{"id":622,"date":"2025-06-08T21:55:44","date_gmt":"2025-06-09T00:55:44","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=622"},"modified":"2025-06-08T21:55:45","modified_gmt":"2025-06-09T00:55:45","slug":"m-o-vampiro-de-dusseldorf-uma-sinfonia-de-ruidos-e-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=622","title":{"rendered":"M, O Vampiro de D\u00fcsseldorf: uma sinfonia de ru\u00eddos e sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Rosinha Spiewak Brener<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>&#8220;Depois que o filme policial abandonou o g\u00eanero &#8216;romance de folhetim&#8217;, precisou encontrar uma f\u00f3rmula que tivesse condi\u00e7\u00f5es de agradar tanto ao p\u00fablico cultivado quanto aos espectadores atra\u00eddos unicamente pelo lado instigante da a\u00e7\u00e3o. Foi assim que a psicologia criminal se introduziu no filme policial&#8230;&#8221;<\/em> \u2014 <strong>Fritz Lang<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Alemanha, 1931. <em>M, O Vampiro de D\u00fcsseldorf<\/em>, o primeiro filme falado do diretor austr\u00edaco Fritz Lang, teve possivelmente como argumento um acontecimento real. A ideia surgiu quando o diretor tomou conhecimento sobre um assassino de crian\u00e7as, Peter K\u00fcrten, que por volta de 1925 cometeu 10 crimes na cidade de D\u00fcsseldorf. Inicialmente, \u00e0 pel\u00edcula foi dado o nome &#8220;Os assassinos est\u00e3o entre n\u00f3s&#8221;, mas, como o ultra-conservador Marechal Hindermburg estava no poder, julgou desonra para a Alemanha &#8220;poderosa&#8221; conservar o t\u00edtulo. O filme reflete, claramente, o clima de terror que predominava na Alemanha na \u00e9poca da ascens\u00e3o do nazismo. No per\u00edodo, o cinema alem\u00e3o entrava em decad\u00eancia, j\u00e1 notada nos \u00faltimos anos do cinema silencioso. Entretanto, alguns filmes como o <em>Anjo Azul, A \u00d3pera dos Tr\u00eas Vint\u00e9ns, Senhoritas de Uniforme<\/em> e <em>M, O Vampiro de D\u00fcsseldorf<\/em> s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Rodado quase exclusivamente no est\u00fadio, <em>M<\/em> revela o ent\u00e3o ator de teatro Peter Lorre (1904 &#8211; 1968; embora j\u00e1 tivesse participado de outros filmes, anteriormente), o homem de olhos esbugalhados, um dos maiores vil\u00f5es do cinema. Seu papel \u00e9 o de um assassino que abusa e mata meninas. Os recursos sonoros utilizados por Lang chamam a aten\u00e7\u00e3o, por sua quase perfeita adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 narrativa. O que ele fez, foi utilizar o som pr\u00e9-gravado como <em>raccords<\/em> (liga\u00e7\u00f5es) entre as sequ\u00eancias. Mais ainda, dotou o personagem de um elemento musical que o identifica como o assassino. A m\u00fasica empregada por Lang, um leitmotiv (um motivo que, recebendo na primeira apresenta\u00e7\u00e3o determinado sentido, em todas as repeti\u00e7\u00f5es torna a lembrar esse sentido, personagem, situa\u00e7\u00e3o, sentimento ou objeto) foi tirado de <em>Peer Gynt, Su\u00edte I Op. 46, \u00faltima parte, O Castelo do Rei<\/em>, do compositor noruegu\u00eas Edvard Grieg (1843 &#8211; 1907) \u2014 &#8220;um trecho de um impressionismo musical de grande efeito&#8221;, como escreve Stoecklin. (s.d., 98).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 23 de janeiro de 1874, Ibsen escreveu a Grieg para que musicasse a cena para sua pe\u00e7a teatral, <em>Peer Gynt<\/em>. &#8220;A impress\u00e3o deveria ser selvagem, no entanto \u00e9 estranha. As varia\u00e7\u00f5es trepidantes de ritmos chocantes, envoltas em harmonias cheias de sabor, s\u00e3o vivamente real\u00e7adas por uma divertida orquestra\u00e7\u00e3o&#8221;. (Stoecklin. s.d.98)<\/p>\n\n\n\n<p>Para realizar <em>M, O Vampiro de D\u00fcsseldorf<\/em>, o primeiro filme sonoro a estudar a mente humana, Lang revisou v\u00e1rios casos policiais em busca de inspira\u00e7\u00e3o. Muito rigoroso consigo mesmo, internou-se por oito dias em hospital psiqui\u00e1trico para documentar aspectos da psiquiatria criminal. Simultaneamente, estudou aspectos da t\u00e9cnica moderna de investiga\u00e7\u00e3o do crime, resultando num filme ao mesmo tempo documental, porque revela a situa\u00e7\u00e3o da Alemanha na \u00e9poca, e de dimens\u00e3o humana, no mon\u00f3logo dedicado a Peter Lorre. Por outro lado, o diretor empregou pessoas das zonas <em>underground<\/em> de Berlim, resultando na pris\u00e3o de v\u00e1rias no final da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sinopse<\/h2>\n\n\n\n<p>D\u00fcsseldorf passa por um momento cr\u00edtico. Assassinatos em s\u00e9rie assustam os moradores da cidade. Meninas s\u00e3o abordadas, seviciadas e mortas por um homem que desafia a pol\u00edcia. \u00c0 busca de pistas, qualquer pessoa pode ser o procurado e, por vezes, inocentes s\u00e3o acusados.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edcia vasculha a cidade enquanto os mafiosos, tendo como chefe o poderoso Schr\u00e4nker, montam uma &#8220;tropa&#8221; composta por mendigos e trapaceiros. O prop\u00f3sito \u00e9 encontrar o assassino antes da pol\u00edcia. Assim, estariam livres para promover seus &#8220;neg\u00f3cios&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cego, vendedor de bal\u00f5es, tem contato com o assassino. Ele o reconhece atrav\u00e9s da melodia que o homem assobia. Alertado, um dos componentes da &#8220;tropa&#8221; escreve com giz um M (de <em>m\u00f6rder<\/em>, que signfica &#8220;assassino&#8221; em alem\u00e3o) na palma da m\u00e3o, marcando o fac\u00ednora nas costas. Ap\u00f3s uma grande persegui\u00e7\u00e3o, os mafiosos capturam o &#8220;vampiro&#8221; e o submetem a julgamento. Num mon\u00f3logo, considerado um dos mais expressivos do cinema, o assassino diz ser v\u00edtima de seus instintos. Senten\u00e7a: morte. Entretanto, o r\u00e9u quer que o entreguem \u00e0 pol\u00edcia. &#8220;S\u00e3o mais condescendentes&#8221;. A pol\u00edcia invade o recinto e o salva da morte.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">An\u00e1lise<\/h2>\n\n\n\n<p>O letreiro da produtora Nero Film se apresenta, acompanhado por <em>No Castelo do Re<\/em>i. A m\u00fasica tocada nas cordas, em pizzicato (modo especial de tocar os instrumentos de corda, deixando o executante de usar o arco para ferir as cordas com os dedos) e nos sopros, soa numa din\u00e2mica quase impercept\u00edvel, delicada e ao mesmo tempo amedrontadora. \u00c0 medida que as imagens surgem, a din\u00e2mica intensifica e o andamento, de in\u00edcio quase lento, acelera gradativamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A sombra de um homem se delineia na tela e, sobre ela, o M distorcido, fazendo lembrar uma cena do <em>Gabinete do Dr. Caligari<\/em>, filme de Robert Weine. Aqui, o desenho da letra representa o expressionismo alem\u00e3o, do qual Fritz Lang \u00e9 um dos maiores expoentes. Por baixo da letra, o nome da pel\u00edcula: <em>M, O Vampiro de D\u00fcsseldof<\/em>. Os cr\u00e9ditos desaparecem, por\u00e9m a m\u00fasica continua e, ao longe, ouve-se uma voz infantil: &#8220;um, dois, um dois; vem o homem com a machadinha para fazer sua carne em picadinho&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em c\u00e2mera alta, o espectador v\u00ea uma roda de meninas brincando. O tema \u00e9 a onda de assassinatos que amedronta a cidade. Assim que as imagens surgem, a m\u00fasica desaparece, priorizando a voz infantil. A c\u00e2mera deixa o local, fazendo uma varredura para alcan\u00e7ar o andar superior de um conjunto de apartamentos de classe baixa (c\u00e2mera baixa). Do alto, uma senhora grita, reprovando as crian\u00e7as e impondo que se calem. A brincadeira cessa por instantes, para ser retomada em seguida (ouve-se a voz de uma crian\u00e7a).