{"id":322,"date":"2024-08-14T21:00:30","date_gmt":"2024-08-15T00:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=322"},"modified":"2024-08-14T21:00:32","modified_gmt":"2024-08-15T00:00:32","slug":"vire-cada-pagina-as-aventuras-de-robert-caro-e-robert-gottlieb-2022-lizzie-gottlieb-e-tudo-verdade-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=322","title":{"rendered":"Vire Cada P\u00e1gina: As Aventuras de Robert Caro e Robert Gottlieb (2022, Lizzie Gottlieb) &#8211; \u00c9 Tudo Verdade 2023"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Em Vire Cada P\u00e1gina, a cineasta Lizzie Gottlieb investiga a rela\u00e7\u00e3o peculiar entre dois tit\u00e3s da literatura americana: o escritor pol\u00edtico Robert Caro e seu editor Robert Gottlieb, e prova a efetividade das narrativas cl\u00e1ssicas.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"945\" height=\"520\" src=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_L1_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-323\" srcset=\"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_L1_1.jpg 945w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_L1_1-300x165.jpg 300w, https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_ETV_L1_1-768x423.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 945px) 100vw, 945px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Por Luca Scupino<\/p>\n\n\n\n<p><br>Se eu escrevesse que um dos filmes mais interessantes do ano \u00e9 um document\u00e1rio sobre a rela\u00e7\u00e3o entre um autor de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o de 87 anos e seu editor quatro anos mais velho, certamente alguns leitores ficariam com o p\u00e9 atr\u00e1s. Dizer que um momento em que ambos brigam sobre o uso do ponto e v\u00edrgula (;) \u00e9 capaz de provocar um n\u00edvel alto de tens\u00e3o parece igualmente improv\u00e1vel, tal qual \u00e9 o desejo profundo que nutrimos ao longo do filme de vermos os dois homens trabalhando juntos, em uma sala de edi\u00e7\u00e3o. Mas, novamente, a trajet\u00f3ria do escritor Robert Caro e seu editor Robert Gottlieb pouco possui de convencional. Antes, <em>Vire Cada P\u00e1gina<\/em> prende a curiosidade a cada nova cena.<\/p>\n\n\n\n<p>Praticamente desconhecido no Brasil, devido \u00e0 car\u00eancia de uma tradu\u00e7\u00e3o e certo americanismo inerente em suas narrativas, Robert Caro \u00e9 autor de uma s\u00e9rie de calhama\u00e7os que investigam as din\u00e2micas de poder na democracia dos Estados Unidos no s\u00e9culo XX. Entre eles, se destacam <em>The Power Broker<\/em> (1974), sobre o urbanista milion\u00e1rio Robert Moses e sua influ\u00eancia pol\u00edtica descomunal, e quatro de uma s\u00e9rie de cinco livros sobre o ex-presidente Lyndon B. Johnson (1982-2012), que possui uma legi\u00e3o de f\u00e3s aguardando ansiosamente para que Caro termine de escrever o \u00faltimo volume.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Caso n\u00e3o conhe\u00e7a o autor, alguns desses fi\u00e9is seguidores aparecem no filme e certamente ir\u00e3o soar familiares: o ator Ethan Hawke, o apresentador de <em>talk show<\/em> Conan O\u2019 Brien, e os ex-presidentes Barack Obama e Bill Clinton. O estranhamento que causa a enorme empolga\u00e7\u00e3o dessas celebridades \u00e9 apenas igualado pela surpresa de se constatar que os livros se tornaram fen\u00f4menos durante a pandemia, quando foram avistados nas estantes de uma s\u00e9rie de analistas pol\u00edticos, em videoconfer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, \u00e9 imposs\u00edvel falar de Robert Caro sem citar o tal&nbsp; hom\u00f4nimo que foi igualmente respons\u00e1vel por seu sucesso: o editor Robert Gottlieb,&nbsp; n\u00e3o coincidentemente o pai da diretora Lizzie Gottlieb e editor de quase 700 obras que v\u00e3o de Michael Crichton a Toni Morrison. Este segundo Robert, al\u00e9m de acompanhar a trajet\u00f3ria de Caro pelos \u00faltimos 50 anos, solidificou uma parceria e uma amizade com ele que n\u00e3o \u00e9 desprovida de atritos &#8211; inclusive, at\u00e9 o final da obra, Caro se recusa a ser entrevistado ao lado de Gottlieb, o que n\u00e3o \u00e9 surpresa para quem entende a dif\u00edcil cumplicidade entre esses dois homens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao tra\u00e7ar um retrato dos dois personagens, de suas idiossincrasias (a cole\u00e7\u00e3o de bolsas de pl\u00e1stico <em>kitsch <\/em>de Gottlieb \u00e9 algo de ordem fascinante) e das diferentes maneiras com que cada um construiu sua carreira, o filme tamb\u00e9m procura compreender essa rela\u00e7\u00e3o peculiar que h\u00e1 entre escritor e editor, comparada por Gottlieb \u00e0 da transfer\u00eancia entre analista e paciente, na psican\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a pergunta que permanece \u00e9: por que o filme \u00e9 t\u00e3o bem sucedido em despertar interesse por um assunto pelo qual&nbsp; muitos dos espectadores apenas percorreriam os olhos em um artigo online, e passariam adiante?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta, sobretudo, reside na atualidade e efic\u00e1cia que a diretora encontra no formato do document\u00e1rio cl\u00e1ssico, conduzindo, a partir de entrevistas, uma narrativa que \u00e9 sustentada por materiais de arquivo, registros do cotidiano dos personagens, e tamb\u00e9m passagens dos livros, lidas por convidados. De todos os elementos do filme, talvez a montagem seja a maior respons\u00e1vel pela flu\u00eancia da narrativa, ao operar por uma din\u00e2mica que levanta um assunto, ati\u00e7a a curiosidade, e imediatamente se prop\u00f5e a desenvolv\u00ea-lo, de modo que uma cena engata na outra com muita facilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, assim que Caro menciona em entrevista seu interesse em compreender as din\u00e2micas de poder que operam nos bastidores da pol\u00edtica americana, o filme inicia uma passagem que remonta ao in\u00edcio de seu trabalho extensivo de pesquisa e a descoberta, a partir de documentos da reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica em que trabalhava na juventude, do pacto entre poder p\u00fablico e privado que \u00e9 capaz de driblar os devidos processos institucionais. Foi nessa mesma \u00e9poca que Caro recebeu a dica, de seu chefe, que d\u00e1 nome ao filme: \u201cvire cada p\u00e1gina\u201d, para n\u00e3o perder nenhuma informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo, assim que sentimos a necessidade de uma leitura de trechos de Caro, surge um corte seco e l\u00e1 aparece o ator Ethan Hawke com o livro em m\u00e3os, pronto para recitar um excerto. \u00c9 uma din\u00e2mica que, a despeito de sua previsibilidade, sempre responde ao que a estrutura determina e encontra o momento certo para introduzir um novo assunto &#8211; o que novamente prova a necessidade de todo document\u00e1rio possuir um bom roteiro, e atesta que o formato cl\u00e1ssico o \u00e9 assim por um motivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por vezes, o balan\u00e7o entre os dois personagens tende mais para um e esquece do outro. A impress\u00e3o \u00e9 que, na falta de um gancho que conceda uma unidade, um sentido para a hist\u00f3ria que guie todas as cenas, o filme opta por focar em detalhes que n\u00e3o necessariamente s\u00e3o o foco da narrativa &#8211; miolo que \u00e9 sustentado pelo carisma de Caro e, em especial, de Gottlieb, sempre o primeiro a reconhecer suas virtudes e defeitos. Quando o filme reencontra o gancho, ele vem atrav\u00e9s da press\u00e3o sofrida pelo primeiro, j\u00e1 em seus 87 anos, para terminar o \u00faltimo volume da s\u00e9rie sobre Lyndon B. Johnson, e assim a obra volta a tocar em seus assuntos centrais.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, ainda, uma terceira personagem que ora se anuncia, ora se elide: claro, a cineasta Lizzie Gottlieb, que, como filha de um dos personagens centrais do filme, bem sabe que h\u00e1 uma din\u00e2mica pessoal envolvida na feitura, especialmente no que tange ao acesso privilegiado que ela e sua c\u00e2mera possuem \u00e0 vida privada dos dois homens. No entanto, sua presen\u00e7a muitas vezes apenas paira sobre a obra,&nbsp; sem dar o passo al\u00e9m para reconhecer a pr\u00f3pria interfer\u00eancia naquele processo. Interfer\u00eancia que, claro, \u00e9 limitada pelo pr\u00f3prio formato, longe de ser um modelo perform\u00e1tico ou assumir uma narrativa em primeira pessoa que guie a hist\u00f3ria, mas que tamb\u00e9m indissocia-se dos modos pelos quais o filme foi concebido e operacionalizado.<\/p>\n\n\n\n<p>O final, em que finalmente temos acesso \u00e0 sala de edi\u00e7\u00e3o para observar o trabalho dos dois Roberts, \u00e9 uma esp\u00e9cie de <em>mea culpa<\/em>, um momento em que a voz da diretora ressurge e imp\u00f5e o pr\u00f3prio desfecho, ap\u00f3s acharmos que o filme ir\u00e1 acabar. Ele \u00e9, ao mesmo tempo, uma recompensa, um presente. Pela primeira vez, temos acesso \u00e0 sala de edi\u00e7\u00e3o, com uma condi\u00e7\u00e3o: que a diretora n\u00e3o grave o di\u00e1logo entre Caro e Gottlieb, apenas as imagens do processo de trabalho. Claro, antes disso, esses dois homens de 90 anos percorrem o escrit\u00f3rio \u00e0 dif\u00edcil procura de um l\u00e1pis para corrigir os manuscritos datilografados: a perfeita representa\u00e7\u00e3o desses gigantes que permanecem ativos, carregando uma presen\u00e7a de outra \u00e9poca, de uma Nova York que fundou a concep\u00e7\u00e3o moderna da cadeia editorial e em que, como as obras de Caro demonstram, a caneta era mais poderosa que a espada.<\/p>\n\n\n\n<p>E, quando os microfones s\u00e3o desligados, parece que de fato era desnecess\u00e1rio ouvirmos as vozes, visto que j\u00e1 sabemos o que era preciso sobre esses dois homens, gra\u00e7as \u00e0 efici\u00eancia do filme. Em dada entrevista, Gottlieb afirma que, quando o leitor deseja mais p\u00e1ginas, e n\u00e3o menos, tem-se um bom livro em m\u00e3os. Pois, do mesmo modo que o document\u00e1rio acaba e resta uma vontade insaci\u00e1vel de conhecer toda a bibliografia de Robert Caro, a impress\u00e3o restante \u00e9 que, pelo sucesso de suas estrat\u00e9gias, o filme poderia continuar por muito mais tempo. Que estejamos vivos para presenciar o lan\u00e7amento do quinto Lyndon B. Johnson.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Luca Scupino \u00e9 cineasta independente, pesquisador e cr\u00edtico, formado em Cinema pela FAAP, onde dirigiu e roteirizou 4 curtas-metragens. Atualmente pesquisa na \u00e1rea de hist\u00f3ria do cinema e teoria est\u00e9tica, e escreve artigos para diferentes meios. \u00c9 cin\u00e9filo desde que se entende por gente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u2014<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cobertura do 28\u00ba Festival Internacional de Document\u00e1rios \u00c9 Tudo Verdade faz parte do programa Jovens Cr\u00edticos que busca desenvolver e dar espa\u00e7o para novos talentos do pensamento cinematogr\u00e1fico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Equipe Jovens Cr\u00edticos Mnemocine:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Coordena\u00e7\u00e3o idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p>Produ\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o adjunta: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Luca Scupino<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Vire Cada P\u00e1gina, a cineasta Lizzie Gottlieb investiga a rela\u00e7\u00e3o peculiar entre dois tit\u00e3s da literatura americana: o escritor pol\u00edtico Robert Caro e seu editor Robert Gottlieb, e prova a efetividade das narrativas cl\u00e1ssicas. 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