{"id":452,"date":"2024-08-16T21:46:54","date_gmt":"2024-08-17T00:46:54","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=452"},"modified":"2025-06-12T00:57:39","modified_gmt":"2025-06-12T03:57:39","slug":"concurso-curta-ecofalante-13a-mostra-ecofalante-de-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=452","title":{"rendered":"Concurso Curta Ecofalante | 13\u00aa Mostra Ecofalante de Cinema"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Beatriz Panico<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sess\u00e3o do dia 07\/08 da programa\u00e7\u00e3o do \u201cConcurso Curta Ecofalante\u201d, que contou com a presen\u00e7a de duas das diretoras das obras, foram exibidos quatro curta-metragens que variaram entre o formato documental e ficcional. A sess\u00e3o buscou uma discuss\u00e3o sobre a experi\u00eancia feminina, visto que todos os filmes abordaram a posi\u00e7\u00e3o da mulher na sociedade. Do processo de amadurecimento na juventude \u00e0s dificuldades enfrentadas por mulheres em ramos do mercado majoritariamente masculinos, os curtas instigam os espectadores a refletirem sobre como o feminino \u00e9 enxergado at\u00e9 o momento presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro curta exibido, <em>Al\u00e9m do Impedimento<\/em> (2024), da diretora Heloisa Lawanda, aborda as adversidades enfrentadas por atletas do futebol feminino, desde a falta de investimentos at\u00e9 os coment\u00e1rios negativos que buscam impedir o desenvolvimento do esporte. Mais do que os desafios, o filme procura retratar a for\u00e7a e a resili\u00eancia dessas figuras que insistem em&nbsp; lutar pelo reconhecimento de sua profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Explorando as diferentes possibilidades que o document\u00e1rio oferece, o curta utiliza imagens de arquivo que apresentam jogos de futebol feminino e sele\u00e7\u00f5es nacionais inteiramente formadas por mulheres, datados da metade do s\u00e9culo XX. Atrav\u00e9s de relatos de jogadoras profissionais, que compartilham suas jornadas \u00e1rduas para chegar ao ponto em que se encontram atualmente, o filme reitera as contribui\u00e7\u00f5es de figuras femininas para o desenvolvimento do esporte desde a sua origem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dando voz a uma nova gera\u00e7\u00e3o de atletas que demonstram a sua paix\u00e3o pelo esporte, o curta se configura como uma corajosa den\u00fancia das injusti\u00e7as sofridas por diversas mulheres pela&nbsp; falta de incentivo ao esporte feminino, n\u00e3o limitada ao futebol.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tereza<\/em> (2023), de Bea Souza, foi o segundo curta da&nbsp; mostra. O document\u00e1rio gira em torno do relato de Tereza Trautman, diretora de \u201cOs Homens Que Eu Tive\u201d (1973), dado como o primeiro longa de fic\u00e7\u00e3o do cinema moderno brasileiro, segundo Luiza Lusvarghi e Camila Vieira da Silva em seu livro \u201dMulheres atr\u00e1s das c\u00e2meras\u201d. O filme permaneceu censurado durante toda a Ditadura Militar Brasileira ap\u00f3s se manter por apenas seis semanas em cartaz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme abre com dados coletados pela Ancine, que concluem que menos de 20% de todos os filmes brasileiros foram dirigidos por mulheres. A decis\u00e3o de revelar tal constata\u00e7\u00e3o, logo aos primeiros segundos, evidencia a vontade de chocar o espectador com informa\u00e7\u00f5es que relembram o p\u00fablico da posi\u00e7\u00e3o feminina em um ramo extremamente competitivo e ocupado principalmente por homens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de buscar diferentes planos ao longo do relato, dinamizando a experi\u00eancia para o espectador, a abordagem \u00e9, em grande parte, mais t\u00e9cnica e formal. Em um cen\u00e1rio em que a dire\u00e7\u00e3o poderia se utilizar de uma c\u00e2mera mais intimista para explorar com mais profundidade a viv\u00eancia de Tereza como uma mulher no ramo cinematogr\u00e1fico dos anos 70, e como a censura afetou o andamento de sua carreira, o filme se encontra preso em \u00e1guas rasas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Transmitindo uma sensa\u00e7\u00e3o de impessoalidade, este se torna puramente informativo, n\u00e3o fazendo esfor\u00e7os para que o espectador se conecte com a narrativa de Tereza ao n\u00e3o se utilizar de outros recursos al\u00e9m de seus relatos. Ainda que n\u00e3o usufrua de todo o potencial para tratar da experi\u00eancia da diretora como pioneira do cinema nacional feminino, o curta ainda se configura como um documento extremamente rico para compreender o passado de figuras n\u00e3o-reconhecidas e que estabeleceram uma base para novas cineastas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em contrapartida \u00e0s duas primeiras obras exibidas em formato documental, <em>Manchas de sol<\/em> (2023), de Martha Mariot, introduz a hist\u00f3ria de Adriana, uma senhora aposentada que vive tranquilamente&nbsp; com sua esposa, Paola. Quando sua filha distante, alheia ao seu relacionamento e sexualidade, vem lhe visitar, Adriana deve lidar com sentimentos conflituosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme se prop\u00f5e \u00e0 mergulhar na vida privada do casal, retratando, em sua rotina di\u00e1ria, um tipo de intimidade que s\u00f3 pode ser formada por&nbsp; pessoas que est\u00e3o juntas h\u00e1 muito tempo, amplificando o segredo que Adriana guarda da filha. Embora crie algum tipo de intimidade com as personagens, a c\u00e2mera, e consequentemente o espectador, parece sempre se encontrar na posi\u00e7\u00e3o de observador externo, dificultando a forma\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo entre o p\u00fablico e as personagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A abordagem \u00e9 sutil, deixando que o espectador compreenda a natureza do relacionamento entre as tr\u00eas mulheres por si s\u00f3. Por mais que essa estrat\u00e9gia possa se configurar como um elemento enriquecedor da obra, neste caso apenas torna a hist\u00f3ria confusa e sup\u00e9rflua. Sem explorar nenhuma das possibilidades oferecidas a partir do conflito das personagens, como a rela\u00e7\u00e3o distante entre m\u00e3e e filha, a hist\u00f3ria se perde entre di\u00e1logos rasos e sem conte\u00fado, que n\u00e3o contribuem para o andamento da narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo com falhas em sua execu\u00e7\u00e3o, o filme ainda proporciona momentos tratados com cuidado e sensibilidade. No momento final do curta, Adriana e Paola desempenham outra&nbsp; atividade di\u00e1ria, pendurando roupas em seu varal quando s\u00e3o consumidas pelo impulso de dan\u00e7ar juntas. Durante essa cena, Adriana se deixa levar pelas demonstra\u00e7\u00f5es rotineiras de carinho no casamento, sem saber que est\u00e1 sendo observada por sua filha, que sorri com o segredo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00faltimo curta do programa foi <em>Pelos <\/em>(2024), de Emma Marques. Ao longo do filme, acompanhamos a tarde de Olivia e Luiza, duas estudantes do ensino fundamental que desbravam juntas os novos territ\u00f3rios da pr\u00e9-adolesc\u00eancia, enquanto aguardam a festa de uma colega. De forma sens\u00edvel, o espectador \u00e9 convidado a acompanhar a jornada de amadurecimento das duas garotas enquanto elas aprendem a lidar com os dilemas do avan\u00e7o da idade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O curta se destaca por seu uso de cores e planos criativos, tendo como exemplo marcante um plano em que apenas os t\u00eanis vibrantes das protagonistas s\u00e3o vistos elevados e apoiados contra uma janela, enquanto estas discutem os dilemas amorosos de Luiza, com suas vozes em off. A narrativa \u00e9 conduzida de forma flu\u00edda e natural devido \u00e0 abertura criativa dada \u00e0s atrizes, que incorporam muito de si mesmas em suas personagens. Tal decis\u00e3o foi revelada pela diretora durante o bate-papo ap\u00f3s a sess\u00e3o, em que discutiu as contribui\u00e7\u00f5es das garotas no desenvolvimento do di\u00e1logo para torn\u00e1-lo mais realista e atual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No decorrer do curta, a quest\u00e3o do desenvolvimento das garotas \u00e9 abordada em torno da depila\u00e7\u00e3o como met\u00e1fora, visto&nbsp; que os pelos s\u00e3o centrais para a quest\u00e3o de g\u00eanero. Enquanto para garotos eles s\u00e3o vistos como um s\u00edmbolo da masculinidade cl\u00e1ssica, e um sinal do desenvolvimento para se tornar um homem, para as mulheres s\u00e3o tratados como motivo de vergonha, levando a maioria destas a passar por diferentes processos de depila\u00e7\u00e3o para serem vistas como mais \u201cfemininas\u201d na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse modo, a decis\u00e3o de Olivia de depilar apenas uma perna demonstra, simultaneamente, a sua inoc\u00eancia e sua vontade de corresponder aos padr\u00f5es est\u00e9ticos estabelecidos para mulheres assim que atingem a puberdade. O filme caminha em uma linha t\u00eanue entre inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, explorando os prim\u00f3rdios do auto descobrimento das meninas, que embora j\u00e1 discutam assuntos mais maduros, ainda se comportam como crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Evidenciando a diversidade da curadoria e dos t\u00f3picos abrangidos pela proposta do festival, a experi\u00eancia total da sess\u00e3o, com sua variedade de curtas e o envolvimento direto com as diretoras, exemplifica a import\u00e2ncia desses espa\u00e7os de exibi\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Beatriz Panico \u00e9 uma estudante no segundo semestre do curso de cinema na FAAP. Apaixonada por leitura e escrita desde cedo, desenvolveu um interesse especial pelas \u00e1reas de hist\u00f3ria do cinema, roteiro e cr\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordena\u00e7\u00e3o e Idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00e3o e Edi\u00e7\u00e3o: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik, Luca Scupino e Gabriela Saragosa<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o Adjunta e Assistente de Produ\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik e Caio Cavalcanti<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Beatriz Panico Na sess\u00e3o do dia 07\/08 da programa\u00e7\u00e3o do \u201cConcurso Curta Ecofalante\u201d, que contou com a presen\u00e7a de duas das diretoras das obras, foram exibidos quatro curta-metragens que variaram entre o formato documental e ficcional. 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