<\/p>\n\n\n\n<p>No interior de um dos apartamentos, duas mulheres conversam. Uma delas diz que \u00e9 melhor ouvir a voz das crian\u00e7as, pelo menos sabe que est\u00e3o pr\u00f3ximas. Cansadas do trabalho, envelhecidas pela falta de recursos para o sustento, trocam ideias. Uma entra em seu apartamento e a c\u00e2mera mostra seu trabalho: \u00e9 lavadeira. O olhar da mulher alcan\u00e7a o rel\u00f3gio-cuco batendo \u00e0s 12 horas. \u00c9 hora de preparar o almo\u00e7o para a pequena Elsie, sua filha. Simultaneamente, ouve-se o badalar do sino anunciando o final das aulas.<br>Em sequ\u00eancias paralelas, o espectador v\u00ea ora a m\u00e3e da menina, ora a crian\u00e7a e o assassino.<\/p>\n\n\n\n<p>Saindo da escola, um guarda de tr\u00e2nsito ajuda Elsie a atravessar a rua. J\u00e1 do outro lado da cal\u00e7ada, ela bate uma pequena bola. Ouve-se o ru\u00eddo do brinquedo em contato com o solo. Ela para \u00e0 frente de um poste e joga a bola sobre o cartaz pregado ao mesmo. \u00c9 oferecida uma recompensa para quem encontrar o assassino de meninas. Sobre o cartaz se projeta a sombra de um homem usando um chap\u00e9u. &#8220;Que bola bonita. Como voc\u00ea se chama?&#8221; O espectador sabe que esse \u00e9 o &#8220;vampiro&#8221; e, de uma certa maneira, quer prevenir a v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e de Elsie olha, novamente, para o rel\u00f3gio. A menina est\u00e1 atrasada. Ao ouvir crian\u00e7as subindo as escadas, pergunta pela filha. Ningu\u00e9m a viu. Ao comprar para Elsie um bal\u00e3o de um cego, o assassino, de costas para o p\u00fablico, assobia o tema de Grieg.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 aqui, Lang n\u00e3o mostra o rosto do &#8220;vampiro&#8221;. Ele fornece certas pistas ao espectador. Apresenta sua sombra, deixando claro que o homem se esconde atr\u00e1s de um sobretudo e chap\u00e9u; sua voz \u00e9 n\u00edtida, calma e at\u00e9 suave; o homem assobia uma melodia, o leitmotiv, representante dele mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e de Elsie olha para baixo e v\u00ea os v\u00e1rios lances da escada. Apesar de ser o primeiro filme falado de Lang, o emprego do som \u00e9 quase perfeito. Eisner comenta: &#8220;Com raro dom\u00ednio, Lang utiliza o som em contraponto com a imagem: esta \u00e9 valorizada pelo som&#8221; (1985:223). &#8220;Elsie, Elsie, Elsie&#8221;. A m\u00e3e chama pela filha. O nome de menina \u00e9 ouvido em v\u00e1rias grada\u00e7\u00f5es din\u00e2micas.<\/p>\n\n\n\n<p>Michel Chion explica: &#8220;H\u00e1 aqui uma liga\u00e7\u00e3o sonora movendo-se, primeiramente, do simples para a confus\u00e3o e da confus\u00e3o para o simples&#8221;. (Apud Altmann.1992:109)<\/p>\n\n\n\n<p>Possivelmente, a reverbera\u00e7\u00e3o explica o cansa\u00e7o da mulher, ou ainda, segundo Chion, &#8220;a voz torna-se mais distante e progressiva na reverbera\u00e7\u00e3o&#8221; (1992:211).<\/p>\n\n\n\n<p>As cenas seguintes mostram o tempo passando: o olhar da mulher focalizando o rel\u00f3gio, as varia\u00e7\u00f5es dos minutos; a bola solta no gramado; o bal\u00e3o enroscado e depois desprendendo-se do fio de eletricidade (sinalizando o assassinato da crian\u00e7a). Possivelmente, com o bal\u00e3o se desprendendo e voando, Lang quis mostrar a trajet\u00f3ria da alma de Elsie: abandonando o corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00f5es especiais de peri\u00f3dicos s\u00e3o distribu\u00eddas na cidade (c\u00e2mera alta). Por outro lado, o assassino, de costas, escreve uma carta \u00e0 pol\u00edcia desafiando as autoridades: &#8220;ainda n\u00e3o acabei&#8221;. O espectador mais atento percebe que o