{"id":384,"date":"2024-08-14T22:06:27","date_gmt":"2024-08-15T01:06:27","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=384"},"modified":"2024-08-14T22:14:03","modified_gmt":"2024-08-15T01:14:03","slug":"celluloid-underground-2023-ehsan-khoshbakht-e-tudo-verdade-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=384","title":{"rendered":"Celluloid Underground (2023, Ehsan Khoshbakht) |\u00a0 \u00c9 Tudo Verdade 2024\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Francesco Felix<\/p>\n\n\n\n<p>Participando da Competi\u00e7\u00e3o Internacional de Longas e M\u00e9dias-Metragens do Festival \u00c9 Tudo Verdade 2024, o filme iraniano <em>Celluloid Underground <\/em>(2023) apresenta as narrativas tocantes de seu diretor, Ehsan Khoshbakht, not\u00e1vel documentarista e curador de cinema, e de seu mentor, o colecionador de pel\u00edculas Ahmad, que manteve um impressionante acervo de mais de cinco mil filmes durante um per\u00edodo pol\u00edtico em que sua posse era proibida. Abordando o assunto da preserva\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, em um contexto de deprecia\u00e7\u00e3o da m\u00eddia f\u00edsica e descaso de ag\u00eancias governamentais e est\u00fadios de cinema com a mem\u00f3ria das cinematografias mundiais, o filme de Khoshbakht ilumina o trabalho silencioso dos colecionadores e historiadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Os oitenta minutos desse document\u00e1rio de cunho pessoal s\u00e3o narrados incessantemente por seu diretor, adotando sua perspectiva desde o in\u00edcio do filme sobre a hist\u00f3ria do cineasta com Ahmad. Narrando sua inf\u00e2ncia, Khoshbakht ecoa produ\u00e7\u00f5es recentes como <em>Os Fabelmans <\/em>(2022, dir. Steven Spielberg) ao ilustrar o in\u00edcio de sua paix\u00e3o pelo cinema, sua primeira experi\u00eancia numa sala de exibi\u00e7\u00e3o comercial, a primeira vez que viu uma pel\u00edcula de filme. Ele conta sobre como montou um projetor de papel\u00e3o para que essa pel\u00edcula pudesse ser exibida, e de sua organiza\u00e7\u00e3o para chamar os amigos para ver esse &#8220;acontecimento&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A inf\u00e2ncia do diretor foi marcada pela Revolu\u00e7\u00e3o Iraniana de 1979, que virou de ponta-cabe\u00e7a toda a organiza\u00e7\u00e3o social do pa\u00eds e resultou em proibi\u00e7\u00f5es relacionadas ao audiovisual, principalmente no \u00e2mbito de possuir e exibir rolos de filme. Muitos foram queimados e perdidos para sempre, nos primeiros anos do novo regime. No entanto, a paix\u00e3o de Khoshbakht foi irrefre\u00e1vel, e em sua adolesc\u00eancia organizou diversos clubes de discuss\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, operando nos limites da lei. Finalmente, conheceu Ahmad, ap\u00f3s receber dele rolos de filmes clandestinos escondidos em sacos de arroz, e com ele foi trabalhar, encontrando um mundo de ac\u00famulo, confus\u00e3o e desintegra\u00e7\u00e3o que, sem erro, mudou permanentemente a vida do documentarista.<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta de Khoshbakht em <em>Celluloid Underground<\/em> foi a de homenagear Ahmad ao contar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, tra\u00e7ando paralelos em suas origens e no relacionamento de ambos com o cinema. Os dois homens tiveram a mesma necessidade de exibir filmes mesmo nas mais \u00e1rduas circunst\u00e2ncias, de reunir pessoas e de espalhar o cinema por todo o pa\u00eds. Ahmad chega a ser preso, torturado e perseguido por sua reputa\u00e7\u00e3o de colecionador, enquanto Khoshbakht escolhe pelo ex\u00edlio, saindo do Ir\u00e3 ap\u00f3s o servi\u00e7o militar compuls\u00f3rio e trabalhando na preserva\u00e7\u00e3o do seu legado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o pessoal entre o diretor e seu objeto, tend\u00eancia cada vez mais comum no cinema documental contempor\u00e2neo, o filme registra momentos em que os dois trabalharam juntos, nos por\u00f5es em que Ahmad escondia rolos de filme em 35mm e 16mm, p\u00f4steres antigos, revistas, e todo tipo de rel\u00edquias que poderiam ser confiscadas e destru\u00eddas pelo governo, se encontradas. Khoshbakht se torna um morador do caos de mem\u00f3rias que a paix\u00e3o de Ahmad iniciou, e \u00e9 absorvido pelos espa\u00e7os clandestinos de Teer\u00e3, escondidos no subterr\u00e2neo. Com uma s\u00e9rie de m\u00e1ximas que permeiam a narra\u00e7\u00e3o, acompanhadas de uma trilha dram\u00e1tica e imagens de arquivo ou reconstitui\u00e7\u00f5es ficcionais, o diretor pinta um cen\u00e1rio de guerrilha, em que os dois personagens assumem os pap\u00e9is de verdadeiros detetives do cinema, her\u00f3is sorrateiros e cuidadores do tempo. Surgem ideias como a de que o celuloide, fisicamente, \u00e9 composto tanto de restos humanos quanto de plantas: &#8220;ao morrer, voltamos \u00e0 natureza e retornamos projetados&#8221; \u2014 uma das frases de efeito encaixadas na hist\u00f3ria, mais a m\u00e9rito de impressionar o espectador do que de agregar \u00e0 tese do autor.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, com o cen\u00e1rio delicado que vive a preserva\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica hoje em dia, a tem\u00e1tica do filme \u00e9 poderosa e suas escolhas cinematogr\u00e1ficas funcionam em um contexto de filme-obitu\u00e1rio. Quando Ahmad morre, evento j\u00e1 adiantado nos primeiros minutos da narra\u00e7\u00e3o e que serve de pontap\u00e9 inicial para que Ehsan inicie o processo de produ\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio e resgate da mem\u00f3ria, os filmes que este escondia desaparecem \u2013 n\u00e3o sabemos onde foram parar, se algu\u00e9m ainda os mant\u00e9m ou se est\u00e3o apodrecendo, esquecidos. &#8220;Imagens, como n\u00f3s, vivem e morrem&#8221;, filosofa Khoshbakht novamente. Morando em Londres, incapaz de novamente adentrar os subterr\u00e2neos da capital iraniana, a ele resta seguir obedecendo sua necessidade gutural, compartilhada com o antigo mestre: a de manter a mem\u00f3ria viva, agora, com a realiza\u00e7\u00e3o deste filme. Ehsan busca com <em>Celluloid Underground<\/em> erguer um monumento \u00e0 cinefilia iraniana, ao trabalho de Ahmad e \u00e0 &#8220;inven\u00e7\u00e3o de sonhos&#8221; em 35mm. Os filmes que foram salvos, lembrados e preservados, infalivelmente se tornam tamb\u00e9m a ilustra\u00e7\u00e3o dos filmes que se perderam. Aqui, mais do que nunca, essa tese se concretiza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Francesco Felix concluiu o curso de Cinema pela FAAP e atualmente estuda Letras na FFLCH. Interessado em tudo que envolve a cinefilia, da preserva\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o de cl\u00e1ssicos at\u00e9 a inven\u00e7\u00e3o de futuros experimentais. Quando v\u00ea um filme, torce sempre para um encantamento, que divida o tempo entre o antes e o depois dos cr\u00e9ditos rolarem. Felizmente, acontece muito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>_<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cobertura do 29\u00ba Festival Internacional de Document\u00e1rio \u00c9 Tudo Verdade faz parte do programa Jovens Cr\u00edticos que busca desenvolver e dar espa\u00e7o para novos talentos do pensamento cinematogr\u00e1fico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Equipe Jovens Cr\u00edticos Mnemocine:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Coordena\u00e7\u00e3o e Idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p>Produ\u00e7\u00e3o e Edi\u00e7\u00e3o: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o Adjunta e Assistente de Produ\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik e Rayane Lima<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Francesco Felix Participando da Competi\u00e7\u00e3o Internacional de Longas e M\u00e9dias-Metragens do Festival \u00c9 Tudo Verdade 2024, o filme iraniano Celluloid Underground (2023) apresenta as narrativas tocantes de seu diretor, Ehsan Khoshbakht, not\u00e1vel documentarista e curador de cinema, e de seu mentor, o colecionador de pel\u00edculas Ahmad, que manteve um impressionante acervo de mais de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":380,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-384","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/mnemocine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/8f43d3_86b6d9bc8cdb44b78778a66f478859c1mv2.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/384","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=384"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/384\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":399,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/384\/revisions\/399"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/380"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}