{"id":567,"date":"2025-06-08T22:01:19","date_gmt":"2025-06-09T01:01:19","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=567"},"modified":"2025-06-08T22:01:20","modified_gmt":"2025-06-09T01:01:20","slug":"a-bela-e-os-passaros-entrevista-com-paolo-marcelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=567","title":{"rendered":"&#8220;A Bela e os P\u00e1ssaros&#8221;: entrevista com Paolo &amp; Marcelo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A Bela e os P\u00e1ssaros <\/em>\u00e9 o quinto curta-metragem de Paolo &amp; Marcelo, premiados cineastas paulistas, com estreia marcada para o XII Festival Internacional de Curtas de S\u00e3o Paulo. Sinopse: em um mundo de f\u00e1bula, uma jovem vive aventuras com personagens fant\u00e1sticos.<br><br>O filme foi feito em pel\u00edcula 35mm, preto &amp; branco, sem di\u00e1logos, com m\u00fasica &#8220;objetiva&#8221; catal\u00e3, personagens enigm\u00e1ticos e uma est\u00e9tica purista que resgata a tradi\u00e7\u00e3o do cinema enquanto cinema. Utilizando t\u00e9cnicas narrativas do in\u00edcio do s\u00e9culo e a estrutura po\u00e9tica, normalmente ausente das produ\u00e7\u00f5es atuais, este curta foi um desafio para seus autores.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A Bela e os P\u00e1ssaros<\/em> \u00e9 a estreia da jovem Raissa Gregori nas telas, formada em teatro pelo C\u00e9lia Helena e trabalhando atualmente com Antunes Filho no CPT do SESC. O curta \u00e9 ainda a comemora\u00e7\u00e3o dos 50 anos de carreira de Mauro Alice, grande montador da Vera Cruz, de Walter Hugo Khouri, e mais recentemente de Hector Babenco.<\/p>\n\n\n\n<p>No elenco est\u00e3o tamb\u00e9m Jairo Ferreira, importante cineasta, cr\u00edtico e \u00edcone do cinema <em>underground <\/em>brasileiro desde os anos 60, fazendo o papel do faquir que encontra a Bela na noite da floresta; e Jefferson De, jovem diretor de cinema e criador do movimento Dogma Feijoada, que faz o poeta Cruz e Sousa lapidando os versos em pedras.<\/p>\n\n\n\n<p>A fotografia em preto &amp; branco de Aloysio Raulino, experiente diretor de fotografia e cineasta desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, \u00e9 o ponto alto do filme, pois consegue transportar para as telas o tom de f\u00e1bula, a estrutura de desenho animado e o car\u00e1ter metaf\u00edsico da narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 este encontro de gera\u00e7\u00f5es e estilos que faz do trabalho de Paolo &amp; Marcelo uma experi\u00eancia \u00fanica no panorama do curta-metragem brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Para completar todo este sincretismo criativo, a trilha sonora original do filme foi toda idealizada e criada via e-mail pelo m\u00fasico catal\u00e3o Victor Nubla, de Barcelona, autor de mais de 20 CD&#8217;s de m\u00fasica do tipo objetiva e v\u00e1rias trilhas sonoras na Europa e nos EUA, estabelecendo um intenso interc\u00e2mbio art\u00edstico virtual. Vale lembrar que <em>A Bela e os P\u00e1ssaros<\/em> ganhou o Pr\u00eamio Est\u00edmulo para Realiza\u00e7\u00e3o de Curtas Metragens do Governo do Estado de S\u00e3o Paulo de 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevista a seguir foi concedida a Paulo Allegrini em 20 de julho de 2001. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:<\/strong><br>Como surgiu a id\u00e9ia de fazer o filme?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>Quer\u00edamos fazer um filme diferente e acho que conseguimos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>Apesar de toda a dificuldade que se tem de fazer filmes autorais nesse pa\u00eds, e no mundo, acho que deu para criar uma obra onde pud\u00e9ssemos refletir nossa maneira de ver o mundo. Essa foi \u00e0 id\u00e9ia principal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:<\/strong><br>Quem \u00e9 a Bela?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>Ela \u00e9 um reflexo de nossos ideais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>A Bela n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m e todos n\u00f3s. Ela encarna o esp\u00edrito nietzschiano do filme, que \u00e9 o de ser uma obra para todos e para nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:<\/strong><br>Como explicar o descaso narrativo, a falta de di\u00e1logos ou mesmo a estrutura misteriosa deste trabalho?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>O cinema j\u00e1 completou cem anos, j\u00e1 \u00e9 hora de esquecer estas quest\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>N\u00e3o vejo raz\u00e3o para explica\u00e7\u00e3o, mas se voc\u00ea insistir posso tentar explicar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:<\/strong><br>Eu insisto. Como explicar tudo isso?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>\u00c9 muito simples. O erro \u00e9 achar que o cinema se limita apenas ao modo representativo. Na nossa opini\u00e3o ele escapa a todo o momento desse modo. Ele pode criar. Em cem anos ele j\u00e1 criou um tipo de ritmo e linguagem, pode ir al\u00e9m, e \u00e9 gra\u00e7as a esse ritmo e linguagem, que o cinema pode extrair de si mesmo uma nova for\u00e7a que, desleixando a l\u00f3gica dos fatos e a realidade dos objetos, engendra uma seq\u00fc\u00eancia de vis\u00f5es desconhecidas, inconceb\u00edveis fora da alian\u00e7a entre a lente e a pel\u00edcula. Acho que &#8220;A Bela e os P\u00e1ssaros&#8221; \u00e9 um curta intr\u00ednseco, se voc\u00ea quiser, ou ent\u00e3o, um filme puro, pois est\u00e1 separado de outros elementos, dram\u00e1ticos ou document\u00e1rios, e acredito que \u00e9 isto que oferece o campo pr\u00f3prio \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>Concordo com o Paolo. Olha, muitos dizem que a gente n\u00e3o faz cinema. \u00c9 um erro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:<\/strong><br>Como assim, &#8220;n\u00e3o fazem cinema&#8221; ?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>Fazemos. Mas n\u00e3o nos padr\u00f5es e conceitos estandardizados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>O que o Marcelo quer dizer \u00e9 que as pessoas se prendem muito a um padr\u00e3o de fazer filmes que estabelece uma conex\u00e3o do cinema com a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, e n\u00e3o \u00e9 esse sistema que n\u00f3s queremos perpetuar. Nossa ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer um cinema isento da l\u00f3gica cartesiana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:<\/strong><br>Mas voc\u00eas n\u00e3o acham que um filme \u00e9 feito para ser entendido?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>Com certeza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>Essa quest\u00e3o tem muito a ver com ling\u00fc\u00edstica. No cinema voc\u00ea tem um conjunto de elementos, que s\u00e3o os planos, imagens, cen\u00e1rio, etc, e uma sintaxe, que \u00e9 composta pela montagem, pela narrativa e pela finaliza\u00e7\u00e3o. Os dois juntos, elementos e sintaxe, comp\u00f5em o c\u00f3digo ling\u00fc\u00edstico que faz com que uma coisa seja entendida pelo decodificador, ou espectador. No momento em que n\u00f3s, emissores, quebramos um dos p\u00f3los, ou os dois, desse c\u00f3digo, a comunica\u00e7\u00e3o se torna truncada, imposs\u00edvel \u00e0s vezes, pois n\u00e3o usamos o mesmo c\u00f3digo ao qual o destinat\u00e1rio est\u00e1 acostumado usar.<br><br><strong>Marcelo:<\/strong><br>\u00c9 isso a\u00ed. Este tipo de sintaxe atrapalha o p\u00fablico acostumado aos c\u00f3digos griffithianos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:<\/strong><br>Portanto, voc\u00eas n\u00e3o ligam para o p\u00fablico?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>Pelo contr\u00e1rio. O que me atrai mais especificamente no cinema \u00e9 poder transportar o espectador, pela vis\u00e3o e pelos outros sentidos, em qualquer dire\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o ou do tempo, e acho que isso \u00e9 minha contribui\u00e7\u00e3o para com &#8220;A Bela&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>Amo o p\u00fablico e adoro fazer cinema. O Amor nunca esteve ausente de nossos filmes.<br><br><strong>Pergunta:<\/strong><br>&#8220;A Bela e os P\u00e1ssaros&#8221; vai fazer sucesso?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>Talvez, se conseguirmos vencer a indiferen\u00e7a. As pessoas t\u00eam a tend\u00eancia de jogar aquilo que n\u00e3o entendem, ou n\u00e3o gostam, na vala comum da indiferen\u00e7a, e isso acaba com qualquer filme, n\u00e3o s\u00f3 o nosso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>N\u00e3o se esque\u00e7a, o sucesso arruinou Rock Hunter.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:<\/strong><br>Voc\u00eas acham que fazem um cinema revolucion\u00e1rio?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>N\u00e3o sou um revolucion\u00e1rio, nem acredito nas revolu\u00e7\u00f5es. Muitas vezes elas s\u00f3 nos fazem voltar para tr\u00e1s. Prefiro acreditar nas &#8220;evolu\u00e7\u00f5es&#8221;, em frente. Sou pelo simples, bonito, bom e barato. A simplifica\u00e7\u00e3o deve transformar a id\u00e9ia em s\u00edmbolo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>A revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 dentro de n\u00f3s. Fui atra\u00eddo pelo cinema, sobretudo pela necessidade de contar a hist\u00f3ria de homens vivos, homens vivendo nas coisas e n\u00e3o as coisas em si mesmas. Se isso \u00e9 fazer cinema revolucion\u00e1rio, ent\u00e3o posso concordar com voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:<\/strong><br>Para terminar, o que \u00e9 o cinema para voc\u00eas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paolo:<\/strong><br>\u00c9 a vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo:<\/strong><br>&#8230;..<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013<\/p>\n\n\n\n<p>FICHA T\u00c9CNICA:<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00edtulo: A Bela e os P\u00e1ssaros<br>Bitola: 35 mm<br>Dura\u00e7\u00e3o: 8 minutos<br>Ano de produ\u00e7\u00e3o: 2001<br>Som: Dolby Digital<\/p>\n\n\n\n<p>Elenco<br>Ra\u00edssa Gregori (Bela)<br>Edu Guimar\u00e3es (Guardi\u00e3o)<br>Ronaldo Michelotto (Empres\u00e1rio)<br>Jefferson De (Cruz e Sousa)<br>Jairo Ferreira (Faquir)<br>Guilherme Kwasinski (Fauno)<\/p>\n\n\n\n<p>Equipe<br>Marcelo &amp; Paolo (Dire\u00e7\u00e3o)<br>Aloysio Raulino (Fotografia e c\u00e2mera)<br>Mauro Alice (Montagem)<br>Victor Nubla (Trilha sonora original)<br>Ivana Michelazzo (Dire\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o)<br>Marcos Nasci (Figurinos)<br>Luis Carlos Soares (Produ\u00e7\u00e3o executiva)<br>Paolo Gregori, Marcelo Toledo, Murillo Mathias (Roteiro)<\/p>\n\n\n\n<p>Produtora<br>Bambu Filmes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Bela e os P\u00e1ssaros \u00e9 o quinto curta-metragem de Paolo &amp; Marcelo, premiados cineastas paulistas, com estreia marcada para o XII Festival Internacional de Curtas de S\u00e3o Paulo. 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