{"id":630,"date":"2025-06-08T21:38:07","date_gmt":"2025-06-09T00:38:07","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=630"},"modified":"2025-06-08T21:38:08","modified_gmt":"2025-06-09T00:38:08","slug":"quem-tem-medo-de-bernard-herrmann","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=630","title":{"rendered":"Quem tem medo de Bernard Herrmann?"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Rosinha Spiewak Brener<\/p>\n\n\n\n<p>Em artigo publicado na&nbsp;<em>Revista Concerto,<\/em>&nbsp;datado de junho de 2001, o maestro J\u00falio Medaglia pede desculpas a Bernard Herrmann. S\u00f3 agora ele percebeu que a m\u00fasica do compositor era fundamental para os filmes de Alfred Hitchcock. Durante os onze anos de parceria Herrmann\/Hitchcock (1955-1966), foram lan\u00e7ados os melhores filmes do diretor e as trilhas musicais mais significativas para o cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>Falar de m\u00fasica para o suspense \u00e9 falar de Bernard Herrmann. Nascido em New York (1911), iniciou seus estudos de m\u00fasica aprendendo a tocar violino. Cedo seu talento foi reconhecido. Com treze anos ganha um pr\u00eamio de composi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 demonstrando o car\u00e1ter rebelde que conservaria para o resto da vida. Grande pesquisador, encontra as obras de Charles Ives (1874-1954) e torna-se divulgador delas. Aos dezoito anos, ainda como estudante da Juilliard School, Herrmann conduz seu ballet&nbsp;<em>Americana<\/em>&nbsp;e forma o grupo&nbsp;<em>The New Chamber Orchestra<\/em>. Aos vinte e um, inicia composi\u00e7\u00f5es sinf\u00f4nicas para o r\u00e1dio. Nos anos seguintes torna-se regente da CBS. Em 1935, inicia a parceria com Orson Welles e seu&nbsp;<em>Teatro Mercury no Ar<\/em>. Welles \u00e9 convidado para trabalhar em Hollywood e pede a Herrmann que componha a trilha musical de&nbsp;<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>. Em 1945, Hitchcock pede ao compositor que se junte \u00e0 equipe para filmar&nbsp;<em>Quando Fala O Cora\u00e7\u00e3o<\/em>. Herrmann n\u00e3o aceita. Somente dez anos depois, a parceria torna-se uma realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Hitchcock, Herrmann escreve a trilha musical de oito filmes:&nbsp;<em>O Terceiro Tiro<\/em>&nbsp;(1955),&nbsp;<em>O Homem Que Sabia Demais<\/em>, 2\u00aa vers\u00e3o (1956),&nbsp;<em>O Homem Errado<\/em>&nbsp;(1957),&nbsp;<em>Um Corpo Que Cai&nbsp;<\/em>(1959),&nbsp;<em>Intriga Internacional<\/em>&nbsp;(1959),&nbsp;<em>Psicose<\/em>&nbsp;(1960),&nbsp;<em>Os P\u00e1ssaros<\/em>&nbsp;(1963; Herrmann foi o consultor de som) e de<em>&nbsp;Marnie, Confiss\u00f5es de uma <\/em>L<em>adra&nbsp;<\/em>(1964). Na realidade,&nbsp;<em>Cortina Rasgada<\/em> (1966)&nbsp;tamb\u00e9m teve uma trilha musical composta por Herrmann. No entanto, Hitchcock queria uma m\u00fasica pop, mas o compositor discorda; discutem e termina assim uma parceria que rendeu o reconhecimento de cr\u00edticos e p\u00fablico como uma das mais perfeitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os filmes de suspense de Hitchcock, Herrmann cria um &#8220;sistema&#8221; de coloca\u00e7\u00e3o de m\u00fasica. S\u00e3o: o motivo, as 7\u00aas e 9\u00aas sem resolu\u00e7\u00e3o, o&nbsp;<em>ostinato<\/em>, o cromatismo e os grupos instrumentais que, embora sejam o dia a dia de um compositor, nas m\u00e3os de Herrmann se transformam, pela modo como s\u00e3o agrupados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante observar que, embora n\u00e3o fosse adepto do\u00a0<em>leitmotiv<\/em>, o compositor o emprega em alguns filmes. Ele dizia: &#8220;as frases curtas t\u00eam certas vantagens. S\u00e3o mais f\u00e1ceis de serem captadas pelo espectador&#8221;\u00b9.