{"id":608,"date":"2025-06-08T22:42:12","date_gmt":"2025-06-09T01:42:12","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=608"},"modified":"2025-06-08T22:42:13","modified_gmt":"2025-06-09T01:42:13","slug":"um-dialogo-possivel-entre-cinema-e-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=608","title":{"rendered":"Um di\u00e1logo poss\u00edvel entre cinema e educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00a0Ana Beatriz Iumatti e Laura Battaglia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto aborda algumas quest\u00f5es que a educa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea nos imp\u00f5e, levando em considera\u00e7\u00e3o a import\u00e2ncia que a rela\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos adquire no processo de forma\u00e7\u00e3o de cada um. O artigo foi elaborado a partir de pensamentos sobrevindos aos filmes <em>Ser e Ter<\/em> <em>(\u00catre et Avoir<\/em>, 2002), document\u00e1rio franc\u00eas dirigido por Nicolas Philibert, e <em>Elefante (Elephant, <\/em>2003), filme norte-americano dirigido por Gus van Sant. Publicado originalmente em maio de 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O acaso, fortuito ou n\u00e3o, trouxe simultaneamente ao Brasil dois filmes instigantes para quem trabalha, ou mesmo se interessa, por assuntos de educa\u00e7\u00e3o. Trata-se, primeiro, do document\u00e1rio franc\u00eas <em>Ser e Ter<\/em>, dirigido por Nicolas Philibert, que durante um ano escolar registrou o cotidiano de uma sala de aula do interior da Fran\u00e7a, apreendendo as rela\u00e7\u00f5es entre o professor e seus alunos e destes entre si. \u00c9 uma sala de ensino prim\u00e1rio, mas que comporta tr\u00eas diferentes est\u00e1gios ao mesmo tempo. O segundo filme, <em>Elefante<\/em>, retrata ficcionalmente algumas situa\u00e7\u00f5es cotidianas em um dia escolar num col\u00e9gio no interior dos Estados Unidos em que dois adolescentes provocam um verdadeiro horror, matando 13 alunos e um professor. Trata-se do &#8220;massacre&#8221; de Columbine, ocorrido em 1999, que anteriormente j\u00e1 servira de inspira\u00e7\u00e3o para um filme de Michael Moore, <em>Tiros em Columbine<\/em> (<em>Bowling for Columbine<\/em>, 2002), que retratou o fasc\u00ednio norte- americano por armas de fogo e a facilidade com a qual se tem acesso a elas no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que nos interessa sobre estes dois filmes? Interessa-nos resgatar algumas quest\u00f5es sobre o processo de educa\u00e7\u00e3o, destacando como ponto relevante o fato de que ela se d\u00e1 dentro de um contexto mais amplo que a aquisi\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, pois comporta necessariamente as rela\u00e7\u00f5es entre indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A escola e seu papel social<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A institui\u00e7\u00e3o escolar tem como papel social o ensino, isto \u00e9, a transmiss\u00e3o de conhecimentos, acumulados historicamente e recentes, que fornecem qualifica\u00e7\u00e3o para o trabalho. Mas tamb\u00e9m faz parte de suas fun\u00e7\u00f5es contribuir para a educa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, preparar para a cidadania e participar do desenvolvimento de cada indiv\u00edduo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora isto pare\u00e7a \u00f3bvio, na pr\u00e1tica muitas vezes vemos uma tentativa infrut\u00edfera de que o ensino se d\u00ea \u00e0 revelia das rela\u00e7\u00f5es, com exig\u00eancias de conte\u00fados e comportamentos que, sem levar em considera\u00e7\u00e3o os agentes envolvidos no aprendizado, acabam por excluir o aluno, ou mesmo o professor, deste processo. Se por um lado a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tarefa exclusiva da escola (mas de toda sociedade), ela \u00e9 imprescind\u00edvel para que a transmiss\u00e3o de conte\u00fados seja poss\u00edvel e efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tanto professores quanto alunos, pais de alunos e a sociedade esperam algo da escola. O aluno espera saber, aprender; o professor espera poder transmitir um saber; os pais esperam que a escola contribua com a forma\u00e7\u00e3o de seus filhos; a sociedade espera que suas gera\u00e7\u00f5es futuras possam estar aptas para perpetuar ou melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida. E \u00e9 no entrela\u00e7amento destas quatro posi\u00e7\u00f5es que \u00e9 poss\u00edvel a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O funcionamento da escola<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como qualquer institui\u00e7\u00e3o, a escola desenvolve suas atividades ancorada na dial\u00e9tica entre as rela\u00e7\u00f5es e necessidades individuais e coletivas. Quaisquer que sejam os m\u00e9todos de ensino, as escolas s\u00f3 funcionam amparadas por leis que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias e que norteiam as a\u00e7\u00f5es de todos os seus atores (alunos, professores, funcion\u00e1rios e pais). Compreende-se a\u00ed o pr\u00f3prio m\u00e9todo de ensino, a forma de avalia\u00e7\u00e3o, os comportamentos e rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos, a forma de aceder ao conhecimento, as atividades desenvolvidas, o hor\u00e1rio de funcionamento da escola, entre outros. As regras retratam, enfim, como uma coletividade funciona e como quer que suas rela\u00e7\u00f5es sejam intermediadas e seus impasses resolvidos. S\u00e3o elas tamb\u00e9m que legislam sobre a desigualdade de fun\u00e7\u00f5es, obriga\u00e7\u00f5es e direitos de cada grupo, em que lugares e pap\u00e9is s\u00e3o distintos para cada um.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora as leis contemplem o que rege a din\u00e2mica coletiva, \u00e9 fundamental que cada membro da escola possa ter um espa\u00e7o para express\u00e3o de sua individualidade, tendo tido acesso pr\u00e9vio \u00e0s regras que a comandam. Do lado do professor, a forma como ele ministra cada aula e lida com cada aluno deve lhe ser pr\u00f3pria. Do lado do aluno, esta mesma individualidade est\u00e1 presente no processo de aprendizado: o interesse maior por uma ou outra disciplina, a facilidade ou dificuldade para lidar com os diferentes conte\u00fados e o ritmo de aprendizado s\u00e3o exemplos de que a subjetividade n\u00e3o \u00e9 mera coadjuvante no processo de aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ensinar e aprender: lugares distintos<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os lugares de direitos e deveres de alunos e professores n\u00e3o s\u00e3o os mesmos e, mais do que isto, n\u00e3o podem ser os mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo nas primeiras cenas do filme <em>Ser e Ter<\/em>, a posi\u00e7\u00e3o do professor se faz marcar por sua presen\u00e7a na porta da escola, recebendo os alunos e cumprimentando-os e sendo cumprimentando por cada um. As crian\u00e7as tratam-no invariavelmente por &#8220;senhor&#8221;, como uma esp\u00e9cie de respeito, mas que poder\u00edamos tamb\u00e9m entender como uma simples obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, nas primeiras cenas de <em>Elefante<\/em>, vemos um adolescente que chega \u00e0 escola atrasado (porque antes precisara cuidar de seu pai, completamente b\u00eabado). A consequ\u00eancia \u00e9 que um inspetor, na obriga\u00e7\u00e3o de sua fun\u00e7\u00e3o, chama a aten\u00e7\u00e3o do aluno por causa deste atraso, mas n\u00e3o se ocupa com sua causa. Segue-se uma cena silenciosa em que aluno e inspetor nada dizem. Obriga\u00e7\u00f5es est\u00e3o presentes nas duas situa\u00e7\u00f5es e refletem a maneira como cada um daqueles grupos sociais se organiza. Em qualquer institui\u00e7\u00e3o as regras existem e devem ser cumpridas, em nome da conviv\u00eancia entre os indiv\u00edduos. Isto se d\u00e1 ainda que grupos alheios a uma dada sociedade n\u00e3o se identifiquem com aquela forma de agir e pensar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os lugares dos adultos e das crian\u00e7as no processo de aprendizado n\u00e3o s\u00e3o os mesmos. O professor tem, de sa\u00edda, duas peculiaridades que o distinguem das crian\u00e7as e\/ou adolescentes a quem vai ensinar. Primeiro pressup\u00f5e-se que ele seja um adulto, algu\u00e9m que j\u00e1 passou pelos processos elementares de vida, que deveriam lhe garantir certa autonomia para escolher e agir, arcando com as consequ\u00eancias a\u00ed implicadas. Segundo, como professor, teve uma forma\u00e7\u00e3o que lhe garantiu o conhecimento (de conte\u00fados e formas) para ensinar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor escolheu sua profiss\u00e3o e preparou-se para atuar nesta fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor no filme <em>Ser e Ter<\/em> d\u00e1 seu depoimento sobre a escolha profissional: ele frisa que ser mestre foi fruto de um envolvimento pessoal, profundamente enraizado em sua vida. J\u00e1 na inf\u00e2ncia manifestava vontade de ser professor, ensinando os primos e amigos nas brincadeiras de escolinha. Como filho de imigrante espanhol, agricultor, ser professor representava, para ele e para a fam\u00edlia, uma ascens\u00e3o social. A dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 sua &#8220;voca\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o se fez de um momento a outro, mas foi constru\u00edda desde a inf\u00e2ncia, visando sustentar um trabalho bem sucedido. Antes de ser uma escolha profissional, foi uma escolha de sujeito, marcado por uma hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em contraponto, a crian\u00e7a \u2014 e mesmo o adolescente \u2014 est\u00e3o em processo de forma\u00e7\u00e3o. Ainda que eles tenham, desde a mais tenra inf\u00e2ncia, vontades e poder de escolha, n\u00e3o t\u00eam poder de decis\u00e3o; s\u00e3o limitados pela idade, pela depend\u00eancia a outros e pelo desenvolvimento ainda em curso. Uma crian\u00e7a pode, por exemplo, escolher com qual jogo quer brincar e pode fantasiar situa\u00e7\u00f5es adultas atrav\u00e9s da brincadeira, simulando ser m\u00e3e de um beb\u00ea ou dirigir um caminh\u00e3o. Mas ela n\u00e3o pode ainda ter dimens\u00e3o do ato e da consequ\u00eancia de ter um filho, ou de rumar estrada afora na boleia de um caminh\u00e3o. A pouca dimens\u00e3o consequente do meio social mais amplo a que pertence (al\u00e9m daquele familiar e imediato) \u2014 algo que s\u00f3 o tempo de vida lhe aprimorar\u00e1 \u2014, al\u00e9m da imaturidade neuro-fisiol\u00f3gica, s\u00e3o os fatores limitantes para que possa decidir por sua vida. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por esta imaturidade que os pequenos est\u00e3o submetidos ao mundo dos adultos, ao qual almejam atingir. Uma crian\u00e7a que, por exemplo, por algum motivo tenha dificuldades de relacionamento ou desempenho numa determinada escola, pode (e deve) manifestar suas prefer\u00eancias e eventualmente ser trocada de institui\u00e7\u00e3o, mas ela n\u00e3o ter\u00e1 o poder de decidir se vai ou n\u00e3o estudar: nesta ou naquela escola, ela ter\u00e1 que se submeter a determina\u00e7\u00f5es externas, sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As crian\u00e7as desconhecem muitos dos conte\u00fados do mundo mais amplo e n\u00e3o t\u00eam poder legal para algumas decis\u00f5es. Mas esta imaturidade n\u00e3o pode ser confundida pelo adulto como uma incapacidade. Pelo contr\u00e1rio, o que a crian\u00e7a tem de mais precioso \u2014 e que muitas vezes \u00e9 negligenciado pelos adultos \u2014 \u00e9 a curiosidade por saber mais sobre este mundo que desconhece, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de ser um sujeito desejante e por isto ser capaz de atuar e construir conhecimento a respeito do mundo. Estas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o aquelas que lhe permitem ter vontade de aprender e se posicionar ativamente diante do que aprende.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos, ent\u00e3o, de um lado os que t\u00eam os conte\u00fados e a vontade de ensinar, e de outro os que n\u00e3o sabem e querem aprender (isto soa a um ensino ortodoxo e tradicional do s\u00e9culo XIX \u2014 e poderia ser, se n\u00e3o acrescent\u00e1ssemos a\u00ed uma quest\u00e3o fundamental, que \u00e9 a subjetividade daqueles que est\u00e3o envolvidos). O professor, para ensinar efetivamente, precisa reconhecer no aluno este desejo de aprender e precisa antecipar suas capacidades de aprender, mesmo que elas ainda n\u00e3o sejam evidentes \u2014 veremos isto mais adiante. \u00c9 a subjetividade que sustenta o desejo por aprender e por ensinar. Subjetividade que significa particularidade, isto \u00e9, o lugar que cada um ocupa na sociedade porque tem uma fun\u00e7\u00e3o social, uma hist\u00f3ria de vida particular, um desejo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio. Desigualdade n\u00e3o quer dizer ser mais ou menos, valer mais ou menos; ela simplesmente significa que cada um est\u00e1 em um lugar diferente e a partir da\u00ed pode se posicionar e se relacionar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O lugar do professor e do aluno<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A desigualdade \u00e9 fundamental, porque subjetivamente a crian\u00e7a precisa reconhecer na a\u00e7\u00e3o do professor o desejo que ele tem de ensinar, para que possa identificar-se com ele e querer aprender. Neste movimento de identifica\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a se descobre desejante de conhecer o que o outro sabe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No filme <em>Ser e Ter <\/em>aparece o seguinte di\u00e1logo, aproximado:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Aluno<\/strong>: O professor d\u00e1 ordens e n\u00f3s devemos obedecer.