{"id":1040,"date":"2025-11-26T22:44:59","date_gmt":"2025-11-27T01:44:59","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=1040"},"modified":"2025-11-27T09:33:48","modified_gmt":"2025-11-27T12:33:48","slug":"o-agente-secreto-como-bom-agente-secreto-destila-pistas-falsas-e-instiga-decifracoes-tal-qual-em-brincadeira-de-cabra-cega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=1040","title":{"rendered":"O AGENTE SECRETO, como bom \u201cagente secreto\u201d, destila pistas falsas e instiga decifra\u00e7\u00f5es, tal qual em brincadeira de cabra-cega."},"content":{"rendered":"\n<p>Por Humberto Silva<\/p>\n\n\n\n<p><br><strong>Vi <em>O Agente Secreto<\/em>, de Kleber Mendon\u00e7a Filho (KMF) (No calor da hora, na sala de proje\u00e7\u00e3o, a brincadeira de cabra-cega n\u00e3o deixa de carregar certo sentido duplo).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois do Oscar de filme estrangeiro para <em>Ainda Estou Aqui<\/em>, de Walter Salles, e na sequ\u00eancia de tripla premia\u00e7\u00e3o no festejado Festival de Cannes, o filme de KMF desponta como n\u00e3o antes com um \u201cfilme brasileiro\u201d (em tempos de coprodu\u00e7\u00e3o, o sentido de \u201cfilme nacional\u201d merece um aviso: trata-se de uma produ\u00e7\u00e3o que envolve as produtoras:&nbsp; CinemaSc\u00f3pio (Brasil), MK2 Films (Fran\u00e7a), Lemming Film (Pa\u00edses Baixos), One Two Films (Alemanha), Arte France Cin\u00e9ma (Fran\u00e7a), Black Rabbit Media (Brasil) e Itapoan (Brasil) e distribu\u00eddo nos USA pela Neon \u2013 no Oscar deste ano, o iraniano <em>A Semente do Fruto Sagrado<\/em>, do iraniano Mohammad Rasoulof, foi indicado como filme estrangeiro alem\u00e3o, portanto um filme alem\u00e3o, ok?) tem despertado expectativa de premia\u00e7\u00e3o na festa m\u00e1xima da ind\u00fastria de cinema. Nessa altura do campeonato, o filme de Walter Salles gerava desconfian\u00e7a de que poderia n\u00e3o estar na pr\u00e9-lista dos dez filmes estrangeiros&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A expectativa de premia\u00e7\u00e3o bem positiva se justifica e mereceu do cr\u00edtico Juliano Gomes a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201cpara ele \u00e9 tranquilamente o filme brasileiro mais importante deste s\u00e9culo\u201d. Juliano completa seu ponto de vista real\u00e7ando que \u201c\u00e9 o filme que mais bagun\u00e7a os lugares comuns de discuss\u00f5es estruturais do cinema brasileiro das \u00faltimas d\u00e9cadas ao p\u00f4r a nu a ret\u00f3rica das big produtoras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o para mim n\u00e3o \u00e9 a da tergiversante concord\u00e2ncia ou discord\u00e2ncia, nem de eventual exagero ret\u00f3rico de Juliano, e sim de sua fala extrair como ponto de partida que <em>O Agente Secreto<\/em> se imp\u00f5e efetivamente \u201ccomo um marco em variadas dire\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, eu e Juliano partilhamos o mesmo ponto de vista, ainda que, para mim, caiba ao caprichoso movimento da hist\u00f3ria responder se para a Hist\u00f3ria ser\u00e1 o filme brasileiro mais importante neste primeiro quarto de s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Concord\u00e2ncias ou discord\u00e2ncias \u00e0 parte, postei e dividi com Juliano e amigos&#8230;, no WhatsApp, o que segue abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Trata-se inegavelmente, assim o vi, de uma realiza\u00e7\u00e3o produzida com muito esmero. Refor\u00e7o: t\u00e3o bem-produzida, n\u00e3o parece \u201cfilme brasileiro\u201d rsrsrs ou, pode parecer menos brasileiro do que seria o caso&#8230;; isso n\u00e3o \u00e9 defeito (v\u00edcio, a se objetar sobre valor est\u00e9tico a ser proferido), \u00e9 um dado de produ\u00e7\u00e3o na ordem do mercado&#8230;; e como dado de produ\u00e7\u00e3o, tanto quanto a produ\u00e7\u00e3o pode, mas n\u00e3o necessariamente, ser um dado que comp\u00f5e o valor em uma obra f\u00edlmica (em uma produ\u00e7\u00e3o modesta pode surgir certa dificuldade para se ajustar adequadamente a altura da r\u00e9gua&#8230;).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Se a produ\u00e7\u00e3o de O Agente Secreto \u2013 a fazer valer a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201c\u00e9 um marco em variadas dire\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 \u00e9 uma das possibilidades para se refletir sobre o que esse filme representa, ou pode representar no movimento da hist\u00f3ria, eu pondero aqui sobre uma outra dire\u00e7\u00e3o para se abord\u00e1-lo: KMF fez para mim um filme que \u00e9, principalmente, um exemplar (paradigma, diria um epistem\u00f3logo de plant\u00e3o) caracter\u00edstico do que mereceria um exame cuidadoso do que est\u00e1 no extra-f\u00edlmico (o \u201cfato cinematogr\u00e1fico\u201d, para aludir ao te\u00f3rico de cinema Gibert Cohen-S\u00e9at, para quem \u201cfato f\u00edlmico\u201d \u00e9 o filme na tela e \u201cfato cinematogr\u00e1fico\u201d o que \u00e9, justamente, externo \u00e0s imagens vistas) . Com ele, a afirma\u00e7\u00e3o da enorme habilidade do KMF para fazer um filme circular. KMF \u00e9 um g\u00eanio (<\/em><strong><em>P\u00f3s-escrito<\/em><\/strong><em>: obviamente em sintonia com a afirma\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica de Juliano, sem que, no entanto, o adjetivo fique ref\u00e9m do crivo da hist\u00f3ria).&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No \u201ccinema brasileiro\u201d n\u00e3o vejo outro nome com tanto talento para estrat\u00e9gia de publicidade, autopromo\u00e7\u00e3o e consequentemente protagonismo na ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os midi\u00e1ticos \u2013 ainda que Wagner Moura seja uma estrela internacional com visibilidade inconteste para promover qualquer filme que protagonize, KMF assume a frente de modo a que Wagner Moura seja n\u00e3o muito mais que coadjuvante de luxo. Nem o comedido Walter Salles, nem Fernando Meirelles, que \u00e9 \u00f3timo nesse quesito, nem o turbulento Jos\u00e9 Padilha, e al\u00e9m desses a prateleira \u00e9 mais baixa, creio que no quesito de autopromo\u00e7\u00e3o ombreiem com KMF.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>O Agente Secreto \u00e9 vendido como thriller pol\u00edtico com a\u00e7\u00e3o nos anos 70????<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Marilena Chaui tem um livro de refer\u00eancia, que se inscreve entre os \u201cexplicadores\u201d do pa\u00eds: <\/em><strong><em>Brasil \u2013 mito fundador e sociedade autorit\u00e1ria<\/em><\/strong><em> (Editora Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2000). Nele uma das ideias-chave: o ocultamento da viol\u00eancia que \u201cnaturaliza\u201d a verticaliza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de poder; assim sendo, o \u201cmito fundador\u201d \u00e9 aquele que n\u00e3o cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e ideias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o de si mesmo: no Brasil, a hist\u00f3ria se repete como farsa; as elites no poder mudam os nomes, a etiqueta, o figurino, mas n\u00e3o a estrutura hierarquizada estamental, que permanece coberta pelo \u201cmito fundador\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Esse o caminho que tomei ao ver O Agente Secreto. No mito fundador, oculta-se o tra\u00e7o autorit\u00e1rio e como decorr\u00eancia a corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica em que se misturam inst\u00e2ncias de poder, as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas num conluio entre p\u00fablico e privado, as elites conservadoras do status quo e o povo (claro, aqui uma tinta de sociologia seria oportuna, mas&#8230; n\u00e3o raramente advoga-se que para o cinema a sociologia \u00e9 um entulho&#8230;).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c0 medida que tem esse prop\u00f3sito, retratar o \u201cocultamento da viol\u00eancia em nossa sociedade autorit\u00e1ria\u201d (a sequ\u00eancia inicial \u00e9 emblem\u00e1tica, o restante do filme e vemos varia\u00e7\u00f5es em torno da mesma situa\u00e7\u00e3o, ou seja, a repeti\u00e7\u00e3o muitas vezes embebida de nonsense, de absurdo, de realismo fant\u00e1stico&#8230; \u2013 n\u00e3o duvido, KMF \u00e9 fascinado por Gabriel Garcia M\u00e1rquez), O Agente Secreto \u00e9 para mim um filme que precisava ser feito no Brasil. Ser vendido como thriller pol\u00edtico, por outro lado, \u00e9 propaganda enganosa, empulha\u00e7\u00e3o, ou com boas inten\u00e7\u00f5es oportuna estrat\u00e9gia publicit\u00e1ria na qual vejo a enorme habilidade de KMF. Estrat\u00e9gia que, n\u00e3o tenho d\u00favida, est\u00e1 sendo muito bem-sucedida. A se considerar, por \u00f3bvio, que h\u00e1 um caminho cheio de emo\u00e7\u00f5es pela frente at\u00e9 a festa final da Academia de Cinema&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P\u00f3s-escrito<\/strong>: Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reda\u00e7\u00e3o inicial postada no WhatsApp, fiz corre\u00e7\u00f5es, ajustes, complementos para explicitar um ponto de vista. De qualquer forma, entre amigos no WhatsApp \u2013 n\u00e3o o Juliano \u2013 e a respeito do que escrevi me foi posta uma quest\u00e3o: ao tomar como \u201cengana\u00e7\u00e3o\u201d que <em>O Agente Secreto<\/em> seria um \u201cthriller pol\u00edtico\u201d, como ent\u00e3o eu definiria um thriller pol\u00edtico? Minha resposta ent\u00e3o segue abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Primeira coisa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o dos g\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos e, o que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, os \u201cfilmes de g\u00eanero\u201d. Essa quest\u00e3o eu tratei em meu e-book: <em>G\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos e a Nova Hollywood<\/em> &lt;<a href=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=931\">https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=931<\/a>&gt;, publicado pela editora do site Mnemocine.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que vale uma espiada. Isso claro supondo se queira ter a compreens\u00e3o de como abordo os g\u00eaneros no cinema e, principalmente, que n\u00e3o vejo problema no cat\u00e1logo de g\u00eaneros tais e tais na ind\u00fastria de cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a ind\u00fastria, \u201cfilmes de g\u00eanero\u201d se inserem na l\u00f3gica do mercado. Colocam-se, portanto, como produto de marketing, com ineg\u00e1veis v\u00ednculos comerciais.&nbsp;Tomo como premissa que uma discuss\u00e3o ontol\u00f3gica sobre o que \u00e9 um thriller pol\u00edtico, o ser em si, no cinema \u00e9 atropelada pelo jogo de interesses que visam pragmaticamente por um filme em circula\u00e7\u00e3o. Mais de s\u00e9culo depois, sim, discutir ontologicamente se <em>L\u00b4Arrosseur Arros\u00e9<\/em> (1895), de Louis Lumi\u00e8re, \u00e9 uma com\u00e9dia ou n\u00e3o tem um sentido que s\u00f3 o sentido que o g\u00eanero com\u00e9dia teve na hist\u00f3ria do cinema possibilita.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, <em>O Agente Secreto<\/em> \u00e9 vendido como thriller pol\u00edtico. O retorno de bilheteria e as premia\u00e7\u00f5es, com o Oscar como cereja do bolo, respondem pelo sucesso na estrat\u00e9gia publicit\u00e1ria. Isso, contudo, do ponto de vista conceitual (as palavras e as coisas, para evocar querela nominalista&#8230;), implica que se trata efetivamente de um thriller pol\u00edtico?<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em vista o filme como neg\u00f3cio, ser ou n\u00e3o ser um thriller pol\u00edtico, conceitualmente, n\u00e3o tem import\u00e2ncia. Pode-se, claro, alimentar discuss\u00f5es vagas, imprecisas, mas nunca definitivas, pois para o jogo com o mercado o que importa \u00e9 se \u00e9 ou n\u00e3o bem vendido como thriller pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Segunda coisa&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o incluo thriller como g\u00eanero f\u00edlmico. Nem como subg\u00eanero. N\u00e3o entendo o thriller como um g\u00eanero aut\u00f4nomo e sim uma tipifica\u00e7\u00e3o que pode se inserir em g\u00eaneros e subg\u00eaneros variados. Aqui aplico, para fazer valer categoriza\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, g\u00eanero, esp\u00e9cie ou tipos, e a individualiza\u00e7\u00e3o, ou seja, a obra isolada. E assim, como tipo subsumido em um g\u00eanero ou subg\u00eanero, um thriller pode se incluir entre filmes de terror, de persegui\u00e7\u00e3o, de a\u00e7\u00e3o, de aventura, fantasia, suspense, drama, com\u00e9dia, distopias&#8230; (conjecturo pensar em <em>Bacurau<\/em> como um thriller dist\u00f3pico que segue algumas conven\u00e7\u00f5es do g\u00eanero western&#8230; TIPO <em>Meu \u00d3dio Ser\u00e1 Tua Heran\u00e7a<\/em>, de Sam Peckinpah, de 1969).<\/p>\n\n\n\n<p>Como tipo o thriller pode ou n\u00e3o ser marcado por um ou mais g\u00eaneros, ou subg\u00eaneros, ou conter sequ\u00eancias com tipifica\u00e7\u00f5es h\u00edbridas, de apelo exploitation e assim por diante. O enrosco em <em>O Agente Secreto<\/em>, por sua vez, \u00e9 com a predica\u00e7\u00e3o de thriller, ou seja, ser identificado como <strong>thriller pol\u00edtico<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 o <strong>pol\u00edtico<\/strong> no caso? A exposi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de um assunto que envolva a pol\u00edtica? Se n\u00e3o envolver diretamente um assunto pol\u00edtico, cabe usar a predica\u00e7\u00e3o \u201cpol\u00edtico\u201d? Pois, de algum modo, como pensar a aus\u00eancia do pol\u00edtico em qualquer filme que n\u00e3o seja evidentemente um \u201cfilme pol\u00edtico\u201d?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fazer uma com\u00e9dia tipo screwball nos anos de Depress\u00e3o Econ\u00f4mica nos USA n\u00e3o deixa de conter uma decis\u00e3o pol\u00edtica ao se oferecer uma obra escapista a um expectador que poderia querer um momento de divers\u00e3o frente \u00e0 realidade pol\u00edtica. A pol\u00edtica assim estaria na aus\u00eancia de pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>No cinema norte-americano, stricto sensu, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel falar em \u201cfilme pol\u00edtico\u201d. Melhor: a ind\u00fastria de cinema nos USA vender um filme como filme pol\u00edtico. Lembremos que a quest\u00e3o remonta ao C\u00f3digo Hays, que explicitamente interditava, digamos, quest\u00f5es embara\u00e7osamente pol\u00edticas. E nem a Nova Hollywood, quando o C\u00f3digo deixou de vigorar, fez em sentido stricto \u201cfilme pol\u00edtico\u201d. O pol\u00edtico desponta, sim, lateralmente no que veio a ser por exemplo os chamados \u201cfilmes de guerra\u201d com assunto na guerra do Vietn\u00e3. Sim, \u00f3bvio, <em>Todos os Homens do Presidente <\/em>(1976), do Alan J. Pakula&#8230;; mas mesmo aqui o foco \u00e9 o poder de um grande ve\u00edculo de imprensa, os limites da atua\u00e7\u00e3o de jornalistas na cobertura de um esc\u00e2ndalo e o direito de se preservar o anonimato de uma fonte. Ou seja, o campo \u00e9tico da pr\u00e1tica jornal\u00edstica tendo a seara pol\u00edtica como combust\u00edvel. Sim, <em>Top\u00e1zio<\/em> (1969), de Alfred Hitchcock, sobre a crise dos m\u00edsseis em Cuba, mas basta r\u00e1pida consulta e se ver\u00e1 que \u00e9 catalogado nos \u201cg\u00eaneros\u201d espionagem e suspense&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Filme pol\u00edtico, assumindo essa tipifica\u00e7\u00e3o estritamente pol\u00edtica, com conven\u00e7\u00f5es bem estabelecidas e reconhecidas, ser\u00e1 levado adiante, em grande escala, pelo cinema italiano nos anos 60, 70, em menor medida pelo franc\u00eas (Jean-Luc Godard&#8230;), e em medida menor ainda pelo Novo Cinema alem\u00e3o (Rainer Werner Fassbinder&#8230;).<\/p>\n\n\n\n<p>Surgem ent\u00e3o diretores como Costa Gavras, Gillo Pontecorvo, Francesco Rosi, Elio Petri, Lina Wertm\u00fcller, Straub\/Huillet, Margarethe Von Trotta&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O problema central do \u201cfilme pol\u00edtico\u201d est\u00e1 na circularidade entre decis\u00f5es para realiza\u00e7\u00e3o, em decorr\u00eancia a abordagem, a dimens\u00e3o pol\u00edtica da escolha, do porqu\u00ea e como filmar, deixar subentendido o que se revela na tela.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo can\u00f4nico no cinema brasileiro, <em>Pra Frente Brasil<\/em> (1982), de Roberto Farias, que foi presidente da Embrafilme, n\u00e3o foi reconduzido no cargo, e fez um filme afrontando o regime em pleno processo de transi\u00e7\u00e3o da ditadura para a abertura pol\u00edtica. A censura, ainda atuante, exigiu para libera\u00e7\u00e3o a inser\u00e7\u00e3o de letreiro eximindo o regime, \u00f3rg\u00e3os do Estado, da responsabilidade pela tortura de presos pol\u00edticos, ou no caso um cidad\u00e3o comum pego por azar pelos por\u00f5es da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Roberto Farias colocou os letreiros e o filme foi liberado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Temos ent\u00e3o um filme que denuncia a tortura e, com os letreiros, nega que a ditadura, o regime, tenha torturado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas escolhas acabam determinando a orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em um filme, justamente, pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas escolhas s\u00e3o bem complicadas porque fica dif\u00edcil separar \u201cboas\u201d inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de fundo, certa dose de cinismo e oportunismo. <em>O Pequeno Soldado<\/em> (1963), de Godard, \u00e9 um filme maravilhoso, \u00e9 um maravilhoso <strong>thriller pol\u00edtico<\/strong> godardiano para um tema pol\u00edtico delicado para a Fran\u00e7a na \u00e9poca de sua realiza\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 na mesma medida abjeto, se se \u00e9 de esquerda e com isso levar em conta que pode ser entendido como um libelo \u00e0 perman\u00eancia da coloniza\u00e7\u00e3o francesa na \u00c1frica, no caso na Arg\u00e9lia. Anos depois, 1975, Godard repetir\u00e1 a dose \u00e0s avessas, sobre a causa palestina, e far\u00e1 <em>Aqui e Acol\u00e1<\/em>, n\u00e3o que com este tenha ficado imune, com essa virada de posi\u00e7\u00e3o no espectro pol\u00edtico, \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de antissemitismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o predicativo \u201cpol\u00edtico\u201d comp\u00f5e com o que seja um thriller, temos ent\u00e3o um caldeir\u00e3o com ingredientes bem inflam\u00e1veis. E nesse sentido <em>O Agente Secreto<\/em> n\u00e3o escapa ao que seria o pol\u00edtico em escolhas pol\u00edticas que de fato d\u00e3o orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao que o Kleber Mendon\u00e7a quer trazer como mensagem, al\u00e9m do not\u00e1vel esmero da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Terceira coisa&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>O Agente Secreto<\/em> h\u00e1 um jogo constante de pistas falsas. Li muito sobre o aparente embara\u00e7o com o t\u00edtulo. De modo bem seco: n\u00e3o h\u00e1 agente secreto, <em>O Agente Secreto<\/em> de <em>KMF<\/em> n\u00e3o trata de espionagem, n\u00e3o \u00e9 <em>007 Contra Moscou<\/em>&#8230;; de modo mais sutil, n\u00e3o t\u00e3o evidente, \u00e9 uma homenagem ao agente secreto fake interpretado por Jean-Paul Belmondo em <em>O Magn\u00edfico<\/em> (1973), que aparece rapidamente na tela de um cinema no filme num exerc\u00edcio de metalinguagem.&nbsp;Numa com\u00e9dia tipo pastel\u00e3o dirigida por Phillipe de Broca, pode-se bem extrair a escolha de KMF pelas pistas falsas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, no jogo de pistas falsas, o que \u00e9 um agente secreto? Tanto quanto fa\u00e7a sentido o predicativo \u201csecreto\u201d para o substantivo \u201cagente\u201d na express\u00e3o composta. Ora, quem \u00e9 Marcelo\/Armando, o protagonista de <em>O Agente Secreto<\/em>???? A ideia de fechar o filme com o filho muitos anos depois&#8230;, o Dr. Fernando, que n\u00e3o quer falar sobre o pai, d\u00e1 a entender que sabe pouco sobre ele, que tem lembran\u00e7as esparsas, indefinidas, com um olhar para mim com um qu\u00ea de cinismo, de que at\u00e9 finge se espantar com o interesse estranho de uma jovem pesquisadora \u00e1vida para saber sobre um passado que n\u00e3o ser\u00e1 revelado, revela como n\u00e3o se sabe quem \u00e9 Marcelo\/Armando (muito do que se escreveu sobre o filme menciona uma volta de Marcelo\/Armando ao Recife para encontrar Fernando, o filho pequeno, que Marcelo\/Armando tem um passado misterioso&#8230;; mas em 1974 esse personagem \u201cmisterioso\u201d vivia em Recife, era Chefe de Departamento num curso de engenharia na Universidade Federal, fez p\u00f3s-doutorado (sic) no exterior e&nbsp; tenta patentear uma descoberta&#8230; \u2013 o t\u00edtulo acad\u00eamico de p\u00f3s-doutor no Brasil foi reconhecido em 2008&#8230;). Logo, se se entende um agente secreto como algu\u00e9m que transita num obscuro e impreciso submundo de espionagem, contraespionagem, agentes duplos que se encontram entre lados opostos e justamente secretos nas esferas de poder, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar definitivamente que, at\u00e9 como alegoria, Marcelo\/Armando n\u00e3o tenha sido esse personagem secreto (misterioso, pois) que para o imagin\u00e1rio do cinema \u00e9 algo como um 007 fake nos anos da Guerra Fria. No caso, melhor, anos de ditadura civil-militar no Brasil (mera coincid\u00eancia: esses dias reli de John Le Carr\u00e9 <em>O espi\u00e3o que saiu do frio<\/em>&#8230;).<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00edtulo joga, ent\u00e3o, com pistas falsas. Isso j\u00e1 foi discutido, escrito, falado e \u00e9 algo que realmente chama a aten\u00e7\u00e3o. Ocorre que, para mim, esse jogo de pistas falsas contamina e dilui o que seria a esfera do pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>Agente Secreto<\/em> \u00e9 vendido como filme pol\u00edtico. Muito do que li aceita essa premissa e comenta sobre o filme tendo em vista os anos de ditadura civil-militar no Brasil. Quer dizer, nessa perspectiva, um filme pol\u00edtico tipificado como um thriller pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltemos \u00e0s pistas falsas. Ao mesmo tempo, <em>O Agente Secreto<\/em> apaga at\u00e9 com certa impostura, certo desd\u00e9m, marcas do pol\u00edtico. A imagem do General Geisel nas paredes de reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u00e9 um referente \u201cexpl\u00edcito\u201d aos anos de ditadura civil-militar no Brasil? Imagino num filme norte-americano numa parede a imagem do General Lee em <em>Django Livre<\/em> (2012), de Quentin Tarantino. Como referente, pondero sobre o que ela significa e penso em <em>Django Livre<\/em>, em alguma medida homenagem ao western italiano, como filme pol\u00edtico? Se em <em>Django Livre<\/em> antes de um filme pol\u00edtico em raz\u00e3o de uma foto do General Lee penso na homenagem ao western italiano, a se tomar a imagem do General Geisel como referente para um filme pol\u00edtico em <em>O Agente Secreto<\/em> penso que para muitos a refer\u00eancia a <em>Tubar\u00e3o<\/em> (1975) no filme de KMF n\u00e3o deixa de ter maior visibilidade como homenagem a um filme que para a hist\u00f3ria do cinema anuncia a era blockbuster.<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim, passado dos 60, a imagem referente do General Geisel tem sentido pol\u00edtico e \u00e9 imediatamente reconhecida. Como dou aula para alunos de 18, 19, 20 anos, esse referente n\u00e3o \u00e9 percebido por muitos. Fiz a enquete. A imagem de Ernesto Geisel para eles \u00e9 t\u00e3o distante quanto a de Delfim Moreira na Rep\u00fablica Caf\u00e9 com Leite (conquanto, suspeito, esta n\u00e3o seja s\u00f3 para eles&#8230; \u2013 n\u00e3o fiz enquete). T\u00e3o distante quanto para muitos enxergar o pol\u00edtico num filme de Quentin Tarantino com a imagem do General Lee.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem, de modo n\u00e3o t\u00e3o impercept\u00edvel, pois de algum modo est\u00e1 no n\u00facleo da trama, a c\u00e9lula (sic) de perseguidos e refugiados na casa da Dona Sebastiana. Ora, nos anos de ditadura era o lugar de vida clandestina de quem pegou em armas, se opunha \u00e0 ditadura e n\u00e3o estava no ex\u00edlio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que nesse espa\u00e7o para perseguidos e refugiados simplesmente n\u00e3o h\u00e1 o pol\u00edtico em sentido estrito. Quem viveu os anos de ditadura, e sabe alguma coisa do sentido das dissid\u00eancias entre as dezenas de grupos pol\u00edticos, pode ficar especulando como um filme que trata da ditadura poria num mesmo lugar sem qualquer tens\u00e3o trotskistas, leninistas, stalinistas, maoistas, guevaristas, castristas, tito\u00edstas, hoxha\u00edstas, apistas&#8230;; esses referentes n\u00e3o existem em <em>O Agente Secreto<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, no jogo de pistas falsas, o caso mais curioso e desconcertante, o casal angolano. Como teria chegado um casal refugiado angolano a uma c\u00e9lula clandestina de esquerda no Brasil sob uma ditadura militar que matava, torturava e desaparecia com militantes comunistas? Esse casal era do grupo marxista MPLA? Que estava no poder em Angola, apoiada pela URSS depois da independ\u00eancia de Portugal? Por que se refugiar clandestinamente no Brasil quando o MPLA estava no poder e em guerra civil contra a FNLA e a UNITA? Fugir da guerra e viver escondido num pa\u00eds em que se ambos fossem presos poderiam ser mortos por serem comunistas? (Mas, a coisa fica t\u00e3o mais encardida quando se sabe que o ditador nacionalista Ernesto Geisel, com movimentos de autonomia em rela\u00e7\u00e3o aos USA e \u00e0 URSS no contexto da Guerra Fria, reconheceu a independ\u00eancia de Angola e para fortalecer rela\u00e7\u00f5es com pa\u00edses africanos apoiou o MPLA). Bem, n\u00e3o sendo do MPLA o casal seria da FNLA, da UNITA, grupos apoiados pelos USA e pelo regime de extrema direita branco e racista da \u00c1frica do Sul?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho a menor ideia do que Kleber Mendon\u00e7a Filho quis mostrar com o casal refugiado angolano. Mas sem marcas, referentes ao pol\u00edtico, fica t\u00e3o dif\u00edcil entender o pol\u00edtico quanto muitos teriam dificuldades de entender o pol\u00edtico na imagem do General Lee num filme de Tarantino.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ent\u00e3o, claro, e essas marcas me parecem vis\u00edveis, um sentido de carnavaliza\u00e7\u00e3o, ou mesmo de s\u00e1tira pol\u00edtica. Uma s\u00e1tira pol\u00edtica que se esconderia na visibilidade comercial de um thriller pol\u00edtico.&nbsp;S\u00e1tira em que a caracter\u00edstica mais evidente \u00e9 a da justaposi\u00e7\u00e3o: enquanto um cad\u00e1ver apodrece no meio da estrada, foli\u00f5es com fantasias de carnaval, indiferentes ao corpo estendido no ch\u00e3o, festejam no meio dessa mesma estrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Kleber Mendon\u00e7a poderia, assim pode me parecer, tomar o pol\u00edtico nos anos de ditadura como realismo fant\u00e1stico, como o bizarro. O Brasil \u00e9 t\u00e3o bizarro que numa c\u00e9lula clandestina, que n\u00e3o \u00e9 nada clandestina no modo como Marcelo\/Armando circula como um cidad\u00e3o comum, com emprego numa reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica e um delegado com quem se relaciona \u201cnormalmente\u201d sem tens\u00f5es not\u00e1veis e de quem pede socorro com a emin\u00eancia de ser assassinado, se misturam gatos e sapatos, comunistas, linha dura e refugos dos por\u00f5es num mesmo balaio.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a m\u00e3e de Kleber, a historiadora Jocelice Juc\u00e1, foi perseguida, presa, torturada (n\u00e3o tenho informa\u00e7\u00e3o a respeito de qual grupo ela pertencia&#8230;; apenas que teria militado no movimento estudantil&#8230;), e em 1977 Kleber tinha 9 anos, imagino a c\u00e9lula clandestina conter um tanto de experi\u00eancias que ele pr\u00f3prio ouviu, ou eventualmente conviveu&#8230; E do que pode ter ouvido reteve lembran\u00e7as, imagens, n\u00e3o t\u00e3o precisas daquela \u00e9poca, como assim se revela na figura do Dr. Fernando no final do filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendo, especulo ent\u00e3o que o pol\u00edtico nos anos de ditadura para ele pode ter sido algo como um carnaval de mal gosto. E, sim, vender o filme, pista falsa, como thriller pol\u00edtico tem um apelo comercial que n\u00e3o teria se vendido como s\u00e1tira pol\u00edtica. Ou seja, o Brasil de 1977 aos seus olhos era t\u00e3o bizarro que se pode vender um falso thriller pol\u00edtico sobre os anos de ditadura como um verdadeiro thriller pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quarta coisa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Bem curta<\/p>\n\n\n\n<p>Para um angolano, n\u00e3o dar referente a um casal de refugiados em 1977, n\u00e3o deixar marca alguma de onde teriam vindo, se MPLA, FNLA, UNITA, pode causar um mal-estar semelhante ao de vermos um filme angolano de esquerda no espetro pol\u00edtico e que deixa a entender que coisas como AI5, Dops, DOI-CODI, ALN, Molipo nos anos de ditadura civil-militar no Brasil n\u00e3o s\u00e3o coisas importantes, s\u00e3o s\u00f3 siglas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Ou, de modo mais bizarro, se em vez de um casal angolano na c\u00e9lula de refugiados protegidos por Dona Sebastiana fosse um casal cubano refugiado do regime comunista de Fidel Castro? Como isso seria entendido? \u00d3bvio, n\u00e3o ignoro persegui\u00e7\u00f5es, dissid\u00eancias num regime comunista: Trotsky foi perseguido e assassinado por Stalin no M\u00e9xico. Mas, eis o capricho da situa\u00e7\u00e3o, numa c\u00e9lula em que n\u00e3o se expressam dissid\u00eancias, tens\u00f5es&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quinta coisa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mantendo-se o predicativo pol\u00edtico da express\u00e3o thriller pol\u00edtico, <em>O Agente Secreto<\/em> pode ser visto como s\u00e1tira pol\u00edtica, certo. Tamb\u00e9m, se extrairmos o pol\u00edtico \u2013 em entrevistas KMF faz quest\u00e3o de dizer que n\u00e3o fez um filme para mostrar \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o e a\u00e7\u00f5es de grupos de guerrilha \u2013, pode-se dizer que KMF fez um \u201cfilme de \u00e9poca\u201d. Uma tipifica\u00e7\u00e3o para quando se tem a HIST\u00d3RIA, ou o passado, lato sensu, como pano de fundo que enreda a trama. Ent\u00e3o, por raz\u00f5es que a trama pode anunciar explicitamente (\u201cNo Brasil em 1977 vivia-se sob muita pirra\u00e7a&#8230;\u201d), ou simplesmente exibir ind\u00edcios por meio de figurinos, penteados, circula\u00e7\u00e3o de automotivos que simbolizam uma \u00e9poca&#8230; <em>Pecadores<\/em> (2025), de Ryan Coogler \u00e9 um terror tipificado pela \u00e9poca da Lei Seca e da a\u00e7\u00e3o de g\u00e2ngsters na \u00e9poca da Depress\u00e3o Econ\u00f4mica nos USA. Mas, exemplos mais marcantes para mim podem ser encontrados em filmes de Martin Scorsese. Lembro de <em>A \u00c9poca da Inoc\u00eancia<\/em> (1993), um exemplo distante, baseado no romance da Edith Wharton, tanto quanto tenho presente o recente <em>Assassinos da Lua das Flores<\/em> de 2023 (colhidos ao acaso, poderia citar tamb\u00e9m <em>Sexy e Marginal<\/em>, de 1972&#8230;). No primeiro Scorsese, h\u00e1 toda uma preocupa\u00e7\u00e3o em reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca, de detalhes que v\u00e3o das regras de sociabilidade \u00e0 absor\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos aristocr\u00e1ticos europeus na provinciana Nova York no final do s\u00e9culo XIX; no segundo, Scorsese se esmera em detalhar at\u00e9 didaticamente os costumes, cren\u00e7as e modo de vida da comunidade Osage frente \u00e0 presen\u00e7a de usurpadores \u201ccivilizados\u201d t\u00e3o gananciosos quanto embrutecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem Coogler, tampouco Scorsese, promoveriam a venda desses filmes citados com um predicativo pol\u00edtico. Mesmo que se possa ver neles, como um quadro na parede com o retrato de Geisel, algum marcador de \u00e9poca denotando o pol\u00edtico. Minha mem\u00f3ria recente melhor para <em>Pecadores<\/em>, a afirma\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos de Blues no sul racista obviamente traz conota\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (a alus\u00e3o ao guitarrista Robert Johnson n\u00e3o \u00e9 mero formalismo macmahonista&#8230;). Mas de algum modo creio com o g\u00eanero terror \u00e0 frente Coogler tem vista o terror de tipifica\u00e7\u00e3o zumbi legado pelos filmes de George Romero nos anos 60, aos quais de algum modo pode ser referenciado e atrair f\u00e3s do g\u00eanero terror.<\/p>\n\n\n\n<p>Quer dizer, o pol\u00edtico no caso requereria uma leitura tal que, por extens\u00e3o, por p\u00f4r em causa a causa ind\u00edgena qualquer faroeste B para horas de lazer de crian\u00e7as produzido pela Republic Pictures nos anos 40 seria um western pol\u00edtico (minha lembran\u00e7a infantil ficou marcada por <em>Vingan\u00e7a de \u00cdndio<\/em>, de 1948).<\/p>\n\n\n\n<p>E se eu ponderar aqui no Brasil sobre filmes de \u00e9poca, eu bem posso dizer que ao retratar a Era Vargas <em>Amor, Estranho Amor<\/em>, do \u201calienado politicamente\u201d Walter Hugo Khouri, o famoso filme proibido pela Xuxa, poderia ser vendido como um er\u00f3tico pol\u00edtico&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o por esse aspecto, de filme de \u00e9poca, <em>O Agente Secreto<\/em>, retrata os anos 70. E \u00e9 t\u00e3o s\u00f3 um dado extra-f\u00edlmico, sua recep\u00e7\u00e3o, release promocional, burburinho em torno do tempo de sua a\u00e7\u00e3o, que acentua ser 1977 um momento em que no Brasil vivia-se a terr\u00edvel ditadura civil-militar. O que se tem no filme como elementos dieg\u00e9ticos \u00e9 uma precisa reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca. Creio que at\u00e9 se possa sustentar, como produ\u00e7\u00e3o, a melhor reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca em um filme brasileiro&#8230; creio&#8230; (um plano geral com enquadramento de uma ponte e a movimenta\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito de carros e \u00f4nibus sobre o rio Capibaribe deve espantar pelo impacto nost\u00e1lgico quem quer que tenha na lembran\u00e7a a Recife dos anos 70 \u2013 minha lembran\u00e7a n\u00e3o alcan\u00e7a em outro filme brasileiro um tempo morto t\u00e3o impactante de um tempo passado).<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>O Agente Secreto<\/em>, naquilo que se v\u00ea, se tem creio que com excelente precis\u00e3o, cuidado aos detalhes mais sens\u00edveis do ambiente, das rela\u00e7\u00f5es humanas, os valores sociais como a afirma\u00e7\u00e3o da virilidade masculina em trejeitos casuais, o sentido de experi\u00eancia do cinema de rua, a brutalidade e trucul\u00eancia policial, os achaques, corrup\u00e7\u00f5es que \u201cnaturalizam\u201d o cotidiano, a soberba de uma classe superior, classe alta, em rela\u00e7\u00e3o a qualquer tipo de puni\u00e7\u00e3o. Enfim, tudo isso que est\u00e1 no filme e hoje em algum aspecto pode at\u00e9 gerar estranheza e que comp\u00f5e o sentido de como se viveu uma \u00e9poca. Aquela \u00e9poca em Recife.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed ent\u00e3o o pol\u00edtico como predicativo do thriller. Ora, em nossa hist\u00f3ria a ditadura civil-militar est\u00e1 impregnada do pol\u00edtico. A express\u00e3o \u201canos de ditadura\u201d carrega o pol\u00edtico e \u00e9 uma ferida, um trauma, tal qual creio nos USA a Guerra de Secess\u00e3o, ou mais recentemente a do Vietn\u00e3. Por isso pode extrapolar o sentido mais comum da trivialidade cotidiana, do dia a dia de pessoas comuns que n\u00e3o estavam envolvidas em pol\u00edtica stricto sensu e possivelmente tantas n\u00e3o tinham sequer a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o do que seria uma ditadura. Ela estava no dia a dia, nas situa\u00e7\u00f5es mais banais, mais casuais, como a de uma abordagem truculenta e intimidadora de uma patrulha policial no meio da estrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum empecilho, e at\u00e9 oportuno, agregar a <em>O Agente Secreto<\/em> a dimens\u00e3o pol\u00edtica nos anos de ditadura e pegar a rabeira do oscariz\u00e1vel <em>Ainda Estou Aqui<\/em>, este sim, sobre a ditadura civil-militar, um filme explicitamente pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe ent\u00e3o ver que nessa estrat\u00e9gia de marketing n\u00e3o h\u00e1 para mim nenhum problema sen\u00e3o de algum modo que se perca de vista, notadamente, a estrat\u00e9gia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo ela bem-sucedida, e vejo que est\u00e1 sendo, n\u00e3o vejo raz\u00e3o para p\u00f4r reparo ao modo genial com que Kleber Mendon\u00e7a Filho joga com pistas falsas. Desde que n\u00e3o se ponha embaixo do tapete as inevit\u00e1veis implica\u00e7\u00f5es dessa, vamos assim dizer, brincadeira de cabra-cega. KMF, o personagem, me \u00e9 dif\u00edcil acreditar, seja ing\u00eanuo para supor ter feito uma obra f\u00edlmica absolutamente imune a controv\u00e9rsias ao abordar t\u00e3o controverso momento na hist\u00f3ria do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sexta coisa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um adendo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAqueles anos foram anos de muita pirra\u00e7a&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Pirra\u00e7a???<\/p>\n\n\n\n<p>Nordestino, cresci ouvindo de meus primos, tamb\u00e9m nordestinos, que quando contrariado eu fazia pirra\u00e7a. Mas na escola prim\u00e1ria, aqui em S\u00e3o Paulo, quando contrariado meus colegas de escola diziam que eu fazia birra. Nunca lhes perguntei se sabiam o que era pirra\u00e7a. Nem a meus primos se sabiam o que era birra. De qualquer forma, crian\u00e7a, demorei um tempinho para perceber a sinon\u00edmia&#8230; Curiosidades do linguajar regional brasileiro&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Anos de pirra\u00e7a? Nisso, sim, algo bem pessoal. Uma teimosia, insistir em alguma coisa para provocar, irritar, desafiar, n\u00e3o ficar quieto, retrucar obstinadamente tendo ou n\u00e3o raz\u00e3o, n\u00e3o aceitar desaforo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim \u00e9 Marcelo\/Armando na rela\u00e7\u00e3o com o vil\u00e3o fake Ghirotti. E ent\u00e3o, com andamento de uma com\u00e9dia de erros com resultado tr\u00e1gico, a vingan\u00e7a (Kleber, suponho, seja excelente leitor de Shakespeare&#8230;). Nesse sentido, menos que thriller pol\u00edtico, na medida em que desaven\u00e7as pessoais s\u00e3o resolvidas com viol\u00eancia, pois no fundo envolvem quest\u00e3o de honra, portanto um acerto de contas frente a uma \u201cpirra\u00e7a\u201d, <em>O Agente Secreto<\/em> n\u00e3o deixa de ser, enquanto acerto de contas, uma sequ\u00eancia de <em>O som ao redor<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim respondi \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o sobre o porqu\u00ea para mim <em>O Agente Secreto<\/em> ser engana\u00e7\u00e3o como thriller pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostei mesmo da pergunta que me foi feita por um amigo no WhatsApp. Acho que \u00e9 importante. Acho que se um filme provoca discuss\u00e3o assim nisso em grande parte para mim um desafio para pensar tanto quanto a beleza e import\u00e2ncia do cinema. Nisso a relev\u00e2ncia mais not\u00e1vel num filme que, retomando Juliano Gomes, estimula pensarmos \u201cem variadas dire\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O Agente Secreto<\/em>, assim como o personagem KMF, desperta paix\u00f5es. E \u00e9 bom ver o quanto essas paix\u00f5es nos p\u00f5em quest\u00f5es que merecem ser pensadas, valem, creio, algumas linhas como as que me dispus a escrever.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211;<\/p>\n\n\n\n<p>Humberto Silva \u00e9 professor de Hist\u00f3ria do Cinema na FAAP e cr\u00edtico de cinema. \u00c9 autor, entre outros, do e-book G\u00eaneros Cinematogr\u00e1ficos e a Nova Hollywood (Editora Mnemocine, 2024) e membro da Abraccine.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Humberto Silva Vi O Agente Secreto, de Kleber Mendon\u00e7a Filho (KMF) (No calor da hora, na sala de proje\u00e7\u00e3o, a brincadeira de cabra-cega n\u00e3o deixa de carregar certo sentido duplo). Depois do Oscar de filme estrangeiro para Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e na sequ\u00eancia de tripla premia\u00e7\u00e3o no festejado Festival de Cannes, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-1040","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinema"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1040","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1040"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1040\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1045,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1040\/revisions\/1045"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}