{"id":266,"date":"2024-08-13T21:55:06","date_gmt":"2024-08-14T00:55:06","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=266"},"modified":"2024-09-07T20:43:27","modified_gmt":"2024-09-07T23:43:27","slug":"o-dia-em-que-freud-foi-ao-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=266","title":{"rendered":"O dia em que Freud foi ao cinema"},"content":{"rendered":"\n<p>Por M\u00e1ximo Barro<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n<!--noteaser-->\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Por M\u00e1ximo Barro<\/p>\n\n\n\n<p>Como teria recebido o cinema seus primeiros assistentes?<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns historiadores e os jornais exprimem-se em adjetivos que v\u00e3o do assombro ao fasc\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e9li\u00e8s \u00e9 dos mais entusiastas. Quer comprar os direitos da inven\u00e7\u00e3o para us\u00e1-la imediatamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Abel Gance encanta-se com as folhas de uma \u00e1rvore balan\u00e7ando ao vento, esquecendo-se mesmo de ver bem na frente o vov\u00f4 Lumi\u00e9re e esposa alimentando o netinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Giovanni Papini escreve um brevi\u00e1rio de est\u00e9tica cinematogr\u00e1fica, entusiasmado com as primeiras sess\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e1rea teatral h\u00e1 os que aderem pensando na auto-multiplica\u00e7\u00e3o que ter\u00e3o, gozando de poder de ubiquidade, tornando-os presentes em Paris, Londres, Mil\u00e3o, Nova Iorque, Moscou ou Pequim ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m Griffith, o p\u00e9ssimo autor e ator teatral, que s\u00f3 teria restri\u00e7\u00f5es e que, mais tarde, movido por necessidades econ\u00f4micas, trabalhar\u00e1 ocultado por pseud\u00f4nimo, antes de estratificar a linguagem da mais espec\u00edfica arte que o s\u00e9culo XX teve at\u00e9 o presente.<\/p>\n\n\n\n<p>A propaga\u00e7\u00e3o do cinema foi fulminante. Em apenas cinco anos ele ser\u00e1 conhecido em todo os quadrantes do globo, causando espanto, por exemplo, a B\u00e9la Bal\u00e1zs, que, sabedor que sua criada ainda n\u00e3o o conhece em 1908, envia-a imediatamente para saber suas rea\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda mais espantoso ser\u00e1 o fato de Freud s\u00f3 dele ter tomado conhecimento em 1909.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode parecer inaudito que um homem atento a todas as transforma\u00e7\u00f5es sociais que seu tempo sofria n\u00e3o se tenha interessado pelo instrumento, ainda n\u00e3o art\u00edstico, mas que pelo menos carreava para as salas austr\u00edacas milhares de expectadores. Este novo fen\u00f4meno, parece, nunca o comoveu.<\/p>\n\n\n\n<p>O descaso inicial iria, com o passar dos anos, lev\u00e1-lo ao desprezo ol\u00edmpico.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta de 1920, Samuel Goldwyn pretende contrat\u00e1-lo como supervisor de uma s\u00e9rie hist\u00f3rica que come\u00e7aria com Marco Ant\u00f4nio e Cle\u00f3patra.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual seria a fun\u00e7\u00e3o de Freud neste meio? Os dados hist\u00f3ricos recebidos nada aclaram, mesmo porque sua resposta foi negativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco ap\u00f3s 1926, a U.F.A. imagina realizar um filme praticamente did\u00e1tico sobre a psican\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra vez ele refuga violentamente.<\/p>\n\n\n\n<p>George Pabst, o diretor encarregado do projeto, insiste. O neg\u00f3cio n\u00e3o gora de imediato porque dois colaboradores de Freud, Hans Sachs e Karl Abraham, insistem na honestidade de prop\u00f3sito dos produtores, querendo realizar quase um semidocument\u00e1rio baseado em relatos que o grupo pudesse ter tido com clientes e que, com sua orienta\u00e7\u00e3o, se tornaria decisiva a base cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>Freud acede aos argumentos, dando liberdade aos dois, mas mantendo-se fora do projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Credite-se, portanto, ao empenho desses dois homens o aparecimento de &#8220;Mist\u00e9rios de uma Alma&#8221; nas telas, infelizmente seguido de um duplo fracasso: o art\u00edstico e de p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Para piorar o prec\u00e1rio relacionamento Freud-cinema, n\u00e3o s\u00e3o poucos os que escreviam afirmando que Freud se escondera atr\u00e1s dos dois, quando previu o fracasso. Pode-se imaginar quais as marcas que tais afirma\u00e7\u00f5es deixavam num esp\u00edrito suscet\u00edvel como o dele, que sempre deixou claro que &#8220;o cinema n\u00e3o dispunha de poderes para plastificar abstra\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, sua primeira aproxima\u00e7\u00e3o como espectador deu-se de maneira quase romanesca.<\/p>\n\n\n\n<p>A Universidade de Clark em Worcester (Massachussets), oferecia-lhe a tentadora quantia de 3 mil marcos para efetuar uma s\u00e9rie de palestras. Freud recusou, movido pelos seus costumeiros preconceitos: n\u00e3o gostava da Am\u00e9rica, apesar de n\u00e3o a conhecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois, sabedor de que tamb\u00e9m Jung havia sido convidado, ele percebe a import\u00e2ncia do evento e aceita, dizendo que a visita lhe permitiria conhecer a cole\u00e7\u00e3o cipriota do Museu Metropolitano, que no momento era alvo dos seus estudos. Os detratores afirmam que seu intuito era puramente tur\u00edstico: as cataratas do Ni\u00e1gara.<\/p>\n\n\n\n<p>Ferenczi estava preocupado com os trajes, principalmente o chap\u00e9u. Freud, desprezivelmente, dizia que chegando na Am\u00e9rica compraria uma cartola e na volta a atiraria no oceano. Freud explica?<\/p>\n\n\n\n<p>O descaso pelas palestras pode ser avaliado pelas sucessivas evasivas em organiz\u00e1-la. N\u00e3o quis faz\u00ea-las em Viena dizendo que a bordo, no trajeto, teria mais paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando embarcado, come\u00e7ou com os colegas uma an\u00e1lise de sonhos deles que muitos colocam na ordem das primeiras sess\u00f5es de an\u00e1lise do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>A viagem foi-lhe tamb\u00e9m muito gratificante espiritualmente, porque deparou-se com um camareiro lendo a &#8220;Psicopatologia da vida cotidiana&#8221;, que para ele constituiu \u00edndice certo de seu futuro reconhecimento universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, a 27 de agosto, chega a Nova Iorque completamente desconhecido, a ponto de um rep\u00f3rter graf\u00e1-lo com &#8220;Freund&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O dia seguinte, 28, eles gastaram em sortidas ao redor do Central Park, bairro chin\u00eas e setor judaico.<\/p>\n\n\n\n<p>A 30, no Museu Metropolitano, o encontro com a famosa mostra do Chipre, motivo de sua especula\u00e7\u00e3o ps\u00edquica no momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ernest Jones, seu colaborador mais sincero, bi\u00f3grafo oficial e quebra-galho perene, encontra-se a 30 com o trio. Segundo seu depoimento \u00e9 nesta tarde que eles v\u00e3o a um cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>Assistem a uma das habituais com\u00e9dias pastel\u00f4nicas de correrias, pontap\u00e9s, quedas e tortas na cara etc. Seria Mack Sennett ou algum franc\u00eas? Ele n\u00e3o especifica, mas acrescenta que Freud e Ferenczi assistiam pela primeira vez a um filme. Pormenoriza ainda que Ferenczi, com seu habitual ar infantil, ficou excitado. Freud pouco ligou, atitude que, como j\u00e1 vimos, o acompanhar\u00e1 para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra intransig\u00eancia perene foi para com os surrealistas, que desde 1924 os colocaram ao lado de Lautr\u00e9amont como um dos maiores reformadores da humanidade em qualquer \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele sempre se manteve arredio, para n\u00e3o dizer hostil.<\/p>\n\n\n\n<p>A 19 de julho de 1938, Stefan Zweig o visita na companhia de Salvador Dal\u00ed, que imediatamente esbo\u00e7a um quadro onde Freud aparece com um caracol em lugar da cabe\u00e7a. O criador da psican\u00e1lise n\u00e3o aceita a vis\u00e3o do criador da &#8220;pintura paranoica&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois, escrevendo a Zweig, ele esclarece: &#8220;estive inclinado a tomar os surrealistas, que aparentemente me adotaram com seu santo padroeiro, como acabados imbecis \u2014 digamos na raz\u00e3o de 95%, como acontece com o \u00e1lcool.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse jovem espanhol, com seus ing\u00eanuos olhos fan\u00e1ticos e sua ineg\u00e1vel maestria t\u00e9cnica, alterou minha opini\u00e3o. Ser\u00e1 realmente interessante investigar analiticamente como chegou ele a criar aquele quadro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas j\u00e1 era tarde. A cova o esperava.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Psican\u00e1lise na tela<\/em> | Patrick Lacoste &#8211; Jorge Zahar Editora<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1ximo Barro foi pesquisador e professor de montagem e Hist\u00f3ria do cinema na FAAP.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>_<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os textos publicados em Mnemocine s\u00e3o propriedade de seus autores e podem ser cedidos para fins did\u00e1tico-pedag\u00f3gicos mediante consulta pr\u00e9via.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por M\u00e1ximo Barro<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":279,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-266","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ensaios"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/pexels-photo-65128.webp","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/266","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=266"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/266\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":539,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/266\/revisions\/539"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}