{"id":606,"date":"2025-06-08T22:36:49","date_gmt":"2025-06-09T01:36:49","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=606"},"modified":"2025-06-08T22:36:50","modified_gmt":"2025-06-09T01:36:50","slug":"a-caverna-de-platao-e-o-cinema-classico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=606","title":{"rendered":"A Caverna de Plat\u00e3o e o Cinema Cl\u00e1ssico"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Cl\u00e1udia Bavagnoli<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Este trabalho aborda a rela\u00e7\u00e3o entre o mito da caverna de Plat\u00e3o e o cinema cl\u00e1ssico americano. S\u00e3o desenvolvidos os seguintes assuntos: o valor do mito em si, a compara\u00e7\u00e3o de seu mecanismo com o do cinema, os m\u00e9todos do cinema cl\u00e1ssico e seu tipo de abordagem, a identifica\u00e7\u00e3o do homem na caverna e do espectador no cinema cl\u00e1ssico, as diverg\u00eancias entre o homem na caverna e no cinema cl\u00e1ssico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O mito da caverna<\/h2>\n\n\n\n<p>No Livro VII de\u00a0<em>A Rep\u00fablica<\/em>, Plat\u00e3o relata o di\u00e1logo de S\u00f3crates e Glauco sobre a condi\u00e7\u00e3o humana em torno da oposi\u00e7\u00e3o instru\u00e7\u00e3o <em>versus<\/em> ignor\u00e2ncia. S\u00f3crates descreve o percurso que o homem deve fazer para, a partir do mundo sens\u00edvel, formado pelas imagens e apar\u00eancias \u2014 c\u00f3pias do mundo das Ideias \u2014, atingir esse segundo \u2014 o mundo intelig\u00edvel, formado pelas Ideias eternas. A ascens\u00e3o \u00e9 obtida por interm\u00e9dio da raz\u00e3o: pela busca de conhecimento, da Justi\u00e7a, da Verdade e do Belo se atinge o Bem, fonte de toda luz.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3crates exp\u00f5e esses pensamentos atrav\u00e9s do mito aleg\u00f3rico da cavernaO comportamento do espectador talvez n\u00e3o pudesse ser diferente. A vida contempor\u00e2nea &#8211; marcada por uma sociedade predominantemente massificada, por trabalho mecanizado, e pelo constante desafio de permanecer no mercado &#8211; necessita de sensa\u00e7\u00f5es e de emo\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am o homem voltar a se sentir humano, deixar o estado &#8220;m\u00e1quina&#8221; e retornar ao estado &#8220;indiv\u00edduo&#8221;. E isso o cinema cl\u00e1ssico realiza com total habilidade: ele acorda o homem para uma vida mundana, mas sens\u00edvel.<br>Contudo, talvez as situa\u00e7\u00f5es comparadas sejam contr\u00e1rias quanto aos fins: na caverna, a luz exterior \u00e9 almejada visando o abandono do mundo sens\u00edvel em prol do intelig\u00edvel; no cinema, a luz interior \u00e9 procurada com o intuito de satisfazer a condi\u00e7\u00e3o humana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s emo\u00e7\u00f5es que nem sempre s\u00e3o sentidas no dia a dia. Mas os mecanismos utilizados s\u00e3o semelhantes e extraem o homem de uma certa ignor\u00e2ncia, confrontando-o com outra realidade.. Num primeiro momento, relata a situa\u00e7\u00e3o na qual o homem se encontra no mundo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Agora imagina a maneira como segue o estado da nossas natureza relativamente \u00e0 instru\u00e7\u00e3o e \u00e0 ignor\u00e2ncia. Imagina homens numa morada subterr\u00e2nea, em forma de caverna, com uma entrada aberta \u00e0 luz; esses homens est\u00e3o a\u00ed desde a inf\u00e2ncia, de pernas e pesco\u00e7o acorrentados, de modo que n\u00e3o podem mexer-se nem ver sen\u00e3o o que est\u00e1 diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabe\u00e7a; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detr\u00e1s deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada est\u00e1 constru\u00eddo um pequeno muro, semelhante \u00e0s divis\u00f3rias que os apresentadores de t\u00edteres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda esp\u00e9cie, que o transp\u00f5em: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda esp\u00e9cie de mat\u00e9ria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em sil\u00eancio.