{"id":840,"date":"2025-06-10T04:28:43","date_gmt":"2025-06-10T07:28:43","guid":{"rendered":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=840"},"modified":"2025-09-10T09:50:57","modified_gmt":"2025-09-10T12:50:57","slug":"mostra-nao-ser-bico-de-um-calda-de-outro-fucine-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mnemocine.com.br\/?p=840","title":{"rendered":"Mostra &#8220;N\u00e3o ser: bico de um, calda de outro&#8221; | FUCINE 2025"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Beatriz Panico<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua terceira edi\u00e7\u00e3o, o Festival Universit\u00e1rio de Cinema FUCINE reafirma seu compromisso em valorizar o audiovisual como ferramenta de express\u00e3o, unindo obras de diferentes estados do Brasil. Promovendo um espa\u00e7o para novos olhares e narrativas plurais, o festival se consolida como mecanismo potente para divulgar a diversidade criativa exibida no cinema universit\u00e1rio. A sess\u00e3o exibida no dia 15 de maio reuniu curtas-metragens que, por diversos modos, exploraram com sensibilidade temas da identidade contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Angela Davis, Bell Hooks, L\u00e9lia Gonzales, Alaide Costa e Nina Simone. Intelectuais, artistas e cantoras cujos trabalhos apresentaram um ponto de virada na produ\u00e7\u00e3o cultural humana. O que todas t\u00eam em comum? A import\u00e2ncia que apresentaram para a evolu\u00e7\u00e3o dos movimentos feministas e antirracistas. No entanto, &#8220;Desconstruindo Lene<em>&#8220;<\/em>, de Guilherme Maia, estabelece mais uma conex\u00e3o entre as figuras: todas foram apresentadas pela primeira vez \u00e0 Lindiomar \u201cLene\u201d Ribeiro durante a extens\u00e3o do curta documental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo ap\u00f3s a chegada da equipe na casa de Lindiomar, quando perguntada sobre sua orienta\u00e7\u00e3o sexual, ela responde: \u201cSou vi\u00fava\u201d. Apesar do tom humor\u00edstico, esse momento traz o cerne da cr\u00edtica que o filme&nbsp; se prop\u00f5e a fazer: conscientizar&nbsp; e expandir os horizontes de uma mulher que, como a maior parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, n\u00e3o tem acesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cultural por conta da desigualdade social presente no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conduta diante dessa tentativa de esclarecimento se baseia na leitura de um manifesto que diz respeito \u00e0 representa\u00e7\u00e3o negra na hist\u00f3ria da arte brasileira. O momento \u00e9 registrado em&nbsp; planos fechados que capturam as rea\u00e7\u00f5es de Lindiomar diante do que \u00e9 lido. Os enquadramentos&nbsp; fogem do ordin\u00e1rio ao explorar \u00e2ngulos tortos, contra-plong\u00e9es da entrevistadora e invers\u00f5es de ponta cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grande destaque do filme, no entanto, \u00e9 a sua montagem. Logo no in\u00edcio, os cr\u00e9ditos s\u00e3o exibidos em&nbsp; uma sequ\u00eancia r\u00e1pida de cores fortes e chamativas, que contrastam com o preto e branco de boa parte do material filmado. Ocasionalmente, os relatos de Lindiomar tamb\u00e9m s\u00e3o interrompidos por cores e declara\u00e7\u00f5es dos autores sobre suas escolhas art\u00edsticas. Durante um momento do relato, o boom, equipamento utilizado para a capta\u00e7\u00e3o de som, aparece em plano, sendo logo interrompido pela frase \u201cO boom foi proposital\u201d, escrita sobre uma tela branca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse momento tamb\u00e9m revela outra escolha interessante por parte da equipe: a decis\u00e3o de n\u00e3o s\u00f3 manter os erros de grava\u00e7\u00e3o, mas incorpor\u00e1-los \u00e0&nbsp; linguagem do projeto. Assim, os autores se inserem na pr\u00f3pria obra, o que atua como um mecanismo de humaniza\u00e7\u00e3o das pessoas por tr\u00e1s da c\u00e2mera. Muitas das vezes, document\u00e1rios apresentam uma dist\u00e2ncia entre o diretor e o objeto. Essa dist\u00e2ncia n\u00e3o cabe no contexto espec\u00edfico de &#8220;Desconstruindo Lene\u201d que, pela politiza\u00e7\u00e3o proposta, exige uma abordagem mais pr\u00f3xima e cuidadosa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 certo grau, seria poss\u00edvel argumentar que o curta se preocupa excessivamente com a exposi\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias \u00e0 Lindiomar, a ponto de que sua pr\u00f3pria experi\u00eancia \u00e9 deixada de lado. Nos \u00faltimos momentos do filme, por\u00e9m, a equipe revela ter entregue \u00e0 Lene uma filmadora, ap\u00f3s o processo de entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que pode parecer uma decis\u00e3o sem import\u00e2ncia funciona como uma a\u00e7\u00e3o poderosa por fornecer \u00e0 Lene uma ferramenta de controle sobre a sua narrativa. Partindo de uma iniciativa pr\u00f3pria, as imagens revelam a vis\u00e3o de mundo de Lindiomar, agora influenciada por novas refer\u00eancias, o que atribui ao filme a sensibilidade rara de se preocupar com&nbsp; a perspectiva de um algu\u00e9m que pertence a uma realidade diferente \u00e0 dos pr\u00f3prios autores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica entre o tom de \u201cDesconstruindo Lene\u201d e o do curta-metragem exibido logo em seguida: a fic\u00e7\u00e3o de Mia Lima Rocha, \u201c\u00c9 Fundamental Te Ter Por Perto\u201d. Sob uma perspectiva centrada na experi\u00eancia feminina, o curta recorre ao humor como ferramenta para abordar, de forma cr\u00edtica, a tem\u00e1tica do ass\u00e9dio. No entanto, a cr\u00edtica constru\u00edda opta por uma conduta diferente, se distanciando do convencional na retrata\u00e7\u00e3o do assunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo no primeiro momento, o espectador \u00e9 inserido na discuss\u00e3o entre dois jovens amigos, Bia e Bruno, em um restaurante. O motivo da discuss\u00e3o? A forma como Bruno lidou com uma situa\u00e7\u00e3o em que a amiga se encontrava sendo assediada por um homem desconhecido, tendo optado por intervir ao inv\u00e9s de ter deixado Bia lidar com a quest\u00e3o sozinha. A partir de tal premissa, a dire\u00e7\u00e3o opta por explorar uma perspectiva diferente, problematizando n\u00e3o s\u00f3 a pr\u00e1tica do ass\u00e9dio em si, mas principalmente a interven\u00e7\u00e3o masculina em um momento que n\u00e3o lhe diz respeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O inc\u00f4modo diante da forma como a situa\u00e7\u00e3o foi conduzida \u00e9 expressado por Bia desde o primeiro minuto. Seu desconforto parte da vontade de n\u00e3o se tornar uma v\u00edtima: ao responder&nbsp; seu assediador, ela tomaria controle da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o, algo que lhe foi tirado pela atitude de Bruno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicialmente, o filme parece seguir&nbsp; uma linha de racioc\u00ednio s\u00f3bria. No entanto, esta \u00e9 rompida quando os supostos figurantes presentes no restaurante passam a intervir na discuss\u00e3o, alcan\u00e7ando um novo patamar quando uma mulher pr\u00f3xima \u00e0 dupla se levanta para dizer \u00e0 Bia que acha sua rea\u00e7\u00e3o exagerada. Pouco a pouco, outros figurantes tamb\u00e9m se erguem e se d\u00e3o o direito de comentar a situa\u00e7\u00e3o, todos se posicionando a favor de Bruno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o coment\u00e1rio mais marcante vindo dos figurantes, \u201cN\u00e3o t\u00e1 