<br><strong>Professor<\/strong>: Eu dou ordens e voc\u00eas obedecem, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<br><strong>Aluno:<\/strong> Quando eu crescer quero dar ordens como o senhor.<br><strong>Professor:<\/strong> Quando voc\u00eas crescerem poder\u00e3o dar ordens para seus filhos, poder\u00e3o se tornar professores. O que voc\u00eas querem ser quando crescer?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que podemos pensar deste di\u00e1logo? Pensemos em algumas obje\u00e7\u00f5es: quem garante que este professor \u00e9 o modelo ideal para uma crian\u00e7a? N\u00e3o ser\u00e1 autorit\u00e1rio da parte dele que se ponha como este modelo ideal?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, ele n\u00e3o \u00e9 o modelo ideal para aquelas crian\u00e7as, porque ningu\u00e9m seria este modelo ideal, se pensarmos nos conte\u00fados que ele porta consigo! Sim, \u00e9 autorit\u00e1rio se colocar neste lugar pois \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o subjetiva de um adulto diante de uma crian\u00e7a. Mas n\u00e3o encerremos a an\u00e1lise a\u00ed. Existe neste di\u00e1logo duas fun\u00e7\u00f5es importantes e mesmo fundamentais para a rela\u00e7\u00e3o de aprendizado. A fun\u00e7\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o opera uma l\u00f3gica em que de um lado a crian\u00e7a quer ser algu\u00e9m \u2014 n\u00e3o importa o qu\u00ea \u2014; de outro, existe um adulto que lhe antecipa a capacidade de ser algu\u00e9m ou algo \u2014 tamb\u00e9m n\u00e3o importa o qu\u00ea. Nesta l\u00f3gica, o que importa \u00e9 a atribui\u00e7\u00e3o de lugares e capacidades, \u00e9 a abertura para um porvir e n\u00e3o o conte\u00fado, j\u00e1 que este pode ser transformado, trocado por outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fun\u00e7\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para despertar na crian\u00e7a o desejo de querer ser ou tornar-se algo futuramente. O modelo ideal n\u00e3o \u00e9 o professor-conte\u00fado, mas o lugar que ele ocupa como algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Querer ser abre espa\u00e7o para querer saber. Do contr\u00e1rio, se estes lugares n\u00e3o s\u00e3o marcados desta forma, se estes desejos n\u00e3o se colocam, o professor n\u00e3o reconhece na crian\u00e7a algu\u00e9m \u00e1vido por saber e esta n\u00e3o reconhece em seu professor um mestre que lhe assegure o lugar de aprendiz.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A constru\u00e7\u00e3o dos lugares<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os lugares n\u00e3o est\u00e3o dados de sa\u00edda. S\u00e3o rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem a partir da posi\u00e7\u00e3o que o professor adota diante do aluno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que fazemos com a frase mais do que difundida &#8220;o professor tamb\u00e9m deve aprender com o aluno&#8221;? Significa que ele deve ser como o aluno? Em que medida s\u00e3o iguais? O professor aprender com o aluno deve ser uma consequ\u00eancia e n\u00e3o o ponto de partida! Uma crian\u00e7a s\u00f3 tem algo a ensinar quando, primeiro, nela se reconhece uma possibilidade de aprender, de agir, anterior \u00e0 sua demonstra\u00e7\u00e3o de aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimento. Guardemos esta pergunta para respond\u00ea-la mais adiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tomemos uma situa\u00e7\u00e3o por exemplo \u2014 um beb\u00ea que ainda n\u00e3o anda. Qualquer pediatra responde \u00e0 pergunta dos pais sobre a idade adequada para que ele ande, com evasivas do tipo: cada um anda em um tempo. N\u00e3o depende, portanto s\u00f3 de uma matura\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, sen\u00e3o de algo mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este mesmo beb\u00ea que nunca andou um dia se p\u00f5e de p\u00e9, segurando-se num sof\u00e1 ou na perna de algu\u00e9m. Ele pode ter \u00e0 sua volta algumas manifesta\u00e7\u00f5es que lhe ser\u00e3o consequentes: os adultos podem ficar indiferentes \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o e a\u00ed pouco importa o que ele faz; os adultos podem entrar em p\u00e2nico e dizer &#8220;meu Deus, cuidado! Ele vai cair e se machucar!&#8221;, e a\u00ed a crian\u00e7a desiste da sua pequena conquista e se arrasta de gatinhas por mais uns meses; por fim, ela pode ter, destes adultos, a aposta de que ela pode ir al\u00e9m. Neste momento um olhar, um chamado, antecipa sua conquista e diz &#8220;vai!&#8221; e a crian\u00e7a anda, mesmo que depois de dois passos se veja novamente estatelada no ch\u00e3o. A partir deste chamado desejante do outro \u2014 de que a crian\u00e7a \u00e9 capaz de realizar coisas que ainda n\u00e3o conhece \u2014 que a crian\u00e7a passa, ela pr\u00f3pria, a desejar aquilo que o outro deseja. Pelo reconhecimento antecipat\u00f3rio de sua capacidade, vindo do outro, ela realiza as suas compet\u00eancias que at\u00e9 ent\u00e3o eram s\u00f3 possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 deste desejo, desta aposta, que se trata na rela\u00e7\u00e3o ensino-aprendizagem. \u00c9 o professor quem porta o fio invis\u00edvel do desejo que o outro saiba e que sustenta a transforma\u00e7\u00e3o das possibilidades da crian\u00e7a em capacidades. O professor aprende com o aluno quando este o surpreende atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de um conte\u00fado, de uma estrat\u00e9gia que n\u00e3o era esperada. Mas ele aprende tamb\u00e9m quando pode perceber no aluno a manifesta\u00e7\u00e3o de sua subjetividade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A fun\u00e7\u00e3o do professor: limite t\u00eanue entre presen\u00e7a e aus\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tomemos mais um exemplo do filme <em>Ser e Ter<\/em>. Num determinado momento, uma crian\u00e7a de pr\u00e9-prim\u00e1rio pergunta (quase afirmando) ao professor se \u00e9 poss\u00edvel &#8220;contar (n\u00fameros) sem parar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor, atento a esta indaga\u00e7\u00e3o, instiga a crian\u00e7a e demonstrar o que sabe (no caso, contar umas poucas dezenas de n\u00fameros) e em seguida desafia-o, auxiliando-o, a prosseguir na contagem, at\u00e9 que este consegue chegar a um bilh\u00e3o! No in\u00edcio a crian\u00e7a fica maravilhada de descobrir que \u00e9 poss\u00edvel ir al\u00e9m do que sabe e chega a associar a contagem dos n\u00fameros \u00e0 contagem das notas de dinheiro. Ele vai al\u00e9m no conhecimento dos n\u00fameros, mas vai al\u00e9m tamb\u00e9m no emprego dado a estes n\u00fameros. Cumpriu-se a\u00ed a fun\u00e7\u00e3o do professor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, para olhares atentos, a cena do filme revela mais uma situa\u00e7\u00e3o: uma vez que a crian\u00e7a atingiu seu objetivo de entender algo mais de seu mundo, ela est\u00e1 momentaneamente saciada de saber. Mas o professor, \u00e0 revelia do aluno e tamb\u00e9m maravilhado com seus progressos, insiste na sua &#8220;fun\u00e7\u00e3o de professor&#8221; at\u00e9 o limite, em que a crian\u00e7a lhe d\u00e1 v\u00e1rias dicas de que esta fun\u00e7\u00e3o j\u00e1 se cumpriu. Primeiro, diante da insist\u00eancia, o aluno lhe diz que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel contar \u2014 este &#8220;n\u00e3o&#8221; revela que ele j\u00e1 sabe que pode contar, mas que n\u00e3o quer mais seguir naquele jogo \u2014, mas o professor ignora seu alerta e insiste. A\u00ed a crian\u00e7a denuncia ao professor que ele n\u00e3o est\u00e1 atento aos outros alunos (enquanto insiste em massacr\u00e1-lo com suas mesmas perguntas) e que estes iniciaram uma briga num outro canto da sala. Neste momento o professor perdeu sua fun\u00e7\u00e3o, garantida no ato inicial, e o aluno tentou &#8220;ensinar-lhe&#8221; algo: muitas vezes o professor n\u00e3o pode ir al\u00e9m do que uma crian\u00e7a aguenta, e este mesmo professor deve se dedicar a um determinado aluno quando ele necessita sua ajuda, mas tamb\u00e9m deve estar atento ao conjunto da classe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um momento em que a fun\u00e7\u00e3o do professor \u00e9 fundamental e h\u00e1 um outro momento em que a crian\u00e7a precisa ser deixada s\u00f3 com seus pensamentos para que possa se apropriar deles, formular suas hip\u00f3teses e avan\u00e7ar no conhecimento. A fun\u00e7\u00e3o do professor se faz, portanto, na sua presen\u00e7a inicial e na sua aus\u00eancia posterior. A este tempo de elabora\u00e7\u00e3o o professor deve estar sempre atento. Ele pode ter uma vis\u00e3o correta do aluno e de seu processo de aprendizado, mas precisa permitir que este mesmo aluno, a seu tempo, assimile os conte\u00fados aprendidos. A passagem de uma situa\u00e7\u00e3o a outra \u00e9 sutil, mas fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta mesma linha, vemos a adequa\u00e7\u00e3o deste mesmo professor quando chama a m\u00e3e de uma aluna para lhe falar das dificuldades de aprendizado da filha. Escuta atentamente esta m\u00e3e e, junto com ela, estabelece rela\u00e7\u00f5es hipot\u00e9ticas entre as dificuldades do processo de aprendizado e a hist\u00f3ria familiar. Neste momento ele cumpre uma fun\u00e7\u00e3o importante, que \u00e9 de escutar a fam\u00edlia (que conhece a crian\u00e7a) e de dizer que h\u00e1 uma dificuldade da aluna em aprender, e que esta dificuldade vai al\u00e9m do \u00e2mbito escolar. Ele, portanto, se faz presente e d\u00e1 abertura para que m\u00e3e e filha pensem e elaborem quais seriam estas dificuldades. No entanto, no af\u00e3 de responder \u00e0 dificuldade da crian\u00e7a, que recai sobre ele no dia a dia da escola, ele formula uma hip\u00f3tese para estas dificuldades \u2014 que \u00e9 sua e n\u00e3o da crian\u00e7a \u2014 e imp\u00f5e este &#8220;saber&#8221; \u00e0 aluna. Ele continua se fazendo presente, quando deveria, neste momento, estar ausente. Da mesma forma que no exemplo anterior, vemos no olhar da menina e no seu mutismo que o que o professor lhe diz como motivo de suas dificuldades n\u00e3o tem o menor sentido. A insist\u00eancia do professor acentua o comportamento de esquiva da aluna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas duas situa\u00e7\u00f5es h\u00e1 um acerto: o professor identifica a vontade de aprender do aluno e a dificuldade de aprender da outra aluna. Mas h\u00e1 um erro: ultrapassa os limites, tentando impor sua subjetividade ao outro, sua leitura do mundo, e assim interrompe seu papel de ajudar a crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Querer saber demais sobre o outro \u00e9 impor-se autoritariamente, \u00e9 querer atribuir sua pr\u00f3pria subjetividade ao outro. Da mesma forma, n\u00e3o querer saber nada sobre o outro tamb\u00e9m se revela inapropriado: \u00e9 n\u00e3o atribuir ali, a presen\u00e7a de um sujeito. No filme <em>Elefante<\/em> vemos esta segunda situa\u00e7\u00e3o retratada em uma aluna que n\u00e3o cumpre a norma de usar o uniforme nas aulas de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. A professora n\u00e3o percebe, ou ignora, que ali h\u00e1 uma quest\u00e3o que perturba a aluna e, ao inv\u00e9s de falar-lhe com calma, em particular, ela d\u00e1 por resolvida a quest\u00e3o quando &#8220;comunica&#8221; \u00e0 garota que aquela situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode continuar. Faz isto numa troca de aulas, no meio do corredor. Este n\u00e3o querer saber nada, n\u00e3o falar nada que diga respeito ao aluno, deixa-o entregue \u00e0s suas pr\u00f3prias dificuldades, sem ajuda alguma.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A quest\u00e3o da agress\u00e3o e seus poss\u00edveis desenlaces<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra tem valor, desde que seguida de uma a\u00e7\u00e3o coerente que a confirme. A exig\u00eancia de respeito tem que ter m\u00e3o dupla pois, ainda que os lugares de cada um sejam diferentes, o respeito de um a outro deve ser o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 este respeito tamb\u00e9m que garante a responsabiliza\u00e7\u00e3o do aluno por seus atos e a apropria\u00e7\u00e3o da regra. No filme <em>Ser e Ter<\/em> temos mais um exemplo sobre isto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor ensina a mat\u00e9ria aos mais velhos, enquanto os pequenos colorem um desenho. Jojo est\u00e1 distra\u00eddo e n\u00e3o consegue terminar sua tarefa, interrompendo-a v\u00e1rias vezes. Ele olha ao redor, boceja e deixa cair coisas no ch\u00e3o. O professor, atento a isto, pergunta como anda seu desenho e lembra-o de que se ele n\u00e3o concluir a tarefa antes do recreio dever\u00e1 ficar em sala de aula at\u00e9 termin\u00e1-la. Quando chega a hora do recreio, Jojo sai da sala com os outros, mesmo sem haver terminado sua tarefa. O professor o chama e retoma com ele seu compromisso com sua tarefa na escola. Nesta cena desenvolve-se (aproximadamente) um di\u00e1logo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Professor<\/strong>: Por que vem \u00e0 escola?<br><strong>Aluno: <\/strong>Para brincar.<br><strong>Professor<\/strong>: Para que mais?<br><strong>Aluno:<\/strong> Para trabalhar, para escutar o professor.<br><strong>Professor: <\/strong>Para que voc\u00ea est\u00e1 aprendendo o seis?<br><strong>Aluno<\/strong>: Para aprender a contar, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<br><strong>Professor: <\/strong>Voc\u00ea sabe contar at\u00e9 quanto?<br><strong>Aluno:<\/strong> At\u00e9 seis.<br><strong>Professor:<\/strong> E depois do seis vem o qu\u00ea?<br><strong>Aluno:<\/strong> O oito. N\u00e3o, o sete. (&#8230;)<br><strong>Professor:<\/strong> Voc\u00ea terminou o desenho?<br><strong>Aluno<\/strong>: (depois de alguma relut\u00e2ncia) N\u00e3o.<br><strong>Professor<\/strong>: Quando voc\u00ea vai terminar o desenho?<br><strong>Aluno:<\/strong> Depois.<br><strong>Professor<\/strong>: Depois quando?<br><strong>Aluno<\/strong>: Amanh\u00e3.<br><strong>Professor:<\/strong> Mas voc\u00ea est\u00e1 aqui hoje. Amanh\u00e3 n\u00e3o pode ser. Voc\u00ea prometeu que terminaria sua tarefa. Lembra disto?<br><strong>Aluno:<\/strong> Sim.<br><strong>Professor:<\/strong> Ent\u00e3o deve cumprir sua tarefa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o professor tivesse se poupado de todo di\u00e1logo e simplesmente exigido o cumprimento da regra, continuaria no seu papel de professor. Quando ele d\u00e1 espa\u00e7o para falar e escutar sobre o descumprimento das ordens, ele indica que h\u00e1 uma postura de compromisso perante elas e permite, eventualmente, a subjetiva\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o destas regras. A regra ajuda a organizar as a\u00e7\u00f5es. \u00c9 a partir de um compromisso firmado consigo mesmo que a crian\u00e7a poder\u00e1 estender este compromisso a outras situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra situa\u00e7\u00e3o de <em>Ser e Ter<\/em> se d\u00e1 quando Olivier e Julien, alunos mais velhos, brigam durante o recreio. Eles estavam brincando de pegador e Olivier foi pego por Julien e outros alunos. Olivier fica com muita raiva e a descarrega batendo nos menores. Em seguida, volta-se para Julien e atraca-se com ele. O professor chama os dois para conversar e esclarecer aquela situa\u00e7\u00e3o, que precisar\u00e1 ser resolvida. Coloca que a rivalidade entre os dois vem acontecendo j\u00e1 h\u00e1 algum tempo e pergunta a Olivier o que tem em Julien que o incomoda tanto. Olivier responde que ele frequentemente o xinga. O professor ent\u00e3o coloca para Julien que ele acabou por magoar Olivier com suas palavras. Coloca tamb\u00e9m para Olivier que ele n\u00e3o deveria ter batido nos menores, uma vez que eles n\u00e3o tinham nada a ver com aquela situa\u00e7\u00e3o. Convoca os dois para pensarem no exemplo que estar\u00e3o dando aos menores ao resolverem suas dificuldades agredindo um ao outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem v\u00e1rias nuances implicadas nesta situa\u00e7\u00e3o. Primeiro, poder\u00edamos pensar na quest\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o: \u00e9 por reconhecer a import\u00e2ncia da fun\u00e7\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o (que n\u00e3o est\u00e1 presente s\u00f3 na rela\u00e7\u00e3o do professor com o aluno, como j\u00e1 citado acima) que o professor teme que os menores poderiam se espelhar nos alunos maiores e tomar a situa\u00e7\u00e3o de deslocamento da agress\u00e3o como modelo. Isto geraria uma s\u00e9rie de conflitos subsequentes e sem controle. Esta atitude do professor, de prote\u00e7\u00e3o dos outros alunos que n\u00e3o est\u00e3o diretamente envolvidos na briga, indica que ele sabe quais poderiam ser as consequ\u00eancias de um ato violento sem fala que o signifique. A escolha da via de resolu\u00e7\u00e3o pela conversa e pelo esclarecimento d\u00e1 a possibilidade que cada sujeito se coloque e possa refletir sobre sua posi\u00e7\u00e3o e a do outro. \u00c9 s\u00f3 pelo reconhecimento da sua individualidade e da do outro que as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis. De outra forma, o que temos \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do que tem mais poder sobre os demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 no filme <em>Elefante<\/em>, presenciamos uma cena em que um aluno \u00e9 agredido pelos demais em sala de aula. O professor que explicava sua mat\u00e9ria na lousa n\u00e3o v\u00ea, ou ignora, o que se passa ali, bem debaixo de seus olhos. \u00c9 justamente este aluno que horas mais tarde comete o massacre, atirando em seus colegas e professores. Se isto se passou na realidade ou se simplesmente foi um recurso do diretor para justificar o ato do aluno, pouco importa. O que importa \u00e9 que nesta cena ilustra-se um fato que percebemos em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es: quando um ato n\u00e3o \u00e9 seguido de palavras que o signifiquem, simbolizem e d\u00eaem limites \u00e0 a\u00e7\u00e3o desrespeitosa com o outro, este ato tende a se repetir, agora de forma mais intensa. Palavras substituem atos \u2014 e isto n\u00e3o \u00e9 simplesmente um dito popular. No pr\u00f3prio exemplo de Julien e Olivier, as agress\u00f5es j\u00e1 vinham se arrastando e se intensificando, at\u00e9 o momento em que se tornaram limites da rela\u00e7\u00e3o entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 no intuito de desfazer este rompimento de rela\u00e7\u00e3o que o professor nomeia e os faz nomear tudo o que se passou. Atos isolados e n\u00e3o