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"Um trem para as estrelas "
Espaços líricos sobre o desterro da metrópole
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por
Diniz Antonio Gonçalves Junior
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O cineasta
Cacá Diegues dirigiu "Um trem para as estrelas" durante os anos
oitenta, contando a história de um saxofonista ingênuo que atravessa
todo tipo de provação para reencontrar a sua namorada. Este filme
é o seu pré-orfeu, pois foi realizado antes de "Orfeu" , mas já
apresenta elementos da saga mitológica. O nome do músico é Vinícius
(Guilherme Fontes) homenageando o poeta Vinícius de Moraes que havia
escrito a peça "Orfeu da Conceição". Na mitologia grega, Orfeu é
o mais musical dos filhos de Apolo. Ele atravessa o pântano de Hades
atrás de sua amada Eurídice não podendo olhar para trás sob pena
de perdê-la para sempre.
Ouve-se a música Ornithology de Charlie Parker num quarto
simples de um enorme conjunto habitacional. Vinícius olha a foto
do pai, também saxofonista e promete que irá vencer. Atravessa os
corredores do prédio para encontrar seu amigo Dreamer, pede dinheiro
emprestado para ir tocar no ensaio do cantor Cazuza. Este ensaio
pode mudar a sua vida, talvez conquiste a fama tão almejada. Vinícius
toca além do que foi pedido, e acaba levando uma bronca do produtor
do disco e do cantor. Começa a perceber que o mundo real não é o
que imaginava, Orfeu sofre os primeiros percalços ao atravessar
o Hades. Leva sua namorada Eunice a um mirante para contar-lhe sobre
o ensaio, fala que vai ficar famoso e comprar tudo que ela desejar.
A fotografia desta cena é carregada de tons suaves, criando um espaço
lírico na noite do Rio de Janeiro. Eunice é extremamente realista,
não acredita nos devaneios de Vinícius. Ela transa com ele e depois
desaparece. Vinícius não percebe, pois está imerso na música que
está tocando para a sua musa.
Cacá Diegues começa a confrontar dois mundos; a realidade cruel
das ruas e o mundo idealizado no artista. Haveria espaço para a
arte na realidade pragmática dos nossos dias. Vinícius desespera-se
ao perceber que Eunice desapareceu e vai a uma delegacia para prestar
queixa. O delegado faz pouco caso e fala que irá procura-la em bordéis.
Ao pegar uma foto de Eunice com displicência, acaba deixando-a cair
no vaso sanitário. Vinícius fica enojado, sua namorada tratada com
desprezo. O delegado zomba da preocupação de Vinícius, fala que
amor é coisa de "viado", homem só deve sentir "tesão". Apesar das
declarações absurdas, o delegado mostra que não é mau-caráter, pois
livra Vinícius de um flagrante ao ver um cigarro de maconha caído
no chão. Vinícius procura os pais de Eunice, mas percebe que eles
não estão preocupados com ela.
O ator Zé Trindade está impagável como o pai de Eunice, este papel
é uma homenagem do diretor ao astro das chanchadas. Mirian Pires
convence como a alienada mãe de Eunice que só se preocupa com os
programas de televisão. Vinícius encontra a dona da loja em que
sua noiva trabalhava durante um show que realiza com o poeta e músico
Fausto Fawcet. Espécie de cronista da decadência carioca, Fausto
Fawcet narra as histórias do choque entre A Zona Sul e o Morro de
uma forma ácida e cheia de cortes cinematográficos. Depois de tocar
Blue Moon inúmeras vezes para uma cliente bêbado, entra no
carro da patroa de sua namorada. Ela pede para que ele bata nela,
assustando-o. Perversões do mundo atual não combinam com o idealismo
de Vinícius. Ao procurar a imprensa, descobre um mundo mais sórdido
que imaginava. Querem que ele invente uma história de amor e morte,
para depois inocentá-lo.
Cacá Diegues critica a imprensa sensacionalista que faz qualquer
coisa para vender jornal. Cacá Diegues cria uma imagem alegórica,
apresentando uma suposta "santinha" que estaria realizando milagres
numa favela. Os jornalistas vão à favela com Vinícius para cobrir
o evento, o delegado também está lá. Ele xinga a população, por
ela acreditar naquilo, utiliza-se do título de doutor para ridicularizar
os crédulos. Um negro é acusado de estuprar a santinha, e começa
uma tentativa de linchamento. De repente, começa a chover comida
na favela, em uma das mais belas cenas do filme. Na verdade ele
tinha transado com o consentimento dela, a chuva serviu para a sua
chuva. Ele gritou: - Foge Zumbi representando um libelo contra o
racismo. O diretor através da cena alegórica, mostra a utopia do
artista indignado com as condições precárias em que o povo vive.
O melhor amigo de Vinícius, Dreamer envolve-se num assalto, toma
um tiro do dono da casa, e acaba morrendo nas mãos de Vinícius.
Ele alertou-o para os perigos, mas Dreamer não quis ouvir e envolveu-se
com quem não devia. Dreamer queria viajar para os Estados Unidos,
acreditava que lá seria o paraíso onde seus desejos se realizariam.
Este ilusão de encontrar a felicidade em terras distantes é retratada
de uma forma vigorosa no filme Terra Estrangeira de Walter
Salles.
Vinícius vai ao encontro de sua mãe que trabalha numa boate, para
tentar encontrar Nicinha, ele começa a desconfiar do sumiço de sua
amada. A mãe de Vinícius é uma prostituta amargurada com a vida,
zomba quando ele fala de amor Quando Vinícius está tocando no esperado
show de Cazuza, recebe uma mensagem do delegado, tinham encontrado
a sua namorada. O delegado que antes era grosseiro, começa a gostar
de Vinícius. Na mitologia, Orfeu encanta a todos com a sua música.
Infelizmente sua namorada estava envolvida com o tráfico de drogas,
preferiu o dinheiro fácil do que ficar ao lado do músico sonhador.
A pessoa que ele imaginava conhecer não existia, era apenas uma
musa criada pela imaginação. A realidade era bem mais cruel. Aproveitando-se
da cumplicidade do delegado, foge com ela para o mirante. Depois
de ouvi-lo tocar ela foge de novo, o amor de Vinícius é irrealizável.
Ele que tinha a ilusão de que fazia o sol nascer com a sua música,
agora contenta-se em anunciar a sua presença. Vinícius reinventa
a cidade e as pessoas com a sua arte, criando um mundo idílico onde
outros enxergam pragmatismo e decadência. Cacá Diegues criou um
belo de época, utilizando uma inspirada trilha sonora de Gilberto
Gil e contando com a participação do saxofonista Zé Luís que realiza
os solos de Vinícius, de Cazuza e de Fausto Fawcet, ícones dos anos
1980.
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