<br><br>E se a parede do fundo da pris\u00e3o provocasse eco, sempre que um dos transportadores falasse, n\u00e3o julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?&#8221; (Plat\u00e3o, 2000, 225-6)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>S\u00f3crates identifica a vida do homem sem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, e portanto ignorante, com a vida do prisioneiro da caverna que acredita e se satisfaz com as sombras, as ilus\u00f5es e apar\u00eancias. Os dois vivem no escuro, conformados com o m\u00ednimo de luz-conhecimento que recebem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A vida na caverna a partir do s\u00e9culo XX<\/h2>\n\n\n\n<p>Pensando o mecanismo ilustrativo utilizado no mito a partir do mundo moderno, pode-se aproxim\u00e1-lo ao mecanismo cinematogr\u00e1fico. Durante o desenvolvimento do cinema, desde 1895 (quando foi oficialmente inaugurado em Paris com os irm\u00e3os Lumi\u00e8re) at\u00e9 a contemporaneidade, diversos pensadores abordam tal aspecto:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>L. Irigary (apud Machado 1997, 31) fala em &#8220;montagem cinematogr\u00e1fica&#8221; a prop\u00f3sito da proje\u00e7\u00e3o de Plat\u00e3o;<\/li>\n\n\n\n<li>Baudry (1991, 395) escreve: &#8220;A disposi\u00e7\u00e3o dos diferentes elementos \u2014 projetor, &#8220;sala escura&#8221;, tela \u2014 al\u00e9m de reproduzir de um modo bastante impressionante a <em>mise-en-sc\u00e8ne<\/em> da caverna&#8230;&#8221;, e em outro discurso: &#8220;o mito da caverna \u00e9 o texto de um significante de desejo que atormenta a inven\u00e7\u00e3o e a hist\u00f3ria do cinema&#8221; (apud Machado 1997, 34);<\/li>\n\n\n\n<li>L. Garcia dos Santos (apud Machado 1997, 31) comenta a &#8220;transforma\u00e7\u00e3o da alegoria da caverna&#8221; &#8220;num grande dispositivo teatral ou cinematogr\u00e1fico&#8221;;<\/li>\n\n\n\n<li>A. Machado (1997, 28) relata que a &#8220;primeira sess\u00e3o de cinema nos moldes que conhecemos hoje, ou seja, numa sala p\u00fablica de proje\u00e7\u00f5es, [&#8230;] teve lugar na imagina\u00e7\u00e3o de Plat\u00e3o [&#8230;] como a &#8220;alegoria da caverna.&#8221;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Analisando cada um desses mecanismos propostos, a identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 evidenciada:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Mito da caverna: a fogueira, localizada numa colina, ilumina as est\u00e1tuas de homens e animais que s\u00e3o transportadas ao decorrer de um muro, projetando apenas as sombras dos objetos na parede de uma caverna escura atrav\u00e9s da \u00fanica abertura \u00e0 luz que possui; a voz dos carregadores ecoa dentro da caverna.<\/li>\n\n\n\n<li>Cinema: o cinemat\u00f3grafo, colocado a certa altura ao fundo da sala escura, atrav\u00e9s da passagem de luz, projeta imagens fict\u00edcias (onde atores interpretam determinados pap\u00e9is) em uma tela localizada na parede oposta; a proje\u00e7\u00e3o pode ser acompanhada por di\u00e1logos entre os atores (cinema falado) ou acompanhado por m\u00fasica condizente com a situa\u00e7\u00e3o (cinema mudo).<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Nos dois mecanismos h\u00e1 uma luz artificial (resultante da manipula\u00e7\u00e3o do meio pelo homem) localizada ao fundo e a determinada altura da cena, projetando, num quarto escuro, imagens de simulacros, acompanhadas por sons.<\/p>\n\n\n\n<p>Os homens que assistem \u00e0s proje\u00e7\u00f5es na caverna e no cinema, os espectadores, tamb\u00e9m possuem comportamento e disposi\u00e7\u00e3o f\u00edsica similares. Para tra\u00e7ar esse paralelo, alguns aspectos do cinema precisam ser considerados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cinema Cl\u00e1ssico Americano<\/h2>\n\n\n\n<p>Por mais de um s\u00e9culo, filmes s\u00e3o realizados em diferentes culturas e com diferentes prop\u00f3sitos. Diversas escolas e g\u00eaneros apareceram durante a hist\u00f3ria do cinema, mas foi o chamado Cinema Cl\u00e1ssico Americano o respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a I Guerra Mundial (1914 &#8211; 1918), a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica europeia foi abalada. Hollywood come\u00e7ava a despontar com seus grandes est\u00fadios e realizadores (Griffith) e, em 1919, chega \u00e0 lideran\u00e7a do mercado mundial. Hollywood, com um novo sistema de produ\u00e7\u00e3o, trabalha os filmes numa escala industrial para serem distribu\u00eddos e exibidos mundialmente: cria o sistema de empr\u00e9stimo de filmes (anteriormente pertenciam a quem os comprasse e os projetasse) e a padroniza\u00e7\u00e3o da pel\u00edcula (35 mm) e dos filmes (cria\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros: f\u00f3rmulas pr\u00f3prias e cultivo de p\u00fablico cativo). Atualmente, a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica americana ocupa um dos primeiros lugares no ranking da economia dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Narrativa cl\u00e1ssica e espectador<\/h2>\n\n\n\n<p>As t\u00e9cnicas da narrativa cinematogr\u00e1fica cl\u00e1ssica s\u00e3o subordinadas \u00e0 clareza, transpar\u00eancia, homogeneidade, linearidade \u2014 t\u00e9cnicas que d\u00e3o ao filme verossimilhan\u00e7a, aproximando o personagem do espectador. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;[&#8230;] o modelo hollywoodiano com suas op\u00e7\u00f5es individualistas (o personagem principal, a estrela), seus objetivos puramente espetaculares e comerciais, seu modo de narrativa alienante (o espectador, arrebatado pelos aspectos pseudol\u00f3gicos e afetivos da narrativa, n\u00e3o tem a possibilidade de refletir ou assumir um distanciamento cr\u00edtico com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vis\u00e3o do mundo que lhe \u00e9 apresentada) [&#8230;].&#8221; (Vanoye e Goliot-L\u00e9t\u00e9, 1994, pp.28-29)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A narrativa cl\u00e1ssica apresenta coer\u00eancia e impacto dram\u00e1tico, fazendo com que o espectador seja capturado pelo filme.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Hollywood inventou uma arte que n\u00e3o observa o princ\u00edpio da composi\u00e7\u00e3o contida em si mesma e que n\u00e3o apenas elimina a dist\u00e2ncia entre o espectador e a obra de arte, mas deliberadamente cria a ilus\u00e3o, no espectador, de que ele est\u00e1 no interior da a\u00e7\u00e3o reproduzida no espa\u00e7o ficcional do filme. (Balaz 1970: 50)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O espectador encontra-se num quarto escuro, isolado do mundo exterior: a \u00fanica presen\u00e7a \u00e9 a audiovisual \u2014 marcada pelo filme e pela resposta dos espectadores a ele atrav\u00e9s de manifesta\u00e7\u00f5es programadas-esperadas. A proje\u00e7\u00e3o subjetiva do espectador no filme possibilita sua identifica\u00e7\u00e3o com o personagem principal. O espa\u00e7o da exibi\u00e7\u00e3o, observa Machado (1997:45), \u00e9 o cen\u00e1rio ideal para a realiza\u00e7\u00e3o artificial de uma regress\u00e3o; o espectador est\u00e1 num estado para-hipn\u00f3tico, determinado pelas condi\u00e7\u00f5es ambientais e pela t\u00e9cnica desse tipo de narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Inserido na a\u00e7\u00e3o do filme, o espectador se realiza. Descarrega o peso do dia a dia, aliviando as