compreendidos caem no vazio de significa\u00e7\u00e3o, mas nem por isto deixam se de fazer presentes. \u00c9 desta falta de significa\u00e7\u00e3o que decorrem as a\u00e7\u00f5es violentas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme <em>Elefante<\/em> retrata isto magistralmente, porque o sil\u00eancio e a solid\u00e3o de cada um dos atores impera, nos deixando at\u00f4nitos. O sentido de cada a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se articula \u00e0s demais, evitando que se possa prever as causas e as consequ\u00eancias de rea\u00e7\u00f5es t\u00e3o violentas. Cada um permanece no seu mundo, perdendo uma das caracter\u00edsticas mais importantes do ser humano: a rela\u00e7\u00e3o com outros que permite que cada subjetividade se coloque.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se partirmos do pressuposto de que a educa\u00e7\u00e3o engloba a rela\u00e7\u00e3o entre pessoas podemos, no filme <em>Ser e Ter<\/em>, localizar claramente o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es a partir das quais se desenvolve todo processo de ensino e aprendizagem. Ele n\u00e3o se d\u00e1 apenas para garantir a transmiss\u00e3o de conte\u00fados, mas tamb\u00e9m para dimensionar e atribuir significados para as a\u00e7\u00f5es daqueles ali envolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No filme <em>Elefante<\/em>, o que se percebe \u00e9 aus\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es. Toda rela\u00e7\u00e3o envolve a presen\u00e7a de palavras efetivas e neste filme h\u00e1 sil\u00eancio. Percebe-se a presen\u00e7a das regras institucionais, mas n\u00e3o dos indiv\u00edduos como seres de di\u00e1logo. Faltam as palavras para relacionar, dimensionar e dar significados \u00e0s a\u00e7\u00f5es protagonizadas por seus personagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certamente, a a\u00e7\u00e3o que culminou no exterm\u00ednio de 13 alunos e um professor n\u00e3o aconteceu ao acaso. Isto que chamamos de &#8220;acaso&#8221; nos questiona porque ele irrompe como um torvelinho que revolve a aparente calmaria e devasta as edifica\u00e7\u00f5es mais s\u00f3lidas. A partir dele \u00e9 preciso (re)questionar, desde o come\u00e7o, quais s\u00e3o as implica\u00e7\u00f5es de cada um. A\u00e7\u00f5es violentas s\u00e3o precedidas de pistas, atitudes e pensamentos que no filme, hipoteticamente, aparecem no fasc\u00ednio dos dois adolescentes pelos jogos de videogame e na obsess\u00e3o em torno da quest\u00e3o das armas (sem contar numa breve alus\u00e3o a Hitler e ao homossexualismo). Deve-se culpar, por\u00e9m, a ind\u00fastria do videogame e do acesso \u00e0s armas pela atitude dos meninos? N\u00e3o que estas quest\u00f5es n\u00e3o devam ser pensadas, mas elas, isoladamente, n\u00e3o as respondem, porque se assim fosse, como explicar\u00edamos os tantos milhares de jovens que t\u00eam acesso \u00e0s mesmas coisas e que, nem por isto, praticam tal ato? Nenhuma a\u00e7\u00e3o est\u00e1 dissociada de um significado e da subjetividade da pessoa que a pratica. No entanto, quando esta mesma pessoa, crian\u00e7a ou adolescente, n\u00e3o consegue extrair de suas rela\u00e7\u00f5es significados que a fa\u00e7am repensar suas atitudes e posi\u00e7\u00f5es subjetivas, resta o ato. Um ato que aparece como aterrador porque revela uma assustadora aus\u00eancia de sentido e rela\u00e7\u00e3o. E o Homem \u00e9 um ser de sentidos e rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A educa\u00e7\u00e3o tem por uma de suas bases a rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos. Fazem parte da forma como o Homem se relaciona tanto a solidariedade quanto a agress\u00e3o. Mas nem um nem outro podem, em ato, ser tomados como absolutos em si, pois aniquilam a rela\u00e7\u00e3o: qualquer excesso por parte um indiv\u00edduo significa que ele \u00e9 s\u00f3 presen\u00e7a, enquanto seu poss\u00edvel interlocutor \u00e9 s\u00f3 aus\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Biografia<\/strong><br>Ana Beatriz Iumatti \u00e9 psic\u00f3loga pela PUC e colaboradora da Rede SACI.<br>Laura Battaglia \u00e9 psic\u00f3loga educacional e cl\u00ednica e mestre em psicologia pela USP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Ana Beatriz Iumatti e Laura Battaglia Este texto aborda algumas quest\u00f5es que a educa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea nos imp\u00f5e, levando em considera\u00e7\u00e3o a import\u00e2ncia que a rela\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos adquire no processo de forma\u00e7\u00e3o de cada um. 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