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As Garotas Estão Bem (2023, Itsaso Arana) | 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

As Garotas Estão Bem (2023, Itsaso Arana) | 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Por Fernando Oikawa Garcia

Nos créditos iniciais de As Garotas Estão Bem (2023), escritos à mão numa animação stop-motion de papéis, a diretora e atriz basca Itsaso Arana define seu filme como um "cine-ensaio". O uso corriqueiro do termo talvez esconda a polissemia. “Ensaio”, aqui, pode remeter ao gênero textual criado por Montaigne no século XIX, que se expandiu para as mais diversas linguagens artísticas. Capaz de versar sobre qualquer tema, o ensaio é um gênero, antes de tudo, marcado pela liberdade da forma, aberto a experimentações e a incorporação de discursos mais pessoais, para além das limitações impostas pelo rigor argumentativo. E, nessa atribuição do termo, este é um filme ensaístico: ao longo dele, as personagens discorrem sobre visões pessoais de mundo, por meio das conversas que nascem de uma residência artística — nesta ficção espanhola, acompanhamos quatro atrizes e uma dramaturga nos ensaios de uma peça. Eis aí o outro sentido de "ensaio" para o filme.

 

É nesse jogo duplo entre o ensaio-discurso e ensaio-prática que se inscreve o adorável longa-metragem de estreia de Arana. Ao longo de alguns dias ensolarados de verão, suas personagens-atrizes vão ensaiar uma peça que relê um típico conto de fadas, reclusas em uma casa num vilarejo rural da Espanha. A obra concentra toda sua (não-)ação no espaço interno e externo da propriedade, onde as mulheres passam seus textos e aprofundam as relações entre si. Diferentemente do habitual em filmes de bastidores, não há qualquer conflito entre o grupo (ou mesmo no filme), tampouco o título guarda qualquer sentido de ironia. As garotas de fato estão bem. Por mais que cada atriz revele uma insegurança pessoal, um luto a ser purgado, nada disso representa propriamente um mal-estar, e sim partes intrínsecas do viver. 

 

No próprio fato de as atrizes interpretarem personagens com seus próprios nomes, vê-se um entrelaçamento entre a construção ficcional e a realidade. Como os créditos indicam, As Garotas Estão Bem nasce como obra coletiva, inspirada por memórias e vivências das integrantes do projeto. A residência artística para o ensaio da peça, portanto, confunde-se com uma imersão para a realização do próprio filme — a prática teatral é um arcabouço que a ficção cria para motivar a troca real, num jogo de cena que o próprio filme revela. As personagens sabem que estão num filme, como se vê na passagem tocante em que uma das atrizes faz uma ligação imaginária para sua falecida mãe. Conta-lhe que está gravando um filme, nomeado com a expressão que ela tanto costumava dizer: "As meninas estão bem". 

Tal metalinguagem (encarar a câmera, explicitar o status ficcional etc.) poderia soar como gimmick se não houvesse um sentido de verdade ao longo de todo o filme. O experimento de linguagem não se fecha em si mesmo, hermético e contente em sua própria inventividade estilística. Antes de tudo, este é um exemplar de uma vasta linhagem do cinema conversacional, profundamente conectada com a vida, lembrando Rohmer — talvez pelo francês ter feito tantos filmes de verão — ou, mais contemporaneamente, a obra de Jonás Trueba — produtor executivo da obra e diretor de vários filmes estrelados por Arana. Não se dependem de conflitos ou crescentes dramáticas: aqui o filme é do cotidiano, em que a diretora dá igual espaço para conversas prosaicas e profundas, banais e filosóficas.

 

Ao sobrepor o diálogo realista aos procedimentos autorreferenciais, As Garotas Estão Bem cncontra um equilíbrio notável dentro da experimentação. A vida corre em tela, mas a performance teatral o tempo todo intervém, e gravuras alusivas ao universo dos livros infantis marcam novos capítulos deste conto de fadas relido. Não se distinguem os ensaios do cotidiano, porque o intercâmbio é inevitável, a ponto que vão se trazendo para a peça — sempre aberta ao novo — outras figuras que as atrizes encontram pelo caminho e pelo cotidiano: uma criança pede um papel e ganha, modulando a peça; a paquera de uma festa no vilarejo pode súbito se tornar um príncipe, ou um sapo, ou um ator.

 

O resultado é uma mise-en-scène muito livre, permeável entre os diversos registros, e fundada num paradoxo sensível: seguindo a matriz realista que sustenta a obra, o cinema aqui se mostra uma espécie de janela transparente que captura e reflete o mundo, mas o que está no centro desse mundo é justamente um ensaio, consciente de sua própria condição ficcional. Cinema, teatro e vida surgem então indissociáveis, numa teia festiva que consegue um feito não tão comum quanto deveria ser: exibir, verdadeiramente, uma celebração das miudezas da vida, em que sempre parece ter lugar para mais um.

 

Biografia: 

Fernando Oikawa Garcia é graduando em Cinema na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), onde realizou projeto de pesquisa sobre o cineasta Fernando E. Solanas. É diretor e roteirista de três curta-metragens, buscando refletir nas produções seu interesse pelas possibilidades de diálogo entre cinema e literatura.

 

A cobertura do 47º Mostra Internacional de Cinema São Paulo faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Agradecemos a toda a equipe da Assessoria da Mostra por todo o apoio na cobertura do evento.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima