{"id":837,"date":"2025-06-10T02:37:25","date_gmt":"2025-06-10T05:37:25","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=837"},"modified":"2025-09-10T09:54:29","modified_gmt":"2025-09-10T12:54:29","slug":"mostra-a-pele-em-que-habito-densa-e-impermeavel-fucine-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=837","title":{"rendered":"Mostra &#8220;A Pele em que Habito: Densa e Imperme\u00e1vel&#8221; | FUCINE 2025"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Caio Cavalcanti<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo dia do FUCINE (Festival Universit\u00e1rio de Cinema) exibiu a mostra <em>A Pele em que Habito: Densa e Imperme\u00e1vel<\/em>. Destacando a experi\u00eancia humana individual, a mostra foi dividida em dois momentos: a sess\u00e3o 3, com filmes que tratam da subjetividade e a percep\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, e a sess\u00e3o 4, com&nbsp; curtas que abordaram a materialidade do corpo humano e os seus desdobramentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Bitoquinha<\/em> (Giordano Gadelha, USP\/SP) abriu a noite com uma hist\u00f3ria de amor entre duas jovens que se passa numa mercearia durante os anos 2000. \u00c9 uma hist\u00f3ria de amor fofa, em que as duas personagens principais tem suas breves intera\u00e7\u00f5es atrapalhadas pelas circunst\u00e2ncias da vida, como a m\u00e3e religiosa e a dona da mercearia que ambienta a hist\u00f3ria. Este curta, a meu ver, por ser realizado atrav\u00e9s de um ponto de vista \u201croteiroc\u00eantrico\u201d, ou seja, tem como seu foco o puro contar de uma hist\u00f3ria, n\u00e3o consegue extrair o m\u00e1ximo do formato curta-metragem e da linguagem cinematogr\u00e1fica como um todo, sendo marcado por formalismos v\u00e3os como a janela 4:3 e a reconstru\u00e7\u00e3o dos anos 2000 na dire\u00e7\u00e3o de arte, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o elementos que no fundo n\u00e3o colaboram de fato para uma maior imers\u00e3o na narrativa e sua mise-en-sc\u00e8ne, tendo em vista que afetam apenas a experi\u00eancia est\u00e9tica do espectador e n\u00e3o entram em conjunto com a matriz efetiva dos temas trabalhados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A meu ver, o fato da hist\u00f3ria se passar em 2006, facilmente identific\u00e1vel pelo \u00e1lbum de figurinhas da copa do mundo daquele ano na parede, do filme se passar em janela 4:3 n\u00e3o contribuem para o drama daquelas personagens, ou mesmo a constru\u00e7\u00e3o do relacionamento e sua viv\u00eancia em tela s\u00e3o apenas ru\u00eddos visuais que nos afastam do essencial. O desenvolvimento narrativo em tela desse roteiro \u00e9, nesse sentido, sabotado por esses formalismos, que n\u00e3o contribuem para constru\u00e7\u00e3o de sua linguagem cinematogr\u00e1fica, e seria muito mais favorecido por artif\u00edcios como um uso de cortes e <em>raccords <\/em>melhor trabalhados, a gosto da realiza\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Todos os Homens do Magazine <\/em>(Ot\u00e1vio Santana, UFAL\/AL) conta a hist\u00f3ria de um homem que busca vingan\u00e7a contra aqueles que o enganaram ao faz\u00ea-lo investir&nbsp; num&nbsp; portf\u00f3lio de a\u00e7\u00f5es que logo despencaria. A beleza desse filme, a meu ver, vem de uma paix\u00e3o latente pelo cinema em primeiro lugar, um desprendido desejo de se fazer cinema no qual sentimento precede a t\u00e9cnica e n\u00e3o procura&nbsp; argumentar alguma universalidade sobre um projeto puramente pessoal. Projeto esse que n\u00e3o necessita de universalidade, necessita apenas de ser feito pois esse \u00e9 o escopo que o pr\u00f3prio realizador se imp\u00f5e. Nesse sentido, <em>Todos os Homens\u2026<\/em>, claramente inspirado num cinema americano de a\u00e7\u00e3o e tendo em com <em>Pulp Fiction<\/em> e Quentin Tarantino grandes e evidentes inspira\u00e7\u00f5es, prospera, pois o filme e a dire\u00e7\u00e3o tem plena no\u00e7\u00e3o de sua realidade material e n\u00e3o buscam construir&nbsp; uma produ\u00e7\u00e3o hollywoodiana e mimetizar suas refer\u00eancias, mas sim criar uma s\u00edntese de que una em conson\u00e2ncia o repert\u00f3rio e o desejo bruto do cineasta de fazer cinema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A falta de recursos, seja ela t\u00e9cnica ou financeira, emancipa a criatividade, emancipa o&nbsp; fetichismo t\u00e9cnico \u2013 a vontade de fazer cinema para usar equipamentos e n\u00e3o de usar equipamentos para fazer cinema \u2013, esse c\u00e2ncer que assola as universidades de cinema, e nos traz as melhores solu\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e criativas. Gravar em <em>shoppings, <\/em>em avenidas movimentadas, na casa dos amigos, em canaviais, bares, ambienta\u00e7\u00f5es essas de v\u00e1rias das cenas que desenvolvem o projeto de vingan\u00e7a deste homem sem nome contra o guru que o fez perder tudo, sem o apoio de uma equipe de produ\u00e7\u00e3o profissional por tr\u00e1s \u00e9 um esfor\u00e7o louv\u00e1vel, e um esfor\u00e7o que claramente s\u00f3 pode vir da paix\u00e3o pelo cinema como um todo, do desejo percept\u00edvel de se fazer cinema como um imperativo. O que se encaixa perfeitamente com a hist\u00f3ria de <em>Todos os Homens, <\/em>cuja narrativa visual \u00e9 feita para as grandes telas, tendo em vista todo o arcabou\u00e7o de refer\u00eancias imag\u00e9ticas, que quase podemos chamar de maneirista, que permeiam toda a <em>mise-en-sc\u00e8ne<\/em>, os elementos de autoconsci\u00eancia material, e o projeto de filme proposto pela realiza\u00e7\u00e3o como um todo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa ainda \u00e9 corroborada pela quantidade de refer\u00eancias a nossa realidade material contempor\u00e2nea como brasileiros em 2025, como os gurus de enriquecimento que empestam as redes sociais, trazendo esse mesmo arcabou\u00e7o de refer\u00eancias para perto do espectador e assim deixando a imers\u00e3o emocional ainda mais apertada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses dois exemplos sumarizam bem a heterogeneidade que aben\u00e7oa o circuito universit\u00e1rio de cinema e o mero fato de dois filmes t\u00e3o diferentes terem sido feitos, da equipe ter tido a experi\u00eancia e garantido aprendizado, e ver uma diversidade t\u00e3o grande na uni\u00e3o de curtas nas sess\u00f5es do festival sempre \u00e9 uma experi\u00eancia frut\u00edfera para a reflex\u00e3o visando nossa produ\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caio Cavalcanti \u00e9 alagoano morando e estudando cinema em S\u00e3o Paulo. Apaixonado por m\u00fasica, escrita e cinema, especialmente pelas \u00e1reas de Hist\u00f3ria do Cinema e Cr\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordena\u00e7\u00e3o e Idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00e3o e Edi\u00e7\u00e3o: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik, Luca Scupino e Gabriela Saragosa<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o Adjunta e Assistente de Produ\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik e Caio Cavalcanti<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Caio Cavalcanti O segundo dia do FUCINE (Festival Universit\u00e1rio de Cinema) exibiu a mostra A Pele em que Habito: Densa e Imperme\u00e1vel. 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