{"id":633,"date":"2025-06-08T21:43:26","date_gmt":"2025-06-09T00:43:26","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=633"},"modified":"2025-06-08T21:43:27","modified_gmt":"2025-06-09T00:43:27","slug":"a-bela-epoca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=633","title":{"rendered":"A Bela \u00c9poca"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Pedro Santana<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Esta primeira \u00e9poca explicitamente se configura como um movimento completo, com seus in\u00edcios, d\u00favidas, fortalecimento, \u00e1pice e queda. Apesar de sua aparente dissocia\u00e7\u00e3o do resto da hist\u00f3ria do cinema brasileiro, \u00e9, entretanto, uma antecipa\u00e7\u00e3o irregular de sua for\u00e7a e identidade, assim como de seus impasses, de sua percep\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o. Um exerc\u00edcio \u00f3bvio para quem n\u00e3o pode mais ter medo de ver a pr\u00f3pria face.&#8221;\u00a0\u2014 Roberto Moura (MOURA, 87, 13)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os anos compreendidos entre 1908 e 1911 marcam o per\u00edodo conhecido como \u201cA Bela \u00e9poca do cinema brasileiro\u201d, momento em que o cinema floresceu no Brasil para depois mergulhar num longo ocaso provocado pela invas\u00e3o dos filmes estrangeiros, sobretudo pelas produ\u00e7\u00f5es americanas, que j\u00e1 come\u00e7avam a \u201cengatinhar\u201d rumo ao monop\u00f3lio cinematogr\u00e1fico mundial.<br><br>Para compreendermos a \u201cBela \u00e9poca\u201d, devemos ter em vista o panorama pol\u00edtico e social que envolvia o Rio de Janeiro, capital da ent\u00e3o nov\u00edssima rep\u00fablica e o ber\u00e7o do cinema nacional. \u201cNa virada do s\u00e9culo, com quase um milh\u00e3o de habitantes, o Rio de Janeiro era o centro vital do pa\u00eds. Principal sede industrial, comercial e banc\u00e1ria, principal centro produtor e consumidor de cultura, a cidade era a melhor express\u00e3o e a vanguarda do momento de transi\u00e7\u00e3o por que passava a sociedade brasileira\u201d. Este pequeno trecho extra\u00eddo do livro <em>Tia Ciata e a pequena \u00c1frica no Rio de Janeiro<\/em> (Cf. MOURA, 87,13), de Roberto Moura, nos ajuda a entender o processo de mudan\u00e7as que estava ocorrendo na capital federal. A cidade transbordava de migrantes nacionais e europeus; surge uma classe prolet\u00e1ria formada basicamente por oper\u00e1rios estrangeiros no setor industrial. Negros e nordestinos trabalham nas obras p\u00fablicas e na constru\u00e7\u00e3o civil, setores revigorados pela explos\u00e3o demogr\u00e1fica.<br><br>Com a Rep\u00fablica, o funcionalismo p\u00fablico se expande, criando empregos para t\u00e9cnicos instru\u00eddos. Essa diversidade de origens e culturas cria uma demanda de entretenimentos alternativos. As elites importam as companhias de canto l\u00edrico, mas a maior parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia pagar ingressos caros e o mercado se abria para uma diversidade de m\u00fasicos, dan\u00e7arinos e circos. Em 1903, com Pereira Passos na prefeitura e o governo progressista de Rodrigues Alves, o Rio de Janeiro passa por transforma\u00e7\u00f5es que aceleram o ritmo de moderniza\u00e7\u00e3o urbana \u2014 os trabalhos profil\u00e1ticos desenvolvidos por Osvaldo Cruz e os projetos urban\u00edsticos, que fariam surgir uma \u201cnova cidade\u201d \u2014, o que criaria um campo f\u00e9rtil para que as novidades t\u00e9cnicas e industriais florescessem.<br><br>Segundo Antonio Moreno, \u201cao analisarmos o per\u00edodo 1896 &#8211; 1906, observaremos a exist\u00eancia de poucas salas fixas de exibi\u00e7\u00e3o e um cinema ambulante de pouca significa\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo. A agravante principal dessa situa\u00e7\u00e3o era o fato de o Brasil ainda n\u00e3o dispor de eletricidade suficiente para a manuten\u00e7\u00e3o do consumo exigido. Em mar\u00e7o de 1907, no Rio, quando a energia el\u00e9trica passa a ser gerada pela usina do Ribeir\u00e3o de Lajes, proliferam as salas de exibi\u00e7\u00e3o: apenas entre agosto e setembro de 1907 s\u00e3o inauguradas dezoito novas salas\u201d (MORENO, 94, 43). Neste estado de coisas, o cinema encontrou um clima prop\u00edcio para se desenvolver e chegar \u00e0 incr\u00edvel marca de 200 filmes anuais \u2014 naquela \u00e9poca, as \u201cvistas\u201d eram consideradas filmes, quando o dono da sala de exibi\u00e7\u00e3o era tamb\u00e9m o produtor do filme (BAUNWORCEL, 98, 6).<br><br>Apesar dessa boa produ\u00e7\u00e3o em termos quantitativos, Antonio Moreno adverte que \u201ca produ\u00e7\u00e3o realizada entre 1908 &#8211; 1911, chamada \u201c\u00e9poca \u00e1urea\u201d do cinema brasileiro, \u00e9 fruto de um artesanato vigoroso, sendo, no entanto, manifesta\u00e7\u00e3o tardia, entre n\u00f3s, de um fen\u00f4meno que em outros pa\u00edses j\u00e1 se transformara em ind\u00fastria\u201d (Moreno, 94, 44).<br><br>O harmonioso esquema \u201cprodutor-exibidor\u201d \u2014 o dono do cinema era tamb\u00e9m o produtor do filme \u2014 alavancou a produ\u00e7\u00e3o carioca e as produ\u00e7\u00f5es nacionais dominavam o mercado em franca expans\u00e3o. Com o barateamento dos ingressos, o cinema se afirma como espet\u00e1culo e neg\u00f3cio bastante promissor at\u00e9 1911, quando entra em cena a Companhia Cinematogr\u00e1fica Brasileira. Esta companhia, gerenciada por Francisco Serrador (dono de uma cadeia de cinemas e produtor) e a \u201cassocia\u00e7\u00e3o de industriais e banqueiros diretamente ligados ao capital estrangeiro\u201d (MORENO, 94, 45), defendia os interesses dos grandes produtores europeus e norte-americanos, e com o apoio de Serrador n\u00e3o teve grandes dificuldades para aliciar o mercado brasileiro em fun\u00e7\u00e3o do filme estrangeiro.<br><br>Com o desenvolvimento tecnol\u00f3gico e os vultosos investimentos exigidos pela ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica estruturada na Europa e nos Estados Unidos, o promissor mercado brasileiro despertava interesses bem rent\u00e1veis para empres\u00e1rios, distribuidores e jornalistas locais, que se beneficiavam com o generoso esquema de divulga\u00e7\u00e3o com mat\u00e9rias pagas, an\u00fancios veiculados na imprensa e o surgimento de publica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Este esquema de divulga\u00e7\u00e3o, amplamente utilizado pelo cinema norte-americano, iria gerar o <em>star system<\/em>, popularizando os nomes de estrelas que arrastam multid\u00f5es aos cinemas e garantem o \u00eaxito de um filme.<br><br>A desarticula\u00e7\u00e3o do esquema \u201cprodu\u00e7\u00e3o-exibi\u00e7\u00e3o\u201d e o n\u00edvel de qualidade t\u00e9cnica superior dos filmes estrangeiros, amparados por laborat\u00f3rios, c\u00e2meras e investimentos incompar\u00e1veis ao produto nacional, desestabilizou o cinema brasileiro, que havia conseguido um surpreendente crescimento entre os anos de 1908-1911. A produ\u00e7\u00e3o nacional caiu para seis filmes em 1912, o que causou desemprego entre t\u00e9cnicos e artistas. Alguns realizadores, como Antonio Leal e os Irm\u00e3os Botelho, voltaram-se para o campo dos document\u00e1rios, produzindo esporadicamente filmes de fic\u00e7\u00e3o com recursos pr\u00f3prios, sem saber onde iriam exibi-los. O p\u00fablico habituado com os filmes nacionais logo acostuma-se com o substituto estrangeiro. Afinal, tamb\u00e9m era costume o deslumbramento com o produto importado dos centros europeu e norte-americano. O que n\u00e3o mudou muito ainda hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<br><br><strong>Bibliografia<\/strong><br>BAUNWORCEL, Ana. <em>Mortes e Renascimentos<\/em>. Caderno B. Jornal do Brasil, Rio de janeiro, 21 jun. 1998.<br>MORENO. Antonio. <em>Cinema Brasileiro: Hist\u00f3ria e Rela\u00e7\u00f5es com o Estado<\/em>. Niter\u00f3i: EDUFF, Goi\u00e2nia: CEGRAF\/UFG, 1994.<br>MOURA, Roberto. <em>A Bela \u00c9poca (Prim\u00f3rdios-1912)<\/em>. In: RAMOS, Fern\u00e3o (Org.). Hist\u00f3ria do Cinema Brasileiro. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Art Editora Ltda., 1987.<br>MOURA, Roberto. <em>Tia Ciata e a pequena \u00c1frica no Rio de Janeiro<\/em>. Rio de janeiro, Funarte, 1983.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><br>Sandro Santana \u00e9 mestrando do Programa Multidisciplinar de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Cultura e Sociedade da FACOM\/UFBA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Santana &#8220;Esta primeira \u00e9poca explicitamente se configura como um movimento completo, com seus in\u00edcios, d\u00favidas, fortalecimento, \u00e1pice e queda. Apesar de sua aparente dissocia\u00e7\u00e3o do resto da hist\u00f3ria do cinema brasileiro, \u00e9, entretanto, uma antecipa\u00e7\u00e3o irregular de sua for\u00e7a e identidade, assim como de seus impasses, de sua percep\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o. 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