{"id":835,"date":"2025-06-10T04:27:58","date_gmt":"2025-06-10T07:27:58","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=835"},"modified":"2025-09-10T09:54:04","modified_gmt":"2025-09-10T12:54:04","slug":"mostra-dialetico-carrego-o-esporao-e-o-ovo-fucine-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=835","title":{"rendered":"Mostra &#8220;Dial\u00e9tico: carrego o espor\u00e3o e o ovo&#8221; | FUCINE 2025"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Miguel Singer<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na abertura da segunda edi\u00e7\u00e3o do Festival de Cinema Universit\u00e1rio (FUCINE), foram exibidas duas mostras que comp\u00f5em o conjunto intitulado \u201cDial\u00e9tico: carrego o espor\u00e3o e o ovo\u201d. Os filmes desse primeiro dia, 13\/05, s\u00e3o, em sua maioria, experimentais: filmes-ensaio, <em>found footage<\/em>, experimenta\u00e7\u00f5es com diferentes materialidades e linguagens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os 16 curtas programados para aquela noite, n\u00e3o imaginava que nenhum deles iria superar a condi\u00e7\u00e3o, por vezes burocratizante, do \u201cfilme universit\u00e1rio\u201d. A perspectiva do amadorismo n\u00e3o me incomoda. Muito pelo contr\u00e1rio, o que me aflige, quando se discute cinema universit\u00e1rio, \u00e9 a perspectiva de uma gera\u00e7\u00e3o de jovens cineastas que, no momento em que enfrentam poucas restri\u00e7\u00f5es, sofrem de crises de imagina\u00e7\u00e3o. Felizmente, a tela se acendeu e um estranho <em>mockumentary <\/em>em ingl\u00eas passou diante dos meus olhos. \u00c9 assim que se inicia <em>P\u00e1lido Ponto Vermelho<\/em> (UFPA), de Kalel Pessoa, Lucas Parij\u00f3s e Arthur Oliveira, filme paraense <em>sci-fi<\/em>, horror, regional, c\u00f3smico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa n\u00e3o \u00e9 nada simples: no campus da Universidade Federal do Par\u00e1, em 1991, surge, aparentemente do espa\u00e7o, um grande objeto triangular escarlate formado por uma liga de um metal desconhecido e carne humana. A trama dist\u00f3pica se desenrola por meio do <em>found footage<\/em>, sendo composto por imagens de arquivo \u201cadulteradas\u201d, simula\u00e7\u00f5es de telejornais e grava\u00e7\u00f5es em v\u00eddeo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>found footage<\/em> se tornou ic\u00f4nico no g\u00eanero terror por conta de filmes como <em>A Bruxa de Blair <\/em>(1999, Eduardo S\u00e1nchez e Daniel Myrick) e <em>Cloverfield <\/em>(2008, Matt Reeves). Ambos, como no filme da UFPA, utilizam do artif\u00edcio para estabelecer um certo realismo dentro da situa\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica em que a trama se desenrola. <em>A Bruxa de Blair<\/em> faz uso dessas imagens para construir um microcosmos cr\u00edvel, nas condi\u00e7\u00f5es do amadorismo, por meio da identifica\u00e7\u00e3o e do espa\u00e7o \u00edntimo. Utilizando-se em abund\u00e2ncia da c\u00e2mera em primeira pessoa. Seja por quest\u00f5es financeiras da produ\u00e7\u00e3o ou por escolha autoral, <em>A Bruxa de Blair<\/em> oculta a antagonista. J\u00e1, <em>P\u00e1lido Ponto Vermelho<\/em> mostra o obelisco que cai na universidade, a nuvem vermelha que descende sobre Bel\u00e9m. No filme americano, o <em>found footage<\/em> e a instabilidade da c\u00e2mera subjetiva formam dispositivos que ocultam elementos custosos do filme, sem sacrificar sua verossimilhan\u00e7a. J\u00e1 o filme paraense usa do <em>found footage<\/em> e do v\u00eddeo, justificado pelo tempo dieg\u00e9tico (anos noventa), para <strong>mostrar<\/strong> seus elementos mais custosos. O tratamento digital usado em v\u00eddeo, talvez pela \u201cbaixa qualidade\u201d do material, confecciona uma imagem cr\u00edvel e, pode-se supor, com relativo baixo custo de produ\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>P\u00e1lido Ponto Vermelho<\/em>, como o t\u00edtulo indica, tem como inten\u00e7\u00e3o um escopo maior. O artif\u00edcio aqui n\u00e3o opera na identifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o busca um olhar mais \u00edntimo entre espectador e filme, mas sim cria uma teia de representa\u00e7\u00f5es e deturpa\u00e7\u00f5es (de imagens reais) do ciclo midi\u00e1tico. O in\u00edcio do filme, em ingl\u00eas, parece, de forma ir\u00f4nica, querer afirmar a veracidade das imagens que seguir\u00e3o. Afinal, o <em>mockumentary <\/em>n\u00e3o busca apenas enganar e faz\u00ea-lo acreditar estar vendo imagens reais (o que seria, ainda mais nesse caso, imposs\u00edvel). O que o filme faz, seguindo uma tradi\u00e7\u00e3o dos <em>mockumentary, <\/em>&nbsp;\u00e9 satirizar a pr\u00f3pria credulidade que se tem com as imagens televisivas e o circo midi\u00e1tico que se cria ao redor delas, de uma cat\u00e1strofe.&nbsp; O espectador preenche as lacunas dadas pelas imagens jornal\u00edsticas: o horror n\u00e3o precisa ser mostrado; apenas sugerido, ele existe no extracampo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme se estrutura em camadas sucessivas de afastamento. No in\u00edcio, um falso document\u00e1rio em ingl\u00eas \u2014 sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o ser humano e a natureza \u2014 j\u00e1 antecipa a dimens\u00e3o c\u00f3smica que o filme adotar\u00e1. Em seguida, a descoberta do objeto e sua manipula\u00e7\u00e3o pelos estudantes, o que gera uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia: a cidade de Bel\u00e9m \u00e9 tomada por uma nuvem vermelha; o presidente aparece em um pronunciamento desesperan\u00e7oso; e, finalmente, a Terra inteira \u00e9 engolida por uma mancha escarlate. O desfecho nos projeta para o espa\u00e7o: ficamos diante da famosa imagem capturada pela sonda Voyager I, o \u201cP\u00e1lido Ponto Azul\u201d, feita a pedido de Carl Sagan. Se a imagem original era um alerta sobre a necessidade de preserva\u00e7\u00e3o do planeta, no filme ela perde qualquer qu\u00ea esperan\u00e7oso; nada mais pode ser mudado, tudo est\u00e1 perdido\u2026 \u00e9 um grande lembrete da nossa impot\u00eancia, seja na rela\u00e7\u00e3o ser humano-planeta ou espectador-filme.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por mais que o discurso ecol\u00f3gico esteja presente com for\u00e7a em <em>P\u00e1lido Ponto Vermelho<\/em>, a sua vit\u00f3ria real est\u00e1 nos pontos de vista. Os mecanismos (muito bem) utilizados do <em>found footage<\/em> permitem a um filme universit\u00e1rio, de uma regi\u00e3o perif\u00e9rica na produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica brasileira, a cria\u00e7\u00e3o de uma narrativa das maiores propor\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seguindo na categoria do experimental, o terceiro filme da noite, <em>Denominador Comum<\/em>, dirigido por Henrique Guimar\u00e3es, da FAAP, lida de forma muito interessante com a pel\u00edcula, com o Super 8. A imagem \u00e9 montada e deformada no tratamento digital, cor e forma se alteram, digitalizam-se, e no final s\u00e3o postas lado a lado com o mar. Faz pensar sobre o que vemos quando estamos diante de uma imagem projetada em 35mm e uma digital: afinal, qual seria a diferen\u00e7a material entre elas? Na proje\u00e7\u00e3o em pel\u00edcula estamos diante do qu\u00ea? Uma luz forte que atravessa aquela mat\u00e9ria sens\u00edvel e projeta uma sombra. Se antes a imagem tinha ru\u00eddo pr\u00f3prio, marcas de tempo, mat\u00e9ria; hoje, nas palavras de Abel Ferrara, vemos s\u00f3 o pixel, valores bin\u00e1rios, vemos uns e zeros. H\u00e1 uma polidez desmaterializada, completamente fluida. <em>Denominador Comum <\/em>olha de perto, destrinchando essas mat\u00e9rias f\u00edlmicas \u00e0 procura de texturas que elas cont\u00eam. E, nessa experimenta\u00e7\u00e3o, imagens das mais diversas, sons e formas criam uma plasticidade intrigante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 primeira vista, <em>Trivakra (UFF)<\/em>, de Sofia Angst, \u00e9 plasticidade pura. A imagem \u201ccrua\u201d mal \u00e9 mostrada, temos lampejos em meio a uma desintegra\u00e7\u00e3o completa de todo o campo f\u00edlmico. O frenesi e a viol\u00eancia do tratamento digital ofusca tudo &#8211; uma verdadeira overdose. Descamando todo o aspecto sensorial, percebemos um corpo sendo transfigurado. O dispositivo de Trivakra \u00e9 desconcertante e hiper-estimulante&nbsp; \u2013 a imagem se canibaliza; o uso do digital pulveriza o corpo humano e cria uma estranha combina\u00e7\u00e3o entre o espa\u00e7o biol\u00f3gico e o cibern\u00e9tico. A primeira imagem, a \u00fanica \u201c\u00edntegra\u201d que o filme nos mostra, \u00e9 um v\u00eddeo de um menino, exibido no visor de uma filmadora. No plano seguinte, manipulado digitalmente, uma menina trans (sup\u00f5e-se que a mesma mostrada anteriormente), aplica em si uma seringa de tratamento hormonal e, citando a pr\u00f3pria diretora, a matrix do g\u00eanero falha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<em>Trivakra <\/em>\u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia trans, habita um espa\u00e7o abstrato, da videoarte, em que a sensorialidade \u00e9 protagonista. O \u00eaxito maior do filme est\u00e1 nos seus artif\u00edcios, que se apoderam de tudo que \u00e9 visto. Artificiosamente artificial, Sofia Angst emprega t\u00e9cnicas de manipula\u00e7\u00e3o da imagem que me s\u00e3o in\u00e9ditas e indecifr\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferente dos curtas citados anteriormente, de car\u00e1ter mais experimental, <em>M\u00e1quina de Lazer<\/em>, de Italo Zaccharo (UFSC), \u00e9 um document\u00e1rio ensa\u00edstico, com narra\u00e7\u00e3o em primeira pessoa que d\u00e1 continuidade a um trabalho fotogr\u00e1fico realizado pelo diretor na sua cidade natal, Turvo (Santa Catarina). O diretor explora a simbiose homem-m\u00e1quina, a interdepend\u00eancia que se cria de um pelo o outro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Turvo, a planta\u00e7\u00e3o de arroz trouxe progresso e toda a cidade se entregou \u00e0s m\u00e1quinas, n\u00e3o s\u00f3 no trabalho, mas no tempo de lazer.&nbsp; Enquanto o trabalho \u00e9 \u00e1rduo, mec\u00e2nico e repetitivo, no \u00f3cio, o trabalhador busca liberdade total e adrenalina. Empinar motocicletas, fazer rachas e travar corridas com tratores tunados. Em certa cena, vemos, repetidamente, um motoqueiro empinando sua moto. A \u00faltima repeti\u00e7\u00e3o do plano termina em um corte brusco, sugerindo um poss\u00edvel acidente. Concomitantemente, o motoqueiro detalha as precau\u00e7\u00f5es que toma. O contraste entre o discurso racional e a a\u00e7\u00e3o imprudente exp\u00f5e o comportamento obsessivo desses homens, cegos frente aos perigos de seus prazeres. <em>M\u00e1quina de Lazer<\/em> poderia muito bem ser resumido nessa senten\u00e7a: se vive para trabalhar ou se trabalha para viver?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, a \u00faltima exibi\u00e7\u00e3o da noite foi uma surpresa. <em>A \u00daltima Visita<\/em>, de Lucas Tavares e Thomas Kenji (FAAP), parte de uma premissa simples: um senhor de idade aproveita, de forma prosaica, os \u00faltimos momentos de sua vida campestre \u2013 contempla a natureza, os seus arredores. E ent\u00e3o parte para um encontro com a morte personificada. Existe apenas um asterisco: o filme inteiro foi realizado no jogo Minecraft. A terra, o sol, tudo \u00e9 quadrado. Ainda assim, o curta n\u00e3o perde sua sensibilidade, gra\u00e7as ao cuidado com a decupagem. O discurso existencialista, casado com as texturas do jogo, cria um contraste interessante. Se espera certa comicidade, mas o que se recebe \u00e9 um discurso carregado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os filmes dessa exibi\u00e7\u00e3o do FUCINE foram prova do potencial imaginativo do cinema jovem que, aliado com as t\u00e9cnicas e artif\u00edcios da atualidade, se mostra capaz de superar as limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do contexto universit\u00e1rio em que foram realizados. \u00c9 por meio do <em>found footage<\/em>, do v\u00eddeo game e da manipula\u00e7\u00e3o digital que novas texturas s\u00e3o criadas e os cineastas se permitem ser radicalmente imaginativos, enfrentando os entraves que os restringem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Miguel Singer \u00e9 estudante de Cinema na FAAP, em S\u00e3o Paulo. Apaixonado por cinema e fotografia, explora tanto a escrita sobre esses temas quanto a realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordena\u00e7\u00e3o e Idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00e3o e Edi\u00e7\u00e3o: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik, Luca Scupino e Gabriela Saragosa<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o Adjunta e Assistente de Produ\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik e Caio Cavalcanti<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Miguel Singer Na abertura da segunda edi\u00e7\u00e3o do Festival de Cinema Universit\u00e1rio (FUCINE), foram exibidas duas mostras que comp\u00f5em o conjunto intitulado \u201cDial\u00e9tico: carrego o espor\u00e3o e o ovo\u201d. 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