\u00a0A raz\u00e3o que o fazia n\u00e3o gostar do\u00a0<em>leitmotiv<\/em>\u00a0era o &#8220;sistema&#8221; que tem de oito a dezesseis compassos, limitando o trabalho. Era como colocar algemas no compositor. Um exemplo bem definido pode ser encontrado em <em>Um Corpo Que Cai<\/em>, quando ent\u00e3o o\u00a0<em>leitmotiv<\/em>\u00a0se apresenta em grande parte no filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o suspense, Herrmann cria o acorde bitonal: &#8220;acorde de Hitchcock&#8221;, denomina\u00e7\u00e3o dada por Royal Brown\u00b2.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo sonoro, Herrmann sempre encontrava solu\u00e7\u00f5es. Um timbre, uma figura r\u00edtmica eram o suficiente para encontrar um&nbsp;<em>leitmotiv<\/em>. Embora a estrutura sonora que empregava fosse simples, a obra, em seu todo, era complexa, correspondia a uma grande efici\u00eancia no efeito. O efeito, nesse caso, quer dizer a apropria\u00e7\u00e3o sonora de uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica explicada visualmente ou o acr\u00e9scimo em densidade psicol\u00f3gica na constru\u00e7\u00e3o de um personagem. A composi\u00e7\u00e3o que Herrmann criou para o filme&nbsp;<em>Marnie, Confiss\u00f5es de uma Ladra<\/em> \u00e9 um belo exemplo de coloca\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o para o suspense.<\/p>\n\n\n\n<p>Marnie, uma mulher bonita mas problem\u00e1tica, ganha a vida enganando e roubando. Muda de cidade, de nome e da cor de seus cabelos, conseguindo assim penetrar em grandes escrit\u00f3rios. Seu objetivo \u00e9 roubar para comprar presentes \u00e0 sua m\u00e3e, que vive em Baltimore, onde cuida de uma menina. Marnie sente ci\u00fames da crian\u00e7a, porque pensa que a m\u00e3e n\u00e3o a ama. Seu problema psicol\u00f3gico: \u00e9 assaltada por pesadelos, sempre os mesmos: tr\u00eas batidas na janela e a cor vermelha. Ela busca a solu\u00e7\u00e3o quando se apaixona por Mark, que a pede em casamento. O marido quer saber por que Marnie n\u00e3o aceita que um homem a toque. Atrav\u00e9s de um detetive, Mark fica sabendo onde vive a m\u00e3e de Marnie e, em Baltimore, a verdade vem \u00e0 tona. Bernice, a m\u00e3e de Marnie, engravidou muito cedo. Para sustentar a filha, prostitui-se. Uma noite, um cliente bate \u00e0 porta. Marnie \u00e9 tirada da cama da m\u00e3e e colocada num sof\u00e1. Como chove forte e os trov\u00f5es iluminam o quarto, a crian\u00e7a chora. O marujo vai at\u00e9 ela, fazendo-lhe carinhos. Bernice interv\u00e9m. Lutam, o marujo cai sobre a perna de Bernice, ferindo-a gravemente. A m\u00e3e pede socorro \u00e0 crian\u00e7a que, tomando de uma barra de ferro, ataca o homem, matando-o. Bernice assume o crime. Mesmo presa, ela n\u00e3o permite que a filha seja adotada. Marnie &#8220;apagou&#8221; da mem\u00f3ria o acontecido. O passado de Marnie vem \u00e0 tona quando a tempestade desencadeia e Mark bate na parede por tr\u00eas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a trilha musical de Marnie, Herrmann providenciou dois motivos: &#8220;Marnie&#8221; e &#8220;Vermelho&#8221;. Para uma melhor compreens\u00e3o, estaremos usando aspas para nomear os temas, diferenciando-os do filme. Os motivos se repetem ao longo da obra com frequentes variantes, uma caracter\u00edstica de Herrmann. Eles surgem na apresenta\u00e7\u00e3o, est\u00e3o sempre juntos, explicando que Marnie sofre de um problema psicol\u00f3gico, ligado \u00e0 cor vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Marnie&#8221; \u00e9 um leitmotiv composto por quatro notas: mi, r\u00e9, l\u00e1 e f\u00e1. O motivo &#8220;Vermelho&#8221; \u00e9 composto por um grupo de notas que se repetem num crescendo r\u00e1pido, seguido de um brusco declive. Esse arranjo funciona muito bem como express\u00e3o de estresse e agita\u00e7\u00e3o. Em algumas cenas, a avers\u00e3o de Marnie pelo vermelho \u00e9 anunciada com uma nota prolongada, seguida de uma pequena variante de &#8220;Vermelho&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Os acordes de 7\u00aa, n\u00e3o resolvidos, encontram-se na abertura, formando a harmonia do tema associada \u00e0 Marnie. Usando as tr\u00edades maiores e menores, Herrmann sugere o conflito psicol\u00f3gico, apontando o personagem (Marnie) musicalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>O cromatismo aparece em algumas cenas, mas, provavelmente, a mais significativa encontra-se na cena no iate. Na lua-de-mel, Mark estupra Marnie. A mo\u00e7a tenta o suic\u00eddio, atirando-se na piscina. Para essa cena, Herrmann trabalhou, cuidadosamente, o cromatismo. Mark na cama. Acorda e n\u00e3o v\u00ea Marnie. A c\u00e2mera faz um&nbsp;<em>travelling<\/em>, focalizando a cama vazia. Com o&nbsp;<em>travelling<\/em>, ele n\u00e3o usou m\u00fasica at\u00e9 o momento em que Mark sai da cama. Uma melodia, em surdina, acompanha seus passos. \u00c9 quase impercept\u00edvel. \u00c0 medida que seus passos se tornam mais r\u00e1pidos, a m\u00fasica cresce em din\u00e2mica. Mark procura pelos corredores. A m\u00fasica torna-se acelerada e ansiosa. Para Marnie, Herrmann preparou a orquestra de cordas, sopros de madeira, harpa e corne ingl\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Max Steiner come\u00e7a a especializar o uso da m\u00fasica no cinema. Ele cria clich\u00eas para determinados momentos, o que torna a m\u00fasica intelectual. Isto \u00e9: o espectador sabe, atrav\u00e9s da m\u00fasica, do que se trata. A m\u00fasica de Herrmann \u00e9 diferente. \u00c9 m\u00fasica emocional, expressando a imagem interior dos personagens. Ele compunha uma m\u00fasica que se integrava \u00e0 cena de modo pessoal. Para isso, n\u00e3o necessitava de longas composi\u00e7\u00f5es, bastavam poucas notas e repeti\u00e7\u00f5es variadas. Assim, criava a atmosfera e um tipo de &#8220;magia&#8221;, provocando emo\u00e7\u00e3o com o som.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>GILLING, Ted. The colour of the music. Sight and sound 41, n\u00ba 1 Londres, Inverno, 71\/72, p. 36<\/li>\n\n\n\n<li>BROWN, Royal. Overtons and Undertons, Londres, University of California Press, 1994, p. 292.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><br>Rosinha Spiewak Brener&nbsp;\u00e9 pianista e doutora em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica pela PUC-SP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rosinha Spiewak Brener Em artigo publicado na&nbsp;Revista Concerto,&nbsp;datado de junho de 2001, o maestro J\u00falio Medaglia pede desculpas a Bernard Herrmann. S\u00f3 agora ele percebeu que a m\u00fasica do compositor era fundamental para os filmes de Alfred Hitchcock. 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