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YVY PYTE - Coração da Terra (2024) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

(Divulgação)
 

YVY PYTE - Coração da Terra (2024) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Por Davi Krasilchik 

 

As  complexidades da formação histórica do Brasil são muito duras, justificando que algumas sejam exploradas de maneira mais objetiva, no campo do cinema. É o caso de YVY PYTE - Coração da Terra (2024), documentário indígena que segue por diversos territórios físicos com um olhar decolonial. Em meio à capacidade de fabulação das imagens, é interessante se deparar com abordagens mais diretas de representação do real.

 

Dirigido por Alberto Alvares, cineasta Guarani Nhandewa formado em cinema pela UFF, e José Cury, coordenador de diversos trabalhos de fotografia e montagem nas comunidades Ye’kwana, Yanomami, Pataxó, Xakriabá e Guarani, o filme nasce da necessidade de Alvares de retornar às próprias raízes e desconstruir, no processo, uma série de fronteiras geográficas impostas por injustiças históricas.

 

Ainda que busque o território simbólico de “YVY PYTE” - termo usado pelos guarani como “coração da terra” -, chama atenção como o filme focaliza as lideranças, familiares e demais personagens da trajetória de Alberto - conhecido como “Tupã Ra’y -, sendo essas porta vozes de um legado deixado pelas rotas ali percorridas. Ainda que os depoimentos retornem às crenças e explorem signos culturais, a câmera mantém uma intimidade com seus falantes, reforçando a importância da tradição oral em primeiro lugar.

 

Tudo é embasado por essas entrevistas, que alternam entre planos longos e fechados, próximos de uma cultura narrada em outra língua, e entre imagens aéreas e demais retratos aos quais as vozes se sobrepõem. É como se a obra demarcasse um campo inicial, mais lógico, centrado em rostos e palavras, para então inserir uma especulação mitológica dentro desse espaço demarcado.

 

O registro de rituais típicos  - e que no filme tendem a remeter à participação das crianças, reforçando a pureza de alguns olhares e a importância de uma continuidade geracional - se junta aos anseios e pregações compartilhados nos relatos. São imagens imbuídas de uma forte carga subjetiva, subordinadas ao mapeamento dessas falas.

 

Paralelo a isso, temos também o trajeto literal da equipe pelas terras colonizadas, explorando as texturas deixadas pela desapropriação. A dupla de diretores maneja a câmera como instrumento de retomada, reivindicando essas rotas para os originários das regiões retratadas. Chama atenção como as diferentes tecnologias de captação conferem pluralidade à forma como essas imagens são modeladas. 

 

É como se a diferença entre o drone e a câmera digital criasse um efeito de conjuração desse espaço, concebido pela filiação a essas memórias compartilhadas. E essa ideia de criação conjunta entre memória, palavra e espectador entra em constante choque com aqueles elementos concretos de uma disrupção histórica, como as cruzes que se espalham pelo chão.

 

Desse modo, YVY PYTE - Coração da Terra encontra a sua própria maneira de explorar as possibilidades de fabulação de uma cultura, sem nunca se esquecer da realidade crua que exige essa resistência em primeiro lugar.

 

 

Biografia:

Davi Galantier Krasilchik é estudante de Cinema e Jornalismo na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), onde já roteirizou e dirigiu dois curtas-metragens. Ele também já fotografou dois projetos curriculares, além de produções por fora, e escreve críticas e reportagens para meios como a revista universitária Vertovina e o site Nosso Cinema. A sua paixão pela Sétima Arte se manifesta desde a infância, e atualmente ele trabalha na Filmoteca da TV Cultura, onde ajuda a preservar esse material pelo qual tem tanta paixão.

 

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A cobertura do 27º Mostra de Cinema de Tiradentes faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Agradecemos a toda a equipe Universo produção e a ATTI Comunicação e Ideias por todo o apoio na cobertura do evento.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima