{"id":614,"date":"2025-06-08T21:57:20","date_gmt":"2025-06-09T00:57:20","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=614"},"modified":"2025-06-12T20:08:39","modified_gmt":"2025-06-12T23:08:39","slug":"atlantida-cinematografica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=614","title":{"rendered":"Atl\u00e2ntida Cinematogr\u00e1fica"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Pedro Santana<br>Publicado originalmente em 14 de outubro de 2005<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O fen\u00f4meno cinematogr\u00e1fico que se desenvolveu no Rio de Janeiro a partir dos anos 40 \u00e9 um marco. A produ\u00e7\u00e3o ininterrupta durante cerca de vinte anos de filmes musicais e de chanchadas, ou a combina\u00e7\u00e3o de ambos, se processou desvinculada do gosto do ocupante e contr\u00e1ria ao interesse estrangeiro&#8221; \u2014 Paulo Em\u00edlio (Gomes, 80, 92).<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 16 de outubro de 1941 nascia a companhia cinematogr\u00e1fica de maior longevidade do cinema brasileiro. Nos seus vinte e um anos de atividade, a Atl\u00e2ntida produziu 66 filmes (sem contar com <em>Assim era a Atl\u00e2ntida<\/em>, de 1974) num ritmo cont\u00ednuo e com boa resposta de bilheteria.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 40, o cinema brasileiro passava por um momento de recesso ap\u00f3s a euf\u00f3rica cria\u00e7\u00e3o dos est\u00fadios da Cin\u00e9dia, Sonofilmes e da Brasil Vita Filme. A Cin\u00e9dia alugou os seus est\u00fadios para as filmagens de <em>It\u2019s All True<\/em>, de Orson Welles; a Brasil Vita Filme, de Carmen Santos, ainda estava envolvida com a produ\u00e7\u00e3o de <em>Inconfid\u00eancia Mineir<\/em>a, iniciada em 36 e s\u00f3 conclu\u00edda doze anos depois; a Sonofilmes paralisa as suas atividades ap\u00f3s o inc\u00eandio em novembro de 1940.<\/p>\n\n\n\n<p>Buscando dar continuidade a sua atividade como diretor, iniciada na Sonofilmes, Moacyr Fenelon se junta aos irm\u00e3os Paulo e Jos\u00e9 Carlos Burle para a funda\u00e7\u00e3o da Atl\u00e2ntida Companhia Cinematogr\u00e1fica do Brasil S.A., que ainda contou com o apoio do conde Pereira Carneiro, propriet\u00e1rio do Jornal do Brasil. Segundo o seu manifesto de inaugura\u00e7\u00e3o, a Atl\u00e2ntida nasce com o intuito de contribuir para o desenvolvimento da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica brasileira e prop\u00f5e o desenvolvimento do cinema nacional como alavanca do progresso do pa\u00eds. \u201cNo Brasil, o cinema ainda representa muito menos do que deveria ser e, por isso mesmo, quem se propuser, fundado em seguras raz\u00f5es de capacidade, a contribuir para seu desenvolvimento industrial, sem d\u00favida estar\u00e1 fadado aos maiores \u00eaxitos. E tamb\u00e9m prestar\u00e1 indiscut\u00edveis servi\u00e7os para a grandeza nacional\u201d (VIEIRA, 87, 154).<\/p>\n\n\n\n<p>A princ\u00edpio, foram produzidos cinejornais. Com a experi\u00eancia adquirida no cinejornal <em>Atualidades Atl\u00e2ntida<\/em>, a companhia produz o primeiro longa, o document\u00e1rio <em>IV Congresso Eucar\u00edstico Nacional de S\u00e3o Paulo<\/em> (1942), que era exibido juntamente com o m\u00e9dia <em>Astros em Desfile<\/em> (1942), de Jos\u00e9 Carlos Burle. <em>Astros em Desfile<\/em> apresentava n\u00fameros musicais com Luiz Gonzaga, Emilinha Borba e Quatro Ases e Um Coringa, entre outros, j\u00e1 prenunciando a f\u00f3rmula que combinava m\u00fasica e cinema e que faria o sucesso da Companhia.