{"id":695,"date":"2024-12-02T21:36:26","date_gmt":"2024-12-03T00:36:26","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=695"},"modified":"2025-06-10T04:39:54","modified_gmt":"2025-06-10T07:39:54","slug":"era-da-pornochanchada-a-noite-das-taras-desejo-e-censura-no-cinema-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=695","title":{"rendered":"Era da Pornochanchada: A noite das taras, desejo e censura no cinema brasileiro"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <strong>Fl\u00e1via Paiva | <\/strong>Se\u00e7\u00e3o <strong>Novos Olhares<\/strong><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n<!--noteaser-->\n\n\n\n<p>Por <strong>Fl\u00e1via Paiva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>A Noite das Taras<\/em> \u00e9 um filme brasileiro de 1980, dirigido por David Cardoso, John Doo e Ody Fraga. A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por segmentos independentes, com um tom er\u00f3tico, que exploram temas de desejo, moralidade e fantasia sexual. Como parte da fase das &#8220;pornochanchadas&#8221;, um subg\u00eanero popular no cinema brasileiro da \u00e9poca, o filme aborda tabus e comportamentos sociais, muitas vezes com humor e uma abordagem provocativa.<\/p>\n\n\n\n<p>No epis\u00f3dio inicial, <em>A Carta de \u00c9rico<\/em>, um marinheiro chega em S\u00e3o Paulo para entregar uma carta a uma mulher. Ela vive em um amplo e luxuoso apartamento, mas est\u00e1 isolada e prestes a se suicidar no banheiro. O marinheiro afirma que a carta foi enviada por um homem chamado \u00c9rico. Ele tenta convenc\u00ea-la a receber a carta, apesar de ela garantir que n\u00e3o conhece ningu\u00e9m com esse nome. Ap\u00f3s certa resist\u00eancia, ela o convida para entrar, e os dois iniciam uma conversa carregada de tens\u00f5es emocionais. Contudo, em meio ao di\u00e1logo, a mulher retorna ao banheiro com a inten\u00e7\u00e3o de tirar a pr\u00f3pria vida novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, o marinheiro, tomado por uma sensa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia, recorda-se de sua breve intera\u00e7\u00e3o com \u00c9rico e decide intervir, invadindo o banheiro e descartando a l\u00e2mina que ela planejava usar. Esse gesto, marcado por uma mistura de desespero e compaix\u00e3o, resulta nos dois tendo rela\u00e7\u00f5es sexuais. No desfecho do epis\u00f3dio, a mulher finalmente decide abrir a carta que o marinheiro havia entregado. Para sua surpresa, o papel est\u00e1 completamente em branco, sem nenhuma mensagem escrita. \u00c9 nesse momento que ela compreende que \u00c9rico, na verdade, planejou toda a situa\u00e7\u00e3o apenas para que o marinheiro fosse at\u00e9 sua casa e a impedisse de tirar a pr\u00f3pria vida. Por fim, o marinheiro decide permanecer ao lado da mulher, marcando o in\u00edcio de um novo cap\u00edtulo para ambos, repleto de possibilidades e esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A trama seguinte, <em>Peixe Fora d&#8217;\u00c1gua<\/em>, \u00e9 dirigida por David Cardoso e se destaca pelo tom divertido. Nesta hist\u00f3ria, ap\u00f3s ser brutalmente espancado em um bar, o marinheiro \u00e9 abordado por uma mulher misteriosa chamada Susana, que lhe oferece carona at\u00e9 um hotel. Durante o trajeto, ela demonstra um interesse sedutor, deixando claro que sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 passar a noite com ele. Contudo, ao chegar ao local, ap\u00f3s dormirem juntos, a situa\u00e7\u00e3o toma um rumo inesperado: Susana revela ser a l\u00edder de uma gangue. O marinheiro se v\u00ea envolvido em uma trama perigosa, na qual os membros da gangue tentam persuadi-lo a participar de um assalto.&nbsp; Ap\u00f3s armarem um plano cruel, eles o matam friamente, deixando pistas que o incriminam pelo assalto que haviam cometido. Assim, o marinheiro se torna um bode expiat\u00f3rio para encobrir os crimes da gangue, encerrando o epis\u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, <em>J\u00falio e o Para\u00edso<\/em>, sob a dire\u00e7\u00e3o de Ody Fraga, a hist\u00f3ria acompanha um grupo de garotas que, enfrentando dificuldades financeiras e prestes a serem despejadas, tra\u00e7am um plano para atrair um marinheiro. Seduzindo-o, elas o convencem a lev\u00e1-las para um rod\u00edzio, onde aproveitam sua generosidade enquanto ele compartilha hist\u00f3rias cativantes de suas aventuras. Encantado pela companhia, o marinheiro aceita o convite para ir at\u00e9 a casa delas, onde a sedu\u00e7\u00e3o aumenta de intensidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, em uma conversa privada, as garotas revelam o verdadeiro motivo de sua aproxima\u00e7\u00e3o: a necessidade desesperada de dinheiro para evitar o despejo. Movidas pela press\u00e3o de sua situa\u00e7\u00e3o, elas decidem dormir com ele at\u00e9 mat\u00e1-lo por exaust\u00e3o. As jovens matam o marinheiro, roubam seu dinheiro e deixam a cena.<\/p>\n\n\n\n<p>A pornochanchada foi um dos g\u00eaneros mais populares do cinema brasileiro entre as d\u00e9cadas de 1970 e in\u00edcio dos anos 1980, caracterizado pela mistura de com\u00e9dia, erotismo e s\u00e1tira social. Esse termo se refere a uma combina\u00e7\u00e3o entre o humor da \u201cchanchada\u201d \u2013 com\u00e9dias leves que j\u00e1 faziam parte do cinema nacional desde os anos 1950 \u2013 e o conte\u00fado sexual sugestivo, que ganhou destaque em um per\u00edodo de crescente permissividade moral e explora\u00e7\u00e3o de temas tabus no Brasil. A pornochanchada floresceu durante um momento pol\u00edtico conturbado no pa\u00eds, no auge da ditadura militar (1964-1985). Apesar do regime autorit\u00e1rio, que controlava e censurava a imprensa e outros meios de comunica\u00e7\u00e3o, o cinema conseguiu espa\u00e7o para produzir filmes com um tom mais ousado, focados em temas sexuais e comportamentos que escapavam das normas tradicionais. A ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica da \u00e9poca, que enfrentava desafios de financiamento e distribui\u00e7\u00e3o, encontrou na pornochanchada um meio lucrativo e de f\u00e1cil apelo ao p\u00fablico, sendo exibida principalmente em cinemas de rua e periferias das grandes cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os Anos de Chumbo da ditadura militar no Brasil, quando vigorou o AI-5 (1968-1978), a censura foi uma das ferramentas mais poderosas utilizadas pelo regime para controlar a produ\u00e7\u00e3o cultural e garantir que os conte\u00fados veiculados estivessem de acordo com sua ideologia autorit\u00e1ria. O cinema, assim como outros meios de comunica\u00e7\u00e3o, foi fortemente vigiado e censurado, afetando tanto filmes considerados subversivos politicamente quanto obras que abordavam temas morais e sexuais.<\/p>\n\n\n\n<p>A censura no per\u00edodo da ditadura atingiu praticamente todas as formas de express\u00e3o art\u00edstica: m\u00fasica, teatro, literatura e, claro, o cinema. O AI-5 marcou o auge da repress\u00e3o, suspendendo direitos civis e impondo um controle mais severo sobre as manifesta\u00e7\u00f5es culturais. O governo militar criou diversos \u00f3rg\u00e3os encarregados de supervisionar e censurar qualquer produ\u00e7\u00e3o considerada ofensiva ou perigosa aos valores da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>No cinema, os censores estavam particularmente atentos a filmes que criticassem o governo, que promovessem ideologias comunistas, socialistas ou progressistas, ou que pudessem ser interpretados como questionamentos ao regime militar eram frequentemente banidos, mutilados ou proibidos. Al\u00e9m de filmes com conte\u00fado sexual expl\u00edcito, insinua\u00e7\u00f5es ou cr\u00edticas \u00e0 moral e aos bons costumes da \u00e9poca eram igualmente visados. Embora o per\u00edodo tenha visto um aumento das produ\u00e7\u00f5es er\u00f3ticas, essas obras precisavam seguir uma linha mais suave, sem jamais ultrapassar os limites impostos pelo regime.<\/p>\n\n\n\n<p>O controle era exercido por meio da Divis\u00e3o de Censura de Divers\u00f5es P\u00fablicas (DCDP), que revisava os roteiros antes das filmagens e os filmes finalizados antes de sua distribui\u00e7\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, muitos cineastas eram perseguidos, presos ou exilados, como Glauber Rocha, porta-voz do Cinema Novo e assim sendo uma das vozes mais cr\u00edticas da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Os filmes de pornochanchada eram de baixo or\u00e7amento e tinham roteiros simples, muitas vezes baseados em mal-entendidos, situa\u00e7\u00f5es c\u00f4micas e rela\u00e7\u00f5es amorosas. Embora o erotismo fosse central, as cenas de nudez e insinua\u00e7\u00f5es sexuais n\u00e3o eram expl\u00edcitas, permanecendo mais no terreno da sugest\u00e3o e da provoca\u00e7\u00e3o do que da pornografia propriamente dita. O g\u00eanero explorava as fantasias e desejos reprimidos da sociedade, satirizando figuras da classe m\u00e9dia, padr\u00f5es de comportamento moral e a hipocrisia sexual da \u00e9poca. Al\u00e9m disso, a pornochanchada era conhecida por retratar as rela\u00e7\u00f5es de poder entre homens e mulheres de forma caricatural, o que muitas vezes refor\u00e7ava estere\u00f3tipos de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>As pornochanchadas alcan\u00e7aram um sucesso comercial consider\u00e1vel, especialmente em um momento em que o cinema brasileiro enfrentava dificuldades com grandes produ\u00e7\u00f5es. Esses filmes se destacaram principalmente em cinemas de bairro e nas periferias, onde a demanda por entretenimento acess\u00edvel e descomplicado era grande. Em muitas localidades, esses filmes foram respons\u00e1veis por manter as salas de cinema em funcionamento, j\u00e1 que o p\u00fablico lotava as sess\u00f5es para ver o que havia de mais &#8220;ousado&#8221; no cinema nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Os exibidores de cinema tamb\u00e9m favoreciam as pornochanchadas, pois sabiam que esses filmes garantiriam boa bilheteria, independentemente da qualidade art\u00edstica ou t\u00e9cnica. O ciclo de filmes er\u00f3ticos se sustentou por essa alian\u00e7a entre produtores e exibidores, criando uma esp\u00e9cie de ind\u00fastria paralela ao cinema oficial, mais voltado para festivais e financiamento estatal.<\/p>\n\n\n\n<p>O ciclo de filmes er\u00f3ticos que emergiu no Brasil durante as d\u00e9cadas de 1970 e 1980 se inseriu profundamente na l\u00f3gica do mercado cinematogr\u00e1fico da \u00e9poca, particularmente na Boca do Lixo, uma regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo que se tornou o principal polo de produ\u00e7\u00e3o de cinema popular no Brasil. A Boca do Lixo, localizada no bairro da Luz, desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento de filmes de baixo or\u00e7amento, especialmente as chamadas pornochanchadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Boca do Lixo era o centro nervoso dessa produ\u00e7\u00e3o em massa. Com pouca infraestrutura e sem o glamour dos grandes est\u00fadios, a regi\u00e3o era marcada por pequenas produtoras que faziam cinema sob a l\u00f3gica da economia de mercado. Muitas dessas produtoras focavam na quantidade e rapidez das filmagens, com roteiros que podiam ser reciclados, atores que circulavam de um projeto para outro, e diretores que acumulavam fun\u00e7\u00f5es para economizar custos.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o na Boca do Lixo seguiu um modelo industrial no qual o objetivo principal era atender \u00e0 demanda do mercado, e n\u00e3o necessariamente criar filmes que fossem respeitados pela cr\u00edtica ou premiados internacionalmente. A produ\u00e7\u00e3o de filmes er\u00f3ticos, especialmente as pornochanchadas, foi uma resposta direta \u00e0 press\u00e3o comercial de produzir conte\u00fado de baixo custo com alto retorno.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos cineastas que trabalharam na Boca do Lixo, como David Cardoso, Ody Fraga e Jean Garrett, compreenderam perfeitamente essa l\u00f3gica e passaram a dominar esse ciclo de filmes. Com or\u00e7amentos baixos e equipes reduzidas, eles conseguiam finalizar filmes em poucas semanas, mantendo um fluxo constante de lan\u00e7amentos. A distribui\u00e7\u00e3o desses filmes era facilitada pela pr\u00f3pria localiza\u00e7\u00e3o da Boca do Lixo, pr\u00f3xima \u00e0s esta\u00e7\u00f5es de trem e \u00f4nibus, o que facilitava o envio das c\u00f3pias para cinemas de outras cidades e estados.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de seu sucesso popular, a pornochanchada enfrentava resist\u00eancia da cr\u00edtica e de setores mais conservadores da sociedade, que a viam como uma forma de degrada\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro. Muitos intelectuais e cineastas do Cinema Novo, movimento que buscava um cinema autoral e de cr\u00edtica social profunda, menosprezavam a Boca do Lixo e seus produtos, considerando-os excessivamente comerciais e desprovidos de valor art\u00edstico.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a resili\u00eancia comercial desse ciclo provou sua import\u00e2ncia para a economia do cinema nacional. Ao preencher o v\u00e1cuo deixado pelas grandes produ\u00e7\u00f5es, os filmes er\u00f3ticos geraram receita, mantiveram empregos no setor e revelaram novos talentos da atua\u00e7\u00e3o e da dire\u00e7\u00e3o. A Boca do Lixo se consolidou como um centro de produ\u00e7\u00e3o independente, adaptando-se \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de mercado e provando que o cinema brasileiro poderia sobreviver mesmo sem grandes or\u00e7amentos ou apoio estatal. Apesar da repress\u00e3o e do controle rigoroso, o regime militar tamb\u00e9m reconheceu a import\u00e2ncia do cinema como uma ferramenta de propaganda e de constru\u00e7\u00e3o da imagem nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse contexto que, em 1969, o governo criou a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes), estatal respons\u00e1vel por apoiar, produzir, financiar e distribuir filmes brasileiros. A Embrafilme tinha como objetivo inicial fortalecer a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica nacional, que sofria com a concorr\u00eancia de filmes estrangeiros, principalmente de Hollywood. O governo militar, interessado em usar o cinema como meio de construir uma identidade nacional e promover uma imagem positiva do Brasil no exterior, percebeu a necessidade de organizar e incentivar o setor.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a Embrafilme tenha sido criada com o objetivo de impulsionar o cinema brasileiro, seu papel foi ambivalente. Por um lado, forneceu apoio financeiro e estrutural a muitos cineastas, promovendo a produ\u00e7\u00e3o de filmes que de outra forma n\u00e3o seriam poss\u00edveis. Isso permitiu a sobreviv\u00eancia da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica nacional, garantindo a produ\u00e7\u00e3o de filmes de alta qualidade t\u00e9cnica e art\u00edstica, especialmente nos anos 1970 e in\u00edcio dos anos 1980.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a Embrafilme operava sob a vigil\u00e2ncia do governo militar, o que significava que suas pol\u00edticas de financiamento tamb\u00e9m estavam alinhadas com os interesses do regime. A estatal financiava filmes que n\u00e3o fossem considerados subversivos ou que pudessem ser vistos como uma amea\u00e7a \u00e0 ordem p\u00fablica e \u00e0 moralidade. Obras com cr\u00edticas expl\u00edcitas ao governo ou que promoviam ideais progressistas eram, muitas vezes, exclu\u00eddas dos apoios financeiros, obrigando cineastas a buscar formas alternativas de financiamento ou a abandonar projetos.<\/p>\n\n\n\n<p>A burocracia estatal tamb\u00e9m era um obst\u00e1culo para muitos cineastas, que tinham que passar por processos r\u00edgidos e demorados para conseguir aprova\u00e7\u00e3o para suas obras. Al\u00e9m disso, a distribui\u00e7\u00e3o dos filmes financiados pela Embrafilme estava igualmente sujeita ao controle governamental. Filmes que contrariavam os interesses do regime eram bloqueados ou tinham sua distribui\u00e7\u00e3o limitada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos 1970, a Embrafilme ajudou a consolidar a carreira de diversos cineastas e a produzir uma variedade de filmes importantes para o cinema brasileiro. Entre as produ\u00e7\u00f5es de destaque que receberam financiamento da estatal est\u00e3o filmes de cineastas oriundos do Cinema Novo, bem como dramas e com\u00e9dias que abordavam temas mais leves, como as pornochanchadas, que, apesar de seu conte\u00fado er\u00f3tico, frequentemente escapavam de uma censura mais severa por n\u00e3o apresentarem cr\u00edticas diretas ao regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Em paralelo, filmes de diretores politicamente engajados, como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra e Cac\u00e1 Diegues, tamb\u00e9m conseguiram financiamento, embora com frequ\u00eancia tivessem que lidar com a censura para evitar maiores complica\u00e7\u00f5es com o governo. A cria\u00e7\u00e3o da Embrafilme ajudou a profissionalizar o cinema brasileiro, possibilitando que muitos filmes fossem produzidos em condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas melhores, com maior acesso a recursos financeiros e distribui\u00e7\u00e3o mais ampla. No entanto, a dualidade entre financiamento e controle impedia que o cinema se desenvolvesse plenamente como uma arte livre e independente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a censura inibia a express\u00e3o criativa e mantinha muitos cineastas sob constante vigil\u00e2ncia, for\u00e7ando-os a adotar estrat\u00e9gias sutis para driblar o controle do regime. Isso resultou em uma produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica paradoxal: filmes com uma produ\u00e7\u00e3o de alta qualidade, mas que, muitas vezes, careciam de liberdade para abordar quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais de forma aberta e direta.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, o sucesso das pornochanchadas come\u00e7ou a diminuir, especialmente com a chegada do cinema pornogr\u00e1fico expl\u00edcito, que passou a atrair parte do p\u00fablico interessado em erotismo. Al\u00e9m disso, a televis\u00e3o tornou-se um concorrente forte, oferecendo entretenimento mais acess\u00edvel e variado para o p\u00fablico. Nos anos 1980, a Boca do Lixo perdeu sua for\u00e7a como polo cinematogr\u00e1fico, mas seu impacto no cinema popular brasileiro continuou.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1980, com a gradual abertura pol\u00edtica e a transi\u00e7\u00e3o para a Nova Rep\u00fablica, a Embrafilme come\u00e7ou a perder seu protagonismo. A empresa enfrentou problemas financeiros e acusa\u00e7\u00f5es de m\u00e1 gest\u00e3o, al\u00e9m de uma mudan\u00e7a no panorama cultural e econ\u00f4mico do Brasil. A estatal foi extinta em 1990, no governo Collor, junto com outras pol\u00edticas de apoio \u00e0 cultura, o que resultou em uma crise no cinema nacional na d\u00e9cada seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>A censura durante os Anos de Chumbo e a cria\u00e7\u00e3o da Embrafilme refletem a tens\u00e3o entre repress\u00e3o e fomento \u00e0 cultura durante a ditadura militar no Brasil. Enquanto o governo utilizava a censura para controlar o conte\u00fado ideol\u00f3gico das obras, a Embrafilme servia como um instrumento de promo\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro, mas sempre sob as limita\u00e7\u00f5es impostas pelo regime. O legado da Embrafilme \u00e9 ambivalente, deixando tanto o impacto positivo de ter impulsionado a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica nacional quanto as marcas da censura e da repress\u00e3o cultural da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>O ciclo de filmes er\u00f3ticos da Boca do Lixo pode ser visto como uma resposta pragm\u00e1tica \u00e0 l\u00f3gica de mercado em um momento de restri\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais. Embora muitas vezes subestimado pela cr\u00edtica, ele representou um cap\u00edtulo importante da hist\u00f3ria do cinema brasileiro, tanto pela sua capacidade de gerar lucro quanto por sua influ\u00eancia cultural. Esse per\u00edodo demonstrou que o cinema nacional, mesmo sem grandes recursos, conseguia se adaptar e sobreviver, muitas vezes desafiando as expectativas e as conven\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Texto concebido inicialmente como requisito em atividade da disciplina Cinema Brasileiro do curso de Cinema da FAAP. Indica\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o, Prof. Humberto Silva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Biografia<\/strong><br>Fl\u00e1via Paiva \u00e9 estudante de Cinema, atualmente no s\u00e9timo semestre na FAAP. Nascida em Salvador, BA, mora em S\u00e3o Paulo h\u00e1 tr\u00eas anos e atua como estagi\u00e1ria na equipe de conte\u00fado da r\u00e1dio Alpha FM.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1via Paiva | Se\u00e7\u00e3o Novos Olhares<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-695","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teoria-e-historia"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=695"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/695\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":698,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/695\/revisions\/698"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mnemocine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}