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Clube da Luluzinha: menino não entra!

Será que interessa ao feminismo criar coletivos exclusivos de mulheres no cinema? Uma reflexão.

Coletivos de mulheres estão brotando em vários lugares concomitantemente como uma brisa boa que se alastra. Talvez isso seja efeito de políticas públicas voltadas para mulheres, e o despertar de uma vontade coletiva de empoderar mulheres no cinema (e também fora dele). Mulheres passam a contar suas histórias usando a linguagem cinematográfica, mulheres criam juntas.

Mas devo pontuar que um coletivo só de mulheres no audiovisual pode reproduzir a mesma estética a qual estamos acostumadas a ver: a do patriarcado. A heteronormatividade compulsória, os traços eurocêntricos que criam uma ideia de delicadeza (nisso que o patriarcado chama de "feminilidade"), uma métrica de magreza e de juventude bastante rígida. Não basta ser um coletivo só de mulheres, tem que garimpar um bocadinho na história do feminismo, questionar com mais atenção a construção social da beleza e a maneira como mulheres são representadas na tela.

Ainda vou mais longe: não precisa ser um coletivo só de mulheres pra fazer um filme feminista. Precisamos educar nossos pares para a equidade de gênero. Precisamos incorporar a rapaziada nessas discussões para que esses questionamentos, imprescindíveis para o cinema, se tornem orgânicos. Se não houver uma participação de homens, vamos ficar falando sozinhas... Temos que trocar essa ideia com eles também! Lutamos contra o machismo, não contra os machos.

Sem falar que é muito cômodo para nós mulheres nos eximirmos de qualquer responsabilidade sobre o machismo que reproduzimos. O que nos autoriza a levantar nossa banca feminista apesar de reproduzirmos machismo em alguns momentos é exatamente o fato de que reconhecemos nossas limitações e ambiguidades. Façam o coletivo de cinema com homens, mulheres, trans ou quem vocês estiverem a fim. Mas não deixem de refletir criticamente as relações de poder entre os gêneros, entre as sexualidades, e com o Estado. Mas se for pra tratar os coletivos "das minas" como um nicho catalisador de mercado por causa dos editais, você não entendeu patavinas!

  

* Marina Costin Fuser é doutoranda em Sussex, sob a supervisão de Rosalind Galt e Lizzie Thynne. Fez parte da fundação do Inanna, núcleo transdisciplinar de investigações de sexualidades, gêneros e diferenças da PUC-SP. Integrou o GenEq – Gender Equity Resource Center (Centro de Recursos sobre Equidades) em Berkeley e o NGender – núcleo de estudos de gênero de Sussex. Foi colaboradora do Reframe Activism – coletivo de doutorandos e acadêmicos militantes de Sussex, e fez um estágio em curadoria de cinema no Pacific Film Archive, em Berkeley. Bacharel e mestre em ciências sociais pela PUC-SP; lecionou em Sussex no campo de estudos culturais britânicos e voltou recentemente para o Brasil para concluir a tese