{"id":316,"date":"2024-08-14T20:55:37","date_gmt":"2024-08-14T23:55:37","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=316"},"modified":"2024-08-14T20:55:38","modified_gmt":"2024-08-14T23:55:38","slug":"godard-cinema-2023-cyril-leuthy-e-tudo-verdade-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=316","title":{"rendered":"Godard Cinema (2023, Cyril Leuthy) \u2013 \u00c9 Tudo Verdade 2023"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Em Godard Cinema, Cyril Leuthy utiliza os padr\u00f5es do formato documental para contar um recorte da hist\u00f3ria de Godard como homem diante do cinema, mas n\u00e3o se mant\u00e9m fiel \u00e0 pr\u00f3pria an\u00e1lise, muito menos ao objeto principal de seu estudo.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"942\" height=\"514\" src=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_H2_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-317\" srcset=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_H2_1.jpg 942w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_H2_1-300x164.jpg 300w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_H2_1-768x419.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 942px) 100vw, 942px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Por Henrique Guimar\u00e3es<\/p>\n\n\n\n<p>Na recente filmografia de Cyril Leuthy, j\u00e1 constam document\u00e1rios sobre o diretor Jean-Pierre Melville (<em>Melville, le dernier samoura\u00ef<\/em>, 2020) e o ator Maurice Chevalier (<em>Rendez-vous With Maurice Chevalier<\/em>, 2021), o que demonstra seu dom\u00ednio sobre a forma de um document\u00e1rio cl\u00e1ssico. Mas seu novo filme, <em>Godard Cinema<\/em>, evidencia que isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para narrar parte da hist\u00f3ria de um dos diretores mais prol\u00edficos e revolucion\u00e1rios da hist\u00f3ria do cinema, Jean-Luc Godard<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A proposta aqui \u00e9 analisar o homem Godard antes do cinema de Godard. Mas \u00e9 fato que cinema e vida se fundem, ent\u00e3o <em>Godard Cinema<\/em> quer tamb\u00e9m falar sobre a arte. Para isso, Leuthy divide o document\u00e1rio em quatro partes: de 1960 at\u00e9 1967, de 67 at\u00e9 75, de 75 at\u00e9 80 e de 80 at\u00e9 98, dando voz \u00e0s pessoas que conheceram e trabalharam com Godard, como atrizes &#8211; Macha M\u00e9ril (<em>Uma Mulher Casada<\/em>,&nbsp; 1964) e Nathalie Baye <em>[Salve-se quem puder (a vida)<\/em>, 1980] &#8211; e cr\u00edticos, tal qual Alain Bergala.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro cap\u00edtulo, que come\u00e7a em <em>Acossado<\/em> (<em>\u00c0 bout de souffle<\/em>, 1960) e termina em <em>A Chinesa<\/em> (<em>La Chinoise<\/em>, 1967), \u00e9 o que melhor sintetiza os trabalhos do diretor, pensando na sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade da \u00e9poca, nas influ\u00eancias modernistas na <em>Nouvelle Vague<\/em> e no reconhecimento do cinema como forma de arte .<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, \u00e9 justamente quando passa a abordar os anos mais radicais (tanto no sentido pol\u00edtico quanto cinematogr\u00e1fico) de Godard, que o document\u00e1rio revela suas fraquezas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 compreens\u00e3o deste como artista. Os anos 70 foram tempos de renova\u00e7\u00e3o para Godard, e \u00e9 verdade que ele passou por um processo de coletiviza\u00e7\u00e3o de sua obra com o Grupo Dziga Vertov, de orienta\u00e7\u00e3o mao\u00edsta com fortes influ\u00eancias brechtianas e marxistas nas quest\u00f5es estruturais e ideol\u00f3gicas, respectivamente. Nele, a dire\u00e7\u00e3o dos filmes era compartilhada entre Godard, Jean-Henri Roger, Jean-Pierre Gorin e outros. O que n\u00e3o quer dizer que o primeiro tenha perdido sua autoria, se comparado aos anos de Nouvelle Vague, como sugere <em>Godard Cinema<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Situar a realiza\u00e7\u00e3o dos filmes atrav\u00e9s de marcos hist\u00f3ricos&nbsp; (maio de 68, Guerra do Vietn\u00e3), mais afirma Godard como autor consciente do seu pr\u00f3prio tempo &#8211; este que necessitava, como ferramenta pol\u00edtica, da uni\u00e3o das artes, dos trabalhadores e dos intelectuais &#8211;&nbsp; do que como diretor que perdeu seu toque para o cinema. Filmes como <em>Vento do Leste<\/em> (<em>Le Vent d\u2019est<\/em>, 1970), <em>Tudo Vai Bem<\/em> (<em>Tout Va Bien<\/em>, 1972) e <em>Letter to Jane <\/em>(1972) n\u00e3o poderiam ser menos \u201cgodardianos\u201d em seu teor cr\u00edtico e dial\u00e9tico, mas Leuthy os cita rapidamente para ignor\u00e1-los em seguida, e resume sua an\u00e1lise em dizer que Godard s\u00f3 voltou a ser quem era nos anos oitenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O fanatismo de Leuthy por Godard, ent\u00e3o, parece residir apenas na nostalgia provocada pela lembran\u00e7a de seus filmes iniciais, o que d\u00e1 ao espectador, tanto pela narra\u00e7\u00e3o quanto pelas entrevistas escolhidas, a sensa\u00e7\u00e3o de que esse per\u00edodo n\u00e3o merecia ser discutido com a mesma aten\u00e7\u00e3o dada a fase da Nouvelle Vague.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s isso, o terceiro cap\u00edtulo atinge (apesar de sua pressa) o momento mais inteligente de todo o document\u00e1rio: cita <em>N\u00famero Deux <\/em>(1975) para dizer que obras como essa e <em>JLG por JLG \u2013 Auto Retrato de Dezembro <\/em>(<em>JLG\/JLG \u2013 autoportrait de d\u00e9cembre,<\/em> 1994) serviram para Godard fazer uma an\u00e1lise de si mesmo diante da tecnologia e de seu cinema. S\u00e3o filmes em que o diretor prop\u00f5e mais d\u00favidas que afirma\u00e7\u00f5es e encerra mais um ciclo de sua filmografia. O problema \u00e9 que a an\u00e1lise se encerra a\u00ed e seu segmento \u00e9 mal colocado e descontextualizado: Leuthy insere uma entrevista de Godard falando sobre seus filmes dos anos 80,&nbsp; para retomar a ideia de que s\u00f3 ent\u00e3o ele voltar\u00e1 a ser o autor que era antes, mais uma vez ignorando o que havia acabado de construir, desconsiderando os filmes supracitados.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando menos se percebe, o diretor j\u00e1 est\u00e1 comentando sobre <em>Hist\u00f3ria(s) do Cinema <\/em>(<em>Histoire(s) du Cin\u00e9ma<\/em>, 1988-1998), obra mais complexa e experimental de Godard, de maneira insuficiente se comparado ao material de an\u00e1lise. N\u00e3o que cada filme citado durante o document\u00e1rio deva ser dissecado minuciosamente, coisa que s\u00f3 o pr\u00f3prio Godard poderia fazer, da mesma maneira que apenas ele seria capaz de realizar um document\u00e1rio sobre si pr\u00f3prio. Ali\u00e1s, Godard n\u00e3o fez nenhum filme que seja isso em sua totalidade, mas tal perspectiva dele enquanto homem-cinema (a proposta inicial de <em>Godard Cinema<\/em>), est\u00e1 em v\u00e1rias das suas produ\u00e7\u00f5es, tanto naquelas em que ele \u00e9 personagem (document\u00e1rios como <em>Soft and Hard<\/em> de 1985 e <em>Deux fois cinquante ans de cin\u00e9ma fran\u00e7ais <\/em>de 1995 s\u00e3o alguns exemplos), quanto nas em que \u00e9 representado por outros atores e personagens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas <em>Godard Cinema<\/em>, por mais que queira pensar o homem antes do diretor, n\u00e3o se disp\u00f5e a discorrer sobre os filmes em que o pr\u00f3prio faz isso. Realizar toda uma obra sobre um dos maiores autores da hist\u00f3ria do cinema necessita de um pensamento mais preocupado com seu objeto, de uma sele\u00e7\u00e3o e montagem de arquivos que procure o que serve ao filme, de uma narra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o diga de forma direta o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9, e que, ao inv\u00e9s de levar o espectador a conclus\u00f5es erradas, o fa\u00e7a desenvolver um pensamento pr\u00f3prio a partir do que foi apresentado pelo document\u00e1rio e da poss\u00edvel curiosidade em conhecer mais do que est\u00e1 sendo falado. Por\u00e9m, o diretor n\u00e3o abre espa\u00e7o para a participa\u00e7\u00e3o reflexiva do p\u00fablico, e n\u00e3o escolhe os materiais que facilitariam seu pr\u00f3prio trabalho enquanto observador\/expositor de Godard.