rom\u00e2ntico\u201d, reflete justamente a expectativa social sobre como a situa\u00e7\u00e3o deveria ter se desenrolado. A atitude de Bruno n\u00e3o \u00e9 lida como interven\u00e7\u00e3o indesejada, mas sim como gesto her\u00f3ico e ato de prote\u00e7\u00e3o idealizado. Nessa norma, seria esperado que o homem tomasse a frente e resolvesse a situa\u00e7\u00e3o, for\u00e7ando a mulher a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o passiva. A rea\u00e7\u00e3o de Bia, portanto, rompe com essa expectativa ao afirmar sua autonomia, o que gera inc\u00f4modo no p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da indigna\u00e7\u00e3o coletiva, o filme d\u00e1 mais uma guinada com a quebra humor\u00edstica da quarta parede: os pr\u00f3prios figurantes, agora completamente inseridos no debate, declaram estar cansados da postura de Bia e a convidam a deixar o filme.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em determinados momentos, o humor desenvolvido a partir do absurdo poderia ser for\u00e7ado \u2014 n\u00e3o fosse essa justamente sua proposta. Poderia se dizer que algo do tipo nunca aconteceria na vida real \u2014 n\u00e3o fosse essa a realidade invis\u00edvel para tantas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dire\u00e7\u00e3o se utiliza do exagero para denunciar a sistem\u00e1tica social de favorecer o lado masculino e marginalizar o feminino, tratando v\u00edtimas de situa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio, por exemplo, como hist\u00e9ricas, ao passo que enaltece homens por fazerem o m\u00ednimo. Esse comportamento se torna evidente diante da mobiliza\u00e7\u00e3o gerada ao final: ap\u00f3s Bruno afirmar que deixaria o filme caso Bia fosse for\u00e7ada a sair, todos os figurantes se solidarizam com a atitude altru\u00edsta e se disp\u00f5e a acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De forma menos direta, a cr\u00edtica do filme tamb\u00e9m funciona para a tend\u00eancia apresentada na atualidade de tornar assuntos pessoais em mat\u00e9ria de repercuss\u00e3o p\u00fablica. Em tempos em que a privacidade se esvai cada vez mais e o fluxo de informa\u00e7\u00e3o (ou desinforma\u00e7\u00e3o) atravessa todos os indiv\u00edduos, quest\u00f5es s\u00e9rias como o ass\u00e9dio n\u00e3o est\u00e3o imunes, sendo for\u00e7adas sob um microsc\u00f3pio para que todos possam ver e opinar sobre. Tal pr\u00e1tica n\u00e3o s\u00f3 implica em uma perda da vida \u00edntima, mas tamb\u00e9m pode ser extremamente prejudicial e desrespeitosa no contexto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, como se o filme n\u00e3o houvesse sofrido reviravoltas absurdas o suficiente, tem in\u00edcio um n\u00famero musical com direito \u00e0 banda e coreografia. Enquanto caminham pelas ruas do Rio de Janeiro, a multid\u00e3o alegre canta e joga Bruno no ar, exaltando-o at\u00e9 o amanhecer. A personagem de Bia, por sua vez, n\u00e3o \u00e9 mais vista a partir do momento em que os figurantes passam a se mobilizar a favor do jovem, sofrendo um apagamento definitivo que reflete o mesmo processo sofrido por tantas mulheres, que t\u00eam as suas dores deixadas de lado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cRheum\u201d, traduzido para portugu\u00eas como reuma; catarro; secre\u00e7\u00e3o mucosa proveniente dos olhos ou do nariz, tamb\u00e9m se mostrou um destaque da edi\u00e7\u00e3o. O curta animado de Rayana Fran\u00e7a trata de Remela, um menino cujo nome justifica o t\u00edtulo do filme, e sua jornada sensorial pelo mundo dos sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa, apesar de intrigar com elementos de suspense, n\u00e3o \u00e9 o que torna o filme&nbsp; especial,&nbsp; mas sim o estilo de anima\u00e7\u00e3o em areia e