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro sucesso da Atl\u00e2ntida foi um filme baseado na hist\u00f3ria daquele que seria um dos seus maiores astros: Grande Otelo. O roteiro era inspirado numa reportagem de Joel Silveira e Samuel Wainer publicada em Diretrizes, baseada em dados biogr\u00e1ficos da vida de Otelo. Segundo o depoimento do diretor do filme, Jos\u00e9 Carlos Burle, <em>Moleque Ti\u00e3o<\/em> (1943), narra a hist\u00f3ria de um garoto pobre do interior de Minas Gerais que sonhava ser artista. Atra\u00eddo pela not\u00edcia de uma Companhia Negra de Revista que vinha fazendo sucesso, Ti\u00e3o viaja para o Rio de Janeiro, onde se consagra ap\u00f3s muita luta e persist\u00eancia. O filme perdeu-se e n\u00e3o existe nenhuma c\u00f3pia. Jos\u00e9 Sanz destacou \u201ca introdu\u00e7\u00e3o de alguns elementos do neorrealismo italiano, como por exemplo a filmagem em loca\u00e7\u00f5es e o privil\u00e9gio de uma ambienta\u00e7\u00e3o mais pobre, identificada com classes trabalhadoras\u201d (VIEIRA, 87, 155).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos pr\u00f3ximos quatro anos, a Atl\u00e2ntida ir\u00e1 se consolidar como a principal produtora do pa\u00eds, emplacando doze filmes, entre eles <em>Tristeza N\u00e3o Paga D\u00edvidas<\/em>(1944), de Jos\u00e9 Carlos Burle. Neste filme atuam juntos pela primeira vez Oscarito e Grande Otelo; estes dois atores formar\u00e3o a dupla de comediantes mais famosa do cinema brasileiro e ser\u00e3o lembrados para sempre como uma marca da Atl\u00e2ntida. Entre 43 e 47 s\u00e3o produzidos filmes como <em>N\u00e3o Adianta Chorar<\/em>(1944), de Watson Macedo, e <em>Gol da Vit\u00f3ria<\/em> (1946), de Jos\u00e9 Carlos Burle, que abordam temas populares como o futebol e com\u00e9dias musicais. Mas em <em>Este Mundo \u00e9 um Pandeiro<\/em> (1947), de Watson Macedo, a chanchada ganha a forma definitiva que far\u00e1 o sucesso da Companhia. Neste filme, Macedo mistura os elementos que ser\u00e3o a base das chanchadas: a par\u00f3dia ao cinema hollywoodiano e a abordagem bem humorada dos problemas sociais do pa\u00eds, tudo isso aliado a n\u00fameros musicais.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 1947 ser\u00e1 decisivo para a dissemina\u00e7\u00e3o das chanchadas. Neste ano, Lu\u00eds Severiano Ribeiro Jr. \u2014 dono de uma cadeia de cinema, uma empresa de distribui\u00e7\u00e3o e um laborat\u00f3rio para processamento dos filmes \u2014 torna-se s\u00f3cio majorit\u00e1rio da empresa e consolida a penetra\u00e7\u00e3o das chanchadas e com\u00e9dias musicais da Atl\u00e2ntida no mercado interno, garantindo a perpetua\u00e7\u00e3o desses filmes por mais de uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a integra\u00e7\u00e3o dos setores de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o, repetindo o modelo instaurado na \u201cbela \u00e9poca\u201d, s\u00f3 que desta vez com um vi\u00e9s estritamente comercial e voltado para o mercado, as chanchadas da Atl\u00e2ntida atravessam a d\u00e9cada de 50 lotando salas e mantendo uma produ\u00e7\u00e3o constante in\u00e9dita no cinema brasileiro. No entanto, Severiano Ribeiro n\u00e3o tinha qualquer inten\u00e7\u00e3o de contribuir para a industrializa\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro. Com o dom\u00ednio do setor de exibi\u00e7\u00e3o, o empres\u00e1rio tinha interesses em comum com as distribuidoras americanas, de quem exibia filmes sem investir na produ\u00e7\u00e3o com p\u00fablico e retorno garantido.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entendermos a entrada de Severiano Ribeiro na Atl\u00e2ntida devemos voltar ao ano de 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra assina o decreto 20.943, que amplia a reserva de mercado para os filmes brasileiros. Segundo o decreto os cinemas s\u00e3o obrigados a exibir anualmente, no m\u00ednimo, tr\u00eas filmes nacionais por ano. Assim, Severiano entra na produ\u00e7\u00e3o de filmes visando produzir seus pr\u00f3prios filmes para cobrir a reserva e auferir o maior lucro poss\u00edvel. Para isso, a Atl\u00e2ntida n\u00e3o fez uso da isen\u00e7\u00e3o de impostos para a importa\u00e7\u00e3o de equipamentos e material cinematogr\u00e1fico, conseguidos pelo Sindicato Nacional da Ind\u00fastria Cinematogr\u00e1fica em 1949; manteve as prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas dos est\u00fadios \u2014 a produ\u00e7\u00e3o era artesanal, para se ter uma id\u00e9ias das condi\u00e7\u00f5es, os filmes eram revelados no pr\u00f3prio est\u00fadio e enrolados \u00e0 m\u00e3o; enfim, a Companhia permaneceu trabalhando com reduzidas equipes t\u00e9cnicas, mantendo a improvisa\u00e7\u00e3o como \u201cregra\u201d de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dessa pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de custos e produ\u00e7\u00e3o voltada para o mercado, a Atl\u00e2ntida produziu nos anos Severiano Ribeiro (47-62), 51 filmes, uma m\u00e9dia de 3,4 filmes por ano, justamente o n\u00famero suficiente para o cumprimento da reserva de mercado estabelecida em 1946. Diante deste quadro, bem distante do manifesto elaborado pelos seus fundadores, Moacyr Fenelon abandona a Atl\u00e2ntida e produz, de forma independente, oito filmes fora da Companhia entre os anos 1948 e 1950. Fenelon teria que esperar at\u00e9 1952 para inaugurar o seu pr\u00f3prio est\u00fadio \u2013 Flama Filmes \u2013 com um filme de sucesso talhado para o carnaval: Tudo Azul, que foi recentemente restaurado pelo o Centro de Pesquisa do Cinema Brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>No final da d\u00e9cada de 50, o pa\u00eds passa por um momento de mudan\u00e7as: a pol\u00edtica dos \u201ccinquenta anos em cinco\u201d, de Juscelino Kubitscheck, abriu o pa\u00eds para o capital e a cultura estrangeira, acelerando o desenvolvimento industrial; o neorrealismo italiano influencia o cinema brasileiro, que come\u00e7a a se voltar para temas que abordam a den\u00fancia social, o que seria uma pr\u00e9via do Cinema Novo; os Congressos de Cinema de 52 e 53 despertam uma consci\u00eancia maior a respeito dos problemas que assolam o cinema brasileiro e a necessidade de um cinema industrial com o apoio do Estado. No entanto, a Atl\u00e2ntida permanece repetindo as mesmas f\u00f3rmulas, sem mostrar capacidade de renova\u00e7\u00e3o, e, com o esgotamento do fil\u00e3o das chanchadas e do filme musical, a Companhia paralisa as suas atividades em 1962.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1974, o diretor Carlos Manga, que dirigiu alguns dos maiores sucessos da Companhia \u2014 <em>Matar ou Correr <\/em>(1954), <em>Nem Sans\u00e3o Nem Dalila<\/em> (1954), <em>O Homem do Sputinik<\/em> (1959) \u2013 dirigiu <em>Assim era a Atl\u00e2ntida<\/em>, um document\u00e1rio com trechos dos principais filmes produzidos pela Companhia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><br>GOMES, Paulo Em\u00edlio Salles. <em>Cinema: Trajet\u00f3ria no Subdesenvolvimento<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra\/Embrafilmes, 1980.<br>SANZ, Jos\u00e9. <em>Ritrattto sincero dell\u2019Atlantida<\/em>. In: <em>Il Cinema brasileiro<\/em>. G\u00eanova, Silva Editore, 1961.<br>VIEIRA, Jo\u00e3o Luiz. <em>A Chanchada e o Cinema Carioca<\/em> IN: RAMOS, Fern\u00e3o (Org.) <em>Hist\u00f3ria do Cinema Brasileiro<\/em>, S\u00e3o Paulo: Art Editora, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><br>Sandro Santana \u00e9 mestrando do Programa Multidisciplinar de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Cultura e Sociedade da FACOM\/UFBA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro SantanaPublicado originalmente em 14 de outubro de 2005 &#8220;O fen\u00f4meno cinematogr\u00e1fico que se desenvolveu no Rio de Janeiro a partir dos anos 40 \u00e9 um marco. 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