<\/p>\n\n\n\n<p>Leuthy conclui afirmando que Jean-Luc queria se apagar mais uma vez ap\u00f3s <em>Hist\u00f3ria (s) do Cinema<\/em> mas n\u00e3o cobre o que veio depois. Se ele queria se apagar, por que n\u00e3o deixar que ficasse assim, ou ao menos confiar na sua an\u00e1lise de <em>N\u00famero Deux <\/em>e seguir at\u00e9 o verdadeiro \u00faltimo adeus cinematogr\u00e1fico de Godard em vida, que \u00e9 <em>Imagem e Palavra <\/em>(<em>Le Livre d\u2019image<\/em>, 2018), e de como este j\u00e1 \u00e9 um <em>Godard Cinema<\/em>, ou um \u201cCinema, por Godard\u201d?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A forma de <em>Godard Cinema<\/em> j\u00e1 \u00e9 inerentemente contr\u00e1ria ao cinema de Godard, e o que \u00e9 sintetizado por Leuthy n\u00e3o consegue ser mais respeitoso. No s\u00e9timo epis\u00f3dio de <em>Hist\u00f3ria(s) do Cinema<\/em> (<em>4a: O Controle do Universo<\/em>), Godard afirma que:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs formas nos dizem o que est\u00e1 no fundo das coisas. O que \u00e9 a arte sen\u00e3o o modo como as formas se torna estilo? O que \u00e9 o estilo sen\u00e3o o homem?\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Godard Cinema <\/em>n\u00e3o tem estilo, nem de Leuthy, nem de Godard. N\u00e3o atinge o \u201cfundo das coisas\u201d, tampouco compreende a rela\u00e7\u00e3o estilo-homem em seu homenageado. Afinal, Godard foi t\u00e3o autor em todas os cap\u00edtulos de sua vida, que mesmo quando ofereceu seu estilo ao coletivo, ainda estava utilizando as formas para falar de cinema, pol\u00edtica, e claro, Godard. Este que \u00e9 dono de uma filmografia t\u00e3o autoconsciente de seus limites e possibilidades, que at\u00e9 as reflex\u00f5es que terceiros podem fazer a partir de seus filmes, j\u00e1 foram feitas por ele mesmo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Henrique Guimar\u00e3es \u00e9 estudante, cr\u00edtico e pesquisador de cinema, curioso pelas possibilidades que as imagens podem oferecer. Realiza curtas universit\u00e1rios e independentes, escreve para diversos portais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u2014<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cobertura do 28\u00ba Festival Internacional de Document\u00e1rios \u00c9 Tudo Verdade faz parte do programa Jovens Cr\u00edticos que busca desenvolver e dar espa\u00e7o para novos talentos do pensamento cinematogr\u00e1fico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Equipe Jovens Cr\u00edticos Mnemocine:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Coordena\u00e7\u00e3o idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p>Produ\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o adjunta: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Luca Scupino<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Godard Cinema, Cyril Leuthy utiliza os padr\u00f5es do formato documental para contar um recorte da hist\u00f3ria de Godard como homem diante do cinema, mas n\u00e3o se mant\u00e9m fiel \u00e0 pr\u00f3pria an\u00e1lise, muito menos ao objeto principal de seu estudo.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":317,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-316","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_H2_1.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=316"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/316\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":318,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/316\/revisions\/318"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/317"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}