a trilha sonora original que, quando combinadas, proporcionam uma experi\u00eancia sinest\u00e9sica ao p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A anima\u00e7\u00e3o, produzida inteiramente na cor preta, gerando um efeito similar \u00e0 de sombra, une elementos e refer\u00eancias vindas do pr\u00f3prio teatro de sombras. A escolha tamb\u00e9m lembra pinturas rupestres e mesmo a t\u00e9cnica nordestina da literatura em cordel, pelo&nbsp; estilo simples e cru. Tal est\u00e9tica, unida \u00e0 trilha sonora composta pela m\u00fasica e por ru\u00eddos de animais, contribui para a constru\u00e7\u00e3o do suspense no pesadelo em que Remela se encontra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dois minutos de dura\u00e7\u00e3o evitam&nbsp; rebuscamentos desnecess\u00e1rios. A anima\u00e7\u00e3o bruta e a extens\u00e3o concisa constroem um universo extremamente efetivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cJat\u00e3o, buz\u00e3o, caixote, ba\u00fa e caquinho\u201d. S\u00e3o muitos os apelidos dados ao mesmo \u00f4nibus que faz o trajeto Lima Duarte, Laranjeira, S\u00e3o Jos\u00e9 dos Lopes e Ibitipoca, na Zona da Mata, em Minas Gerais. S\u00e3o tais apelidos que tamb\u00e9m d\u00e3o nome ao inusitado curta-metragem documental, vencedor do pr\u00eamio de melhor roteiro da terceira edi\u00e7\u00e3o do festival, dos alunos do curso \u201cDesvendando a Serra Grande\u201d, projeto que se prop\u00f4s a introduzir a produ\u00e7\u00e3o audiovisual aos moradores da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Provando novamente como uma c\u00e2mera pode atuar como recurso valioso para a democratiza\u00e7\u00e3o cultural, ao promover&nbsp; o compartilhamento de diferentes realidades, os autores tomaram como mat\u00e9ria-prima a rela\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios de um \u00f4nibus com o pr\u00f3prio meio de transporte. O destaque \u00e9 a forma como as entrevistas foram conduzidas: por um grupo de meninos pr\u00e9-adolescentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em muitos aspectos similar \u00e0 \u201cDesconstruindo Lene\u201d, ao passo que ambas as obras incorporam erros de grava\u00e7\u00e3o e inserem os pr\u00f3prios autores no filme, \u201cJat\u00e3o, buz\u00e3o, caixote, ba\u00fa e caquinho\u201d \u00e9 beneficiado pelo carisma infantil dos entrevistadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contando com perguntas como \u201cVoc\u00ea acha que o \u00f4nibus \u00e9 bom ou ruim?\u201d, o document\u00e1rio foge de seu suposto objetivo principal e se torna um retrato mais interessante ao investigar os&nbsp; pr\u00f3prios meninos. Enquanto fazem gra\u00e7a no \u00f4nibus e exploram os equipamentos de grava\u00e7\u00e3o, o espectador \u00e9 conduzido por uma din\u00e2mica ca\u00f3tica e espont\u00e2nea que revela a vivacidade do olhar infantil sobre o mundo ao seu redor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trilha sonora \u00e9 outro elemento que n\u00e3o poderia ser deixado de lado \u2014 um dos grandes pontos altos do curta-metragem. Composta a partir de falas dos meninos durante as entrevistas, a batida de funk criada a partir desses trechos permite o desenvolvimento de uma montagem ritmada, que intensifica o dinamismo da narrativa e transforma o cotidiano aparentemente banal em algo pulsante e cheio de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m de abordagem documental, mas com um tom especialmente sens\u00edvel ao se basear no que parece ser uma experi\u00eancia pessoal, \u201cViagem No Tempo\u201d, curta-metragem de Pedro Bournokian, emociona pela delicadeza com que transforma o m\u00ednimo em algo profundamente significativo. A simplicidade do filme \u2014 que consiste apenas da jun\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo antigo de baixa qualidade com uma mensagem de voz \u2014 oculta uma carga dram\u00e1tica imensa, que atinge o espectador quando este menos est\u00e1 esperando. O curta foi vencedor dos pr\u00eamios Eduardo Coutinho de Melhor Curta-Metragem de Document\u00e1rio e Nelson Pereira dos Santos de Melhor Dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na mensagem de voz, Pedro entra em contato com um velho amigo de escola, revelando ter recuperado o \u00fanico registro que tem com o pai \u2014 um v\u00eddeo curto, de baixa qualidade, gravado anos atr\u00e1s, no dia em que os dois foram juntos a um est\u00e1dio assistir a um jogo do Palmeiras. \u00c9 uma mem\u00f3ria rara, j\u00e1 que o pai esteve ausente durante quase toda a sua vida. Devido \u00e0 sua curta dura\u00e7\u00e3o, ao longo dos sete minutos de filme, o v\u00eddeo \u00e9 repetido v\u00e1rias e v\u00e1rias vezes. No entanto, imagens que poderiam n\u00e3o apresentar significado algum sozinhas s\u00e3o ressignificadas pela presen\u00e7a de uma narra\u00e7\u00e3o pessoal de Pedro, transformando essas imagens em s\u00edmbolo da conex\u00e3o paterna perdida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao relembrar esse dia no est\u00e1dio, Pedro mergulha profundamente em suas mem\u00f3rias. Futebol, ele conta, era o \u00fanico ponto de contato entre os dois e naquele dia espec\u00edfico, o jogo virou no final, em uma sequ\u00eancia improv\u00e1vel de gols. Pedro lembra de ter visto o pai chorar, em uma mistura de afeto e choque, o choque de uma crian\u00e7a que v\u00ea pela primeira vez os pais, sempre inabal\u00e1veis, demonstrarem vulnerabilidade e fraqueza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O relato abre uma porta para a alma do protagonista. Imerso em recorda\u00e7\u00f5es, a voz de Pedro revela uma nostalgia que se perde assim que ele retorna ao presente. Seu pai se foi e aquele v\u00eddeo continua sendo o \u00fanico registro entre os dois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na inf\u00e2ncia, Pedro conta que os outros zombavam do fato de ele n\u00e3o ter pai, mas aquele v\u00eddeo era sua prova. Ele insiste nesse ponto como quem quer convencer o outro, mas que na verdade est\u00e1 tentando convencer a si mesmo. Quando diz que tem sim um pai, sua voz parece voltar \u00e0 inf\u00e2ncia. \u00c9 uma vit\u00f3ria triste, carregada por uma antiga insist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme termina exibindo, agora sem a mensagem de voz, o v\u00eddeo completo gravado no est\u00e1dio. Apesar do sil\u00eancio, o espectador \u00e9 irreversivelmente transformado pelo que foi escutado antes, atribuindo \u00e0 imagem um impacto devastador. \u201cViagem no Tempo\u201d inspira por sua coragem e, mesmo com sua simplicidade t\u00e9cnica, alcan\u00e7a o que muitos n\u00e3o conseguem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vencedor do pr\u00eamio Suzana Amaral de Melhor Curta-Metragem de Fic\u00e7\u00e3o, \u201cKM 100\u201d, de Lucas Ribeiro, se inicia com a imagem de um menino com uma filmadora em m\u00e3os. \u201cM\u00e3e, \u00e9 pro futuro\u201d, \u00e9 o que diz enquanto pede \u00e0 m\u00e3e que lhe conte a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia. Anos mais tarde, esse mesmo menino, Miguel, agora adulto, mant\u00e9m viva a curiosidade sobre suas origens. Motivado pelo desejo de compreender quem \u00e9, ele parte em uma jornada de autoconhecimento em busca de Dorival, um parente distante sobre quem sua m\u00e3e falava quando ele ainda era crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo quando inicia seu caminho pela estrada, Miguel pede dire\u00e7\u00f5es a um senhor desconhecido at\u00e9 a casa de Dorival. \u201cSempre reto\u201d \u00e9 o que ele responde. Sempre reto, at\u00e9 o km 100. Indo muito al\u00e9m de seu sentido geogr\u00e1fico, a breve troca de sabedoria do senhor faz um press\u00e1gio ao futuro recente de Miguel. A frase funciona como met\u00e1fora para a continuidade na estrada em busca da pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, ap\u00f3s finalmente chegar ao seu destino, Miguel \u00e9 abalado pela not\u00edcia da morte de Dorival e, consequentemente, a perda do \u00fanico elo que restava para descobrir sobre suas origens. Nesse momento, a frase dita anteriormente pelo senhor ressurge como forma de conforto: apesar das incertezas e dos poss\u00edveis desvios, o caminho rumo ao autoconhecimento exige determina\u00e7\u00e3o e persist\u00eancia. \u201cSempre reto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cuidado da dire\u00e7\u00e3o se evidencia tamb\u00e9m na maneira como representa a perda de Dorival: ela se manifesta como um ponto de virada na jornada de Miguel. Mesmo sem o reencontro com o parente distante, ele \u00e9 capaz de encontrar respostas dentro de si. \u00c9 no di\u00e1logo com a mulher que agora ocupa a casa de Dorival que Miguel percebe que sua identidade n\u00e3o depende de la\u00e7os sangu\u00edneos, mas tamb\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es e afetos que o moldaram ao longo da vida, se identificando com cada um dos rostos que encontra ao longo da jornada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa reviravolta interna \u00e9 traduzida visualmente por uma s\u00e9rie de planos que mostram personagens sorrindo para a c\u00e2mera, como se reconhecessem a beleza e poder contidos nas pequenas conex\u00f5es humanas que definem nossas identidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fazendo uso de cores vibrantes e enquadramentos que se aproveitam da ilumina\u00e7\u00e3o natural, o filme se preocupa em construir uma forte poesia visual. Planos como o de Miguel caminhando entre roupas no varal, sua sombra sendo vista atrav\u00e9s de uma cortina ou seu rosto sendo refletido no retrovisor de um carro revelam uma preocupa\u00e7\u00e3o em traduzir, atrav\u00e9s da linguagem t\u00e9cnica, toda a sensibilidade da narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00faltimo filme exibido na sess\u00e3o, \u201cUma Colagem Sobre N\u00f3s\u201d, de Molina, re\u00fane quatro indiv\u00edduos trans de diferentes gera\u00e7\u00f5es em uma oficina de artesanato com uma proposta simples: discutir seus complexos relacionamentos, com amor e identidade, enquanto buscam represent\u00e1-los visualmente&nbsp; em colagens. A forma como o curta-metragem \u00e9 conduzido, por\u00e9m, em muitos momentos funciona menos como um filme em si, e mais como um registro audiovisual que permite que o espectador se torne observador de um debate que diz respeito \u00e0 outra realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O espectador n\u00e3o se sente propriamente envolto na conversa. Isso ao que a c\u00e2mera \u00e9 sempre posicionada em \u00e2ngulos que mant\u00e9m o espectador no lugar de observador, criando uma dist\u00e2ncia entre ele e a narrativa sendo constru\u00edda, consequentemente impedindo-o de se conectar em um n\u00edvel mais profundo com os indiv\u00edduos que corajosamente se disp\u00f5em a compartilhar suas hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo do debate, os participantes discutem como percebem o amor e as dificuldades em aceitar que ele pode, de fato, ser para todos. A compreens\u00e3o sobre o que o conceito representa varia entre eles, indo al\u00e9m da ideia tradicional do amor como sentimento rom\u00e2ntico. Para os presentes, acima de tudo, amor \u00e9 ser compreendido em vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ponto mais marcante da conversa, por\u00e9m, \u00e9 com certeza o momento em que se discute o renascimento constante como um fator vital na identidade trans. Presente em uma das colagens, uma flor que sofre muta\u00e7\u00f5es ao longo de toda sua vida \u00e9 considerada representativa dessa rela\u00e7\u00e3o, estando eternamente a florescer, submetida a mudan\u00e7as constantes. Sobre a quest\u00e3o, um dos presentes diz: \u201c\u00c9 isso que a gente faz. A gente pega o que \u00e9 reconhecido e muda\u201d \u2014 afinal, a apropria\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias \u00e9 um dos pilares para a constru\u00e7\u00e3o da identidade de todo indiv\u00edduo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tendo em mente tal conceito, o t\u00edtulo do curta-metragem faz refer\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 oficina em que os indiv\u00edduos se encontram, uma vez que a identidade trans pode ser compreendida como uma colagem em si pelo constante redescobrimento e transforma\u00e7\u00e3o a que est\u00e1 sujeita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em determinado momento da discuss\u00e3o, uma quest\u00e3o \u00e9 levantada: \u201cQuantas hist\u00f3rias voc\u00ea descobre em voc\u00ea?\u201d. O resultado final das colagens, compostas a partir de desenhos, recortes e pinturas abstratas parece dar a resposta \u2014 ter uma identidade fixa \u00e9 se impor limita\u00e7\u00f5es e grande parte de estar vivo \u00e9 estar aberto \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es proporcionadas pelas experi\u00eancias que nos cruzam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com um olhar sens\u00edvel e atento \u00e0 pluralidade de vozes que comp\u00f5em o audiovisual contempor\u00e2neo brasileiro, a curadoria da terceira edi\u00e7\u00e3o do festival FUCINE reuniu obras que, partindo de propostas e linguagens diversas, dialogam entre si pela tem\u00e1tica comum da identidade, seja essa voltada ao autoconhecimento ou a compreens\u00e3o das viv\u00eancias do outro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao colocar em foco m\u00faltiplas formas de perceber a realidade, o festival reafirma a import\u00e2ncia da arte como espa\u00e7o de resist\u00eancia e afirma\u00e7\u00e3o, onde cada hist\u00f3ria contribui para o desenvolvimento de uma narrativa mais rica e humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Beatriz Panico \u00e9 uma estudante de cinema, atualmente no terceiro semestre do curso da Funda\u00e7\u00e3o Armando \u00c1lvares Penteado. Apaixonada por literatura e escrita desde cedo, logo desenvolveu um interesse especial por \u00e1reas mais te\u00f3ricas do meio cinematogr\u00e1fico. Apesar de tamb\u00e9m apresentar interesse pela fotografia e dire\u00e7\u00e3o de arte, sua paix\u00e3o pelos estudos em hist\u00f3ria do cinema e cr\u00edtica ainda falam mais alto.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordena\u00e7\u00e3o e Idealiza\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Brito<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00e3o e Edi\u00e7\u00e3o: Bruno Dias<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik, Luca Scupino e Gabriela Saragosa<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edi\u00e7\u00e3o Adjunta e Assistente de Produ\u00e7\u00e3o: Davi Krasilchik e Caio Cavalcanti<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Beatriz Panico Em sua terceira edi\u00e7\u00e3o, o Festival Universit\u00e1rio de Cinema FUCINE reafirma seu compromisso em valorizar o audiovisual como ferramenta de express\u00e3o, unindo obras de diferentes estados do Brasil. 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