{"id":612,"date":"2025-06-08T21:58:26","date_gmt":"2025-06-09T00:58:26","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=612"},"modified":"2025-06-08T21:58:27","modified_gmt":"2025-06-09T00:58:27","slug":"pai-contra-filho-e-vice-versa-cinema-novo-x-cinema-marginal-diversidade-e-divergencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=612","title":{"rendered":"Pai contra filho (e vice-versa) | Cinema Novo X Cinema Marginal: diversidade e diverg\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Jo\u00e3o Carlos Rodrigues<br>Publicado originalmente em 13 de setembro de 2004<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A \u00e2nsia de destruir<br>Tamb\u00e9m pode ser<br>Uma for\u00e7a construtiva.<br>(Bakunin)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mais de uma ocasi\u00e3o, Glauber Rocha referiu-se ao Cinema Marginal como &#8220;bastardo&#8221; ou &#8220;aborto&#8221; do Cinema Novo. Tanto um quanto o outro s\u00e3o indubitavelmente filhos do pai, quer este os reconhe\u00e7a ou n\u00e3o&#8230; E com direito a teste de DNA, heran\u00e7a, e tudo mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diz a lenda que o grande diretor (ou pessoa a ele chegada) teria, junto aos organizadores dos grandes festivais europeus, acusado esses filhos rejeitados de fazer um cinema indesej\u00e1vel diante das possibilidades revolucion\u00e1rias da Am\u00e9rica Latina. O alvo seria <em>O Anjo Nasceu,<\/em> de seu ex-assistente J\u00falio Bressane, que seria &#8220;inspirado&#8221; no ent\u00e3o in\u00e9dito glauberiano <em>C\u00e2ncer<\/em> por abordar dois marginais, um branco e um negro. Hoje, ao assistir aos dois filmes, vemos que se assemelham tanto quanto um ovo e um espeto. Tamb\u00e9m com Sganzerla havia um estranhamento, por motivos pessoais, que explodiu numa entrevista n&#8217;O Pasquim onde este desancou <em>O Drag\u00e3o da Maldade Contra o Santo Guerreiro<\/em>, rec\u00e9m-premiado em Cannes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio de um n\u00famero crescente de cr\u00edticos e pesquisadores, muitos deles ilustr\u00edssimos, que real\u00e7am a identidade entre os dois movimentos, vou preferir frisar os tra\u00e7os de diverg\u00eancia entre o cinema do pai e do filho. Acredito assim estar melhor contribuindo para o debate, com ideias mais pr\u00f3ximas da radicalidade compuls\u00f3ria da \u00e9poca em que esses filmes foram feitos. Tendo vivido o final da minha adolesc\u00eancia exatamente na virada dos anos 60 para 70, estarei assim tamb\u00e9m sendo mais fiel a mim mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das coisas que primeiro me vem \u00e0 cabe\u00e7a s\u00e3o as influ\u00eancias (cinematogr\u00e1ficas, liter\u00e1rias, musicais, teatrais e mesmo pol\u00edticas) que originaram o movimento do Cinema Novo e sua dissid\u00eancia Marginal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A linguagem cinemanovista buscava construir um mundo novo atrav\u00e9s da pol\u00edtica, vindo a reboque (mas n\u00e3o totalmente) a quest\u00e3o est\u00e9tica. Foi portanto encontrar suas principais fontes em cineastas engajados como Luchino Visconti, Luiz Bu\u00f1uel e Akira Kurosawa \u2014 mestres incontest\u00e1veis de uma escrita clara e direta que beira o classicismo. Outros diretores foram importantes como inspira\u00e7\u00e3o de autores espec\u00edficos e semi-marginais ao movimento: Roberto Rosselini e o humanismo cat\u00f3lico de Paulo C\u00e9sar Saraceni; o cotidiano nonchalant de Truffaut e os &#8220;pequenos filmes&#8221; de David Neves e Domingos de Oliveira. No que compete \u00e0 literatura, m\u00fasica e artes pl\u00e1sticas, a maioria estava bem pr\u00f3xima de Jorge Amado, Graciliano Ramos, Villa-Lobos, Portinari \u2014 ou seja, da arte brasileira nacionalista e regional que vicejou nos anos 40 e 50, destruindo toda a tradi\u00e7\u00e3o cosmopolita do Rio de Janeiro, t\u00e3o bem expressa pelo intimismo de Machado de Assis, o bovarismo de Lima Barreto, a ironia de Jo\u00e3o do Rio, a sofistica\u00e7\u00e3o de Pixinguinha etc e tal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu projeto pol\u00edtico julgava-se marxista de esquerda. Digo julgava-se por ser tamb\u00e9m nacionalista, portanto paradoxal, j\u00e1 que a esquerda aut\u00eantica n\u00e3o pode nem deve ser nacionalista, mas internacionalista (ali\u00e1s, seu hino era a Internacional, que se propunha a substituir todos os hinos nacionais, fossem eles quais fossem). \u00c9 portanto sintom\u00e1tica a contradi\u00e7\u00e3o existente nos seus cineastas mais claramente politizados. Querendo sinceramente a democracia, foram procur\u00e1-la em fontes anti-democr\u00e1ticas como o getulismo, o prestismo, o castrismo e at\u00e9 mesmo o dirigismo stalinista. Como sabemos, por vezes os extremos se tocam. Ser\u00e1 por mero acaso que o filme mais importante do movimento (<em>Deus e o Diabo na Terra do Sol<\/em>) deva seu nome ao livro de um soci\u00f3logo da extrema direita nacionalista: <em>Terra de Sol<\/em>, de Gustavo Barroso? Ou que o CN tenha se infiltrado, no final dos anos 70, no aparelho estatal da ditadura militar durante o governo Geisel \u2014 o \u00fanico dos nossos generais presidentes que tinha um projeto coerente de administra\u00e7\u00e3o nacional-popular (o tal socialismo de direita)?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As origens dos diretores do Ciclo Marginal s\u00e3o bem diferentes. Embora todos politicamente progressistas, suas preocupa\u00e7\u00f5es principais sempre foram a subvers\u00e3o da linguagem cinematogr\u00e1fica e um amor pelo cinema que ultrapassou o ativismo pol\u00edtico direto. Afinal surgiram j\u00e1 durante os governos militares, ao contr\u00e1rio dos cinemanovistas, formados no per\u00edodo democr\u00e1tico de Juscelino. Suas influ\u00eancias mais \u00f3bvias me parecem ser o Godard de <em>Pierrot Le Fou<\/em>, <em>A Chinesa<\/em> e <em>Week-end<\/em>; os neo-expressionistas americanos (Welles, Fuller, Aldrich, Kubrick); e o deboche das chanchadas (da\u00ed o humor, ausente por completo nos filmes do Cinema Novo anteriores a Macuna\u00edma). Mais a literatura de Oswald de Andrade, Jorge Mautner, Jos\u00e9 Agripino; a arte conceitual de H\u00e9lio Oiticica; a m\u00fasica popular de M\u00e1rio Reis \u00e0 Tropic\u00e1lia, passando por Jimi Hendrix; o teatro de Z\u00e9 Celso Martinez Correia (em alguns cineastas influ\u00eancia ainda mais evidente do que o pr\u00f3prio Glauber). Tinham tamb\u00e9m entre si diferen\u00e7as est\u00e9ticas, f\u00e1ceis de confirmar se compararmos o cinema agitado e tonitroante de Sganzerla e Trevisan com os constantes sil\u00eancios da obra de Bressane e Candeias. Um dos mist\u00e9rios deste movimento \u00e9 ter insistido no formato tradicional (90 minutos), sem ousar (como seus primos de Nova York) filmes extra-longos ou extra-curtos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o Cinema Novo utilizou a t\u00e9cnica da infiltra\u00e7\u00e3o (almejando fundar uma ind\u00fastria e conseguindo criar uma distribuidora estatal), os Marginais partiram para o confronto (fazendo filmes que ignoraram a censura e o mercado). Se o primeiro vinculava-se ao movimento internacional do cinema de autor, com sua poderosa caixa de som internacional (principalmente na imprensa francesa e italiana), o segundo antecipou cronologicamente muitas das &#8220;inven\u00e7\u00f5es&#8221; dos independentes americanos, mas amargou uma terr\u00edvel solid\u00e3o e um isolacionismo que lhe foi fatal. Outra diferen\u00e7a fundamental me parece ser o enfoque dado aos personagens. Se no Cinema Novo eles tendem ao arquetipal, cada um representando a classe social \u00e0 qual pertence, os Marginais me parecem um pouco mais individualizados. Se o Manuel de <em>Deus e o Diabo<\/em> e o Fabiano de <em>Vidas Secas<\/em> &#8220;representam&#8221; o campon\u00eas nordestino, os assassinos de <em>O Anjo Nasceu<\/em> ou os vagabundos de <em>\u00c0 Margem<\/em> s\u00e3o apenas eles mesmos. Esta diferen\u00e7a me parece mais pertinente do que as poss\u00edveis semelhan\u00e7as t\u00e9cnicas entre esses filmes (plano-sequ\u00eancia, c\u00e2mera na m\u00e3o etc).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso se acentua nos personagens femininos. Danuza Le\u00e3o em <em>Terra em Transe<\/em>, Isabella em <em>O Desafio<\/em>, Maria L\u00facia Dahl em <em>O Bravo Guerreiro<\/em> surgem como encarna\u00e7\u00f5es da burguesia decadente, tentando (no sentido diab\u00f3lico do termo) desviar o personagem masculino da sua trilha idealista de &#8220;salvar a p\u00e1tria&#8221;. A Rosa de <em>Deus e o Diabo<\/em>, na cena final, cai no ch\u00e3o e n\u00e3o chega \u00e0 reden\u00e7\u00e3o do sert\u00e3o virando mar, mas seu marido Manuel sim. Que diferen\u00e7a para a \u00c2ngela Carne e Osso da Helena Ignez em <em>A Mulher de Todos<\/em>, ou a Wilza Carla em <em>Os Monstros de Babaloo<\/em>: t\u00e3o dominadoras, t\u00e3o antropof\u00e1gicas e t\u00e3o perigosas! Ou mesmo para a emancipada e cosmopolita Odete Lara de <em>C\u00e2ncer<\/em>, \u00fanica experi\u00eancia marginal do mais importante diretor cinemanovista. Vale a pena assinalar que n\u00e3o houve mulheres cineastas em nenhum dos dois movimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem tudo \u00e9 perfeito. Pelo ponto de vista de hoje, ambos tamb\u00e9m deixam muito a desejar no tratamento da minoria homossexual. Se no Cinema Novo esses personagens inexistem, alguns filmes marginais pecam por apresent\u00e1-los de modo caricatural e quase homof\u00f3bico. Vide <em>O Anjo Nasceu<\/em> e <em>O Bandido da Luz Vermelha<\/em>, s\u00f3 para ficar com os principais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Igualmente, do ponto de vista geogr\u00e1fico (ou, se preferirem, geopol\u00edtico) encontramos na origem dos diretores mais diverg\u00eancias do que semelhan\u00e7as. O Cinema Novo foi um fen\u00f4meno basicamente do Rio de Janeiro \u2014 al\u00e9m dos cariocas da gema, incorporou nordestinos e mineiros emigrados. Um dos seus pontos fracos foi exatamente n\u00e3o ter conseguido um ponto de apoio s\u00f3lido em S\u00e3o Paulo. O Cinema Marginal, por outro lado, come\u00e7ou na Boca do Lixo paulista e teve ramifica\u00e7\u00f5es descentralizadas no Rio, na Bahia e em Minas Gerais. Ao contr\u00e1rio dos Novos, que fora o precursor e padrinho Nelson Pereira dos Santos, tinham praticamente a mesma idade e origem intelectual, os Marginais s\u00e3o mais variados de faixa et\u00e1ria e classe social. V\u00e3o de um cinquent\u00e3o prolet\u00e1rio (Ozualdo Candeias) a jovens revoltados da classe alta (Bressane), passando por escritores (Z\u00e9 Agripino) e diretores de teatro (\u00c1lvaro Guimar\u00e3es) t\u00edpicos da classe m\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, quando ambos os movimentos se dissolveram pela a\u00e7\u00e3o do tempo, quase todas essas dessemelhan\u00e7as que apontei acima, embora verdadeir\u00edssimas, n\u00e3o t\u00eam muito mais raz\u00e3o de ser enquanto ideologia. Pertencem, dilu\u00eddas e misturadas, \u00e0 Hist\u00f3ria do Cinema Brasileiro. Restaram os filmes. E as influ\u00eancias \u2014 n\u00e3o mais as que receberam, mas as que exerceram nos cineastas que vieram depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo aqui, os resultados s\u00e3o intrigantes. A obsess\u00e3o dos ex-cinemanovistas em implantar uma ind\u00fastria nacional os aproxima (quem diria!) da Vera Cruz e da Atl\u00e2ntida \u2014 que tanto combateram 40 anos atr\u00e1s. Seus filhotes fazem o cinema de papai-mam\u00e3e, a conspira\u00e7\u00e3o dos mauricinhos, o predom\u00ednio do bem-acabado sobre o conte\u00fado contundente. Por outro lado, os ex-marginais (ainda e sempre marginalizados) e seus poucos descendentes continuam pregando e fazendo (quando podem) um cinema artesanal de inven\u00e7\u00e3o radical. Como o velho Cinema Novo, ao qual desafiaram h\u00e1 quase meio s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nestas pinimbas de pai contra filho (e vice-versa), \u00e9 compreens\u00edvel que estudiosos e mesmo alguns cineastas do segundo movimento, com a perspectiva hist\u00f3rica facilitada pelo tempo, assinalem poss\u00edveis semelhan\u00e7as. Agora, me parece unilateral que o filho (marginal) volte a aceitar o pai (ex-novo), sem que a rec\u00edproca seja equivalente. E essa injusti\u00e7a, enquanto n\u00e3o for corrigida, s\u00f3 fortalecer\u00e1 a desuni\u00e3o, jamais a converg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Biografia<\/strong><br>Jo\u00e3o Carlos Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro em 1949. \u00c9 jornalista, escritor, roteirista e diretor de v\u00eddeos. \u00c9 autor dos livros <em>O negro brasileiro e o cinema<\/em> e <em>Jo\u00e3o do Rio: uma biografia<\/em> (Bolsa Vitae de Literatura 1996).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Carlos RodriguesPublicado originalmente em 13 de setembro de 2004 A \u00e2nsia de destruirTamb\u00e9m pode serUma for\u00e7a construtiva.(Bakunin) Em mais de uma ocasi\u00e3o, Glauber Rocha referiu-se ao Cinema Marginal como &#8220;bastardo&#8221; ou &#8220;aborto&#8221; do Cinema Novo. 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