Por Felipe Palmieri
Marty Supreme é um filme dirigido por Josh Safdie que conta a história ficcional do mesa-tenista Marty Mauser — livremente inspirada por Marty Reisman, atleta verdadeiro que atuou por volta dos anos 1940. Ele busca popularizar o esporte nos Estados Unidos através de sua própria habilidade, chamar a atenção do público ao vencer competições internacionais e ganhar relevância ao se tornar o primeiro americano a fazê-lo.
O personagem é encarnado numa performance eletrizante de Timothée Chalamet, que carrega consigo uma força motriz muito evidente, em que o próprio ritmo e a energia do filme são determinados pela corporalidade da atuação, numa dinâmica conjunta com a montagem que mantém o filme sempre cativante. Tem-se nisso uma imprevisibilidade muito característica e também um certo frenesi que faz as duas horas e meia passarem num piscar de olhos.
As bases dessa narrativa babélica que se desenvolve estão no abandono. Para provar ao mundo que é capaz de realizar os seus sonhos apenas com o próprio esforço, o protagonista duvida constantemente de seus métodos e precisa deixar tudo para trás. O que emerge disso é um caso interessante: este é, evidentemente, um filme que se coloca como palco para o personagem retratado, mas faz isso de forma plenamente ativa. O palco montado não é estático, não é invisível — muito pelo contrário. Essa união cria um aspecto intangível em tela, um certo espírito, que faz com que as emoções e ideias sejam cristalinas, plenamente compreensíveis, naturais — algo que dá ao filme uma sensação atemporal, como um clássico instantâneo, que se evidência como casamento perfeito entre os seus elementos.
Essa vontade de se tornar um clássico é palpável — o filme quer atingir um patamar reservado aos grandes e, por si só, essa ambição não seria qualidade e nem defeito. Mas, uma vez pareada às motivações do próprio protagonista, transparece demais as suas intenções e fica aquém da desenvoltura dos seus melhores momentos. Isso resulta na seguinte contradição: quem é a figura central da ambição de Marty Supreme, a direção ou o protagonista?
A característica que mais escancara as intenções do cineasta é a gradação absurda do perigo das situações, que desloca o drama relativamente contido de Marty à níveis de espetáculo muito maiores — quase como um filme de ação. Por si só, grandes momentos encenados de forma complexa e explosiva não são negativos, nunca — quem disser o contrário, pouco apreço tem por cinema.
A questão é que Marty Supreme é, ainda, um filme sobre esporte e que se comporta dentro dessas convenções. O que acontece é que o engrandecimento das ameaças e desventuras sofridas pelo protagonista parece uma tentativa, pouco sutil, de esconder a previsibilidade da jornada com truques bem executados. O perigo raramente é de fato sentido, para além de um trecho ou outro em que o espetáculo é bom o suficiente para abolir outros pensamentos. Afinal, todos sabem que Marty precisará atuar como atleta novamente, seja como for, antes do final.
Tender à digressão é marca registrada dos irmãos Josh e Benny Safdie, que em trabalhos anteriores foi justamente o que os destacou dentre tantos outros realizadores. Aqui, no primeiro trabalho de direção de Josh sem o irmão Benny, há uma mudança no equilíbrio das coisas. As digressões de seus trabalhos anteriores eram mais eficientes por bagunçarem a estrutura do filme ao ponto de uma imprevisibilidade concreta, em que o destino é inteiramente confiado pelo espectador à tela. Mas o protagonista jamais deixaria de participar do grande torneio de tênis de mesa estabelecido, e quando o destino é inevitável, como é o caso aqui, as digressões mais se parecem com distrações.
Outra decisão a ser notada é a curadoria de “needle drops” do filme, isto é, as músicas pré-existentes utilizadas na trilha. As músicas escolhidas possuem algo quase pertencente ao universo dos memes, já que são aproveitadas para o exato propósito que se espera delas a partir de uma consciência coletiva. É um aspecto que reforça a artificialidade do filme, pois por vezes parece uma decisão mais algorítmica que criativa, principalmente por estar justaposta à marcante trilha sonora original de Daniel Lopatin, esta sim um grande acerto.
Apesar desses aspectos, de fato há grandeza quando o filme é honesto consigo. No terço final, o sentimento de harmonia entre as suas melhores características é retomado. Marty Supreme cresce justamente quanto mais se assume como o que é, sem ter medo da emoção sincera que surge do óbvio: das competições esportivas, dos laços familiares e do entendimento do mundo.
Nesse sentido, o filme termina em grande estilo ao executar magistralmente o clímax da carreira esportiva do protagonista e permitindo ao personagem de Chalamet um respiro. No momento derradeiro, surge uma reflexão: Marty encara aquilo que abandonou e se depara com a superficialidade de seu esforço monumental e de sua ambição, e nós o encaramos de volta. Talvez todos os questionamentos apresentados já estejam aí, de alguma forma.
Biografia: Felipe Palmieri é diretor, roteirista e montador. Natural de São Paulo, teve seu curta-metragem “Chevette” (2025) exibido em diversos festivais, com destaque para a 36ª edição do Kinoforum. Atua também como crítico de cinema para as revistas digitais Vertovina e Mnemocine, além de ser membro fundador da plataforma de exibição e coletivo audiovisual Cubo Gira.
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Coordenação e Idealização: Flávio Brito
Produção e Edição: Bruno Dias
Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino e Gabriela Saragosa
Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Caio Cavalcanti
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