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Seu Cavalcanti (2024) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

(Divulgação)

Seu Cavalcanti (2024) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Por Davi Krasilchik

 

Filmar aqueles que amamos é uma das melhores maneiras de preservá-los, um gesto que se completa na própria realização. O mero ímpeto de imortalizar alguém em imagem diz muito sobre a conexão com tal pessoa, ainda que esse retrato seja apenas um reflexo da realidade. Seu Cavalcanti (2024) trilha muito bem por esta ambivalência das imagens, se manifestando como carta de amor ao personagem-título.

 

Dirigido por Leonardo Lacca, o filme acompanha um recorte de mais de dez anos na vida do senhor Severino Cavalcanti. O documentário é guiado pelo afeto entre um neto e o seu avô, tentando mapear essa figura paternal e compreender o porquê de insistir com as filmagens.

Nesse sentido, chama atenção como a obra reconhece, ainda que não de forma explícita, a sua incapacidade de constituir um registro totalmente cristalino dos fatos. O filme se manifesta, deste modo, pela lógica dos afetos, não assume uma cronologia totalmente linear e se permite flertar com o dispositivo de encontro entre a realidade e a ficção.

Em tela, entretanto, é maior a força de uma construção conceitual  — por mais que seja um projeto inevitavelmente pessoal —, que busca ecoar na identificação dos espectadores com a obra e no ato da fabulação em si. A naturalidade com a qual Seu Cavalcanti adentra o experimento de Leonardo, convicto das imagens ali capturadas, se torna um dos motivos dessa imersão por parte do público.

Por outro lado, chama atenção como esses recortes não ambicionam uma resolução cristalina de quem estudam. Os tiques, manias e frases comuns de Seu Cavalcanti conferem uma forte veia humorística ao projeto, pincelando traços de uma personalidade memorável. Sobra espaço para que o espectador complemente essa figura, corroborando com o próprio exercício da direção que investiga o avô.

É nesse sentido que surgem participações como as de Maeve Jenkins, interpretando uma imaginada namorada de Seu Cavalcanti. Leonardo ironiza seu ente querido, se sobressaindo a esses ruídos, por si só muito curiosos, pela lógica da carta de amor.

Desse modo, Seu Cavalcanti esconde uma narrativa de fascinação pela imagem — as indagações do diretor sobre a incapacidade de parar de filmar o personagem-título são bastante comoventes — em uma carta de amor de neto para avô. Ainda que algumas presenças se desfaçam, resta a certeza de que a memória perdurará para sempre.

 

 

Biografia:

Davi Galantier Krasilchik é estudante de Cinema e Jornalismo na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), onde já roteirizou e dirigiu dois curtas-metragens. Ele também já fotografou dois projetos curriculares, além de produções por fora, e escreve críticas e reportagens para meios como a revista universitária Vertovina e o site Nosso Cinema. A sua paixão pela Sétima Arte se manifesta desde a infância, e atualmente ele trabalha na Filmoteca da TV Cultura, onde ajuda a preservar esse material pelo qual tem tanta paixão.

 

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A cobertura do 27º Mostra de Cinema de Tiradentes faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Agradecemos a toda a equipe Universo produção e a ATTI Comunicação e Ideias por todo o apoio na cobertura do evento.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima