{"id":303,"date":"2024-08-14T20:44:17","date_gmt":"2024-08-14T23:44:17","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=303"},"modified":"2024-08-14T21:23:09","modified_gmt":"2024-08-15T00:23:09","slug":"critica-rua-aurora-refugio-de-todos-os-mundos-2023-camilo-cavalcante-e-tudo-verdade-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=303","title":{"rendered":"Rua Aurora &#8211; Ref\u00fagio de Todos os Mundos (2023, Camilo Cavalcante) &#8211; \u00c9 Tudo Verdade 2023"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Em seu mais recente filme, Camilo Cavalcante, recifense, enquadra em S\u00e3o Paulo as faces plurais de um centro marginalizado da metr\u00f3pole.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"946\" height=\"520\" src=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_C1_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-304\" srcset=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_C1_1.jpg 946w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_C1_1-300x165.jpg 300w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_C1_1-768x422.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 946px) 100vw, 946px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Por Cec\u00edlia Co\u00ealho&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu longa-metragem mais recente, de ordem documental, o diretor Camilo Cavalcante captura a exist\u00eancia de pessoas que vivem hoje em uma rua marginalizada pelo tempo: a Rua Aurora &#8211; localizada no bairro Santa Ifig\u00eania, paralela \u00e0 Pra\u00e7a da Rep\u00fablica &#8211; que h\u00e1 poucas d\u00e9cadas era um dos melhores pontos para viver na capital paulista, e atualmente abriga grupos oprimidos pelo sistema. O document\u00e1rio estreou no festival \u00c9 Tudo Verdade 2023 e, mais que uma exibi\u00e7\u00e3o, foi uma liberta\u00e7\u00e3o dos fantasmas da Boca do Lixo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Boca, nasce na d\u00e9cada de 1920 e torna-se um ecossistema do cinema nacional, desde implanta\u00e7\u00e3o de produtoras estadunidenses a cineclubes que resistiram ao Regime Militar. A Boca transformou-se em um polo que reunia todos os tipos de marginalizados, mas que de certa forma os integrava em suas produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A poucas quadras da corrente Cracol\u00e2ndia, encontram-se refugiados da Jamaica, do Senegal, da Nig\u00e9ria e, inclusive, do Brasil. A premissa do document\u00e1rio \u00e9 muito simples: dar luz aos registros de seus habitantes. Contudo, a complexidade n\u00e3o est\u00e1 na forma, mas sim no texto, as hist\u00f3rias dos personagens da rua escancaram as contradi\u00e7\u00f5es que \u00e9 viver no terceiro mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, um alfaiate de 82 anos relata sua hist\u00f3ria, oriundo de uma tradi\u00e7\u00e3o geracional no seu trabalho. Em seguida, d\u00e1-se lugar ao retrato de&nbsp;uma mulher trans, dona de um cinema porn\u00f4 cuja finalidade \u00e9 preservar as reminisc\u00eancias do submundo er\u00f3tico paulistano &#8211; segundo a dona, um lugar de libera\u00e7\u00e3o das fantasias. O enquadramento chama aten\u00e7\u00e3o:&nbsp;enquanto, em primeiro plano, ela relata as dificuldades de existir enquanto mulher trans, ao fundo vislumbra-se uma cena de sexo expl\u00edcito em tela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A rua \u00e9 brutal, ao mesmo tempo que m\u00e1gica, devido \u00e0 solidariedade entre os que habitam no submundo. Em seus momentos mais serenos, o filme fala do desemprego de um saxofonista que toca na rua, a quem, por poucos minutos, observamos tocar. Nesse momento, a m\u00e1gica acontece. Em meio ao brutalismo do concreto e \u00e0 viol\u00eancia da noite, a m\u00fasica parece acalmar n\u00e3o apenas os moradores, mas tamb\u00e9m o espectador. Coincidentemente, um homem em situa\u00e7\u00e3o de rua interrompe a entrevista do m\u00fasico para passar uma mensagem positiva \u00e0 c\u00e2mera e agradecer. No relato, o saxofonista diz que seu som j\u00e1 tirou dependentes qu\u00edmicos das paranoias causadas pela droga, e conclui que, em suas palavras, \u201ca rua tem muita magia\u201d, que os que a habitam convivem com fraternidade. A compreens\u00e3o das \u201cpersonagens\u201d aponta&nbsp;que, para os que pouco t\u00eam, a sintonia da escassez se faz importante como forma de sobreviv\u00eancia. Compreender a precariza\u00e7\u00e3o da vida do outro \u00e9 tamb\u00e9m entender a sua pr\u00f3pria vida precarizada. O coment\u00e1rio pol\u00edtico do filme reside a\u00ed, a decad\u00eancia do modelo econ\u00f4mico, falha com o progresso social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas hist\u00f3rias se tornam os mitos da Rua Aurora. Por isso, S\u00e3o Paulo carrega suas pr\u00f3prias especificidades, como megal\u00f3pole. Uma cidade em que a pobreza est\u00e1 na periferia, mas que tamb\u00e9m reside em&nbsp; seu cora\u00e7\u00e3o, no quadril\u00e1tero da Esta\u00e7\u00e3o da Luz. Uma contradi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica: onde se produz mais \u00e9 tamb\u00e9m onde se verifica uma distopia feroz.&nbsp; Desse modo, o filme documenta as contradi\u00e7\u00f5es da rua &#8211; desde um imigrante jamaicano, propriet\u00e1rio de uma lanchonete descolada de sucesso, at\u00e9 as arbitrariedades de uma \u201cjusti\u00e7a cega\u201d, nas palavras de uma pensionista da regi\u00e3o que fora encarcerada. Essa situa\u00e7\u00e3o nos leva \u00e0 conclus\u00e3o de&nbsp;que o crime \u00e9 inevit\u00e1vel, nas condi\u00e7\u00f5es relatadas. Ademais, S\u00e3o Paulo est\u00e1 elevada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201ccidade estrangeira\u201d, pois nela se abrigam brasileiros de todas as regi\u00f5es, refugiados dentro de sua pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro depoimento, a drag Nagheska Naghaska &#8211; e seu longu\u00edssimo sobrenome que n\u00e3o consigo recordar &#8211; diz que, para ela, S\u00e3o Paulo \u00e9 equivalente aos Estados Unidos, onde os paulistanos pouco sabem sobre as diversas culturas brasileiras, n\u00e3o apenas devido \u00e0 ignor\u00e2ncia dos conterr\u00e2neos, mas tamb\u00e9m pelo fato de trazer consigo a ilus\u00e3o falsa&nbsp;de uma terra com grandes oportunidades. Sonhar com uma vida pr\u00f3spera na capital do estado seria o \u201cbrazilian dream\u201d?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Rua Aurora \u00e9 um sonho, que inculca em seus ocupantes a falta de um passado mitificado, sem viol\u00eancia e id\u00edlico. Onde \u201cthe brazilian dream\u201d se tornou um pesadelo, que impossibilita o regresso para as antigas terras, como no caso do cearense preso na capital, h\u00e1 anos em situa\u00e7\u00e3o de rua, embora seja&nbsp; formado em letras na UFC.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Paulo nunca foi um o\u00e1sis. Todavia, a Rua Aurora s\u00f3 \u00e9 o \u201cref\u00fagio de todos os mundos\u201d, pelas in\u00fameras formas que resiste nessa m\u00e1quina de moer esperan\u00e7as. Desse modo, o document\u00e1rio se encaminha para o fim, mostrando a marginalidade intr\u00ednseca ao cinema nacional, que resistiu a todos os trancos, barrancos e tiranias. \u00c9 feita uma homenagem ao cinema realizado na Boca, um cinema em que, na declara\u00e7\u00e3o da atriz D\u00e9bora Muniz, a vida estava l\u00e1. Muniz relembra sobre como <em>Imp\u00e9rio dos Sentidos <\/em>(1976),&nbsp;filme de Nagisa \u014cshima, chamava o Brasil a produzir um g\u00eanero de chanchada er\u00f3tico, que em algum tempo tornou-se completamente pornogr\u00e1fico e sintom\u00e1tico da cultura brasileira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais que a pornochanchada tenha subvertido a moralidade conservadora da \u00e9poca,&nbsp;tal como as conven\u00e7\u00f5es da linguagem cinematogr\u00e1fica, muitos profissionais do cinema se opuseram a ela. Em&nbsp;uma das entrevistas, um ex-trabalhador da \u00e1rea afirma que, com a chegada da pornochanchada, concluiu que n\u00e3o via mais sentido naquele cinema e que n\u00e3o&nbsp;podia continuar a produzir filmes assim na Boca.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem termina afirmando que fazer cinema na Boca do Lixo significou toda a sua exist\u00eancia, na&nbsp; qual teve oportunidade de trabalhar nas produ\u00e7\u00f5es de <em>Bandido da Luz Vermelha <\/em>(1968, Rog\u00e9rio Sganzerla)<em> <\/em>&nbsp;e em diversas obras de Jos\u00e9 Mojica Marins, o \u201cZ\u00e9 do Caix\u00e3o\u201d. O cinema n\u00e3o apenas reflete o universo dos residentes da Rua Aurora, mas ele o \u00e9, propriamente. Quem n\u00e3o consegue integrar com o resto da cidade ser\u00e1 marginalizado e, nesse contexto, o cinema marginal foi o modo de integrar e subverter essa l\u00f3gica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o diretor Camilo Cavalcante mostra-se apaixonado por compreender e documentar as formas de exist\u00eancia desse povo diverso, mas unido por sua magia. A obra caminha de maneira cl\u00e1ssica: n\u00e3o h\u00e1 grandes experimentalismos, ou abordagens fora do convencional. Ela \u00e9 completamente voltada ao texto, \u00e0s formas de falar de cada personagem retratado. Sua narrativa \u00e9 forte e se mostra meta-lingu\u00edstica pr\u00f3xima ao fim. Como o afirma D\u00e9bora Muniz: \u201c[a c\u00e2mera] \u00e9 a melhor <em>mo\u00e7a <\/em>que j\u00e1 contracenou\u201d, olhando no fundo da lente da de Cavalcante, diretamente para os espectadores, equiparados a uma c\u00e2mera que ela chama de mo\u00e7a. O longa encerra com uma cena que foge do dispositivo at\u00e9 ent\u00e3o estabelecido, um momento po\u00e9tico em que h\u00e1 um travelling pelas ruas do centro, enquanto s\u00e3o projetadas cenas de pornochanchada nos muros, paredes e ru\u00ednas das ruas. O momento em que a rua e o cinema viram uma coisa s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cec\u00edlia Co\u00ealho \u00e9 obcecada por filmes e os enigmas da imagem. Graduanda em cinema na FAAP, onde realiza curtas independentes. \u00c9 inclinada \u00e0 \u00e1rea de roteiro, a qual tende ao experimental e ao vulgar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Revista Digital Laborat\u00f3rio Da Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero. Boca do Lixo: Como imp\u00e9rio cinematogr\u00e1fico dos anos 60 virou a cracol\u00e2ndia: No centro de S\u00e3o Paulo, a regi\u00e3o da Boca do Lixo foi polo do cinema brasileiro e da liberdade criativa em meio \u00e0 ditadura militar. 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistaesquinas.casperlibero.edu.br\/arte-e-cultura\/cinema\/boca-do-lixo-como-imperio-cinematografico-dos-anos-60-virou-a-cracolandia\/\">https:\/\/revistaesquinas.casperlibero.edu.br\/arte-e-cultura\/cinema\/boca-do-lixo-como-imperio-cinematografico-dos-anos-60-virou-a-cracolandia\/<\/a> . Acesso em: 29\/04\/2023.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cobertura do 28\u00ba Festival Internacional de Document\u00e1rios \u00c9 Tudo Verdade faz parte do programa Jovens Cr\u00edticos que busca desenvolver e dar espa\u00e7o para novos talentos do pensamento cinematogr\u00e1fico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Equipe Jovens Cr\u00edticos Mnemocine:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Coordena\u00e7\u00e3o idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p>Produ\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o adjunta: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Luca Scupino<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu mais recente filme, Camilo Cavalcante, recifense, enquadra em S\u00e3o Paulo as faces plurais de um centro marginalizado da metr\u00f3pole.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":304,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-303","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_C1_1.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/303","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=303"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/303\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":360,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/303\/revisions\/360"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/304"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=303"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=303"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=303"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}