, mas e Levi-Strauss? Depois de ter visto tanto, voc\u00ea acha que a sociedades humanas s\u00e3o fundamentalmente parecidas e s\u00f3 recombinam os seus c\u00f3digos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: Eu acho que sim. O Levi-Strauss, com a sua teoria do estruturalismo, acertou na mosca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: O cineasta \u00e9 um antrop\u00f3logo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: \u00c9. O documentarista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: Gostar\u00edamos de te agradecer pelo seu tempo. O que voc\u00ea fala \u00e9 essencial para pensar o document\u00e1rio no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: \u00c9 descomplicar, n\u00e9?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LS<\/strong>: \u00c9 isso. O que ficou na minha cabe\u00e7a, depois do workshop, foi uma frase que voc\u00ea falou: &#8220;Quer fazer cinema? Tem que filmar!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>JB<\/strong>: \u00c9 que nem escritor: voc\u00ea quer ser escritor? Tem que escrever. Tem que ler livros e escrever. Cinema \u00e9 a mesma coisa, voc\u00ea tem que filmar e tem que ver filmes. Voc\u00ea aprende vendo os filmes, qualquer filme. Sempre tem alguma coisa que voc\u00ea pode aprender. \u00c9 aquilo que falei para voc\u00eas, e que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 meu: o cineasta \u00e9 um contador de hist\u00f3rias. Voc\u00ea tem que ter o desejo de contar. Mesmo que seja um document\u00e1rio, voc\u00ea tem que ter a curiosidade de saber o que que o outro est\u00e1 pensando. E ser despojado para aceitar o outro. N\u00e3o chegar l\u00e1 achando que voc\u00ea \u00e9 o dono da verdade. &#8220;Eu quero fazer o filme assim e assim que ele vai ser&#8221;, enquanto que a realidade est\u00e1 impondo uma outra situa\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes funciona, mas muitas vezes n\u00e3o. Tem que estar aberto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Biografia <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luca Scupino \u00e9 formado em Cinema pela FAAP, onde realizou quatro curtas-metragens. Atualmente pesquisa no campo da est\u00e9tica e hist\u00f3ria do cinema, e escreve para diferentes meios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cobertura da 12\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema faz parte do programa Jovens Cr\u00edticos que busca desenvolver e dar espa\u00e7o para novos talentos do pensamento cinematogr\u00e1fico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agradecemos \u00e0 Atti Comunica\u00e7\u00e3o e Ideias e Francisco Cesar Filho por todo o apoio na cobertura do evento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Equipe Jovens Cr\u00edticos Mnemocine:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordena\u00e7\u00e3o e Idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00e3o: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o: Luca Scupino<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o Adjunta e Organiza\u00e7\u00e3o: Rayane Lima<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na ocasi\u00e3o da 12\u00aa Mostra Ecofalante, onde Jorge Bodanzky exibiu seu document\u00e1rio Amaz\u00f4nia, a Nova Minamata? 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