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Ferrari (2023): C Crepúsculo do Fracasso | Novos Olhares

Ferrari (2023): o crepúsculo do fracasso | Novos Olhares

Por Gabriel Moreno

 

A nova obra de Michael Mann, seu manifesto futurista, é uma ode aos delírios de grandeza de homens geniosos e complexos.

“Ok… Ok… Eu vou encarar o dia de hoje." - Enzo Ferrari 

 

 

 

Durante o verão de 1957, Enzo Ferrari (Adam Driver) gerencia crises em todas as frentes: a  falência que paira sobre seu negócio, o surgimento de dúvida em seu casamento instável, a reabertura de feridas antigas e promessas a serem cumpridas.

 

 

Ferrari, o filme e a figura em sua relação simbiótica entre indivíduo e símbolo – realidade e ficção, figura histórica e personagem fílmico –, incorpora o  dualismo. O filme é sobre a separação entre os fracos e fortes nesse sistema duplo de definições. Um homem guiado pelo ímpeto de projetar a máquina perfeita, um foguete sobre rodas, asas que o permitam escapar de si. Perseguido por suas fragilidades, se vê incerto sobre quem é, sobre quem deveria ser. Ele tenta materializar a possibilidade de um recomeço, mas acaba  encenando duetos com figuras fantasmagóricas de seu passado.

 

Michael Mann, idealizador, diretor e produtor do longa, vem de uma filmografia habituada a personagens masculinos complexos. Seus homens são violentos por natureza, seus microcosmos são turbulentos e seus conflitos, mal resolvidos, postergados até um limite que os obriga a encarar tudo de uma vez. Em Thief (1981), Heat (1995), Collateral (2004), Miami Vice (2006) e outros de seus filmes, é escancarada a atração por estes mergulhos, por estas investigações da psique de anti-heróis falhos; homens simplórios e obstinados, divididos entre o desejo, a obrigação e a moralidade.

 

Em sua busca incessante, Ícaro após Ícaro são abatidos – como no mito grego do jovem que voou próximo ao sol – , alimentando um sonho louco e irreal de um criador inconsolável: Ferrari, um Dédalo moderno – pai de Ícaro e aquele que concedeu as ferramentas de sua destruição, suas asas –, que arquiteta, planeja, solidifica fracasso a fracasso, acerto a acerto, um protótipo de sua prisão inefável.

 

Ferrari, enquanto personagem, é um homem à sua própria sombra. À exceção de quando está cercado daqueles que dependem de seu êxito, ele é um homem desmoralizado, descrente e desnorteado. Sua dor é compartilhada com o espectador e somente com ele. Somos a pressão, o olhar atento à possibilidade de fracasso: o medo que assombra o personagem-título.

 

Apesar de toda a sua mudez e timidez, sempre entendemos o que se passa na cabeça de Enzo Ferrari. Mann complementa seus silêncios e olhares – por vezes perdido, por vezes ambicioso  – com close ups que transmitem um plano mais íntimo da personagem e sua imagem, revirando o seu interior para nós. Não sabemos exatamente o que o protagonista pensa quando se esconde em sua fachada bem armada, de alta costura e de lentes espelhadas, mas sempre temos uma boa noção.

 

E não são somente seus silêncios que são valorizados pela câmera: Laura Ferrari, interpretada por Penélope Cruz, também é estimada nesses momentos. Através do semblante cansado, do abatimento, do humor e da engenhosidade, Penélope Cruz entrega uma performance genial – algo já comum à atriz – com o pouco que lhe é dado. De sua primeira aparição, que estabelece seu temperamento impetuoso ao quase balear o próprio marido, às cenas que a sucedem ainda no ato introdutório, é evidente o desgaste e sofrimento de uma mãe enlutada. Lidando com problemas de várias frentes, Cruz transita por complexas emoções.

A relação entre Enzo e Laura e, consequentemente, a entrega de Driver e Cruz, é cativante. Muito se diz no olhar, o dito – quando dizem algo e seus olhos confirmam ou denunciam o oposto – e o não dito – quando apenas a mudez entrega o necessário. A cumplicidade de ambos, mesclada ao desgaste e sofrimento que a relação causa, torna extasiante a experiência de vê-los juntos.

 

Ao fim, a catarse ansiada, a consagração da vitória, o ponto de virada na história, representado pelo dolly zoom – um movimento que simula vertigem, ampliando uma imagem fixa, determinado objeto, enquanto a câmera se afasta –, antecipa o caos. Momentos antes da implementação de uma desordem visceral, pareceu possível fugir da tragédia de Guidizzolo, que muitos sequer conheciam. Em 12 de abril de 1957, durante a 24ª Mille Miglia – evento automotivo realizado em vias públicas da Itália – um dos carros da Ferrari derrapou na pista quando se aproximava de Guidizzolo – um “município” na região da Lombardia - e foi arremessado no ar, matando o piloto, o copiloto e nove espectadores – dentre eles, cinco crianças. 

 

A esperança era de que a deformação da realidade não resultasse num enlace tão cru do real; talvez algo semelhante à disparidade entre história e cinema realizada, recentemente, em Era uma vez em Hollywood… (2019), de Quentin Tarantino, onde o assombrosso assassinato da atriz Sharon Tate é subvertido pela fabulação. Aqui não se espetaculariza, ainda que a produção esteja inserida em um jogo de atração do olhar e de envolvimento, tal como um espetáculo.

 

Entre carapuças, jogos de duplos e fugas usadas como motes narrativos, o filme reescreve o fatalismo futurista da atração por velocidade, pela leveza, inconstância e impermanência. Ele demonstra a casualidade visceral por trás da soberania da inventividade humana, da necessidade de se mostrar o centro da absolutez humana, como se à humanidade fosse incubida a engenharia divina da criação. Ferrari evidencia, assim, a disposição dos homens que desafiam a natureza, inconsequentes, ou indiferentes, ao preço a se pagar.

 

 

Biografia:

Gabriel Moreno é estudante de Jornalismo da FAAP, é estagiário da editoria de audiovisual da Folha de S.Paulo, a TV Folha. Apaixonado pela escrita, adora escrever sobre cinema e procura sempre extrair grandes reflexões dos filmes que assiste.