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A Estação (2024) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

(Divulgação)

 A Estação (2024) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Por Davi Krasilchik 

 

Sobre os trilhos de uma vasta ferrovia, uma senhora, Sofia (Jimena Castiglioni) procura o seu destino. Ela carrega uma mala e outros poucos pertences, surgindo do fundo de um estiloso plano em preto e branco. Demoram alguns segundos para que seja possível ver a desilusão estampada em seu rosto.

 

É assim que inicia A Estação (2024), longa dirigido pela cineasta e artista plástica Cristina Maure e que investe em um estiloso visual em preto e branco para construir uma narrativa subjetiva. Ao chegar no espaço do título, a protagonista se depara com um curioso grupo de passageiros. Eles admitem estarem lá há anos, hospedados em uma casa vizinha enquanto esperam por um trem que os tire dali. Tem-se a premissa de um suspense carregado de artifícios, e que se baseia na própria plasticidade para manipular o espectador e os personagens.

 

Vazios em sua primeira impressão, é interessante observar como os últimos planos, por exemplo, operam por regras muito rígidas de mise-en-scène. A forma como andam motiva os movimentos de câmera, sua dispersão entre as camadas da imagem tensiona os conflitos entre eles, e seu comportamento em geral parece ser submisso ao texto. Existe uma falta de naturalidade intencional, restando à Sofia ceder ou não ao tal jogo.

 

Essa mesma lógica de encenação modula o trabalho de iluminação, incorporando luzes externas que, além de necessárias para a clareza das sequências noturnas, perseguem o grupo. A própria protagonista se pergunta se não há ali uma espécie de assombração, questionando a origem de feixes duros que adicionam à atmosfera expressionista com alto-contraste e bom uso de silhuetas. 

 

É como se o filme reconhecesse, nesse conjunto de figuras desiludidas, esvaziadas como as caricaturas que são, a sua própria natureza artística. Surge daí o desespero dos que não conseguem entender o motivo de seu aprisionamento. Eles anseiam pela chegada de um trem, promessa que acaba sendo sempre adiada, conjurando a locomotiva como símbolo falho de uma superstição que pode ou não funcionar.

 

Por melhor  produzida que seja a fantasia, essa simplificação das personagens perde algum interesse por parte de quem as acompanha. O mesmo pode ser dito da proposta repetitiva do roteiro, que, investido nessa paralisia angustiante, falha em sua intenção de mapear a sua progressão. A premissa se esgota com facilidade, por vezes resumida ao preciosismo técnico.

 

Apesar disso, é curioso observar essa dualidade entre a superficialidade visual e a tentativa de Sofia de escapar desse território simbólico. Por mais que ainda falte algum amadurecimento na abordagem, essa tentativa de significação das imagens é o coração de A Estação, mostrando a dissonância entre as criações do imaginário e nossa compreensão sobre elas.

 

 

Biografia:

Davi Galantier Krasilchik é estudante de Cinema e Jornalismo na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), onde já roteirizou e dirigiu dois curtas-metragens. Ele também já fotografou dois projetos curriculares, além de produções por fora, e escreve críticas e reportagens para meios como a revista universitária Vertovina e o site Nosso Cinema. A sua paixão pela Sétima Arte se manifesta desde a infância, e atualmente ele trabalha na Filmoteca da TV Cultura, onde ajuda a preservar esse material pelo qual tem tanta paixão.

 

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A cobertura do 27º Mostra de Cinema de Tiradentes faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Agradecemos a toda a equipe Universo produção e a ATTI Comunicação e Ideias por todo o apoio na cobertura do evento.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima