{"id":234,"date":"2024-08-13T12:22:29","date_gmt":"2024-08-13T15:22:29","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=234"},"modified":"2025-06-08T22:43:54","modified_gmt":"2025-06-09T01:43:54","slug":"amor-mulheres-e-flores-1984-marta-rodriguez-jorge-silva-13a-mostra-ecofalante-de-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=234","title":{"rendered":"Amor, mulheres e flores (1984, Marta Rodriguez, Jorge Silva) |\u00a0 13\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"744\" src=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2032-1024x744.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-237\" srcset=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2032-1024x744.jpg 1024w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2032-300x218.jpg 300w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2032-768x558.jpg 768w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2032-1536x1116.jpg 1536w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2032.jpg 1611w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Amor, mulheres e flores<em> <\/em>(1984, Marta Rodriguez, Jorge Silva) |\u00a0 13\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema<\/strong> Por Francesco Felix<\/p>\n\n\n\n<p>O document\u00e1rio colombiano <em>Amor, mulheres e flores <\/em>(1984), inclu\u00eddo no Panorama Hist\u00f3rico da 13\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema, se inicia com um poema. Jorge Silva, que realizou o filme junto de sua companheira, Marta Rodriguez, escreve sobre a simbologia da Flor. &#8220;Uma flor, todo um universo&#8221;, uma voz narra, sobre imagens de buqu\u00eas lotados de cravos coloridos, vermelhos, brancos e rosas. O texto traz as cl\u00e1ssicas imagens associadas \u00e0s flores, feminilidade, delicadeza, sensualidade, mas, ao fim, questiona: &#8220;Quanto custa para produzir essa beleza?&#8221; \u00c9 essa a pergunta que o casal de diretores do Novo Cinema Latino-Americano busca responder ao ir atr\u00e1s das trabalhadoras por tr\u00e1s da ind\u00fastria multimilion\u00e1ria de produ\u00e7\u00e3o de flores na Col\u00f4mbia. O filme que eles encontram nos relatos dessas funcion\u00e1rias \u00e9 um duro retrato das contradi\u00e7\u00f5es em que essas mulheres est\u00e3o imersas, em um di\u00e1rio embate entre a viol\u00eancia e as precariedades do trabalho com o amor, que resiste em pequenos atos e em lutas particulares.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s de cada flor, h\u00e1 a morte. Os fungicidas utilizados pela industrializa\u00e7\u00e3o do cultivo de flores s\u00e3o t\u00f3xicos e destrutivos, danificando o patrim\u00f4nio natural, no solo, e causando danos irrevers\u00edveis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o trabalhadora. Nos relatos que os diretores captam, as mulheres est\u00e3o inconformadas \u2013 se sentem merecedoras de tanto cuidado e zelo quanto as flores que produzem em massa. A l\u00edrica natural de seus depoimentos, carregados de imagens e figuras de linguagem, contrasta diretamente com o espanhol carregado de sotaque na fala decorada do CEO da empresa que as emprega, na qual ele orgulhosamente relata seus lucros e expans\u00e3o de alcance internacional. Os diretores n\u00e3o evitam o elefante na sala: o capitalismo e o imperialismo s\u00e3o naturalmente os respons\u00e1veis pela lista de problemas que afligem a classe oper\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todos sofrem com as dificuldades, mas o filme lan\u00e7a uma luz nas mulheres gr\u00e1vidas, que buscam estabilidade financeira e s\u00e3o especialmente atingidas pelas toxinas dos agrot\u00f3xicos utilizados. Estes s\u00e3o banidos na Europa, por seus danos comprovados \u00e0 sa\u00fade, mas vendidos para uso na Am\u00e9rica Latina. A desumaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 constante e estrutural,&nbsp; a viol\u00eancia sexual \u00e9 vista como inevitabilidade e parece que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda dessa som\u00e1toria de opress\u00f5es. A c\u00e2mera procura, pelos detalhes, trazer de volta a humanidade para essas trabalhadoras \u2013 um <em>close<\/em> no par de talheres no bolso traseiro da cal\u00e7a j\u00e1 \u00e9 uma lembran\u00e7a de que elas precisam almo\u00e7ar, descansar, respirar. A viol\u00eancia \u00e9 contraposta com o amor pela fam\u00edlia, pelos filhos, a esperan\u00e7a de poder prov\u00ea-los com uma vida mais f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os olhos irritados e inchados deixam claro que esse amor n\u00e3o est\u00e1 sendo suficiente, que a conta n\u00e3o est\u00e1 fechando. Os relatos s\u00e3o melanc\u00f3licos, os diagn\u00f3sticos m\u00e9dicos s\u00e3o irrevers\u00edveis e o trabalho n\u00e3o para. &#8220;A vida desacelera&#8221;, um dos fumigadores relata. Envelhecem mais r\u00e1pido, se sentem incapacitados, in\u00fateis ap\u00f3s apenas alguns anos de trabalho. A contraposi\u00e7\u00e3o vem no campo das ideias, no imagin\u00e1rio desses trabalhadores. O poema para a flor Margarida, declamado por um deles, a coloca como inalcan\u00e7\u00e1vel, resistindo como s\u00edmbolo mais do que como raz\u00e3o das mazelas. Surge a Flor e a Anti-Flor: uma cena de uma banca de rua parisiense, com as flores sendo compradas por namorados e crian\u00e7as, \u00e9 cortada direto para uma cena do descarte, ainda na Col\u00f4mbia, das flores doentes, que n\u00e3o puderam ser vendidas, em grandes blocos de massa org\u00e2nica jogados em um caminh\u00e3o de lixo. A viol\u00eancia \u00e9 colocada ao lado da gentileza. Qual dessas \u00e9 a flor que se busca, que se imagina? Qual dessas flores vale os sacrif\u00edcios cometidos pela sua produ\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O filme busca entender a condi\u00e7\u00e3o da mulher trabalhadora dentro desse impasse, dentro de um sistema constru\u00eddo para a oprimir. O plano definitivo desse embate chega ap\u00f3s o relato de uma das funcion\u00e1rias que, mesmo ap\u00f3s o diagn\u00f3stico de leucemia causado pelas toxinas, decide se casar. Proibida de ter filhos, cercada de todas as adversidades, ela decide continuar vivendo, e, na cerim\u00f4nia, l\u00e1 est\u00e3o as flores, ornando a festa. Elas s\u00e3o alvo de olhares desviados, da lembran\u00e7a de sua responsabilidade, mas ainda s\u00e3o presentes, inevit\u00e1veis \u2013 a tese do filme, em um s\u00f3 frame.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando essa mulher que se casou engravida, precisa deixar de tomar os rem\u00e9dios para o c\u00e2ncer, ou o beb\u00ea n\u00e3o vai nascer. Os motivos para n\u00e3o se revoltar deixam de existir. E, assim, elas se revoltam. Os diretores acompanham o in\u00edcio do movimento popular dessas trabalhadoras, suas manifesta\u00e7\u00f5es, seu an\u00fancio de greve. Elas t\u00eam sucessos iniciais, lutam por seus direitos unidas, e h\u00e1 um tom de esperan\u00e7a. Vemos sorrisos largos e l\u00e1grimas que n\u00e3o podem mais ser contidas quando elas falam sobre a import\u00e2ncia de voltar a trabalhar, da situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil que passam, do quanto precisam do dinheiro, mas tamb\u00e9m viver, se alimentar, cuidar dos que amam. Esse amor, por hora, parece ter vencido o conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>O Novo Cinema Latino-Americano de Jorge Silva e Marta Rodriguez era influenciado pelos companheiros do cinema cubano com o ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Ind\u00fastria Cinematogr\u00e1fica) e tinha um car\u00e1ter contestador e anti-imperialista, atento \u00e0s classes trabalhadoras. Mesmo que os militares tenham interrompido a felicidade, retirando as mulheres \u00e0 for\u00e7a da f\u00e1brica, o movimento revolucion\u00e1rio n\u00e3o acabou ali. Nas palavras de uma delas, &#8220;a luta continua&#8221;. O paralelo que acontece no ep\u00edlogo \u00e9 com a hist\u00f3ria do pr\u00f3prio Jorge Silva, que tragicamente morreu antes da finaliza\u00e7\u00e3o do filme, perseguido&nbsp; pelos militares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A luta das trabalhadoras de flores \u00e9 a mesma luta do cinema colombiano, a luta do cinema pol\u00edtico, contra a supress\u00e3o e o autoritarismo. Essa luta foi travada na forma do document\u00e1rio: foi a produ\u00e7\u00e3o do filme que mobilizou a greve, a coleta dos depoimentos que iluminou a situa\u00e7\u00e3o para as pr\u00f3prias v\u00edtimas dos abusos da empresa. A documentarista Gabriela Torres, em entrevista para o lan\u00e7amento dessa restaura\u00e7\u00e3o no festival de Cannes de 2023, disse que a diretora Marta Rodriguez considera este um de seus filmes mais efetivos, por ter despertado essas mulheres para a realidade e para os perigos de seu dia-a-dia no trabalho. D\u00e9cadas depois, este continua a ter import\u00e2ncia \u00edmpar, trazendo essa luta para os olhos de toda uma nova gera\u00e7\u00e3o com um trabalho de n\u00edvel excelente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Francesco Felix concluiu o curso de Cinema pela FAAP e atualmente estuda Letras na FFLCH. Interessado em tudo que envolve a cinefilia, da preserva\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o de cl\u00e1ssicos at\u00e9 a inven\u00e7\u00e3o de futuros experimentais. Quando v\u00ea um filme, torce sempre para um encantamento, que divida o tempo entre o antes e o depois dos cr\u00e9ditos rolarem. Felizmente, acontece muito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Coordena\u00e7\u00e3o e Idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p>Produ\u00e7\u00e3o e Edi\u00e7\u00e3o: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik, Luca Scupino e Gabriela Saragosa<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o Adjunta e Assistente de Produ\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik e Caio Cavalcanti<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amor, mulheres e flores (1984, Marta Rodriguez, Jorge Silva) |\u00a0 13\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema Por Francesco Felix O document\u00e1rio colombiano Amor, mulheres e flores (1984), inclu\u00eddo no Panorama Hist\u00f3rico da 13\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema, se inicia com um poema. 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