{"id":20,"date":"2024-07-30T17:18:41","date_gmt":"2024-07-30T20:18:41","guid":{"rendered":"http:\/\/mnemocine.com.br\/?p=20"},"modified":"2024-08-01T11:06:31","modified_gmt":"2024-08-01T14:06:31","slug":"programa-1-competicao-brasileira-de-curtas-metragens-e-tudo-verdade-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=20","title":{"rendered":"Programa 1: Competi\u00e7\u00e3o Brasileira de Curtas-metragens | \u00c9 Tudo Verdade 2024"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"300\" src=\"http:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-216\" style=\"width:1432px\" srcset=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/4.png 700w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/4-300x129.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Demonstrando a pluralidade da curadoria \u2014 de formatos, locais e propostas \u2014, o programa 1 da competi\u00e7\u00e3o brasileira de curtas-metragens do&nbsp;<em>\u00c9 Tudo Verdade 2024<\/em>&nbsp;teve sua primeira exibi\u00e7\u00e3o na sexta-feira dia 5 de abril. Em uma sess\u00e3o lotada, que contava com a presen\u00e7a dos realizadores, foram exibidos cinco curtas-metragens documentais de grande relev\u00e2ncia estil\u00edstica e social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro destes \u00e9&nbsp;<em>Aguyjevete Avaxa\u2019i<\/em>&nbsp;(2023), da diretora Kerexu Martim. O document\u00e1rio se passa na Aldeia Kalipety, no sul da cidade de S\u00e3o Paulo. O assunto principal \u00e9 o milho, como a pr\u00f3pria diretora descreveu antes da exibi\u00e7\u00e3o. Mais especificamente o milho \u201cverdadeiro\u201d, tradicional, de colora\u00e7\u00e3o e origem diferente, que foi recuperado pela aldeia ao ser trazido de outros povoados ao sul. O curta \u00e9 permeado por imagens do processo de plantio e colheita do milho, colocadas como uma esp\u00e9cie de elemento matricial da cultura, apresentando toda uma did\u00e1tica ao redor dos diferentes modos de consumo e preparo do milho.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A perspectiva do filme \u00e9 inicialmente enraizada na narra\u00e7\u00e3o em mon\u00f3logo interno de uma mulher residente da Aldeia, que exprime suas frustra\u00e7\u00f5es, aspira\u00e7\u00f5es e pensamentos. No entanto, o filme vai se abrindo aos poucos para abarcar perspectivas de outras pessoas, coletivizando seu discurso. A C\u00e2mera \u00e9 ora intimista e instintiva, ora distante e observadora &#8211; uma dicotomia entre imagens de tom cotidiano e imagens de tom po\u00e9tico. A linguagem traz ao filme um pouco da ritual\u00edstica atrelada \u00e0 comida como um todo, como fonte de confraterniza\u00e7\u00e3o, de felicidade e do sagrado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo curta do programa foi&nbsp;<em>A Noite das Garrafadas<\/em>&nbsp;(2023), de Elder Barbosa, que entrela\u00e7a imagens atuais do centro hist\u00f3rico do Rio de Janeiro com os fatos da Noite das Garrafadas. Relatos de comerciantes que trabalham no centro s\u00e3o intercaladas com uma narra\u00e7\u00e3o em&nbsp;<em>off<\/em>, que embasa a abordagem historiogr\u00e1fica do document\u00e1rio. H\u00e1 um grande foco na Rua das Quitandas, que concentra o epis\u00f3dio hist\u00f3rico e as vidas de muitas pessoas que sequer sabem o que aconteceu ali. O filme constr\u00f3i, atrav\u00e9s destes contrastes, uma ideia de abandono do centro do Rio, e sutilmente pergunta: Algo mudou desde Dom Pedro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um centro fantasma, habitado por mem\u00f3rias desconhecidas e cada vez menos por pessoas, ideia embasada no filme pelo uso de proje\u00e7\u00e3o hologr\u00e1fica nas propriedades da Rua das Quitandas. A linguagem pesa no indireto, no sensorial perif\u00e9rico, como nas pr\u00f3prias proje\u00e7\u00f5es que n\u00e3o formam uma imagem opaca, mas principalmente no senso de urg\u00eancia das sobreposi\u00e7\u00f5es sonoras \u2014 que sempre remete aos ru\u00eddos prov\u00e1veis da revolta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois foi apresentado o curta&nbsp;<em>Sert\u00e3o, Am\u00e9rica<\/em>&nbsp;(2023) da diretora Marcela Ilha Bordin, um filme de cunho mais experimental, que parte de imagens do sert\u00e3o brasileiro para remeter a um imagin\u00e1rio de faroeste. A&nbsp; releitura do g\u00eanero atrav\u00e9s do documental \u00e9 mais sugestiva que concreta, pois est\u00e1 emaranhada nos detalhes est\u00e9ticos que comp\u00f5em o cerne do projeto: a mem\u00f3ria. Mais especificamente, como ela se insere na rela\u00e7\u00e3o das pessoas com a regi\u00e3o do Parque Nacional da Serra da Capivara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A abordagem \u00e9 bastante \u00fanica, principalmente pela forte granula\u00e7\u00e3o e o enfoque em texturas sensoriais, que quando combinados com uma metodologia quase&nbsp;<em>warburguiana<\/em>, na representa\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria &#8211; associa\u00e7\u00f5es livres entre f\u00f3sseis, cristais, arte rupestre, celulares, etc) -, resultam em um filme de \u201cfantasmas\u201d, de lacunas a serem preenchidas. Ocasionalmente, tal abordagem associativa pode parecer vaga, mas o curta reencontra seus p\u00e9s ao prezar pelo sentimento, de se lembrar, de querer lembrar, de querer registrar. Parece an\u00e1logo ao ato de pedir por&nbsp; uma foto com algu\u00e9m, transitando nesse limiar entre&nbsp; encena\u00e7\u00e3o e realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O quarto filme exibido foi&nbsp;<em>Utopia Muda<\/em>&nbsp;(2023), de Julio Matos, um curta bastante pessoal e, de certa forma, autobiogr\u00e1fico. O document\u00e1rio possui uma linguagem mais tradicional, e foi realizado a partir do acervo pessoal do diretor, de imagens captadas no per\u00edodo da virada do s\u00e9culo XX para o XXI. S\u00e3o filmagens muito diretas, que n\u00e3o parecem carregadas de inten\u00e7\u00e3o, e todas giram em volta do mesmo espa\u00e7o:&nbsp; a R\u00e1dio&nbsp; Muda, existente no campus da Unicamp durante o per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O curta parte de uma proposta de tentar incorporar o esp\u00edrito dessa r\u00e1dio a partir das pessoas registradas, e se sucede&nbsp; pela natureza espont\u00e2nea de toda a capta\u00e7\u00e3o. O diretor narra tamb\u00e9m em 1\u00aa pessoa, de forma mais explicativa. \u00c9 sobre a liberdade de express\u00e3o, sobre a tomada da palavra para si. E mesmo no trecho de maior enfoque ao passado, com previs\u00f5es quase messi\u00e2nicas sobre o futuro, \u00e9 a&nbsp; problematizado&nbsp; essa pr\u00f3pria&nbsp; ideia da liberdade de express\u00e3o. Em uma conclus\u00e3o um pouco acad\u00eamica, mas necess\u00e1ria, o filme se contextualiza para o tempo de seu lan\u00e7amento, apontando o lugar que essas ideias ocupam na modernidade digital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00faltimo curta do programa 1 foi&nbsp;<em>A Edi\u00e7\u00e3o do Nordeste<\/em>&nbsp;(2023), dirigido por Pedro Fiuza. Feito apenas com imagens de arquivo, o document\u00e1rio se inicia&nbsp; com o mote: \u201cNordeste \u00e9 criado, \u00e9 oficializado, \u00e9 inventado e \u00e9 editado\u201d. Consiste de um compilado de representa\u00e7\u00f5es do Nordeste no cinema brasileiro do per\u00edodo entre 1938 e 1980. Esse aspecto de colet\u00e2nea funciona para a constru\u00e7\u00e3o da tese principal do filme, que, parafraseando o diretor, reside no entendimento de que a atribui\u00e7\u00e3o de uma identidade \u00fanica \u00e0 toda uma regi\u00e3o e um povo serve como ferramenta de controle.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme surge para expor padr\u00f5es, quebrando qualquer resqu\u00edcio de veracidade dessas imagens e deixando espa\u00e7o para que a pluralidade verdadeira do Nordeste ganhe os holofotes. Inicia-se tratando dos conceitos de viol\u00eancia, das imagens de Lampi\u00e3o, do Canga\u00e7o, dessa ideia do apre\u00e7o pela masculinidade. \u201cSeja homem\u201d, diz um dos clipes. Parte para a posi\u00e7\u00e3o da mulher, partindo da figura de Maria Bonita. Segue com a&nbsp; figura do coronel, do dono de terras, do povo em si &#8211; retratado como miser\u00e1vel, como feio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme assume&nbsp; essa din\u00e2mica de praticamente ir listando, sutilmente, como cada um dos arqu\u00e9tipos&nbsp; demonstrados \u00e9&nbsp; raso, conforme a&nbsp; montagem brilhante do projeto. Ao fim, o ritmo acelerado destr\u00f3i qualquer percep\u00e7\u00e3o, qualquer representa\u00e7\u00e3o direta: atinge-se a pluralidade n\u00e3o por sua imagem totalizante, mas pela compreens\u00e3o da impossibilidade desta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Felipe Palmieri \u00e9 formado em Cinema pela FAAP. \u00c9 fascinado por todas as pluralidades e sutilezas que a linguagem cinematogr\u00e1fica \u00e9 capaz de abrigar, e pelas infinitas perspectivas que foram e ser\u00e3o materializadas atrav\u00e9s disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>_<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cobertura do 29\u00ba Festival Internacional de Document\u00e1rio \u00c9 Tudo Verdade faz parte do programa Jovens Cr\u00edticos que busca desenvolver e dar espa\u00e7o para novos talentos do pensamento cinematogr\u00e1fico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Equipe Jovens Cr\u00edticos Mnemocine:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordena\u00e7\u00e3o e Idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00e3o e Edi\u00e7\u00e3o: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o Adjunta e Assistente de Produ\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik e Rayane Lima<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demonstrando a pluralidade da curadoria \u2014 de formatos, locais e propostas \u2014, o programa 1 da competi\u00e7\u00e3o brasileira de curtas-metragens do&nbsp;\u00c9 Tudo Verdade 2024&nbsp;teve sua primeira exibi\u00e7\u00e3o na sexta-feira dia 5 de abril. 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