pr\u00f3prias paix\u00f5es, atrav\u00e9s das situa\u00e7\u00f5es vividas pelos atores (canalizando seus desejos e frustra\u00e7\u00f5es). Vive um fen\u00f4meno primeiramente enunciado por Arist\u00f3teles em rela\u00e7\u00e3o ao efeito provocado pelas trag\u00e9dias gregas: a catarse, isto \u00e9, &#8220;suscitando o terror e a piedade, chega \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o de tais afetos&#8221; (Arist\u00f3teles, 1449 b). Sai da sess\u00e3o de cinema satisfeito e apaziguado, pronto para retomar sua vida cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Espectador na caverna e no cinema<\/h2>\n\n\n\n<p>O espectador, assim como o prisioneiro acorrentado na caverna de Plat\u00e3o, realiza-se atrav\u00e9s de falsas viv\u00eancias, atrav\u00e9s de proje\u00e7\u00f5es simulacrais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Na caverna de Plat\u00e3o, como na sala de exibi\u00e7\u00e3o, os prisioneiros est\u00e3o imobilizados por uma paralisia imposta (no primeiro caso) ou volunt\u00e1ria (no segundo caso). A esse estado de inibi\u00e7\u00e3o motora se acrescenta outro, de confus\u00e3o intelectual, que os faz tomarem as sombras dos objetos projetados na tela-parede pela pr\u00f3pria &#8220;realidade&#8221;. Em outras palavras, esses fantasmas de luz que atormentam a gruta escura e que constituem os \u00fanicos est\u00edmulos percebidos pelos espectadores durante a proje\u00e7\u00e3o s\u00e3o vividos por estes \u00faltimos com a intensidade de um fato real, como se tivessem exist\u00eancia afetiva&#8221; (Machado 1997: 45).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A condi\u00e7\u00e3o determinada por S\u00f3crates aos acorrentados \u2014 submiss\u00e3o \u00e0 falta de luz, \u00e0 ignor\u00e2ncia \u2014 pode ent\u00e3o ser comparada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o dos espectadores que sublimam seus sentimentos atrav\u00e9s de ilus\u00f5es, de supostas realidades.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Disparidades<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o momento, a rela\u00e7\u00e3o desenvolvida entre os dois espa\u00e7os demonstrou semelhan\u00e7as entre os seus interiores: a espacialidade e o comportamento presente em cada ambiente foi discutido e relacionado, tendo como base a descri\u00e7\u00e3o da caverna no mito aleg\u00f3rico e o advento do cinema cl\u00e1ssico. A similaridade deu-se atrav\u00e9s dos ambientes em si, mas a finalidade pela qual s\u00e3o propostos n\u00e3o foi abordada.<\/p>\n\n\n\n<p>No mito aleg\u00f3rico, o homem aparece involuntariamente aprisionado durante toda sua viv\u00eancia. Ele mant\u00e9m uma postura passiva dentro da caverna escura, \u00e9 prisioneiro e nem sequer tem ci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o. Mas Plat\u00e3o n\u00e3o se limita a essa situa\u00e7\u00e3o: ele liberta um dos prisioneiros e o leva ao mundo iluminado pelo Sol. O homem n\u00e3o consegue, de imediato, encarar tal estrela: primeiro observa as sombras, passa aos reflexos dos objetos na \u00e1gua, aos pr\u00f3prios objetos, aos corpos celestes que iluminam a noite e, por \u00faltimo, consegue olhar o Sol, que governa o mundo sens\u00edvel. Esse caminho que se aprende vagarosamente \u00e9 comparado \u00e0 ascens\u00e3o da alma ao mundo intelig\u00edvel, onde a Ideia do Bem \u00e9 soberana \u2014 que engendrou a luz e o soberano da luz no mundo vis\u00edvel. Essa ascens\u00e3o \u00e9 realizada com o aprendizado das ci\u00eancias; elas preparam o esp\u00edrito para a abstra\u00e7\u00e3o, sendo as Ideias as abstra\u00e7\u00f5es supremas.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00edda da caverna pode ser entendida como um nascimento: \u00e9 a conquista da luz. E a luz nada mais \u00e9 do que a presen\u00e7a do Sol. A sa\u00edda da caverna \u00e9 o ponto de partida para a ascens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O cinema cl\u00e1ssico, por sua vez, j\u00e1 n\u00e3o possui esse fim. Como j\u00e1 foi mencionado, ele leva o espectador \u00e0 sublima\u00e7\u00e3o, \u00e0 catarse. O espectador, ao sair do cinema, n\u00e3o encontra as luzes reveladoras, ele julga t\u00ea-las encontrado durante o filme, do qual sai purificado e apaziguado. A sua vida continua a mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>O retorno \u00e0s trevas tamb\u00e9m diverge nos dois casos. Enquanto o ex-prisioneiro visa libertar os outros homens, para apresentar-lhes a luz do conhecimento, por mais perigoso que possa ser desmascarar aquela realidade, o espectador retorna aos filmes para continuar com o jogo proje\u00e7\u00e3o-identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O comportamento do espectador talvez n\u00e3o pudesse ser diferente. A vida contempor\u00e2nea \u2014 marcada por uma sociedade predominantemente massificada, por trabalho mecanizado e pelo constante desafio de permanecer no mercado \u2014 necessita de sensa\u00e7\u00f5es e de emo\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am o homem voltar a se sentir humano, deixar o estado &#8220;m\u00e1quina&#8221; e retornar ao estado &#8220;indiv\u00edduo&#8221;. E isso o cinema cl\u00e1ssico realiza com total habilidade: ele acorda o homem para uma vida mundana, mas sens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, talvez as situa\u00e7\u00f5es comparadas sejam contr\u00e1rias quanto aos fins: na caverna, a luz exterior \u00e9 almejada visando o abandono do mundo sens\u00edvel em prol do intelig\u00edvel; no cinema, a luz interior \u00e9 procurada com o intuito de satisfazer a condi\u00e7\u00e3o humana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s emo\u00e7\u00f5es que nem sempre s\u00e3o sentidas no dia a dia. Mas os mecanismos utilizados s\u00e3o semelhantes e extraem o homem de uma certa ignor\u00e2ncia, confrontando-o com outra realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><br>ABBAGNANO, Nicola.\u00a0<em>Dicion\u00e1rio de Filosofia<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Alfredo Bosi, S\u00e3o Paulo, Martins Fontes, 2000.<br>ARIST\u00d3TELES.\u00a0<em>Po\u00e9tica<\/em>. 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Tradu\u00e7\u00e3o Enrico Corvisieri, Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores, Nova Cultural, 1987.<br>VANOYE, Francis e GOLIOT- L\u00c9T\u00c9, Anne.\u00a0<em>Ensaio sobre a an\u00e1lise f\u00edlmica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Maria Appenzeller, Campinas, Papirus,1994.<br>XAVIER, Ismail.\u00a0<em>O discurso cinematogr\u00e1fico: a opacidade e a transpar\u00eancia<\/em>. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><br>Claudia Bavagnoli \u00e9 Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica pela PUC-SP.<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cl\u00e1udia Bavagnoli Introdu\u00e7\u00e3o Este trabalho aborda a rela\u00e7\u00e3o entre o mito da caverna de Plat\u00e3o e o cinema cl\u00e1ssico americano. S\u00e3o desenvolvidos os seguintes assuntos: o valor do mito em si, a compara\u00e7\u00e3o de seu mecanismo com o do cinema, os m\u00e9todos do cinema cl\u00e1ssico e seu tipo de abordagem, a identifica\u00e7\u00e3o do homem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-606","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ensaios"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/606","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=606"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/606\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":607,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/606\/revisions\/607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}