assassino, em determinado momento, escreve fora do papel, deixando algumas letras gravadas na madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8220;vampiro&#8221; est\u00e1 irado porque os jornais n\u00e3o publicaram suas cartas anteriores. Mais uma pista apresentada por Lang: o homem fuma, freneticamente. Uma multid\u00e3o se aglomera \u00e0 frente das not\u00edcias impressas e coladas \u00e0s paredes. Algu\u00e9m pede que seja lido o texto, uma vez que poucos podem se aproximar e as letras s\u00e3o mi\u00fadas. A voz de um homem comunica que um novo assassinato foi cometido. Aqui, Lang trabalha a voz do homem que l\u00ea a not\u00edcia com a cena paralela, onde alguns homens ouvem a continua\u00e7\u00e3o do que estava sendo transmitido na cena anterior. Assim, com um mesmo som, o diretor liga as duas cenas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No entanto, ele est\u00e1 entre nos&#8221;. Falsas acusa\u00e7\u00f5es s\u00e3o apontadas. Qualquer um pode ser o &#8220;vampiro&#8221;. No peri\u00f3dico est\u00e3o instru\u00e7\u00f5es para que todo cidad\u00e3o esteja atento a qualquer pista que possa identificar o assassino. As digitais encontradas na nova carta dirigida \u00e0 pol\u00edcia n\u00e3o podem identificar o assassino porque foram manipuladas por v\u00e1rias pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O chefe de pol\u00edcia explica ao Ministro os passos que est\u00e3o sendo dados: todos os cantos est\u00e3o sendo vasculhados \u2014 albergues, esta\u00e7\u00f5es de trens, ruas mal afamadas. Lohmann, o temido chefe da pol\u00edcia, fala ao telefone explicando os procedimentos das buscas. Em outra tomada, policiais vasculham. Aqui, Lang usa o som da voz de Lohmann com a cena seguinte, mostrando como as buscas est\u00e3o sendo efetuadas. C\u00e3es policiais tamb\u00e9m participam. Surgem algumas pistas. Um peda\u00e7o de papel amassado contendo restos de doces. Possivelmente, \u00e9 assim que as meninas s\u00e3o atra\u00eddas. Por\u00e9m, as pistas s\u00e3o desencontradas.<\/p>\n\n\n\n<p>O sindicato dos trapaceiros toma a dianteira, tentando encontrar o assassino. Eles precisam agarr\u00e1-lo antes da pol\u00edcia, assim poder\u00e3o &#8220;trabalhar&#8221; tranquilamente. O esconderijo dos malandros \u00e9 invadido por policiais e Lohmann faz uma vistoria nos documentos de quem l\u00e1 se encontra. Aqui, Lang aborda a realidade social alem\u00e3. Lohmann representa o poder nazista com atitudes que remetem \u00e0 maneira dos filiados ao Nacional Socialismo, o partido de Adolf Hitler.<\/p>\n\n\n\n<p>Schr\u00e4nker, o chefe dos bandidos, e seus comparsas usam chap\u00e9u, sobretudo, bengala e luvas pretas, roupagem elegante do quadro nacional socialista. Seu discurso remete ao de um orador nazista: &#8220;Ele (o assassino) precisa de-sa-pa-re-cer&#8221;. &#8220;O tema da necessidade do desaparecimento dos micr\u00f3bios, os elementos funestos que decomp\u00f5em o corpo social, \u00e9 ordinariamente consagrado em 1931, nos discursos de Hitler e de Himmler e seus ac\u00f3litos, no del\u00edrio nazista anti-semita&#8221;, comenta Marie (1989:79). Schr\u00e4nker demanda a morte de M, usando os mesmos termos dos nazistas quando falavam da &#8220;desinfec\u00e7\u00e3o&#8221; dos germes que infectavam a Alemanha: os judeus. Na verdade, o termo judeu n\u00e3o aparece no filme, ele est\u00e1 subentendido.<\/p>\n\n\n\n<p>Sch\u00e4nker, chefe dos bandidos, promove uma reuni\u00e3o onde explica a necessidade de encontrar o &#8220;vampiro&#8221; antes da pol\u00edcia. &#8220;As batidas di\u00e1rias atrapalham as nossas atividades. As caixas da organiza\u00e7\u00e3o est\u00e3o vazias&#8221;. Paralelamente, Lang mostra uma outra reuni\u00e3o, agora com a c\u00fapula policial. Cenas alternadas s\u00e3o mostradas; ora a pol\u00edcia, ora os bandidos. Na verdade, o que diferencia uma dos outros \u00e9 a vestimenta. O espectador pouco observador ficar\u00e1 confuso, n\u00e3o percebendo tratar-se de dois grupos, t\u00e3o perfeita se colocam as altern\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 um problema patol\u00f3gico que, possivelmente, foi tratado em hospital. Quando n\u00e3o mata \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o faz mal a uma mosca&#8221;. Como encontrar outras pistas? Vistoriar hospitais psiqui\u00e1tricos, manic\u00f4mios, pedir ajuda a associa\u00e7\u00f5es sociais e analisar lista de doentes que tenham tend\u00eancias patol\u00f3gicas id\u00eanticas \u00e0s do &#8220;vampiro&#8221; s\u00e3o considera\u00e7\u00f5es do grupo de policiais. Por outro lado, os bandidos buscam parceria: a Associa\u00e7\u00e3o dos Mendigos.<\/p>\n\n\n\n<p>Lang, para mostrar os dois grupos trabalhando simultaneamente, faz um <em>travelling<\/em> (uma varredura) dos policiais verificando o que foi encontrado durante as buscas ao grupo dos bandidos, jogando baralho enquanto esperam por Schr\u00e4nker. Seguem-se cenas paralelas ligadas por certos gestos: os malfeitores levantam-se e, ao sentar, \u00e9 focalizado o grupo dos policiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, Lang mostra como os dois grupos trabalham o mesmo tema, o que denota uma preocupa\u00e7\u00e3o de ambos os lados, por\u00e9m com objetivos diferentes: o grupo dos policiais quer acabar com a onda de crimes; o grupo dos malfeitores quer, tamb\u00e9m, encontrar o assassino, mas para poderem &#8220;trabalhar&#8221; sem a interfer\u00eancia da pol\u00edcia. Interessante observar como o diretor focaliza um restaurante popular e faz uma varredura com a c\u00e2mera baixa, para depois subir. Em seguida, mostra o andar superior do pr\u00e9dio, local onde os bandidos organizam suas reuni\u00f5es. Cabe aqui uma pequena pergunta: ser\u00e1 que Lang quis mostrar o local acima do restaurante como um reduto dos malfeitores ou usou uma estrat\u00e9gia como liga\u00e7\u00e3o de cenas paralelas? Talvez a reuni\u00e3o n\u00e3o ocorra no edif\u00edcio do restaurante, mas sim em outro local.<\/p>\n\n\n\n<p>Os bandidos distribuem tarefas. S\u00e3o organizados, usam mapas e demarca\u00e7\u00f5es. Um realejo. Uma forma de atrair crian\u00e7as e possivelmente encontrar pistas. Todos os homens acompanhados por meninas s\u00e3o meticulosamente observados. Lohmann pede que sejam observados mesas de madeira e tipos de papel para carta; dados sobre internados em manic\u00f4mios nos \u00faltimos cinco anos devem ser analisados; endere\u00e7os procurados.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez o espectador v\u00ea o assassino de frente, por\u00e9m a uma certa dist\u00e2ncia. Ele sai de sua casa. Chega um policial. O rosto do procurado, em close, \u00e9 focalizado, comendo pacatamente uma ma\u00e7\u00e3. Em cena paralela, o policial entra no apartamento de Becker e procura, na mesa de madeira, vest\u00edgios das cartas enviadas \u00e0 pol\u00edcia. O olhar do investigador percorre a sala e se det\u00e9m na cesta de lixo. Vasculha o cesto encontrando uma poss\u00edvel pista.<\/p>\n\n\n\n<p>Becker, o vampiro (a c\u00e2mera est\u00e1 colocada dentro da loja) olha brinquedos expostos na vitrine. O reflexo dos brinquedos est\u00e1 estampado na vitrine e, de uma certa maneira, n\u00e3o permite que o espectador veja o homem por completo, por\u00e9m seu rosto \u00e9 enquadrado de tal forma que o reflexo o coloca como em uma moldura de porta-retrato. Atrav\u00e9s de um espelho-moldura o homem v\u00ea, enquadrada, a imagem de uma menina. Sua fisionomia muda. Pensativo, coloca a m\u00e3o no queixo. Larga seus bra\u00e7os ao longo do corpo. Sua express\u00e3o \u00e9 a de uma pessoa que n\u00e3o pode ir contra seus instintos. Tem de submeter-se a eles. A c\u00e2mera o focaliza de costas, de perfil. O homem respira fundo e assobia o tema de Grieg.<\/p>\n\n\n\n<p>Crian\u00e7as olham a vitrine. Brinquedos se movem. Uma esp\u00e9cie de flecha se movimenta de baixo para cima. Possivelmente, com o movimento da flecha, Lang estaria mostrando a que esp\u00e9cie de abuso as meninas eram submetidas. Em outra parte da vitrine, outro brinquedo se move, girando como se n\u00e3o tivesse fim. Com esse movimento o diretor estaria colocando a posi\u00e7\u00e3o do assassino: ele \u00e9 acometido por instintos perversos (a necessidade de matar), caindo num po\u00e7o sem fundo. Em cena paralela, o policial na casa de Becker.<\/p>\n\n\n\n<p>A menina passa de uma vitrine para outra, onde est\u00e3o expostos livros. Nesse exato momento, a m\u00fasica de Grieg soa. Come\u00e7a lenta e acelera, ligeiramente. A menina corre de encontro \u00e0 sua m\u00e3e. Imediatamente cessa o assobio. Lang providenciou a m\u00fasica de Grieg n\u00e3o apenas como representante do assassino, mas como representante dos instintos do homem. Isso fica evidente quando seus instintos assassinos se manifestam: ele assobia a melodia, inicialmente mais lenta para, assim que cresce a &#8220;vontade&#8221; de matar, acelerar. Entretanto, frustrada a investida, a m\u00fasica cessa.<\/p>\n\n\n\n<p>O assassino olha para a vitrine. Nada conseguiu. Seu olhar focaliza um bar. Dentro, a c\u00e2mera n\u00e3o permite que o rosto de Becker seja visto. Pede um conhaque. Fuma. Assobia Grieg, indicador de que seu instinto assassino est\u00e1 presente. Com as m\u00e3os, ele tampa os ouvidos para n\u00e3o ouvir o que est\u00e1 em seu ouvido interno. Ser\u00e1 Grieg?<\/p>\n\n\n\n<p>O cego que vende bal\u00f5es reconhece a m\u00fasica que o homem est\u00e1 assobiando. \u00c9 a mesma que ouviu quando a menina Elsie foi assassinada. Desesperado, o homem sai em busca de algu\u00e9m para contar o que reconheceu. Encontra um dos mendigos encarregado de vigiar. O homem corre em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica. Ela cessa. Ressoam os passos do mendigo. Seu olhar v\u00ea o &#8220;vampiro&#8221; comprando doces para uma crian\u00e7a. O assassino olha para os lados, para certificar-se de que ningu\u00e9m o est\u00e1 vendo. Para susto do espectador, Becker tira um canivete do bolso. A l\u00e2mina brilha. \u00c9 para descascar uma fruta e oferec\u00ea-la \u00e0 crian\u00e7a. Tomando de um giz, o mendigo desenha na palma da m\u00e3o a letra M (<em>m\u00f6rder<\/em>). Esbarra propositalmente no assassino, marcando-o e indicando-o como tal. A menina adverte Becker, mostrando a letra gravada em suas costas. Desesperado, ele procura uma sa\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em cena paralela, Lohmann ouve o relat\u00f3rio sobre a vistoria na casa de Becker. Ariston, a marca do cigarro. Ele j\u00e1 ouviu algo parecido. &#8220;A-ris-ton&#8221;. Na mesa da casa do &#8220;vampiro&#8221;, a constata\u00e7\u00e3o de fragmentos de l\u00e1pis vermelho no batente da janela. Paralelamente, os malfeitores tamb\u00e9m encontraram o assassino e o perseguem. A comunica\u00e7\u00e3o gestual substitui a palavra. Assobios s\u00e3o elementos de comunica\u00e7\u00e3o. A c\u00e2mera alta mostra o homem correndo e seus perseguidores em seu encal\u00e7o. Contraponteiam o ru\u00eddo dos passos apressados de Becker contra os ru\u00eddos lentos dos passos dos mendigos. O assassino, desnorteado, busca um esconderijo. Um policial passa. O som das botas na cal\u00e7ada ressoa. Sil\u00eancio. A buzina de uma viatura corta o sil\u00eancio. As badaladas do rel\u00f3gio de um edif\u00edcio de escrit\u00f3rios anunciam o final do expediente. Os trabalhadores saem e as vozes de conversas paralelas provocam disson\u00e2ncias. Uma buzina de carro.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebe-se como, em um pequeno trecho, Lang utiliza uma grande quantidade de ru\u00eddos descrevendo em som o que est\u00e1 acontecendo. Em cena paralela, na casa de Becker, os policiais aguardam a chegada do homem. Em outro lado, Becker entra no edif\u00edcio. Um assobio, o sinal. O olho da c\u00e2mera mostra a porta aberta, indicando a entrada dos malfeitores no pr\u00e9dio e, em plano geral, o ambiente. Com uma faca, Becker tenta tirar a fechadura de uma porta: o guarda a fechou. Ru\u00eddos. A faca quebra. Uma britadeira para abrir um buraco no ch\u00e3o e penetrar no andar inferior. A estrat\u00e9gia dos trapaceiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Becker tenta desentortar um prego. Algu\u00e9m ouve o ru\u00eddo e imediatamente comunica aos demais. Assim como a m\u00fasica de Grieg denunciou M, assim tamb\u00e9m o ru\u00eddo o denuncia. M\u00fasica e som apontam o assassino: uma, quem ele \u00e9, e o outro, onde se encontra. O vigia aproveita a distra\u00e7\u00e3o dos bandidos e aciona o alarme. Eles t\u00eam cinco minutos para agarrar o &#8220;vampiro&#8221;, antes da pol\u00edcia chegar. Outro assobio. Todos fora do edif\u00edcio, levando Becker. Apenas Frank, o homem da britadeira, foi esquecido. A pol\u00edcia quer saber quem os malfeitores estavam procurando.<\/p>\n\n\n\n<p>Na delegacia, o inspetor quer respostas. Uma armadilha: &#8220;afinal, o roubo foi grande&#8221;. Como o inspetor nada conseguiu, pede ajuda a Lohmann. No relat\u00f3rio da invas\u00e3o do pr\u00e9dio, Lohmann encontra algo. Tomadas em <em>flashback<\/em> mostram o vigia amarrado e policiais amorda\u00e7ados, enquanto Lohmann, na delegacia, comenta certas coincid\u00eancias. Aqui, Lang mostra duas situa\u00e7\u00f5es ligadas pela voz do inspetor: as imagens em <em>flashbach<\/em> e a voz, no presente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Levaram um homem&#8221;. A chave do mist\u00e9rio. Frank n\u00e3o quer ser tachado de assassino, portanto confessa a busca do assassino de crian\u00e7as pelos trapaceiros. Lohman fuma seu charuto desenfreadamente. De costas para Frank, charuto na boca, s\u00edmbolo de autoridade, Lohmann simula tranquilidade. Por\u00e9m, ao ouvir quem os trapaceiros encontraram, deixa o charuto cair. Pede um momento; sai para refrescar a cabe\u00e7a debaixo da torneira do banheiro. Retorna, dono da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na antiga destilaria, Becker est\u00e1 em poder dos malfeitores. Carregado \u00e0 for\u00e7a, depara-se com um p\u00fablico silencioso, de olhar acusador. O olhar do assassino percorre a audi\u00eancia. Gritos. &#8220;Quero sair&#8221;. O espectador v\u00ea Becker em close. Schr\u00e4nker o acusa. O \u00fanico direito do assassino \u00e9 morrer.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, Peter Lorre interpreta um dos mon\u00f3logos mais representativos do cinema. Ele \u00e9 um homem prisioneiro de sua mente, n\u00e3o tem escolha. Tem que obedecer ao que as vozes mandam. N\u00e3o se lembra de nada, apenas se d\u00e1 conta do que fez quando l\u00ea o notici\u00e1rio. Nele h\u00e1 uma for\u00e7a que o impele a agir. &#8220;N\u00e3o suporto ouvir as vozes&#8221;. Como doente, impossibilitado de se controlar, \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 sociedade. Para a sua doen\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 cura. O assobio anuncia a invas\u00e3o da pol\u00edcia. &#8220;Em nome da lei, voc\u00ea est\u00e1 preso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas considera\u00e7\u00f5es se fazem necess\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A fuma\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Lang envolve certas cenas em densa nuvem de fuma\u00e7a. Ela cria um ambiente de estresse. Todos os fumantes (em <em>M<\/em>) usam o cigarro como apoio para momentos dif\u00edceis. Assim, Becker fuma freneticamente quando escreve a carta aos policiais e quando est\u00e1 no bar, ap\u00f3s frustrada investida. Por outro lado, Sch\u00ebnkar e seus comparsas tamb\u00e9m fumam, envolvendo o ambiente em uma grande nuvem de fuma\u00e7a. Lohmann \u00e9 um grande fumante. O cinzeiro, de onde emana a fuma\u00e7a, mostra que o homem usa o cigarro como meio de amenizar o estresse. O charuto que leva \u00e0 boca \u00e9 o s\u00edmbolo do poder; ele domina a situa\u00e7\u00e3o. Antes de ouvir a confiss\u00e3o de Frank, as baforadas do charuto escondem o rosto de Lohamnn, n\u00e3o permitindo que o espectador veja a inseguran\u00e7a em que o policial se encontra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ru\u00eddos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>M<\/em>, Lang emprega ru\u00eddos como forma de express\u00e3o t\u00e3o ou mais significativas que a pr\u00f3pria palavra. Isso fica claro em cenas como a seguinte: em um bairro mal-afamado, algumas pessoas andam. O sil\u00eancio \u00e9 aterrador, por\u00e9m os passos ressoam, preenchendo o vazio sonoro. Uma prostituta esbarra em um homem, provocadoramente. Ele segue seu caminho. Novamente, o som de passos na cal\u00e7ada. S\u00e3o os sapatos da mulher. Em c\u00e2mera alta, v\u00ea-se dois homens saltando de um carro em movimento. Eles ter\u00e3o de vigiar a porta de um edif\u00edcio onde se encontra o esconderijo dos malfeitores. Caminham de um lado para o outro, a princ\u00edpio lentamente para depois, nervosos, acelerar os passos. Gestos substituem palavras. Outro carro, em alta velocidade, entra no beco freando bruscamente ao chegar \u00e0 porta. Outros homens saltam, rapidamente. Um assobio: o sinal. Em outra cena: o vagabundo corre para saber onde se encontra o homem que assobia tal m\u00fasica. Sil\u00eancio. Apenas seus passos ressoam.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Lang, seduzido pelas possibilidades de express\u00e3o do som, chegou muito naturalmente aos contrapontos visuais e sonoros&#8221; (Eisner: 1983:223). A imagem \u00e9 valorizada pelo som. &#8220;No auge do som, ressoa diante do j\u00fari dos bandidos o grito estridente de Lorre, clamando que fora impulsionado por uma for\u00e7a invis\u00edvel. \u00c9 o ponto mais alto desta escala tr\u00e1gica melopeia em que som e imagens se fundem num indestrut\u00edvel contraponto&#8221; (Eisner: 1983:224).<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>M, O Vampiro de D\u00fcsseldorf<\/em>, Lang comp\u00f5e uma sinfonia de ru\u00eddos e sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><br>ALTMAN, Rick. Sound theory and sound practice,Routledge, Londres, 1992.<br>CHION, Michel<br>EISNER, Lotte. A tela demon\u00edaca, S. Paulo, Paz e Terra, 1985.<br>KRACAUER, Sigfried. Theory of film, New Jersey, Princeton University Pres, 1997.<br>MARIE, Michel. M le maudit, Pris, \u00c9ditions Nathan, 1989.<br>STOECKLIN, Paulo. A vida de Grieg, S. Paulo, Atena Editora, s.d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><br>Rosinha Spiewak Brener \u00e9 Doutora em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica pela PUC\/SP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rosinha Spiewak Brener &#8220;Depois que o filme policial abandonou o g\u00eanero &#8216;romance de folhetim&#8217;, precisou encontrar uma f\u00f3rmula que tivesse condi\u00e7\u00f5es de agradar tanto ao p\u00fablico cultivado quanto aos espectadores atra\u00eddos unicamente pelo lado instigante da a\u00e7\u00e3o. Foi assim que a psicologia criminal se introduziu no filme policial&#8230;&#8221; \u2014 Fritz Lang Alemanha, 1931. 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